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Objetivos específicos

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Dieta

O grupo comeu várias partes das plantas: folhas (jovens e maduras), frutos (maduros e imaturos), flores (inclusive de cipós) e brotos (de folhas, flores e frutos) (Figura 7). A Figura 8 mostra a porcentagem de itens ingeridos durante os meses. Folha foi o item alimentar mais consumido (66,33%) em todo estudo, exceto em dezembro, mês em que o item “Frutas” (69,23%), principalmente representada pelas mangas (Mangifera indica), foi o principal composto da dieta dos guaribas. Os animais saíam da área de mata para ir consumir estes frutos na estrada de acesso à cachoeira. Também houve um alto consumo de frutos em junho e julho (37,83 e 43,75%). Nesta época, os animais comeram os frutos pequenos e vermelhos da Trichilia hirta. Outros itens raros, como flores e brotos, também foram consumidos, principalmente quando a mata começou a perder as folhas (novembro-dezembro). Nesta ocasião, os animais comeram muitas flores (20,69 e 15,38%) e brotos de flores (31,03%) de sucupira e de ipê (Bowdichia virgiloides e Tabebuia sp., respectivamente).

Pinto (2002) destaca que o consumo de frutos de A. belzebul parece ser maior do que em outras espécies de Alouatta. Analisando cinco trabalhos com A. belzebul (Bonvicino, 1989; Jardim, 1997; Pina, 1999; Pinto, 2001; Pinto, 2002), dois com A. guariba clamitans (Mendes, 1989; Marques, 2001), três com A. seniculus (Neves & Rylands, 1991; Queiroz, 1995; Santamaria- Gomez, 1999), um com A. caraya (Bravo & Sallenave, 2003) e dois com A. palliata (Neville et al., 1988), nota-se que de 20 situações (diferentes grupos, estações e áreas), nove envolviam A.

belzebul, sendo três com maior consumo de folhas e seis com maior consumos de frutos. Das 11

situações envolvendo as outras espécies, em oito os guaribas comeram mais folhas e em três comeram mais frutos. Neste estudo, os animais comeram mais folhas do que frutos, diferenciando- se do que diz Pinto (2002) e do trabalho de Bonvicino (1989) na mesma área. Porém, esta diferença pode ser explicada pela pluviosidade nos anos de coletas dos dados destes dois estudos: 1985-1986 (Bonvicino) e 1998-1999 (este estudo). A precipitação média nos dois anos do estudo de Bonvicino foi 1726,7 mm e neste estudo foi de 681,4 mm.

A semelhança entre as estações é mais nítida quando se observa a distribuição dos itens alimentares separadamente, em cada estação (Figura 9). O total de todos os itens consumidos na estação chuvosa foi um pouco menor (41,62%) do que na estação seca (58,38%), (N = 543), ou

consumo de folhas maduras e jovens (Figura 10). Eles usaram brotos na estação chuvosa, flores na estação seca e os frutos nas duas estações. As diferenças na utilização de folhas podem ser explicadas pela quantidade de água nestas e no ambiente (Glander, 1978; Bicca-Marques, 1992). Segundo estes autores, no período chuvoso, os animais podem comer mais folhas maduras porque podem encontrar reservatórios de água na mata para amenizar os efeitos dos compostos secundários das plantas, e comem mais folhas novas na seca porque estas são ricas em água.

Durante os 14 meses de estudo, o grupo se alimentou em 179 árvores de 56 espécies (Tabela 5). Bravo & Sallenave (2003) apresentam uma tabela comparativa com o número de espécies de plantas utilizadas na dieta de várias espécies de Alouatta. Esses dados foram colocados na tabela 6 com novos números para uma análise comparativa da quantidade de espécies consumida. Nota-se uma grande variedade no número de espécie na dieta de Alouatta (de 18 a 201 espécies), sendo as menores médias encontradas nas espécies do Cerrado e da Mata Atlântica, e as maiores nas populações amazônicas. Bravo & Sallenave (2003) citam que esta variação pode estar associada à baixa diversidade de plantas nas áreas estudadas, no caso, nos biomas mais ameaçados por degradação.

