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2.1.1.2 – RESUMO DOS PRESSUPOSTOS DA RESPONSABILIDADE CIVIL

VIÁRIA E SEUS EFEITOS

2.1.1.2 – RESUMO DOS PRESSUPOSTOS DA RESPONSABILIDADE CIVIL

Para que exista responsabilidade civil é necessário que se verifi quem vários pressupostos22, destacando-se o facto (devido ao comportamento do indivíduo), o nexo de causalidade e o dano actual.

A) O FACTO

O facto consubstancia-se num comportamento humano, acção ou omissão23, onde a vontade é relevante. No caso de responsabilidade civil subjectiva a conduta do indivíduo causador do dano caracteriza-se pela ilicitude, baseando-se na negligência do causante, podendo existir causas que justifi quem ou mitiguem o comportamento ilícito24. No âmbito da responsabilidade civil objectiva o facto gerador dos danos não tem que possuir esta característica.

B) NEGLIGÊNCIA OU MERA CULPA. NEXO DE IMPUTAÇÃO

O resultado danoso pode atribuir-se a uma pessoa a título de dolo ou de negligência. No caso de dolo, existe a intenção de produzir certo resultado objectivo ou, pelo menos, a representação intelectual de uma probabilidade elevada da verifi cação desse resultado danoso. Em geral, a produção de danos em acidentes de tráfego não é intencional. Assim, o foco da nossa análise centrar-se-á no conceito de negligência ou mera culpa, deixando

21 Epstein. A Theory of Strict Liability. Journal of Legal Studies, 1973, Nº 2. Fletcher, G. Fairness and Utility in Tort Theory. Harvard Law Review, 1972, nº 85, p. 537.

22 Jorge, Fernando Pessoa. Ensaio Sobre os Pressupostos da Responsabilidade Civil. Coimbra: Almedina, 1983. 23 Caetano, Marcello, (1965) Manual de Direito Administrativo – Faculdade de Direito de Lisboa, refere que a acção propriamente dita consiste num acto positivo, enquanto que a omissão ou abstenção traduz-se num acto negativo, num não fazer. Mas ambas as formas são actos humanos. A omissão é um comportamento dependente da vontade, que viola um dever jurídico, ou seja, um dever jurídico decorrente de negócio jurídico ou da lei. No direito português a omissão só é ilícita quando exista o dever legal ou contratual de agir.

24 Por exemplo, o exercício de um direito ou o cumprimento de um dever, a legítima defesa, o estado de necessidade e o consentimento da vítima.

de fora o conceito de dolo. Em essência, a negligência consiste na imposição a outrem de um nível de risco “não razoável”. Diferentemente do dolo, a intenção do agente é irrelevante para a qualifi cação do comportamento negligente25.

C) DEVER RECONHECIDO POR LEI

Para a imputação de responsabilidade civil fundada em negligência requer-se que exista um dever reconhecido por lei, isto é, uma norma jurídica que imponha a obrigação de acatamento de uma conduta padrão. Deste modo, evitam-se riscos não razoáveis para terceiros e garante-se a protecção dos interesses protegidos por a lei.

D) ILICITUDE

A conduta do indivíduo é ilícita quando não se ajusta ao padrão estabelecido por lei26. Isto signifi ca que, se uma pessoa realiza um acto negligente e não existe um dever jurídico vinculado a ele, não terá lugar a atribuição de responsabilidade civil baseada na culpa27.

E) IMPUTABILIDADE

A noção de culpa implica a ideia de censura ou reprovação da conduta do indivíduo, requerendo-se, em consequência, a imputabilidade. Para que esta exista é necessário que a pessoa tenha capacidade intelectual e emocional, ou seja, discernimento e capacidade volitiva, isto é, que tenha liberdade de determinação. É necessário o entendimento e a vontade estarem reunidos para que haja culpa. Sem estes dois pressupostos, não existe imputabilidade, não existe negligência.

Na hipótese da responsabilidade civil subjectiva, a culpa, entendida como responsabilidade moral, que implica, em termos jurídicos tradicionais, um juízo de desvalor, de censura, é a base da responsabilização do indivíduo pelos danos causados a outrem (externalidades, em termos económicos). Contudo, não se deve identifi car a noção de imputabilidade no âmbito criminal com a correspondente noção no âmbito civil.

Na responsabilidade civil objectiva a noção de imputabilidade deve ser entendida como o desvio de uma conduta padrão de um indivíduo, requerida pela sociedade 25 Emanuel, Steven L., Torts. 5ª ed. Publishing Company, 1984, p. 84.

