6.2 Sobre o potencial de aceitação dos valores e propostas veiculados
6.2.3 Riscos se as propostas do decrescimento se impusessem
Jean Gadrey vislumbra que poderiam ocorrer dois riscos: 1) o aumento das desigualdades, e 2) o aumento do desemprego, já que num sistema produtivista, se não houver aumento da produção, os ganhos de produtividade só gerariam desemprego. Uma verdadeira transição ecológica – investindo massivamente na isolação térmica, para reduzir a conta de energia, em vez de multiplicar o número de centrais de geração, por exemplo – ameaçaria empregos. Isso não pode ser subestimado, dever-se-á pensar em possíveis reconversões (RUFFIN, 2015a, p.66).
Listou outras condições para que essa conversão ecológica seja um sucesso e não exclua as classes populares: os custos energéticos – da gasolina, do gás, da eletricidade – das famílias
158 Desde 2012, a ONG Caritas Arquidiocesana promove, no Rio, cursos de gestão comunitária e sustentabilidade ambiental, em parceira com Universidades locais (das quais a UFRJ).
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mais modestas não podem ser aumentados (já que representa uma carga alta de seu orçamento, 15% em média na França em 2015); e a proteção do emprego deve ser uma premissa – ou seja, embora certos setores encerrassem suas atividades, uma produção mais limpa e mais social criaria empregos, já que requer mais horas de trabalho (RUFFIN, 2015a, p.36). Para conquistar todos os eleitores de esquerda – e de baixa renda – a politica ambiental proposta não pode parecer antissocial, o que é o dilema ainda hoje.
Segundo ele, para evitar tais efeitos – o aumento das desigualdades e o aumento do desemprego - devem ser implementados:
- o compartilhamento do trabalho e das rendas (como ele citou em exemplo, a política das 35 horas na França não prejudicou sua competitividade);
- políticas de transição ecológica e social, baseada na agricultura, energias renováveis, isolação térmica dos edifícios, etc.
Segundo Jean Gadrey e François Ruffin, é necessário evitar o risco da sedução dos “grandes projetos”: são geradores de empregos, mas investimentos públicos a fundo perdido, já que podem se tornar elefantes brancos. “Essa invocação do emprego vem, conscientemente ou não, de uma mentira rotinizada. Uma mentira que as ciências sociais deveriam desmontar. Mas, hoje, a economia desempenha a função contrária: a de firmar cientificamente uma mentira” (RUFFIN, 2015a, p.40).
Emilio Lèbre La Rovere também apontou o risco de aumento de desemprego, já que o emprego esta vedado a findar com o advendo das mudanças tecnológicas ditas disruptivas - “a indústria 4.0, as novas tecnologias de Inteligência Artifical, a robotização”, por exemplo - , com a redução de postos de trabalho.
Para Agnès Sinaï, ao contrário, não existe este risco de desemprego. De acordo com as propostas de Philippe Bihouix, ela pensa que seria possível reabilitar certos empregos, em substituição às máquinas; no setor agrícola, empregos decentes poderiam ser criados pela ‘desmaquinização’ também. Esta alternativa está contrária à linha defendida por Bernard Stiegler, que considera isso como um retrocesso. Para ele, é um contrassenso tentar ir contra o progresso tecnológico; deve-se aceitar as máquinas e os cobôs, mas manter as pessoas capacitadas e recebendo uma remuneração contributiva.
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Por outro lado, Agnès Sinaï vislumbra que “haveria menos fluxos mundiais, haveria mais proteccionismo, haveria entidades regionais do tipo biorregioes muito menores”. Embora ela tenha certeza que “não implicaria xenofobia (porque é absolutamente necessário que as pessoas possam circular e se mestiçar para serem mais sólidas)”, alguns refratários ao decrescimento podem taxá-lo de ‘projeto reacionário’. Aliás, uma parte da extrema direita começou a se interessar no decrescimento, o que prejudica sua imagem. Parece evidente (para os convencidos) que não é reacionário, por ser um “decrescimento social, aberto e cosmopolito”, mas como já existe esse risco, deverá ser considerado e evitado.
Um certo esforço – ou sacrifício - de mudança comportamental deverá ser assumido. No futuro talvez seja necessário “deixar de viajar de avião” e “vestir roupas mais quentes no inverno, ou usar cadeiras aquecedoras”, em vez de aquecer o quarto inteiro por exemplo. Para Agnès Sinaï, esse “racionamento no consumo de energia” seria um limite a respeitar, limite que vem frustrar certas liberdades comportamentais atuais. Isso pode contrariar nossa tendência natural para o que Bertrand Méheust chama “a pressão do conforto” – “nossa injunção a andar de carro particular, ir esquiar ou viajar para a Tailândia, por exemplo”.159 Embora haja outras opções aceitáveis e nada traumatizantes em termos de qualidade de vida, como as possibilidades de copropriedade, de vivência compartilhada (no modelo de ‘repúblicas’ no Brasil), pode ser uma barreira difícil a vencer para nosso imaginário coletivo, segundo Agnès Sinaï.
Para Enrique Ortega (que parece pertencer ao grupo catastrofista dos decrescentistas), não há risco no decrescimento. Só há riscos se não nos orientarmos para esse decrescimento: corremos o risco do “colapso da civilização ocidental”. O fim do emprego não depende das políticas de decrescimento, o desemprego já tende a aumentar. As propostas decrescentistas, ao contrário, preconizam um redução do tempo de trabalho que podem favorecer o emprego.
Se não houver mudança nas tendências atuais, ao contrário, corre-se o risco de que os impactos sociais e ambientais do modelo produtivista atual continuem aumentando, entre os quais o empobrecimento da população e a exclusão social, que talvez sejam entre os mais
159 Bertrand Méheust, no livro “La politique de l’oxymore”, mostra como nossas normas de conforto e a pressão que implicam sobre o meio ambiente são incompatíveis com uma pegada ecológica sustentável. Só uma pressão exterior a nós mesmos pode nos fazer limitá-las (MEHEUST, 2009, p. 48-53).
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aparentes. O forte aumento dos moradores de rua nos grandes centros urbanos, tanto no Brasil (+150% entre 2007 e 2017 no Rio de Janeiro) 160 quanto na Europa161 é uma evidência desse fenômeno. Isso denota que o modelo atual não permite cumprir com os princípios de igualdade, solidariedade e ajuda mútua, aos quais se propõe.