RESPOSTAS AO GLOBALISMO PÓS-MODERNO

No documento VISÕES INTERDISCIPLINARES SOBRE POLÍTICAS PÚBLICAS VOL. 1 (páginas 176-183)

GLOBALISMO NO PANORAMA PÓS- PÓS-MODERNO

3. RESPOSTAS AO GLOBALISMO PÓS-MODERNO

Ulrich Beck (1999) afirma que algumas correntes transnacionais re-presentam uma catástrofe ecológica, como por exemplo, os camarões do mar do norte que são limpos no Marrocos, empacotados na Polônia e vendidos em Hamburgo, em claro abuso ecológico e que não será in-terrompido por medidas protecionistas. Dessa maneira, não há esperança em solucionar problemas ecológicos em um mundo completamente frag-mentado do ponto de vista político e social. Porém podemos afirmar que os ambientalistas são os vencedores político-intelectuais da globalização, e não se nega que as questões ecológicas devem ser levadas a sério como questões globais. Mas por conta do seu antimodernismo, seu apego pro-vinciano e o medo de perder o controle burocrático da política ambiental ao desgarrar-se do Estado nacional, diversos políticos ambientalistas aca-bam não tendo sucesso em seus avanços.

ROSÂNGELA TREMEL (ORGS.)

Por fim, o protecionismo vermelho nos remete a lutas de classes, eles festejam ressurreição do Marxsimo, trazendo à tona o grande dilema da globalização: sem a redução dos custos sociais e dos custos salariais há o crescimento do número de desempregados. Sem postos de trabalho, no entanto, o sistema de garantias sociais ameaça ruir. A resolução da ques-tão social tornou-se um problema social. Mas acredita-se que quem real-mente deseja mudar algo deverá de certa forma ser injusto, recusar rein-vindicações, estimular iniciativas individuais e pleitear outra lógica para a política social.

Diante de todas estas críticas ao globalismo, passamos à análise das respostas à Globalização, com a crítica da ideologia neoliberal da globa-lização, da unidimensionalidade econômica, do pensamento linear e de mão única, do autoritarismo político. Vemos que não há avanço eis que permanece viva a nostalgia de política de direita e esquerda, sendo que a esquerda se remete ao estado social e a Direita ao estado nacional, ambas desejando a volta ao estado quo ante da invasão do mercado mundial.

Como respostas aos equívocos, a cooperação internacional e política entre os Estados nacionais precisa ser construída, visando eliminar ou coi-bir a criação de currais, e que permitam às empresas globais minimizar o pagamento de impostos e maximizar as subvenções estatais.

Também é preciso explicar à opinião pública que a globalização não pode significar o abandono de tudo às forças do mercado, já que ela deve vir acompanhada de uma coordenação da política entre estados nacionais soberanos, com o aprimoramento da fiscalização de bancos e instituições financeiras, com a derrubada do dumping fiscal entre os Estados, em busca do fortalecimento internacional.

Na visão de Ulrich Beck (1999), também é necessário analisar se a política ambiental caiu na armadilha da globalização, ou se a proteção am-biental se tornou cara demais diante da concorrência global.

As nações precursoras da política ambiental global se encontram eco-nomicamente melhor do que muitas outras. Países curiosamente menores, que foram impulsionados pelo mercado mundial (Suécia, Japão, Alema-nha, Holanda, Dinamarca, Coreia do Sul, por exemplo). A proteção am-biental, portanto, não representa um impedimento para a sobrevivência da competição global, pelo contrário, é um indicativo decisivo a respeito do poder de concorrência de um país.

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O Estado transnacional é uma resposta à globalização, pois mantém a soberania regional e a identidade extranacional. São estados isolados, mas cooperativos. A cooperação não impede a produtividade e a soberania dos estados, já que a soberania inclusiva significa que ao renunciar os direi-tos extremos da soberania, se conquista a cooperação transnacional, desde que compreendida como um projeto político.