26 Varela, A. Das Obrigações em Geral. 9ª ed. Coimbra: Almedina, 1989, p. 548 e ss. Costa, M. J. de Almeida. Direito das Obrigações. 7ª ed. Coimbra: Almedina, 1991, p. 502 e ss.

27 A ilicitude pode ser entendida de forma objectiva como a violação de um direito de outrem: “não basta a prática de um acto lesivo de interesses alheios, nem sequer a violação de qualquer norma jurídica que apenas de forma indirecta ou refl exa os proteja.” Varela, A. Ibid., p. 548 e ss. A culpa, em sentido lato, consiste na imputação do facto ao agente, defi nindo um nexo de conexão entre o facto ilícito e uma certa pessoa.

para protecção dos interesses dos membros dessa mesma sociedade, mesmo que esse desvio seja não censurável em termos morais, ainda que não haja, como acontece no comportamento de uma criança, ou nos casos em que uma pessoa agindo de boa fé, ou nos casos de pessoas não imputáveis em termos jurídico-morais28. Neste sentido, relevante para a responsabilidade civil objectiva, a imputabilidade desprende-se do juízo de valor de censura para assumir um contorno objectivo de causa ou concausa de acontecimento29, mas sendo ainda, em termos objectivos, um comportamento desviante do ideal de conduta. Com efeito, existem muitas situações nas quais uma pessoa que exerce um nível de cuidado óptimo é responsável pelos efeitos (danos) de um erro inteiramente razoável. O nexo de imputação objectivo ou pelo risco é a ligação do facto ao indivíduo, como fundamento causativo, sem juízo valorativo.

F) A CONDUTA PADRÃO

Se a culpa, considerada apenas na sua forma de negligência, é um juízo de reprobabilidade, de censura pessoal sobre a conduta do agente, conduta traduzida num nível de diligência inferior ao que é considerado razoável, esse juízo terá de ser aferido por uma conduta padrão, havendo necessidade de o determinar. Surge assim a necessidade da utilização de um conceito de pessoa razoável ou bom pai de família.

G) QUE É UMA PESSOA RAZOÁVEL?

A teoria da negligência pressupõe um padrão uniforme de comportamento. Contudo, a imensa variedade de situações da vida humana torna impossível fi xar antecipadamente regras defi nitivas para todas as condutas concebíveis. Na realidade, os indivíduos diferem em aspectos muito relevantes. As normas de responsabilidade civil captam essas diferenças de modo a determinarem os custos com o nível de cuidado dos indivíduos envolvidos nos acidentes de viação afectando a determinação dos padrões de cuidado com base na negligência.

A conduta padrão numa determinada comunidade deve ser externa e objectiva, em vez de ser um julgamento individual, devendo ser a mesma para todas as pessoas mas, ao mesmo tempo, deverá tomar em consideração o risco subjectivo tendo em conta a capacidade do indivíduo para o avaliar, bem como as circunstâncias nas quais se desenvolve a conduta. Quer dizer, a questão da negligência é resultante da resposta à seguinte questão: uma pessoa razoável com prudência ordinária, no lugar do indivíduo concreto que praticou o acto, ter-se-ia conduzido do mesmo modo?

28 É o que deve ser entendido do artigo 505º do Código Civil português. 29 Como acontece, muitas vezes, nos acidentes de viação.

Esta pergunta traduz, na essência, um padrão objectivo, não atendendo à intenção do indivíduo se comportar cuidadosamente, ou pensar que estava a ter um comportamento com um nível de cuidado devido. Tem-se em conta, apenas, o comportamento, a preferência revelada. Claro que o arquétipo da pessoa razoável deverá possuir algumas das características do indivíduo concreto, pelo menos no que respeita a algumas das características físicas, sem o que o padrão de comportamento não estaria aferido e haveria um enviesamento.

Ora, uma pessoa razoável, com um nível de prudência ordinária ou, na linguagem mais correntemente utilizada pela lei e jurisprudência em Portugal, um bonus pater

famíliae, é uma fi cção criada para ajudar a resolver o problema de determinação da conduta

padrão. Com essa fi cção procura-se captar o comportamento requerido ao indivíduo em comparação com o comportamento que essa pessoa ideal teria nas circunstâncias do indivíduo concreto. Esta fi gura mítica personifi ca o ideal de uma comunidade relativamente a um comportamento razoável, que a ser efectivado levaria à maximização da função de

bem-estar social. É certo que a conduta de uma pessoa razoável varia de acordo com as

circunstâncias com as quais o indivíduo é confrontado. Por outro lado, há que atender a atributos subjectivos e objectivos, para defi nir, em cada circunstância, o que é uma pessoa

razoável, destacando-se: