CAPÍTULO 1: REPRESENTAÇÃO, MANDATO E RESPONSABILIDADE
1.3 Controle do mandato e as formas de responsabilidade
1.3.4 Responsabilidade Penal
Diferentemente das responsabilidades administrativa e civil, a responsabilidade penal tem uma função punitiva (BELRHALI, 2017 p. 57).
Existe, portanto, uma complementaridade entre a responsabilidade que designa um culpado e a responsabilidade administrativa ou civil que designa uma pessoa responsável (BELRHALI, 2017 p. 57).
“Diferente desta responsabilidade de natureza política é, conquanto com ela imbricada a responsabilidade criminal dos titulares de cargos políticos quando estejam em causa os chamados crimes de responsabilidade” (MIRANDA, 2018 p. 53).
No entanto, de um ponto de vista processual, ao tratar de um agente político, surge a questão da competência do juiz penal e da relação entre a responsabilidade penal dos agentes e a responsabilidade administrativa das pessoas públicas (BELRHALI, 2017 p. 57).
No que concerne à abrangência da responsabilidade, nota-se outra diferença entre a responsabilidade política e a penal, uma vez que a primeira é geral e ampliada para todas as pessoas e serviços sob a autoridade do representante, como já visto anteriormente; e a penal é específica, na medida que se caracteriza uma falta em particular, e pessoal, se limitando ao próprio representante (BUGE, 2018 p. 219).
A responsabilidade penal diverge da política, ainda, na medida em que esta não é fundamentalmente outra coisa senão um processo de intenções, sejam ou não essas intenções traduzidas em ação; enquanto aquela apenas diz respeito a fatos que já ocorreram (BUGE, 2018 p. 219).
Nos ensinamentos de Buge (2018 p. 219), verifica-se que a responsabilidade penal é limitada pelo princípio da legalidade das infrações e penalidades, considerando o fato ocorrido, sem amarras do cargo. Assim, enquanto a responsabilidade política regula a atuação do representante no exercício do mandato, pela responsabilidade penal permite-se discutir a possibilidade de impor uma sanção àqueles que já não estão no cargo25 (BUGE, 2018 p. 219).
25 Vale ressaltar uma exceção à regra quanto à responsabilização política ao período de mandato, ocorrida no caso Collor, que marca o direito brasileiro sendo o primeiro impeachment do primeiro presidente civil eleito pelo voto direito depois da democratização, sob acusação de corrupção. No caso, o Senado, em decisão
Para alguns doutrinadores, se o que se busca é a mera adequação entre a orientação política dos governantes e a representação nacional, não faria sentido sancionar os governantes que não estão mais no cargo. Sob este argumento, buscam ampliar o escopo da responsabilidade penal para preservar sua natureza política e impedir que ex-prefeitos, por exemplo, sejam penalizados por atos que deveriam ter sido apreciados no exercício do mandato. (BUGE, 2018 p. 219).
Todavia, o objetivo que se busca com a responsabilidade penal não é o de mera adequação política, mas sim de assunção de responsabilidade pessoal por inobservância de um dever decorrente do cargo, cuja atuação tenha potencial danoso à sociedade, independentemente da conformidade com o mandato em si.
A penalização, enquanto atribuição de responsabilidade a políticos, foi mitigada ao longo dos anos, sob o argumento de que a responsabilidade política teria capacidade de englobar os atos que a responsabilidade penal se prestaria abranger (BUGE, 2018 p. 221). É o que se verifica nos ensinamentos do autor:
A responsabilidade política, entendida neste sentido estrito de responsabilidade, substituiu gradualmente as formas individuais e criminosas de responsabilidade dos membros do governo, por exemplo, através do impeachment ou traição. Essa evolução foi particularmente marcante no Reino Unido, depois na França, durante a Revolução Francesa e sob a Restauração. Passou pela institucionalização dos procedimentos de desconfiança e pela obrigação correlativa do governo de se demitir, e resultou em tornar a responsabilidade do governo no Parlamento o critério definidor do sistema parlamentar. (BUGE, 2018 p. 221).
Contrário à mitigação da penalização, Buge (2018 p. 221) manifesta seu entendimento sobre a inefetividade da responsabilidade política ao dizer que “recentemente, esta forma de responsabilidade parece ter desaparecido”, de modo que não poderia mais abranger os efeitos que seriam alcançados com a responsabilidade penal.
Igualmente, Guy Carcassonne (2003 apud BUGE, 2018 p. 221) sintetiza sua crítica ao dizer que "a responsabilidade [política] é conceitualmente admirável, democraticamente adaptada, coletiva e individualmente apenas, em suma, tem todas as qualidades. Sua única falha é que não funciona mais.”
O motivo da mitigação da responsabilidade penal, vislumbrada pelos autores contrários à sua aplicação, seguia a seguinte lógica: “a avaliação de políticas deve ser o único controle político dos representantes e não o julgamento do juiz.” (BUGE, 2018 p. 222).
confirmada pelo STF, cassou os direitos políticos do Collor após sua renúncia. Ver em: MOISÉS, José Álvaro. Cultura Política, Instituições e Democracia: Lições da experiência brasileira. Revista Brasileira de Ciências Sociais. 2008.
Aliados a este entendimento, os defensores da responsabilidade política sustentavam que os líderes políticos deveriam ser protegidos de todas as formas de assédio judicial para garantia de sua independência e tranquilidade (BUGE, 2018 p. 222).
Percebe-se, portanto, que a mitigação acima comentada serviu como base e fundamento para as imunidades dos agentes políticos quanto à responsabilidade penal, como consta no ordenamento jurídico atualmente, especialmente no tocante aos chefes do executivo, cada qual com suas particularidades. Como veremos no terceiro capítulo, os detentores de funções executivas municipais respondem perante o juiz, porém sob certas condições.
No entanto, cabe ressaltar as hipóteses para as quais o ordenamento brasileiro prevê a atribuição de responsabilidade penal aos chefes do executivo municipal, sendo elas sobre: crime funcional, crime especial, crime comum ou contravenção penal (MEIRELLES, 2008 pp. 796- 797). As particularidades de cada crime ou contravenção serão tratados posteriormente.
Cumpre, ainda, considerar que, para além do aspecto de punição pessoal, ao aproximar esta responsabilidade da esfera penal, surge um caráter que falta às demais formas de responsabilização, especialmente a política: a prevenção. Mais importante do que atribuir responsabilidade após a ocorrência de um dano, é evitar a ocorrência de outros prejuízos semelhantes pelo temor ao risco de punição pessoal (BECCARIA, 2003, p. 92).
Ao aproximar a esfera penal da política, com a ampliação do espectro dessa responsabilidade, é possível que a natureza política da representação seja considerada para as tomadas de decisão do agente político que desvie do mandato ou, ainda, que ignore um dever de cuidado ou de segurança sob a alegação de suposto interesse público em segundo plano, causando com isso um dano à sociedade.
O meio para tanto seria a possibilidade de se impor uma sanção àqueles que já não mais estão no cargo, mas cometeram o ato punível durante o exercício do mandato (BELRHALI, 2017 p. 219). Com isso, atos pelos quais deveriam ter sido politicamente responsáveis, e não o foram por uma imunidade ou proteção do mandato (BELRHALI, 2017 p. 219), ainda poderiam ser analisados para o devido sancionamento, evitando a impunidade.
Diante do exposto neste primeiro capítulo, infere-se que a responsabilidade política carece de carga punitiva, especialmente pela existência de mecanismos protetores de mandato, os quais se repetem nas esferas administrativa e civil. Ademais, a responsabilização imediata apresenta dificuldades de aplicação, pois essas sanções somente acontecem com o trânsito em julgado.
A pessoalidade nestas duas últimas formas de responsabilidade importa para a discussão, uma vez que assunção de responsabilidade pela pessoa jurídica (Estado) é mais recorrente atualmente, tendo em vista seu caráter objetivo. Para que o agente causador de dano – ao Estado ou a terceiros – seja viável é necessário realizar uma análise subjetiva de culpa e dolo, sendo que, a exemplo da responsabilidade administrativa por ato de improbidade, sequer existe modalidade culposa para a atuação que o presente estudo delimitou em sua Introdução.
A responsabilidade penal, por sua vez, embora possua alta carga punitiva pessoal, com aplicação para além do mandato, não apresenta caminhos para sua aplicação imediata atualmente, uma vez que os tipos penais previstos pelo ordenamento não englobam a situação que o presente estudo visa solucionar.
Deste modo, para encontrar uma possível solução para a problemática apresentada, deve-se proceder com a verificação prática desses meios de responsabilização. Para tanto, o estudo se dedicará à pesquisa na legislação estrangeira, mais especificamente à francesa (Capítulo 2), e posteriormente a legislação pátria (Capítulo 3).
Desse modo, pretende-se estabelecer um paralelo entre ambos os ordenamentos jurídicos para identificar a eficiência – ou não – de seus institutos responsabilizadores, abrindo o debate sobre a possibilidade ou necessidade da adoção ou implementação no Brasil da forma de responsabilização utilizada na França.