Outro ponto a ser destacado é que o trabalho vem sendo substituí-do pelo conhecimento e pelo capital; a grande meta é a participação substituí-do trabalho no capital, concebida através do princípio da decisão conjunta entre empregados e empregadores. Assim, a troca a prioridade de uma política salarial por uma política de participação no capital por exemplo seria uma medida mais benéfica para os que estão no processo produtivo, mesmo que não abranja os desempregados, e serviria como uma resposta aos equívocos do globalismo.

Além disso, se o trabalho vem sendo substituído pelo conhecimento e pelo capital, então o trabalho deve ser valorizado ou renovado pelo co-nhecimento, com o investimento em educação e pesquisa.

Os verdadeiros “ativos tecnológicos” de um país são encontrados na capacidade de seus cidadãos para resolver os problemas futuros. Desta for-ma, uma das melhores respostas políticas à globalização é a construção de uma sociedade de conhecimento e pesquisa. O ensino deve estar as-sociado a atividades que possam tornam o homem independente, com o incentivo da transnacionalização dos currículos para compreensão dos conflitos transculturais.

Importante ressaltar que o projeto da economia de mercado sempre foi também um projeto político estreitamente associado à democracia. Po-rém, a democracia tem custos elevados, assim, advertem os vencedores da globalização a respeito da sua responsabilidade com as instituições demo-cráticas, a qual deve ser assumida através do pagamento dos seus impostos.

Para Ulrich Beck (1999), este “problema” só poderá ser resolvido por meio de regulamentação internacional de taxas, tarifas e impostos. Nesse diapasão, a autorrealização do capital deve se conectar aos espaços (mun-do) e aos produtos, que devem ser aceitos pelas pessoas que buscarão saber informações a respeito das condições de fabricação dos mesmos, e do seu engajamento democrático, tudo visando alcançar o produto perfeito, já que nem mesmo as cláusulas sociais e ambientas são remédios eficazes

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para a domesticação da economia. Tais aspectos de identificação do pro-duto exercem grande influência para a exportação, e podem sim ser uma resposta aos equívocos da globalização.

O trabalho do homem se tornou produtivo a um tal ponto que necessi-tamos cada vez menos do trabalho propriamente dito e precisamos produzir cada vez mais bens e serviços e de engajamento da sociedade civil. Mas para a atividade comunitária tenha relevância econômica e social, precisaria ter visibilidade política, ou seja, deveria ser remunerada de acordo com a rele-vância social do serviço prestado. Essa atividade comunitária poderia tornar as cidades habitáveis, enaltecer o espírito democrático e aumentar a eficácia da energia dispendida, e atrair capital para realizá-la. Não ficaria preso a um contexto nacional, e sim transnacional como é o caso de instituições reco-nhecidas mundialmente como Greenpace e da Anistia Internacional.

Assim, acredita-se que são dois princípios que poderiam fazer da ati-vidade comunitária uma alternativa interessante: espontaneidade e auto--organização.

A pergunta que não quer calar é de onde virá o dinheiro? A assistên-cia soassistên-cial e do seguro-desemprego seriam boas fontes de recurso para este fim por exemplo com a alternativa do desempregado de permanecer sem trabalho e receber auxilio social ou atuar de modo espontâneo no setor da atividade pública. Muitas Prefeituras e partidos políticos já vem entrando na disputa por uma posição de destaque nesse novo modo de pensar, an-tenadas à visibilidade que tais atividades trazem.

Após reunificação da Alemanha deu-se início a um novo capítulo da história europeia. A Alemanha fundou o projeto de uma nação exporta-dora com o slogan “produto de qualidade alemã” ou “modelo Volkswa-gen” para tentativa de reconstrução alemã pós-guerra. Entretanto surgi-ram novos desafios, por exemplo a China que atualmente pode produzir com a mesma quantidade a um custo inferior.