A B C D

E F G H

A B C D

0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 Janeiro Fevereiro

Abril Maio Junho Julho

Agosto

Setembro Novembro Dezembro

0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50

Frutos Folhas Brotos Flores

Seca Chuva

Figura 9. Gráfico com a porcentagem de consumo de diferentes itens alimentares distribuídos nas estações seca (n = 317) e chuvosa (n = 226), observadas em Pacatuba.

0 10 20 30 40 50 Seca Chuva

Nome científico Família Nome comum

Acacia poliphylla Mimosaceae Vassourinha Alseis pickelii Rubiaceae Frei Jorge, sp. 1 Anacardium occidentalis Anacardiaceae Caju

Andira grandifolia Fabaceae Andira Apuleia leocarpa Caesalpiniaceae Jitaí

Apuleia sp. Caesalpiniaceae Louro Angelim Aspidosperma sp. Apocynaceae Gabiraba Aspidosperma sp.2 Fabaceae Árvore fendada Bowdichia virgiloides Moraceae Sucupira Brosimum guianense Moraceae Louro, sp. 2 Brosimum sp. Moraceae Mama-cachorro Buchenavia capitata Combretaceae Imbiridiba Caesalpina ferrea Caesalpiniaceae Jucá

Campomanesia xanthocarpa Myrtaceae Gabiraba, sp. 2 Cecropia sp. Cecropiaceae Imbaúba Colubrina glandulosa Rhamnaceae Surangi

Cordia trichotoma Boraginaceae Frei Jorge, sp. 2 Coussapoa ou Fícus sp. Moraceae Figueira

Crataeva trapia Caparaceae Trapiá Erythroxylum sp. Erythroxylaceae Cocão, sp. 2 Eschweilera ovata Lecythidaceae Imbiriba Eugenia sp. Myrtaceae Araçá pombo Genipa sp. Rubiaceae Genipapo

Guapira nitida Nyctaginaceae Carne de vaca, sp. 1 Hymenaea rubiflora Caesalpiniaceae Jatobá

Hymenaea sp. Caesalpiniaceae Carne de vaca, sp. 2 Inga sp. Mimosaceae Ingá

Lecythis laceolata Lecythidaceae Sapucaia Lonchocarpus araripensis Fabaceae Cocão, sp. 1 Macrosamanea pedicellaris Mimosaceae Tambor Mangifera indica Anacardiaceae Manga

Manilkara salzmanii Sapotaceae Sem nome comum Ocotea duckey Lauraceae Louro, sp. 1 Ocotea sp. Lauraceae Louro, sp. 3 Ocotea sp. Lauraceae Marfim Parkia pendula Mimosaceae Visgueiro Porcelia sp. Annonaceae Louro branco

Pouteria (Lucuna ) cf. grandifora Sapotaceae Goiti Protium giganteum Burseraceae Amescla Spondias cf. mobins Anacardiaceae Cajá

Tabebuia avellanedae Bignoniaceae Pau D’arco roxo Tabebuia nodosa Bignoniaceae Pau D’arco amarelo Trichilia hirta Meliaceae Sem nome comum Xilopia laevigata Anacardiaceae Imbira

Zanthoxylum sp. Rutaceae Limãozinho Zizyphus cf. joazeiro Rhamnaceae Juá

Espécie estudada No. de espécies na dieta Média de espécies na dieta Fonte* 22 1 73 1 95-65 1 A. palliata 96 70,5 1 A. pigra 74 74 1 195 1 26 1 26 2 130 3 A. seniculus 201 115,6 4 18 1 12 5 A. caraya 22 17,3 6 27 1 32 8 13 5 76 5 A. guariba 52 40 1 47 7 86 9 39 (morfoespécies) 10 67 11 A. belzebul 56 59 Este estudo

*Fontes: 1 - Citado em Bravo & Sallenave; 2 - Queiroz, 1995; 3 - Neves & Rylands, 1991; 4 -

Santamaria-Gomez, 1999; 5 - Citado em Neville et al., 1988; 6 - Bravo & Sallenave, 2003; 7 - Bonvicino, 1989; 8 - Jardim, 1992; 9 - Jardim, 1997; 10 - Pinto, 2001; 11 - Pinto, 2002.

