Risco ao processo democrático via interferência entre os poderes

No documento JUDICIALIZAÇÃO DA SAÚDE NO BRASIL: (páginas 27-30)

2.4 Aspectos Positivos e Negativos da Judicialização

2.4.2 Aspectos negativos:

2.4.2.1 Risco ao processo democrático via interferência entre os poderes

Segundo as disposições do artigo 2º do próprio texto constitucional, a República Federativa do Brasil é composta por três Poderes da União, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, que devem ser independentes e harmônicos entre si.

Porém, nos dias que seguem a pretendida harmonia não tem se verificado. O Poder Judiciário, como foi visto, vem, nas últimas décadas, intensificando sua atuação na sociedade e na política brasileira, na promessa de garantir a supremacia dos direitos

28 fundamentais, cujo direito a saúde é o que nos interessa. E nessa “tarefa” acaba por interferir em seara que não é de sua competência, em uma atitude mais negativa do que positiva, abalando a divisão dos poderes, principio básico de qualquer democracia.

É acurado que o direito a saúde deve ser garantido pelo Estado, estrutura da qual o Judiciário faz parte, todavia essa proteção é feita mediante políticas sociais e econômicas, que por sua vez são atributos do Poder Executivo.

Isso não significa, no entanto, que o judiciário não deve atender aos anseios da população que estiver sofrendo lesão ou ameaça ao direito de acesso a saúde, haja vista o princípio da inafastabilidade jurisdicional previsto no art. 5.º, XXXV, da Constituição Federal. E sim fazê-lo de maneira mais comedida e assegurada, sem interferir em ações próprias da Função Executiva como tem acontecido.

O indigitado fenômeno da Judicialização da Saúde, com toda sua singularidade permitiu que, no caso, o Poder Judiciário, que não tem capacidade institucional para decidir qual o tipo de medicamento e ou tratamento a que teria direito o cidadão, decida em contraponto aos Poderes cujo papel é definir e implementar politicas publicas que garanta os chamados direitos fundamentais, dentre eles o direito à saúde. (ALVES, 2016)

Direito que implica a questão da justiça distributiva, e se pauta em uma gama de princípios que vão além da universalidade e integralidade. É medida que necessita para a sua garantia eficaz a conjugação de necessidades da população como um todo.

O direito a saúde é um direito que não pertence a uma pessoa só, é uma politica que esta a disposição de todos ao mesmo tempo, é algo coletivo e não individual. Em termos práticos cada um vai ter um atendimento individual, mas a politica é fornecida e idealizada de forma coletiva, e é o poder executivo que traça diretrizes mediante ações político-sociais para tanto.

Diferentemente dos juízes, são os gestores públicos que possuem informações e assessoramento específicos para a formulação dessa governação. Tudo é feito através de uma ótica macrossistêmica, que data máxima vênia é desconhecida pelos magistrados, onde há direcionamento de esforços, programas e recursos, que estão sujeitos à aprovação orçamentária pelos poderes legislativos de cada ente federativo. (ALVES, 2016)

29 2.4.2.2 Impacto Orçamentário

No que tange a questão orçamentária, é inegável o significativo impacto que as decisões judiciais de cunho individual exaradas com fulcro no direito a saúde provocam na destinação dos recursos financeiros.

E isso ocorre porque o Estado, mais precisamente sua função executiva, a quem incumbiu a Constituição Federal de garantir mediante políticas sociais e econômicas o direito a saúde, desempenha seus papeis com base em cronogramas e orçamentos, nos quais existe uma fixação de gastos para determinados exercícios. E estes orçamentos não são capazes de antever integralmente o impacto financeiro das ações ajuizadas que exigem uma obrigação de fazer do poder público.

Todo o planejamento da Administração Pública é feito com base em três instrumentos normativos, o Plano Plurianual – PPA, a Lei de Diretrizes Orçamentárias – LDO e a Lei Orçamentária Anual – LOA, cuja competência é de iniciativa do Poder Executivo por força do artigo 165 da Constituição Federal de 1988, in verbis:

Art. 165. Leis de iniciativa do Poder Executivo estabelecerão:

I - o plano plurianual;

II - as diretrizes orçamentárias;

III - os orçamentos anuais.

De acordo com os ensinamentos de Vander Gontijo, Economista e Consultor de Orçamentos e Fiscalização Financeira da Câmara dos Deputados, o PPA, com vigência de quatro anos, tem como função estabelecer as diretrizes, objetivos e metas de médio prazo da administração pública. Cabe à LDO, anualmente, enunciar as políticas públicas e respectivas prioridades para o exercício seguinte. Já a LOA tem como principais objetivos estimar a receita e fixar a programação das despesas para o exercício financeiro. Assim, a LDO ao identificar no PPA as ações que receberão prioridade no exercício seguinte torna-se o elo entre o PPA, que funciona como um plano de médio-prazo do governo, e a LOA, que é o instrumento que viabiliza a execução do plano de trabalho do exercício a que se refere.

No que tange o financiamento da saúde brasileira, o artigo 198, §1º, da Constituição Federal de 1988, dispõe que o sistema único de saúde será financiado, nos termos do art.

195, com recursos do orçamento da seguridade social, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, além de outras fontes.

O artigo 195 § 2º, da Lei Maior, por sua vez, institui que a proposta de orçamento da seguridade social será elaborada de forma integrada pelos órgãos responsáveis pela saúde,

30 previdência social e assistência social, tendo em vista as metas e prioridades estabelecidas na lei de diretrizes orçamentárias, norma responsável por indicar as políticas públicas e as prioridades do exercício financeiro seguinte.

Então, dentro de todo este contexto de planejamento, as decisões judiciais debatidas acabam destituindo a administração pública da capacidade de projetar seus gastos da maneira apresentada, circunstância que compromete a eficiência administrativa no atendimento ao cidadão que não figura no processo em juízo.

Para Barroso (2009) as decisões individuais atendem às necessidades imediatas do jurisdicionado, mas, coletivamente dificultam a otimização das possibilidades estatais no que toca à promoção da saúde pública.

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