7. Considerações finais e conclusões

7.1 Retomando os objetivos da tese

O objetivo geral da presente tese foi analisar os antecedentes da aprendizagem organizacional, em cursos superiores de tecnologia (tecnólogos), identificando resultados de aprendizagens organizacionais de ciclos simples e duplo e avaliando os resultados destas aprendizagens nos indicadores do MEC (SINAES). Para tanto, foram definidos quatro objetivos específicos: a) identificar práticas que contribuam para processos de aprendizagem organizacional em cursos superiores de tecnologia; b) identificar outputs de aprendizagens organizacionais produtivas de ciclo simples e duplo em cursos superiores de tecnologia; c) relacionar as práticas que contribuem com os processos de aprendizagem nos cursos com os outputs de aprendizagens organizacionais produtivas de ciclo simples e duplo e o desempenho do curso nos indicadores do SINAES. Os resultados obtidos revelam que todos eles foram atingidos.

A consecução do primeiro objetivo específico – identificar práticas que contribuam para processos de aprendizagem organizacional em cursos superiores de tecnologia – iniciou com a realização de uma pesquisa qualitativa exploratória com coordenadores de cursos superiores de tecnologia e culminou com a pesquisa quantitativa com professores dos cursos. Na etapa qualitativa, sete categorias de práticas emergiram, sendo que, com auxílio da técnica estatística de análise fatorial exploratória, o número de sete categorias manteve-se, com pequenas modificações. As sete categorias finais foram: 1) rotinas, sistemas, estruturas e estratégias; 2) parcerias com empresas e organizações; 3) ações decorrentes do SINAES; 4) contatos pessoais dos docentes com não acadêmicos; 5) conversas informais entre docentes do curso; 6) estágios e atividades práticas realizadas pelos alunos; 7) reuniões informais dos docentes do curso dentro ou fora da IES. Entende-se que essas sete categorias finais traduzem os principais antecedentes da aprendizagem organizacional nos cursos superiores de tecnologia, o que é indicado pela análise fatorial, a qual expõe que aproximadamente 69% do fenômeno podem ser explicados por estes sete fatores.

A identificação destes constructos de antecedentes da aprendizagem organizacional em cursos superiores de tecnologia apresenta contribuição teórica e gerencial. A contribuição teórica está na identificação e na validação de uma escala para mensurar a aprendizagem organizacional no ambiente de educação profissional, em nível superior, adequada à realidade brasileira dos cursos superiores de tecnologia. Como contribuição gerencial, o conhecimento destes aspectos pode ajudar os gestores de curso a fomentar a aprendizagem organizacional.

A consecução do segundo objetivo específico – identificar outputs de aprendizagens organizacionais produtivas de ciclo simples e duplo em cursos superiores de tecnologia – seguiu os mesmos passos metodológicos realizados no primeiro objetivo específico. A pesquisa qualitativa identificou cinco diferentes tipos de aprendizagens produtivas de ciclo simples e quatro de ciclo duplo. A análise fatorial exploratória manteve todas as variáveis identificadas na fase qualitativa, porém uma das variáveis de ciclo duplo foi eliminada na análise fatorial confirmatória.

Os outputs de aprendizagem identificados como aprendizagens produtivas de ciclo simples foram: 1) atualização da matriz curricular; 2) alterações nos sistemas de avaliação; 3) alteração, inclusão ou exclusão de atividade teórico-prática; 4) alteração, inclusão ou exclusão de atividade prática; 5) alteração de ementas ou conteúdos programáticos. Os outputs de aprendizagem identificados como aprendizagens produtivas de ciclo duplo foram: 1) criação de novo curso; 2) implantação de atividades ou práticas pedagógicas totalmente novas; 3) reformulação profunda da matriz curricular; 4) reformulação do perfil do egresso. A criação de novo curso foi excluída na análise fatorial confirmatória.

A identificação de outputs da aprendizagem organizacional em cursos superiores de tecnologia representa contribuição teórica para o contexto científico no Brasil, pois podem ser utilizados como indicadores de resultado da aprendizagem, relevantes para a inovação e para a criação e manutenção de resultados em ambientes competitivos (PALADINO, 2007, CALANTONE; CAVUSGIL; ZHAO, 2002). Como contribuição gerencial, os outputs podem ser utilizados como indicadores para acompanhamento estratégico da gestão dos cursos, ressaltando-se que o ambiente educacional brasileiro está cada vez mais competitivo, com atuação de players nacionais tradicionais, crescimento acentuado de novos players nacionais e entrada de players internacionais de grande porte.