Comportamentos

O orçamento temporal dos comportamentos realizados pelos guaribas na RPPN Pacatuba está representado na Figura 11. Os comportamentos “deslocamento na mesma árvore” (2,94%), marcação (0,04%), beber água (0,34%) e urinar/defecar (0,94%) foram pouco observados.

As interações sociais amistosas foram comuns entre fêmeas, jovens e filhotes, e envolviam os comportamentos de catação e brincadeiras, onde geralmente os animais se penduravam nos galhos pela cauda e procuravam tocar os outros membros com os membros superiores e inferiores ou tentando morder-se.

O comportamento sexual foi raro durante todo o estudo. Observou-se apenas uma cópula no mês de agosto/1998. Nesta ocasião, o macho aparentou agitado, como observado por Bonvicino (1989). Esta agitação pode ser explicada pela presença de um segundo macho, observado nos dois estudos.

Interações sociais agonísticas foram observadas em oito ocasiões (uma em março de 1998 e sete em junho de 1998). Estas agressões pareceram ser disputas por liderança, pois só envolveram os dois machos adultos (diferenciados pela coloração da pele do pescoço: um rosa e outro preto), com perseguições, agitação de galhos e vocalizações. Em uma destas ocasiões (em junho), houve luta corporal e um dos animais chegou a cair do alto da árvore atingindo o chão. A agressividade apresentada por Alouatta é citada por Fleagle (1988) como típica de grupos liderados por um único macho. Mas Ayres & Milton (apud Neville et al., 1988) afirmam que a presença de dois machos adultos em grupos desse gênero não é comum. Segundo Bonvicino (1989), o número de machos adultos é proporcional ao tamanho do grupo, onde grupos com mais de 10 indivíduos teriam mais de um macho adulto. Isso explicaria a presença de 3 machos adultos nos trabalhos de Marques (1996 e 2001), que observou grupos de 10-13 indivíduos, e a presença de 2 machos no grupo de 16 animais observado neste estudo. No entanto, Pinto (2001) acompanhou grupos de 5-8 animais com 2 machos adultos. É possível que não só o tamanho do grupo explique a presença de machos adultos em grupos de Alouatta. A falta de território impedindo a saída dos animais de seu grupo natal para formar novos grupos, pode estar forçando a sua presença no grupo e aumentando a tensão social a limites intoleráveis, levando os

mais da metade de seu tempo descansando (67,62%). Isto é unânime em todos os estudos com qualquer espécie de Alouatta (Braza et al., 1981; Bonvicino, 1989; Mendes, 1989; Neves & Rylands, 1991; Bicca-Marques, 1993; Queiroz, 1995; Jardim, 1997; Pina, 1999; Santamaria- Gómez, 1999; Marques, 2001; Pinto, 2001; Pinto, 2002; Bravo & Sallenave, 2003). Mas alguma variação é encontrada nas freqüências de viagem e alimentação. Nos estudos com as espécies A.

seniculus, A. caraya e A. guariba, os animais gastaram mais tempo se alimentando (x = 17,71%

do tempo gasto se alimentando) do que viajando (x = 13,43% do tempo gasto viajando). Analisando os estudos com A. belzebul, isto se inverte e os indivíduos gastam, em média, 21,92% do tempo viajando e 13,06% do tempo comendo. Os dados deste estudo mostraram que os animais gastam mais tempo deslocando do que se alimentando. Isto pode ser explicado pela necessidade de se deslocar mais para procurar e monitorar as árvores com frutos, concordando com os achados de Bravo & Sallenave (2003) sobre a distribuição espacial e temporal dos recursos de alta qualidade, e com Pinto (2002) no que diz respeito a maior utilização de frutos por A. belzebul. Ao observar outros animais primariamente frugívoros, como Lagothrix, percebe-se que o suplemento de fruto explica melhor a variação dos padrões de atividades mensais e a atividade “viajar” é positivamente correlacionada com este suplemento e negativamente com o consumo de folhas e flores (van Roosmalen & Klein, 1988).

