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Capítulo 2: Entre a memória e a história

2.3. Riscos e desafios

A Mesa Diretora da Câmara Municipal do Rio aprovou, em agosto de 2001, a Resolução 890 constituindo Comissão Especial para estudar e propor os procedimentos necessários ao resgate, sistematização e divulgação da memória documental do Poder Legislativo carioca, presidida pelo vereador Edson Santos (PT). Após oito meses de funcionamento, a Comissão foi encerrada com a publicação de um relatório de atividades, com os itens discutidos para a viabilização de um projeto de resgate da memória do Legislativo Carioca aos moldes do Núcleo de Memória Política Carioca e Fluminense da Assembléia Legislativa do Rio (Alerj).

Nesse relatório, a Comissão divulgou um conjunto de iniciativas culturais para o Palácio Pedro Ernesto, que poderiam ser adotadas como forma de resgatar a memória política da cidade do Rio de Janeiro, após uma breve apuração de fatos que denunciavam a Câmara Municipal do Rio de Janeiro como uma instituição que tradicionalmente não era voltada para a preservação de sua memória, como o transcrito abaixo:

“Principais fatos apurados:

apesar de reconhecidamente contar com um acervo histórico, patrimonial e artístico de grande valor, o Palácio Pedro Ernesto não faz parte do roteiro turístico e cultural da cidade. Não existe um programa de visitação pública que permita à população da

cidade e seus eventuais turistas o conhecimento de sua construção, suas obras de arte e sua história política;

não existe um programa oficial de visitas guiadas, que possibilite à população carioca – notadamente os estudantes - conhecer a história do Palácio Pedro Ernesto e o funcionamento do Legislativo municipal, atividade que proporcionaria ao público um maior conhecimento e aproximação com sua casa de leis;

constatou-se a existência de grande número de documentos histórico-políticos referentes ao Legislativo municipal sob a tutela da Assembléia Legislativa do Rio. Entre eles podemos destacar a ata de colocação da pedra fundamental do Palácio Pedro Ernesto, plantas arquitetônicas da obra do prédio e anexo, fotografias, farta documentação referente às comissões parlamentares de inquéritos, de grande importância para a memória política da cidade.

verificou-se a inexistência de um setor responsável pela preservação do patrimônio histórico, artístico, cultural e do acervo de documentos do Legislativo municipal, bem como sua divulgação para o grande público.

Propostas da Comissão:

a aproximação dos oitenta anos da existência do Palácio Pedro Ernesto (ocorrido em 2003) é uma oportunidade ímpar para deflagrar eventos comemorativos que tenham como objetivo divulgar seu patrimônio histórico-cultural e o resgate da trajetória política da cidade do Rio de Janeiro, como, por exemplo, com a publicação de um livro sobre a história do Palácio e os principais acontecimentos ocorridos e uma exposição multimídia permanente reconstituindo a sua trajetória desde a sua fundação, em 1923;

criar um programa permanente de visitas guiadas pelo Palácio Pedro Ernesto visando apresentar os principais acontecimentos do Legislativo municipal, o seu acervo arquitetônico e artístico. O público alvo seriam os alunos das escolas da cidade do Rio de Janeiro e demais grupos de visitantes;

estabelecer convênios com instituições técnico-científicas de notório saber, que permitam a pesquisa, elaboração e implantação dos projetos de resgate da memória política da cidade e das visitas guiadas;

estabelecer uma parceria com a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro que propicie a recuperação do acervo documental referente ao Palácio Pedro Ernesto sob a guarda daquela casa de leis;

criar, no âmbito da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, um núcleo permanente de preservação histórico-político e cultural da cidade que tenha como finalidade a implantação de um conjunto de iniciativas para resgatar a memória política e documental da cidade do Rio de Janeiro e do Palácio Pedro Ernesto.”76

A comissão foi encerrada em 15 de fevereiro de 2002 e, logo depois, nova Resolução (nº 910) constituiu outra Comissão Especial com a mesma finalidade da primeira, com duração de 90 dias para a realização do trabalho, cujos objetivos não foram atingidos. Não há registro nos Diários da Câmara Municipal do encerramento dessa comissão nem qualquer tipo de iniciativa objetiva dentro da Câmara para execução de algum projeto sobre o tema.