Para a consecução do terceiro objetivo específico desta tese – relacionar as práticas que contribuem com os processos de aprendizagem nos cursos com os outputs de aprendizagens organizacionais produtivas de ciclo simples e duplo e o desempenho do curso nos indicadores do SINAES – foi utilizada análise por meio de modelagem de equações estruturais. Por este

procedimento, validou-se a relação de todos os sete construtos de antecedentes ou práticas que contribuem para a aprendizagem organizacional, em cursos superiores de tecnologia, ou com aprendizagens organizacionais produtivas, ou com resultados do curso em indicadores de desempenho do MEC. Seis deles foram relacionados de forma positiva e um de forma negativa, o que evidencia a ideia de Argyris e Schön (1996, p.3), de que “todas as organizações aprendem, para o bem ou para mal”. Em outras palavras, a aprendizagem organizacional, sendo fenômeno social, pode ser incentivada, mas nem sempre seus resultados serão aqueles esperados.

O constructo ‘ações decorrentes do SINAES’, que incluía a interpretação dos resultados do curso no SINAES como ferramenta de análise do curso para implementação de melhorias, foi o que mostrou maior impacto nas aprendizagens organizacionais produtivas, sendo o único constructo que apresentou relação positiva e estatisticamente significativa tanto em aprendizagens de ciclo simples como nas de ciclo duplo. No caso do impacto nas aprendizagens de ciclo simples, o constructo apresentou a maior carga estatística dentre todas as hipóteses suportadas, com valor de 0,341. Neste sentido, a lógica apresentada pelo MEC e pelo SINAES, que inclui a Comissão Própria de Avaliação e o Núcleo Docente Estruturante como parte importante do sistema, acompanhando resultados e implementando melhorias, mostra-se relevante, com efetiva relação com a aprendizagem organizacional nos cursos. Evidencia também que, considerando o SINAES como aspecto regulatório, as mudanças e inovações nos cursos superiores de tecnologia estão em linha com o que ocorre em ambientes educacionais de outros países, já que achados em estudos realizados em diferentes nações mostraram que o marco regulatório é o mais impactante para a realização de mudanças e inovações (LO; GU, 2008; CHENG, 2009; NIU, 2009; WONG; CHEUNG, 2009; BISSCHOFF, 2009, MITSOPOULOS; PELAGIDI, 2010; PYHÄLTÖ; SOINI; PIETARINEN, 2011, MARSH; STRUNK; BUSH, 2013; STOLL, 2013; GAMLATH, 2013; MCCORMICK; AYRES, 2009).

As práticas para aprendizagem do constructo ‘reuniões informais dos docentes dentro ou fora da IES’ mostram-se significantemente relacionadas às aprendizagens organizacionais produtivas de ciclo duplo e com o desempenho do curso na avaliação do MEC (CPC ou CC). Este constructo emergiu a partir da análise fatorial, que diferenciou este tipo de ação informal do constructo de conversas informais. Considerando que reuniões são momentos de interação mais intensa do que conversas, este achado reforça a ideia de que o aprendizado é favorecido pela interação social (BENTE; ELKAJER, 2011; ANTONELLO; GODOY, 2011), desenvolvendo experiências e conhecimento pelo questionamento de indivíduos comprometidos, que se sintam parte daquele mundo social (BRANDI; ELKJAER, 2011).

O constructo ‘parcerias com empresas e organizações’ apresentou relação positiva e estatisticamente significativa com as aprendizagens produtivas de ciclo simples. O resultado indica que os cursos buscam, em seus parceiros, meios para atingir objetivos já estabelecidos, porque aprendizagens produtivas de ciclo simples são incrementais, conferindo melhor eficiência ou eficácia para o alcance de objetivos, sem alterar a teoria em uso na organização (ARGYRIS; SCHÖN, 1996). Pelo potencial descrito na literatura para aprendizagem a partir do relacionamento com parceiros externos (ARGYRIS; SCHÖN, 1997, ROBST; BÜCHEL, 1997, CALLAHAN; MARTIN, 2007, BERCOVITZ; FELDMAN, 2007, PALADINO, 2007, CROSSAN; LANE; WHITE, 1999), esperava-se que as parcerias estivessem também relacionadas significativamente às aprendizagens de ciclo duplo, promovendo também aprendizagens em que a teoria em uso fosse questionada e substituída, o que não ocorreu.

