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Capítulo I Associativismo, Voluntariado e Responsabilidade Social: Abordagens Teóricas

1.1 Associativismo e Democracia

1.3.2 Responsabilidade Social

A discussão sobre responsabilidade social está frequentemente relacionada, na literatura sobre sociedade civil, ao conceito de terceiro setor. Não pretendemos neste trabalho trazer uma abordagem mais elaborada sobre as discussões teóricas sobre o conceito de terceiro setor, mas apenas contextualiza-lo brevemente14. O debate acadêmico em torno do conceito de terceiro setor bastante atual. O termo constitui-se como uma tradução do termo em inglês third sector (Albuquerque, 2006). O terceiro setor é então constituído por movimentos sociais, organizações não governamentais (ONGs) entidades comunitárias, filantrópicas, assistencialistas, entidades sem fins lucrativos, fundações e institutos com ou sem iniciativas empresariais dentre outros. Sendo

14 Para uma discussão mais aprofundada sobre terceiro setor ver Montaño (2007), Albuquerque (2006).

assim, é considerado o terceiro setor em referência ao primeiro setor – estado e ao segundo - mercado15. A utilização do conceito de terceiro setor foi amplamente criticada principalmente por se considerar que esta perspectiva acaba por ser uma concepção que isola os setores, trazendo uma visão fragmentada da forma de atuação de cada um no meio social. As debilidades conceituais do terceiro setor dizem respeito também a não se ter uma definição mais clara sobre o termo, bem como sobre quais instituições sociais estão alocadas neste setor, dentre outras (Montaño, 2007).

Desta forma, a discussão sobre o conceito de terceiro setor está diretamente relacionada à questão da responsabilidade social (RS), principalmente pela maioria dos autores que tratam da responsabilidade social estarem apoiados em discussões sobre o terceiro setor, e sobre este ser o termo utilizado pelas empresas que incorporaram esta dinâmica de RS.

A discussão sobre responsabilidade social se resume em geral a uma questão de dívida social por parte das empresas. Isto porque as empresas tem responsabilidade pelos problemas sociais (muitos gerados pela sua forma de atuação), pois consomem recursos da sociedade, renováveis ou não, que são patrimônio coletivo da humanidade de forma que contraem um divida social com a mesma (Reis, 2007). As empresas devem ter o compromisso de restituir à sociedade, por meio de investimentos principalmente na área social e ambiental.

O conceito de responsabilidade social constitui-se como um tema relativamente novo tanto no meio acadêmico como no contexto empresarial16, de forma que possui divergências conceituais e ambiguidades que geram controvérsias. No entanto, não se confirma uma prática de responsabilidade social nos termos do conceito, sendo muitas vezes entendido como um modismo ou como uma estratégia empresarial para obter mais vantagens competitivas (Idem, 2007). Mas a RS constitui-se para alguns autores como muito mais que um simples

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Há quem questione e considere o primeiro setor o mercado e o segundo o estado. Ver Montaño, 2007.

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Em 1960 surge nos EUA o movimento da responsabilidade social das empresas que em seu contexto de surgimento estava relacionado à degradação do meio ambiente e aos direitos dos consumidores. No Brasil entrou em pauta a partir dos anos 1990, em referência à participação das empresas no enfrentamento dos tradicionais e novos problemas da ordem social, estes resultantes de um projeto desarticulado de desenvolvimento econômico e social no século XX. (Reis, 2007)

conceito, sendo um valor pessoal e institucional que requer um novo modelo de relações sociais, sendo assumido como compromisso social pelas empresas para a construção de uma sociedade mais justa, social e economicamente responsável e sustentável (Melo Neto e Froes, APUD Reis, 2007).

A responsabilidade social das empresas atribui-se a um modelo de comportamento ético e responsável de gestão que “em suas decisões e ações, resgatam valores e direitos humanos universais, preservando e respeitando interesses de todas as partes direta e indiretamente envolvidas no negócio, assim como os de toda a sociedade, em uma relação na qual todos obtêm vantagens” (Reis, 2007, p.300).

Porém, uma das críticas que podem ser feitas ao modelo com que a responsabilidade social das empresas no Brasil tem se delineado diz respeito à atuação social empresarial que está muito focada em ações filantrópicas e assistencialistas, ações estas que possuem um caráter emergencial que, embora tenha impactos na situação de pobreza e exclusão social no país, contribui para que a situação social vigente se reproduza. Esta é uma posição colocada principalmente por autores mais críticos em suas análises sobre as possibilidades da responsabilidade social, considerando que muitas vezes as empresas não se propõem em suas ações a mudarem a ordem social vigente, e apenas oferecem medidas paliativas. Estes autores apontam para um descrédito da RS e do terceiro setor, considerando que tanto um como outro tem capacidades restritas de transformação social (Paoli, 2002 e Montaño 2007).

Apesar das críticas, as ações de filantropia empresarial no país constituem-se como um movimento ascendente. Assim, o principal meio de atuação da RS das empresas é a aplicação e doação de recursos privados do setor empresarial para o atendimento às necessidades de fins públicos. Esta aplicação de recursos privados para fins públicos perpassa uma discussão sobre RS e o terceiro setor: a de o setor privado (empresarial) estar substituindo o estado, pois a questão social que deveria ser responsabilidade do estado é incorporada pelo setor privado, que supostamente possui uma ação mais eficaz (Paoli 2002).17 Para Reis

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Esta afirmação irá ser incorporada por alguns autores, e rechaçada por outros como Reis (2007) que coloca que todos os setores tem responsabilidade social pelo ‘terceiro setor’, e suas ações podem ser complementares. A esta discussão relaciona-se a questão sobre a responsabilidade do estado pelo social. A crítica é de que as organizações da sociedade civil estão desempenhando o papel do estado na área social e o substituindo. (Montaño, 2005) Muitas críticas também

(2007), o enfrentamento dos problemas sociais no país necessita de uma articulação entre os agentes econômicos, onde tanto o Primeiro como o Segundo e o Terceiro setor devem assumir suas responsabilidades para com a sociedade.

Para os seus defensores, embora críticos, a RS deve ser “uma forma de conduzir os negócios da empresa de tal maneira que a torna parceira e co-responsável pelo desenvolvimento social” (Instituto Ethos, APUD Reis, 2007, p.290). Uma empresa socialmente responsável deve poder ser capaz de ouvir os interesses de todas as partes, de acionistas, à comunidade e ao estado.

Porém, é necessário entender que a RS perpassa motivações que vão além das humanitárias: muitos projetos de RS das empresas possuem interesses comerciais estratégicos em suas práticas de ação social. Práticas principalmente de caráter filantrópico agregam valor à imagem da empresa e constituem-se como um dos melhores tipos de marketing empresarial, por colocarem a empresa no mapa de ‘ação’ na sociedade, e por aumentarem a produção e a satisfação dos empregados, dentre outras razões. Esta contestação sobre a RS como marketing empresarial está presente em dois dos três autores base para este texto, quais sejam Paoli (2002), e Reis (2007).

Apesar desta visão comercial, Reis (2007) considera que os motivos humanitários são os principais impulsos à ação social das empresas.18 A filantropia pode assim se constituir como um caminho para o exercício de RS, mas é preciso avançar na promoção de mudanças de postura e de foco, onde se transcenda a função básica da empresa como geradora de riquezas, tornando-a um agente tanto econômico como social e humano, superando a concepção dos interesses particulares para a perspectiva do bem comum.

Duas instituições no país que são referência no gerenciamento e na organização da atuação das empresas no meio social brasileiro são o Instituto ETHOS e o GIFE. O Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social é uma OSCIP que tem por objetivos disseminar a prática da responsabilidade social empresarial no país.19 Já o GIFE - podem ser feitas a esta visão, ´principalmente de um ponto de vista que considera que as organizações da sociedade civil podem atuar em ‘parceria’ com o estado (e com as empresas) na resolução dos problemas sociais.

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O autor se baseia em dados da Pesquisa Ação Social do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) para fazer sua análise.

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A visão do Instituto sobre a responsabilidade social se resume em sua Carta de Princípios: “Reconhecemos a responsabilidade pelos resultados e impactos

Grupo de Institutos Fundações e Empresas - é uma organização sem fins lucrativos que reúne associados que investem em finalidade pública.20 Combinadas, as duas instituições coordenam os projetos sociais de investimento privado de milhares de empresas no país.

No Brasil, o movimento de RS das empresas ainda é bastante jovem, e embora esteja muito longe de uma efetiva mudança social, já se posiciona como uma ajuda significativa ao desenvolvimento da questão social. Reis (2007, p.303) acredita que “pelas atuais discussões nos meios empresariais e acadêmicos, pode estar em curso um processo de ruptura dessa postura filantrópica na atuação social.” Porém para se chegar nesta ruptura é necessária uma incorporação da RS na gestão dos negócios das empresas, e a expansão da cultura de co-responsabilidade empresarial no enfrentamento dos problemas sociais no país, para ir além de uma cultura de RS como marketing empresarial e como perpetuação das condições sociais existentes.

Neste trabalho, o contexto de RS se insere por uma das associações em estudo (Instituto Engevix) ser uma iniciativa de RS da empresa Engevix Engenharia. Desta forma, as discussões teóricas aqui trazidas e as observações da pesquisa realizada na instituição tornam possível entender como se dá a responsabilidade social da empresa, e das ações de nossa empresa no meio natural e social afetados por nossas atividades empresariais e envidaremos todos os esforços no sentido de conhecer e cumprir a legislação e de, voluntariamente, exceder nossas obrigações naquilo que seja relevante para o bem-estar da coletividade. Responsabilidade Social Empresarial é a forma de gestão que se define pela relação ética e transparente da empresa com todos os públicos com os quais ela se relaciona e pelo estabelecimento de metas empresariais que impulsionem o desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais para as gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades sociais.” Fonte: http://www3.ethos.org.br/ Ultimo acesso em 21 de outubro de 2014.

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Os objetivos do GIFE são “Contribuir para a promoção do desenvolvimento sustentável do Brasil, por meio do fortalecimento político-institucional e do apoio à atuação estratégica de institutos e fundações de origem empresarial e de outras entidades privadas que realizam investimento social voluntário e sistemático, voltado para interesse público. “ Atuando desde 1989 tornou-se uma referência no Brasil sobre investimento social privado. Sua rede de associados investe cerca de R$ 2 bilhões por ano em projetos variados. No

ranking das áreas temáticas priorizadas destacam-se Educação, Cultura e Artes

e Desenvolvimento Comunitário Fonte: http://www.gife.org.br/ Ultimo acesso em 21 de outubro de 2014.

embora este não seja um dos objetivos a que se propõe esta pesquisa, é um dado interessante por tornar possível uma observação entre o contexto teórico e o empírico.

Capítulo II As Instituições Estudadas e seus Contextos