Verificamos, portanto, pelo exposto acima, que já houve tentativas, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, de se fazer um trabalho para a formação de um núcleo de memória institucional, trabalho esse que não foi adiante. Investir na formação de um novo campo de pesquisa dentro de uma instituição, com a proposta de criação de um acervo de entrevistas de História Oral como forma de contribuição para se tentar iniciar outra vez a formação desse núcleo permanente de memória, demanda um compromisso profissional que impõe refle xões sobre as vantagens e desvantagens de um investimento de tal ordem, assim como seus riscos e desafios, prós e contras.

O que se espera, com o projeto proposto, é que se reinicie, na Câmara Municipal do Rio, um debate sobre a importância da criação desse núcleo de memória e que a constituição de um acervo de depoimentos orais venha a ser o ponto de partida para operacionalização de outros projetos de registroda memória do Legislativo municipal, além de se constituir em um acervo que facilite o acesso à pesquisa e à recuperação de informações sobre as memórias da Câmara, uma vez que está fundamentado nas histórias

de vida das pessoas que vivenciaram as ações políticas do Rio de Janeiro e contribuíram para o processo de formação e desenvolvimento da Câmara Municipal, ou seja, os parlamentares e os funcionários.

Começaremos com algumas reflexões a respeito das contribuições que a utilização das técnicas de História Oral podem trazer para a reconstituição histórica da trajetória institucional. Primeiramente, a História Oral permite ampliar o conhecimento sobre os fatos e acontecimentos recuperando o que não encontramos em documentos de outra natureza. Permite compreender a sociedade através do indivíduo, estabelecendo relações entre o geral e o particular, e não apenas das estruturas que regulam essa sociedade como seus mecanismos econômicos.

Com a História Oral pode-se, ainda, discernir as diversas formas como o passado é compreendido e interpretado por testemunhas vivas e abrir espaço para explorar temas pouco discutidos. Além disso, pode-se realizar um trabalho de estreita relação entre pesquisa e documentação, pois a História Oral consulta e produz fonte ao mesmo tempo, privilegiando o estudo do contemporâneo.

Em contrapartida, encontramos alguns empecilhos no trabalho com História Oral, como o risco de a entrevista cair no puro relato memorialístico ou laudatório, ou o risco do projeto não conseguir se desenvolver por ser atividade que envolve altos custos com material e equipe multidisciplinar. Acrescentamos a esses fatores a existência da pouca conscientização, por parte de muitas instituições, para os trabalhos com memória e sua importância na gestão de conhecimento, e também para o fato de que a memória tem valor estratégico na instituição, não se resumindo a mero instrumento de marketing político. No caso específico da Câmara Municipal, temos que contar, ainda, com as mudanças políticas decorrentes das eleições a cada quatro anos, o que não garante a continuidade de um trabalho desse porte, e que, às vezes, contribuem para interromper projetos que já estão em andamento.

A preocupação em realizar entrevistas de História Oral com perspectiva de transformá -las em fontes para o estudo da história e, portanto, um acervo a ser criado, faz com que não se percam de vista, principalmente, certas observações em relação ao padrão das entrevistas. Para isso, este programa tem meios de proceder à seleção criteriosa dos entrevistados, priorizando os diferentes anos das legislaturas. O programa iniciará com a primeira legislatura, seguindo cronologicamente as demais.

A técnica de se fazer cruzamento entre a biografia pessoal e a conjuntura política, cultural e econômica da cidade e do país e partir para novas visões e interpretações preservadas pela memória do vereador também será fator positivo, uma vez que vai contribuir para que as entrevistas não caiam no lugar comum ou se transformem em entrevistas celebrativas, e deve funcionar para preservar a qualidade do trabalho, que se apoiará em roteiros consistentes para produzir conhecimento histórico.