Com todas essas questões, o que poderia então substituir o “mode-lo Volkswagen”? Acredita-se que a resposta seja através da elaboração de produtos ecológicos, que já foram o curinga alemão da segunda moder-nidade. Além disso, deve haver a individualização dos produtos, com o desenvolvimento de itens altamente individualizados, além de formas de trabalho e de produção especializadas, que são o antagonismo da automa-tização da produção.

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A re-regionalização dos mercados também se acredita que seja uma boa resposta, com o corte das subvenções que mantem o custo baixo nos transportes, havendo então uma nova política dos mercados regionais de curta distância, com formas de vida e trabalho ecologicamente aceitáveis.

Por fim, mas não menos importante, deve haver a superação da bar-reira da hegemonia cultural, visando abrir e concretizar fronteiras.

Ulrich Beck (1999) aduz ainda que outra forma de produção que pode vir a contribuir, seria a produção de nicho, que abrange uma parcela mais ampla de consumidores com gostos, características e necessidades se-melhantes, e pode desenvolver um modelo contrário à mania dominante de racionalização do grande capitalismo. Essa produção pode desenvolver um laboratório cultural do futuro, com baixos custos de produção e com iniciativa própria, sem leis burocráticas e de proteção futura. O fortale-cimento das especialidades regionais e auto-organização das sociedades civis transnacionais também é visto como uma grande saída para a mania dominante de racionalização do grande capitalismo.

Caso não sejam tomadas estas providencias, toda defesa da velha or-dem mundial tende a se estabilizar, fomentando a existência de máquinas hierárquicas e burocráticas, e extinguindo-se a criatividade do mercado.

O capitalismo inicial se firmou como exploração do trabalho, e de hoje se apoia na exploração da responsabilidade. Antigamente os trabalhadores tinham que construir juntos o objetivo do trabalho, hoje eles têm que cons-truir o resultado do negócio e participam do plano e dos riscos. Tal prática permite a acumulação de experiências transformadoras na rentabilidade, na zona indefinida entre dependência e independência. Cada vez mais as gran-des empresas produzem não só uma grande quantidade de mercadorias, mas também uma massa em empresários virtuais, mudando os rumos da economia atual, o que deverá ser acompanhado pela globalização.

O desenvolvimento econômico se retira da política do estado nacio-nal, enquanto que suas consequências sociais se juntam a rede de proteção do estado nacional.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Há um impasse da aplicabilidade da política social na época da globa-lização, com o seguinte questionamento: como é possível a justiça social na

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era global? O que podemos afirmar é que não é preciso argumentar contra o estado mundial, e tampouco contra o estado de assistência mundial, para que tenhamos o exercício da justiça social no mundo pós-moderno.

As soluções para este impasse seriam, primeiro: organizar e incorpo-rar garantias básicas. Segundo: fortalecer redes sociais de autoproteção e auto-organização. E terceiro: levantar e vigiar a questão da justiça econô-mica e social em escala mundial nos centros da sociedade civil global.

Para tanto, as organizações precisam aprender a discutir em vez de ensinar, oferecer soluções ao invés de apontar problemas, apontar mais possibilidades de ação do que publicar estudos, tornarem-se mais prepara-das para os conflitos em vez de cobiçar o dinheiro do estado, enfim, preci-sam se conceber mais como servidores e menos como difusores da moral, e assim veremos a justiça social ser encarada como base fortalecedora do desenvolvimento econômino no globalismo pós-moderno.

REFERÊNCIAS

BECK, Ulrich. O que é globalização, Tradução de André Carone. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

CRUZ, Paulo Márcio, STELZER, Joana. Direito e Trananacionali-dade. Curitiba. Juruá, 2011.

SARLET, Ingo Wolfgang. Direitos Fundamentais e Tratados Inter-nacionais em Matéria de Direitos Humanos. São Paulo: Quar-tier Latin, 2011.

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