A distribuição dos comportamentos nas estações seca e chuvosa mostrou pouca variação, ou seja, os animais distribuíram suas atividades de forma semelhante nas duas estações (Figura 12). Isto pode ser uma característica incomum deste estudo porque a precipitação no ano da coleta dos dados foi muito baixa, havendo pouca variação entre estação seca ou chuvosa. A única alteração que se nota é uma diminuição do descanso na época das chuvas, com um consecutivo aumento das interações sociais, do deslocamento e das viagens, assim como um aumento nas vocalizações. A Figura 13 destaca alguns comportamentos observados em Pacatuba.

Viagens 10% Deslocam 3 % Aliment 12% Inter.Soc. 5% Ativ.Solit 1% Vocalizar 1% Descanso 6 8 %

Descanso Viagens Deslocam Aliment Inter.Soc. Ativ.Solit Vocalizar

Figura 11. Gráfico com a porcentagem de tempo gasto na realização de todos os comportamentos observados durante todo o estudo em Pacatuba, (N=23.916).

0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100

Descanso Viagens Deslocam Aliment Int.Soc. Ativ.Solit. Vocalizar

A B

C D

A B

C D

Figura 13b. Fotos dos indivíduos realizando alguns dos comportamentos observados durante o estudo. A) Animal descansando deitado nos galhos; B) Animais descansando

Área de vida

Dos 266,53 hectares disponíveis, o grupo observado usou 10,59 ha, apresentando preferências por alguns locais para certas atividades como se alimentar, dormir e defecar. O território do grupo estudado encontra-se próximo a grandes concentrações de plantas da sua dieta, com o grupo podendo sair da área de mata para utilizar as mangueiras da estrada (Figura 14). Os animais usaram bastante as margens das matas (próximo à plantação de mangas) e as áreas mais centrais de seu território (entre duas cotas de curva de nível). Nestas áreas havia grande concentração de Trichilia cf. hirta e Parkia pendula, plantas exploradas em várias épocas do ano como alimento (principalmente os frutos). Algumas vezes, os animais do grupo estudado se deslocavam por áreas não muito comuns, retornando imediatamente após o aparecimento de animais de grupos vizinhos. Isto leva a crer que tais áreas sejam sobreposições de territórios ou a presença desses vizinhos delimitem o tamanho do território dos grupos.

A escolha de local específico para defecar é citada por Gilbert (1997) como uma estratégia para evitar parasita, com os animais defecando em áreas abertas longe de seus locais de descanso, forrageio e viagens. Os animais aqui estudados defecaram em áreas abertas, entre as árvores (geralmente nas trilhas) próximos aos lugares utilizados para descansar (áreas dos visgueiros). Mas a estratégia de evitar parasita parece funcionar, como indica os resultados negativos dos exames para endoparasitas realizados na segunda etapa deste trabalho.

Os locais de dormir (sítios de dormida ou de pernoite) mais usados localizavam-se na área mais central do território do grupo, com maior concentração de Parkia pendula ou visgueiros, árvores emergentes cujos troncos atingem mais de 3 m de circunferência a altura do peito. A utilização desta e de outras árvores de grande porte para dormir ou descansar também foi observada por Bonvicino (1989).

A literatura mostra que o tamanho de área de vida varia muito entre as espécies de

Alouatta (Tabela 7) e esta mesma literatura traz várias hipóteses para esta grande variedade.