Pois a proposta é de se construir um acervo importante para a cidade do Rio de Janeiro através da produção de fontes de pesquisa significativas, fontes que apresentem diferenciais aos pesquisadores e que realmente se destaquem dos atuais estudos sobre a Câmara do Rio, em geral reduzidos à crônica dos acontecimentos ao longo do tempo. O registro oral mostra-se, nesse caso, como possibilidade singular de recuperar um passado que deixou muitos poucos traços nas obras escritas.

Como a proposta é fazer um trabalho sobre a trajetória da Câmara Municipal criada com o novo município do Rio de Janeiro a partir da fusão, fundamental levar em consideração que grande parte dos vereadores e funcionários que participaram da formação e do desenvolvimento dessa Câmara ainda é viva e dispõe de possibilidade de preservar o registro de memória da instituição e da política carioca para passá-lo adiante em viva voz. Uma das vantagens do registro oral é justamente permitir a preservação da experiência histórica tal como foi experimentada por quem a viveu e permitir a construção de versões da trajetória histórica da instituição política.

Um dos grandes desafios deste trabalho, no entanto, é o de imprimir uma nova cultura e nova mentalidade numa instituição bem pouco voltada para a preservação de sua memória, com uma nova perspectiva de trabalho, através da introdução de uma metodologia de trabalho que visa a busca de novas fontes de informação. A abordagem do objeto de estudo seguirá uma perspectiva mais histórico-sociológica e, como já afirmamos, não meramente memorialística, tentando captar, através das entrevistas, os mecanismos de negociação política, os processos de modernização da administração pública, as dinâmicas internas de funcionamento da instituição, os formatos organizacionais de uma instituição política, o percurso institucional à luz da análise do comportamento social.

O sucesso do banco de depoimentos orais vai depender, portanto, de um ótimo trabalho com as fontes tradicionais de estudo e da elaboração de excelente roteiro para que as entrevistas não produzam informações sem consistência ou que já sejam de domínio público. Acredito que, dessa forma, as entrevistas serão frutíferas, uma vez que a documentação referente à Câmara é muito pouca e as entrevistas poderão render boas histórias. A elaboração de um bom roteiro pode fornecer caminhos para áreas de investigação ainda não cobertas por outras fontes ou cobertas de forma superficial.

O sucesso do banco vai depender, também, do entrevistado, que deve dispor de tempo suficiente para dar uma entrevista rica, da sua boa vontade, da sua memória e capacidade de reflexão. E dos limites de interferência do entrevistado no comprometimento do projeto, colaborando para que suas informações sejam valiosas. O entrevistador, por outro lado, deve ter conhecimento exaustivo do tema a ser explorado, autonomia no seu trabalho intelectual e domínio do jargão profissional, habilidades que o preservem de realizar entrevistas inconsistentes, cheias de clichês e generalidades, para conseguir construir um banco de depoimentos que permita não só divulgar o papel da instituição e de seus membros, como ser de utilidade para os pesquisadores que tenham interesse em fazer estudo crítico sobre o tema.

Nesse sentido será primordial, também, um controle técnico eficaz do acervo para que realmente se transforme em fonte adicional de pesquisa que vise ampliar o

conhecimento sobre a política carioca e que possa gerar produtos úteis como livros, CD- Roms, vídeos e exposições, vindo de encontro às propostas do conjunto de iniciativas para a formação de um núcleo para o resgate da memória política e documental da cidade do Rio de Janeiro e do Palácio Pedro Ernesto.

Creio que, apesar das dificuldades a serem enfrentadas na implantação de um Programa de História Oral na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, a iniciativa deve ser adotada com todos os cuidados que um compromisso de tal ordem impõe, uma vez que esse acervo, se vier a ser bem desenvolvido, poderá trabalhar em prol de uma maior democratização da informação, não só dentro da instituição como na sociedade em geral.

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