O século XXI nos revela que os avanços da tecnologia estão estimulando a organização de uma sociedade cada vez mais centrada no aumento das necessidades, na qual a produção e o consumo são reorganizados sob “a lei da obsolescência, da sedução e da diversificação” (LIPOVETSKY, 1989, p. 159), que nos impõe que o novo é superior ao antigo e, com isto, acelera o desuso e o prematuro descarte dos produtos.
Para entendermos como chegamos ao estágio da prática da obsolescência programada é importante entendermos a diferença entre as fases do capitalismo industrial e a do pós-industrial (da acumulação flexível do capital).
Harvey (1992) nos fala que no período da industrialização, o capital possibilitou o aparecimento de fábricas de grande porte e sustentou-se na prática do controle de todas as etapas do processo de produção, assim como também nas ideias de qualidade e durabilidade dos produtos do trabalho.
Já posteriormente, na fase pós-industrial, o autor nos fala que dominaram a supremacia do capital financeiro, a alta rotatividade da mão-de-obra, a fragmentação e a dispersão da produção econômica, começam assim a aparecer os primeiros produtos descartáveis, a obsolescência das qualificações para o trabalho, fruto do aparecimento de constantes tecnologias novas, e o desemprego resultante da automação instalada em várias industrias e da grande rotatividade da mão-de-obra, causando exclusão social, econômica e política.
Vemos então, de acordo com Slade (2006), que na contemporaneidade, quando a obsolescência é fruto da aplicação de técnicas para limitar artificialmente a durabilidade dos bens manufaturados, com o objetivo de estimular o consumo repetitivo, é denominada de obsolescência planejada.
Esta ideia resumo os elementos que são típicos da clássica economia de mercado, que de acordo com o autor são: a maximização da produção, a economia
de escala, a crescente fabricação de produtos de qualidade mediana e vida curta, o acelerado ciclo de depreciação e rápida substituição de bens, e a consequente demanda crescente dos consumidores por produtos e serviços novos (MONT, 2008).
Sudjic (2010, p. 21) nos fala que “[...] muitas categorias de produto foram não só transformadas e sim completamente eliminadas”. Ainda de acordo com o autor, vivemos um período em que, assim como a extinção ocorrida com os grandes dinossauros, ocorreu o extermínio dos objetos que rondavam a paisagem da primeira era industrial, e no rastro das extinções o processo evolutivo se acelerou tão violentamente que fugiu ao controle. “Aqueles objetos industriais que sobreviveram têm um ciclo de vida medido em meses, não mais em décadas” (SUDJIC, 2010, p. 21).
A velocidade como as coisas estão acorrendo na contemporaneidade é impressionante, a cada dia novas formas de relação com o produto vão surgindo. Para Woolley (2003), os produtos passaram a incorporar um novo estágio da obsolescência, batizado de “obsolescência coreografada”. Esta prática não se assemelha a obsolescência planejada, por que apresenta um processo mais formal, preciso e gerenciado ao longo das cadeias produtivas. Para o autor, a obsolescência planejada é geralmente uma estratégia padrão, na qual a redução de custos de material e produção resulta em produtos fisicamente menos duráveis.
De acordo com Woolley (2003), esta estratégia tem uma vantagem comercial em relação à obsolescência planejada, uma vez que, como o produto não sofre degradação, a projeção de uma imagem negativa da marca é evitada.
Podemos então perceber, que a obsolescência de um produto pode ser determinada propositalmente, mas também pode ocorrer sob influência de vários outros fatores, que são classificados de forma diferente por diversos autores.
O design, que pode ser considerado como uma atividade que está diretamente envolvida com o planejamento e desenvolvimento de grande parte da cultura material, contribuindo para acelerar o processo da obsolescência, porém, por outro lado, o design também pode e deve atuar no sentido contrário, participando da gestão desta obsolescência e estimulando a mudança de padrões de produção e consumo para serem mais responsáveis.
serão solucionados fazendo com que os produtos sejam um pouco mais leves ou com algumas pessoas passando a usar lâmpadas de baixo consumo de energia.
Para o autor, mudanças estruturais são necessárias na forma como os mercados são organizados, na forma como as nossas infra-estruturas de transporte são concebidas e utilizadas e na forma como trabalhamos e vivemos. O autor pondera que os princípios da sustentabilidade são mais claros: eliminar o conceito de desperdício; reduzir o movimento e a distribuição de bens; utilizar mais pessoas e menos matéria; contar com fluxos de energia natural.
Thackara acredita que já temos estes princípios, mas que o desafio agora será implantá-los. Na sua visão trata-se, portanto, de uma questão de design, lembrando que, para o autor, oitenta por cento do impacto ambiental de um produto, serviço ou sistema é definido no estágio de design.
Manzini e Vezzoli (2002) nos apontaram um caminho para o desenvolvimento de produtos mais sustentáveis, que seria através da melhoria de sua vida útil. Esta melhoria poderia nos levar a duas estratégias possíveis: o aumento da durabilidade dos produtos e a intensificação de seu uso.
Kazazian (2005) nos aponta que se olharmos a intensificação das questões de uso, por meio coletivo e compartilhado, poderemos ter uma redução na quantidade de produtos usados em um determinado momento e local, acarretando assim, em uma diminuição dos impactos ambientais, menos produtos no mercado é sinônimo de menos lixo.
Por outro lado, se for aumentada a durabilidade dos bens, isto poderá prolongar a necessidade de substituição e renovação, adiando assim a fabricação de um novo produto e os impactos oriundos dos processos produtivos. Além disto, ao adiarmos o descarte de um produto, limitaremos a geração de novos resíduos e seus impactos ambientais (KAZAZIAN, 2005).
Mas é importante atentarmos para um fato importante: o aumento da vida útil dos produtos não necessariamente determina um menor impacto ambiental. De acordo com relatos de Manzini e Vezzoli (2002), existe um limite potencial na duração de um produto, chamado de ponto de break-even, a partir do qual a substituição por um produto novo e mais eficiente apresentará impacto ambiental menor.
Este argumento se torna válido especialmente no caso de alguns bens duráveis, que requeiram recursos (material e/ou energia) para seu funcionamento e manutenção. Assim, estes produtos, como eletrodomésticos apresentam maiores impactos na fase de uso e, por isso, o aumento de sua vida útil pode se tornar contraproducente, do ponto de vista ambiental.
Podemos perceber que existem vários processos de obsolescência atualmente, mas para Santos (2004, p. 5), aquele objeto que sobrevive às complexas dinâmicas que envolvem a obsolescência “ou é signo de uma vida anterior, ou pertence ao domínio da atualidade com a permanência do sentimento de desejo”. Assim o nosso desafio seria desenvolver e criar novos produtos que possam perpetuar o sentimento de desejo nas pessoas, modificando-se no contexto físico e psicológico dos usuários e dos constantes processos socioculturais de ressignificação e requalificação da cultura material.
Se o design é uma das disciplinas que mais está ligada com a questão do desejo humano, encontrar mecanismos, processos e métodos que possam administrar melhor a questão de sentido e significado entre homem e objeto, poderia ser uma maneira eficaz de evitarmos a obsolescência programada, desencadeando um novo processo contrário ao descarte prematuro dos produtos, na sociedade contemporânea.
É evidente que o processo de obsolescência não está somente nas mãos dos designers, mas também, e fundamentalmente, em uma possível reorganização sistêmica que resultaria em mudanças na postura de vários participantes das cadeias de produção e de consumo. Uma das questões que norteia esse trabalho é pensar em alternativas que possibilitem um novo posicionamento frente ao consumo, como veremos na seção seguinte.