Milton & May (1976) explicam que os primatas mostram uma forte relação positiva entre o tamanho do corpo e área de vida, por exemplo, um guariba por ser um animal grande necessitaria

recursos alimentares, além da presença de competidores. Segundo estes autores, o tamanho da área de vida está inversamente relacionado com a densidade populacional. Esta hipótese é compartilhada por Bravo & Sallenave (2003) que confirmam também que grupos em áreas pequenas apresentam grandes porções de folhas na sua dieta. Apesar da grande diversidade de resultados nos estudos com as várias espécies de Alouatta, a hipótese da densidade como principal determinante para delimitação do tamanho da área de vida pode ser observada na tabela 7. Nesta mesma tabela, nota-se que as espécies de biomas ameaçados, como Cerrado e Mata Atlântica, apresentam uma densidade ainda maior com uma área bem menor. Mesmo na espécie

A. belzebul, que ocupa tanto um bioma ameaçado quanto não ameaçado, pode ser visto que as

populações do bioma ameaçado ficaram restritas as pequenas áreas, aumentando o número médio de indivíduo no grupo.

Figura 14. Desenho esquemático da área total da mata de Pacatuba (266,53 ha) destacando a localização dos grupos vizinhos (círculos) e os 10,59 hectares ou 3,98% (círculo com ponto) usados como área de vida do grupo estudado (Total de 955 quadrados)

Espécie s Área de vida (em hectar) Tamanho do grupo Fonte 9,9 13 1 31 17 2 54 8 - 23 3 60 14 4 108 - 5 5,65 16,2 6 4,90 18,9 7 A. palliata (x = 39,06) (x = 15,73 ind.) 11 - 24 5,5 8 25 - 50 - 9 125 5,5 10 A. pigra (x = 47) (x = 5,5 ind.) 21 7 11 182 - 12 3,2 - 6,6 7,9 - 7,5 13 45 - 14 7,5 8 15 A. seniculus (x = 44,22) (x = 7,6 ind.) 2,0 17 16 5 - 6 - 17 2,2 – 1,7 21 – 16 18 A. caraya (x = 3,38) (x = 18 ind.) 11,6 4 19 4,1 6 20 7,94 10 21 13,51 – 8,56 13 – 10 22 4,13 7 23 2,90 4 24 8,5 8 25 7,19 7 26 A. guariba (x = 7,61) (x = 7,67 ind.) 50,1 9 27 17,8 6 28 13,8 7 29 18,08 9 30 13,5 – 16 6 - 9 31 4,75 – 9,5 7,4 32 10,59 16 Este estudo A. belzebul (x = 17,12) (x = 8,44 ind.)

Fontes : 1. Glander, 1974 (apud Neville et al., 1988); 2. Milton, 1980; 3. Stoner, 1996; 4. Estrada, 1984 (apud Bravo & Sallenave, 2003); 5. Chapman, 1988 (apud Bravo & Sallenave, 2003); 6. Mittermeier, 1973; 7. Baldwin & Baldwin, 1972; 8. Horwich & Gebhard, 1983; 9. Silver et al, 1998 (apud Bravo & Sallenave, 2003), (grupo 1 e grupo 2); 10. Schlichte (apud Crockett & Eisenberg, 1987); 11. Santamaria -Gomez, 1999; 12. Palácio & Rodrigues, 2001; 13. Neville, 1972 (apud Neville et al., 1988); 14. Julliot, 1992 (apud Bravo & Sallenave, 2003); 15. Queiroz, 1995; 16. Bicca-Marques, 1994; 17. Zunino, 1986 (apud Bravo & Sallenave, 2003); 18. Bravo & Sallenave, 2003 (grupo 1 e grupo 2); 19. Limeira, 2000; 20. Chiarello, 1993 (apud Pinto, 2001); 21. Mendes, 1989; 22. Marques, 2001 (área 1 e área 2); 23. Cunha, 1994; 24. Limeira, 1996 (apud Marques, 2001); 25. Gaspar, 1997 (apud Marques, 2001); 26.