As práticas relativas ao constructo ‘rotinas, sistemas, estruturas e estratégias’, que foi composta por variáveis observáveis, as quais incluíam a influência de reuniões periódicas de equipe, de rotina e os procedimentos estabelecidos pela gestão da instituição de ensino ou do curso, do planejamento estratégico (ou o PDI – Plano de Desenvolvimento Institucional), de estruturas pedagógicas da instituição de ensino e de sistemas, mostraram contribuição para os resultados do curso no desempenho dos alunos no ENADE. As práticas deste constructo reforçam os processos de feedback, propostos por Crossan, Lane e White (1999), e sugerem que aprendizados organizacionais são institucionalizados, passando a contribuir, por meio de processos de interpretação e integração, para a aprendizagem de grupos e indivíduos da organização. No entanto, são também uma forma de as organizações apresentarem continuidade, sendo um meio pelo qual os indivíduos aprendem e repetem os comportamentos esperados, podendo não ser favorável à inovação (NELSON; WINTER, 2002).

O constructo ‘contato com profissionais não acadêmicos’ mostrou-se positivamente relacionado ao desempenho do curso no ENADE. O contato dos docentes com profissionais não acadêmicos contribui com sua atualização sobre a realidade do mundo do trabalho e sobre as atuais competências profissionais por ele requeridas. Sendo a formação de competências profissionais alinhadas às necessidades no mundo do trabalho uma das principais premissas das diretrizes curriculares dos cursos superiores de tecnologia (CNE/CES, 2001) e a mensuração do desenvolvimento destas competências foco do ENADE, percebe-se que este contato é positivo.

Ainda três práticas mostram-se estatisticamente significativas, mas com relação inversa ao esperado, impactando negativamente os resultados. As aprendizagens produtivas de ciclo duplo apresentam relação inversa com a nota do curso no CPC ou CC, o que pode indicar

que cursos com desempenho ruim no CPC ou CC tenham buscado redefinir seus objetivos, alterando a teoria em uso na busca de melhores resultados. O constructo ‘conversas informais entre docentes do curso’ mostrou-se com relação inversa e estatisticamente significativa, tanto nos resultados do desempenho dos estudantes no ENADE quanto do curso no CPC ou CC. Esta relação pode indicar que: a) a partir do desempenho ruim, aprendizagens organizacionais estão sendo geradas por meio de conversas informais entre o grupo de docentes do curso, visando a melhorias nos resultados, os quais, porém, ainda não foram mensurados no ciclo avaliativo do SINAES; ou b) as aprendizagens organizacionais geradas a partir das conversas informais estão na contramão dos objetivos do curso e do sistema educacional, que tem seus parâmetros expressos nos instrumentos avaliativos do MEC. O constructo ‘ações decorrentes do SINAES’ apresentou impacto negativo no resultado do desempenho dos estudantes no ENADE, o que pode ser indicativo de que cursos com desempenho ruim no ENADE estejam buscando ajustes em suas práticas, visando a ganhos de eficiência e eficácia por meio da implementação de inovações incrementais, associadas às aprendizagens de ciclo simples. O teste de correlação bivariada entre as variáveis não mostrou, contudo, significância estatística suficiente para sustentar estas explicações, sendo necessários estudos futuros para explorar e confirmar os motivos da relação negativa.

A identificação do impacto dos antecedentes da aprendizagem organizacional nos resultados é relevante teórica e gerencialmente. Do ponto de vista teórico, contribui com um framework de análise do fenômeno da aprendizagem organizacional ancorado em pesquisa empírica, no setor educacional do Brasil, especificamente no âmbito dos cursos superiores de tecnologia. Isto vai ao encontro da sugestão de Easterby-Smith e Lyles (2011) de ampliar os estudos na área em diferentes contextos nacionais ou setoriais. Do ponto de vista gerencial, os achados podem subsidiar decisões de gestores de cursos, de instituições de ensino ou de políticas públicas educacionais, indicando as práticas que mais impactam em cada tipo de resultado. A Figura 16 apresenta as relações positivas e negativas identificadas a partir da análise dos dados.

Figura 16 - Relações positivas e negativas encontradas

Fonte: dados da pesquisa, elaborado pelo autor.

A análise conjunta destes objetivos permite a apresentação de algumas implicações teóricas e gerenciais sobre o estudo, apresentadas na próxima seção.

No documento Antecedentes da aprendizagem organizacional em cursos superiores de tecnologia : a experiência brasileira (páginas 188-193)