MANEJO DE GRUPOS DE Alouatta belzebul belzebul (Primates, Atelidae) EM UNIDADES DE CONSERVAÇÃO NA PARAÍBA, BRASIL

INTRODUÇÃO

Os primatas são extremamente sociais quando comparados com outros mamíferos, (Fleagle, 1988). Eles formam grupos sociais organizados que podem sofrer modificações na sua estrutura social, levando à entrada ou saída de indivíduos do grupo que se juntam a outros indivíduos para formar um novo grupo e ocupar novas áreas (Box, 1984; Crockett & Pope, 1993). Entretanto, com a fragmentação das florestas, os animais ficam isolados e não podem sair para ocupar novos territórios, aumentando as tensões sociais nos grupos e os confrontos agonísticos entre os indivíduos.

A fragmentação das florestas é uma das maiores ameaças aos primatas (Mittermeier et al., 1984; Mittermeier, 1997; Marsh, 2003). No Brasil, os índices de desmatamento aumentaram muito desde seu descobrimento há 500 anos atrás. A Mata Atlântica cobria 1.290.000 km2 ou 15% do território brasileiro e teve uma drástica redução devido à ocupação do país (SOS Mata Atlântica, 1998). No sudeste brasileiro, a ocupação urbana teve um aumento de 15 milhões de habitantes em 10 anos, chegando a 62 milhões em 1990 (Dean, 1996). A dinâmica da destruição da Mata Atlântica foi maior nas últimas 3 décadas, tornando este bioma o mais ameaçado do Mundo (SOS Mata Atlântica, 2002). Atualmente, restam cerca de 7% desta floresta que representa uma das áreas biologicamente mais ricas e ameaçadas do mundo (Kageyama & Gandara, 2003).

Em 1977, a União Mundial de Conservação (IUCN), através de seu grupo especialista em Primatas (PSG) e da Comissão de Sobrevivência das Espécies (SSC), iniciou uma discussão sobre estratégias para conter o declínio das populações selvagens de primatas em várias partes do mundo (Mittermeier & Konstant, 1997). Tais estratégias basearam-se em planos de ações e técnicas de manejo das populações sobreviventes e foram divulgadas em diversas publicações da instituição (IUCN/SSC, 1991 e 1997). Para o plano de ação cita-se a análise de viabilidade de

1998). Tais procedimentos foram discutidos pelo Grupo Especialista em Re-introdução (RSG) que lançou, na RE-INTRODUCTION NEWS, as diretrizes para guiar programas envolvendo primatas com o objetivo principal de re-estabelecer e viabilizar populações sustentáveis de primatas na natureza (Baker, 2002). Nesta abordagem, foram utilizadas as seguintes definições:

“Re-introdução – é a re-introdução de primatas em uma área em que ele tenha sido

extirpado ou tornou-se extinto (re-estabelecimento é usado para indicar que a re- introdução tem sido satisfatória);

Esforço/ Supleme ntação – é a adição de indivíduos em uma população existente de

co-específicos (Re-estoque é um sinônimo);

Introdução à conservação – é a introdução de um táxon de primata, com o propósito

de conservação, fora da sua distribuição conhecida, mas dentro de um habitat apropriado e área eco-geográfica. Esta é uma ferramenta de conservação viável só quando não há um habitat conveniente restante dentro de uma área histórica do primata. Por causa do risco associado com introdução de espécies não-nativas na área, esta abordagem seria considerada um último recurso;

Substituição – é a introdução de um primata rigorosamente relacionado a outro que

tenha se tornado extinto na natureza e no cativeiro. A introdução ocorre em habitat adequado e dentro da área histórica do animal extinto;

Translocação – é a movimentação deliberada de primata silvestre de um habitat

natural para outro com o propósito de conservação ou manejo;

Resgate/ Bem-estar – é o movimento de primata selvagem de uma área para outra,

para resgatá-lo de uma situação perigosa ou para resolver um conflito humano-primata, ou a soltura de primatas cativos, tais como órfãos ou excedentes para tentar melhorar seu bem-estar. Resgate/ bem-estar não é considerado uma abordagem de re-introdução porque o objetivo é motivado por outras metas além da conservação do táxon.”.

Coimbra-Filho & Mittermeier (1978), Kierulff et al. (2002) e Valladares-Pádua et al. (2003) chamam a atenção para a origem dos animais a serem soltos na natureza. Na re- introdução, animais nascidos em cativeiro, ou que estiveram boa parte de sua vida em ambiente

diversidade genética das populações silvestres, criar populações protegidas ou resgatar grupos de pequenos tamanhos, isolados ou ameaçados (Kierulff et al., 2002).

As técnicas de translocação e re-introdução tiveram sua origem na necessidade de manejar animais que estavam submetidos a fortes pressões antrópicas pelo desmatamento ou pela caça. Os primeiros registros encontrados na literatura são com antílopes na África (Anon, 1952

apud Kenyon, 1995; Bernerd & van der Walt, 1961 apud Pinder, 1986). Os vários e atuais

trabalhos com translocação ou re-introdução demonstram o quanto estas técnicas estão sendo disseminadas por todo o mundo para salvar ou recuperar muitos mamíferos ameaçados (Tabela 8).

Tabela 8. Alguns estudos realizados com manejo de mamíferos ameaçados.

Espécies translocadas Local Referências

Preguiça-de-coleira Brasil Chiarello et al., 2004 Lince EUA Steury & Murray, 2004 Raposa Canadá Smeeton, 1998

Peixe-boi EUA Bonde, 1998

Lobo EUA e Europa Williams et al., 2002; Carrol et al., 2003 Lontras EUA e Inglaterra Serfass, 1998; Copp & Roche, 2003 Veado Israel Perelberg et al., 2003

Antílope Arábia Saudita Bedin & Ostrowski, 1998; Wacher, 1998; Mésochina et al., 2003

Cavalo de Przewalski Mongólia van Dierendonck, 1998 Castor Rússia Gorshkov et al., 2002 Loris Vietnã Streicher & Nadler, 2003

Lêmure Madagascar Britt et al., 2002; Andriamandranto, 2003 Orangotango, gorila e

chimpanzé

África e Indonésia

Meder, 1996; Attwater, 2001; Soorae, 2001; Eves et al., 2002; Farmer & Jamart, 2002; Warren & Sw an, 2002 Babuíno Kenia Strum, 1984 e 2002

Mandril Nigéria Gadsby, 2002

Gueno Eng, 1998

Langur Vietnã e Índia Gupta, 2002; Nadler & Streicher, 2003 Bugio ou guariba Mexico

Belize

Guiana Francesa Brasil

Rodriguez-Luna et al., 1993 e 2003; Sério-Silva, 1997; Ostro et al., 1999; Horwich et al., 2002; Silver & Marsh, 2003

Richard-Hansen et al., 2000 Lindberg & Santini, 1984 Guigó Brasil Neri, 1997

Sagüis-de-cara-branca Brasil Passamani & Passamani, 1994; Passamani et al., 1995 Coimbra-Filho & Mittermeier, 1978; Beck et al., 1986;

No Brasil, o melhor exemplo que se tem de esforços para recuperar populações selvagens de uma espécie é o Projeto Mico-Leão. Em um único projeto, são reunidos estudos e ações com biologia, etologia, ecologia, aumento da capacidade de suporte do habitat, aperfeiçoamento das técnicas de manejo (re-introdução e translocação) e emprego de educação ambiental. Os resultados são tão favoráveis que atualmente, das 4 espécies de micos-leões encontradas na lista de animais ameaçados (IN 03/03), duas passaram da categoria CR (criticamente em perigo) para EN (em perigo), seguindo os critérios da IUCN.

No entanto, as técnicas de translocação e re-introdução também são bastante criticadas. Champbell (1980), revisando a utilização das técnicas de manejo, enfatiza que estas podem disseminar doenças transmitidas pelos animais soltos e sugere a realização de mais estudos após a soltura para acompanhar os animais que, inclusive, podem deixar a área de soltura migrando

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