U MA TOPOGRAFIA DA VIAGEM EM J ORGE L UIS B ORGES

2.2 U M ROTEIRO, UM A LEPH

Desde que a cegueira acometeu Borges, era através do minucioso exercício da memória que ele relia livros, quando um “outro” fazia a leitura em voz alta, e elaborava seus textos, repetindo a um escriba várias vezes as palavras e/ou frases até chegar à versão final, como um rapsodo.188 Em “Um estilo, um aleph”, Eneida Maria de Souza trata o tema da cegueira na obra borgiana e o vê transformado em “poética do fragmento, do aleph, do suplemento e do crepúsculo, além de aspirar imaginariamente à plenitude da visão totalizante do universo”.189

187

BORGES. O Aleph, p. 686-698. 188

SOUZA. O século de Borges, p. 64. 189

Essa visão totalizante foi, talvez, inaugurada no célebre conto “O Aleph”, cuja figura faz alusão à primeira letra do alfabeto hebraico e a todo seu campo semântico e sua infinitude. Resultado da leitura borgiana da Divina Comédia, o conto foi escrito num momento em que a privação do sentido da visão acomete o escritor, que vê, numa fração de segundo, o reflexo de seu passado: a frustração da relação amorosa com Beatriz Viterbo. Sem alusão explícita à obra dantesca, o conto é interpretado por Emir Rodríguez Monegal como uma redução parodística da Divina Comedia, em que “‘Borges’ é Dante, Beatriz Viterbo é Beatrice Portinari [...] e Carlos Argentino Daneri é por vezes Dante e Virgílio. Seu nome Daneri é uma abreviatura de Dante Aligheri; como Virgílio, é um poeta didático e um guia para a visão do mundo”.190

O poeta mantinha um Aleph no porão de sua casa, e, a partir dele, almeja escrever o poema “Terra”, uma epopéia topográfica cujo objetivo era “versificar toda a rendondez do planeta”. Entre as idéias de Daneri, estava a defesa do homem moderno, para o qual “o ato de viajar era inútil”. Segundo ele, “nosso século XX só tinha transformado a fábula de Maomé e da montanha; as montanhas, agora, convergiam para o moderno Maomé”.191 A viagem, para esse homem, seria desnecessária porque ele estava provido de instrumentos – rádio, telefone, cinema, glossários, boletins, fonógrafos – que o permitiam chegar às coisas, à “montanha”. A obra descritiva do planeta seria também um desses instrumentos e a representação de todo o universo, mas só se efetivaria se o “Aleph” fosse mantido em seu lugar original.

190

MONEGAL, Borges: una biografia literaria, p. 372-373. “‘Borges’ es Dante, Beatriz Viterbo es Beatrice Portinari [...] y Carlos Argentino Daneri es a la vez Dante y Virgilio. Su nombre Danere es una abreviatura de Dante Aligheri; como Virgilio es un poeta didático y un guia para la visión del mundo.” (Tradução minha)

191

O “Aleph” foi apresentado a “Borges”, que o viu como uma pequena esfera que continha todo o espaço cósmico, o infinito. A brilhante visão/localização motiva a impossibilidade de descrição desse espaço:

Então vi o Aleph. [...] começa aqui o meu desespero de escritor. Toda linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartem; como transmitir aos outros esse infinito Aleph, que minha tímida memória mal e mal abarca? [...] Mesmo porque o problema central é insolúvel: a enumeração, sequer parcial, de um conjunto infinito. Nesse instante gigantesco, vi milhões de atos agradáveis ou atrozes; nenhum me assombrou mais que o fato de que todos ocupassem o mesmo ponto, sem superposição e sem transparência. O que meus olhos viram foi o simultâneo; o que transcreverei será sucessivo, pois a linguagem o é. Algo, entretanto, registrarei.192

A tentativa desse “registro” empreendido pelo narrador-escritor é comparada por Edward Soja, em Geografias pós-modernas, ao “exercício ambicioso de descrição geográfica crítica, de traduzir em palavras a espacialidade abrangente e politizada da vida social”.193 Para o geógrafo norte-americano, a obstinação da visão geográfica é simultânea e a linguagem, dada ao fluxo linear de sua elocução, é sucessiva e limitada pela restrição espacial que dois objetos (ou palavras) têm de ocuparem o mesmo lugar (ou página). “Tudo que podemos fazer”, escreve o geógrafo, “é recompor e justapor criativamente, num experimento, com afirmações e inserções do espacial no

192

BORGES. O Aleph, p. 695. “Entoces vi el Aleph. [...] empieza, aquí mi desesperación de escritor. Todo lenguage es un alfabeto de símbolos cujo ejercicio presupone un pasado que los interlocutores comparten; ¿como transmitir a los otros el infinito Aleph, que mi temerosa memoria apenas abarca? [...] Por lo demás, el problema central es irresolubre: la enumeración, siquiera parcial, de un conjunto infinito. En ese instante gigantesco, he visto millones de actos debitables o atroces; ninguno me assombro com el hecho de que todos ocupan el mismo punto, sin superposición y sin transparencia. Lo que vieron mis hojos fue simultâneo: lo que transcrebiré, sucesivo, porque el lenguage lo es. Algo, sin embargo, recogeré.” BORGES. Obras Completas v. 1 [1989], p. 624-625.

193

veio preponderante do tempo”.194 Nesse sentido, a noção da espacialidade da esfera abstrata e concreta, que é o Aleph e sua imagem literária, dialoga com a representação geográfica. Sobre o conto, disse Borges:

“O Aleph” creio que é um lindo conto. “El Aleph” é um ponto do espaço no qual está contido todo o espaço. E isso está tomado da idéia de eternidadade, que é um instante no qual está contido todo o tempo. Eu apliquei ao espaço o que os teólogos aplicaram ao tempo. Vem a ser como uma eternidade do espaço. E logo entrevi outras coisas: havia estado muito apaixonado por Beatriz Viterbo; ela havia morrido... Enfim, pus elementos autobiográficos nesse conto. E como hei de por sempre para que soem convincentes as coisas.195

Ao declarar a existência de elementos autobiográficos entrevistos na narrativa, Borges colabora para o entendimento da figuração do “eu” em seus textos, através das estratégias de ocultamento e revelação.196 A confidência borgiana revela, também, a coexistência da literatura com a filosofia e, porque não, com a geografia.

O tema do infinito atrelado à circunferência remete a outros textos, como aquele que trata a “metáfora geométrica da esfera” como uma das metáforas do universo. Em “A esfera de Pascal”, de 1951, Borges constrói uma historiografia da imagem da “esfera” como metáfora do universo, desde as teologias dos gregos, passando pelos pré-socráticos, Platão, Dante, pelo “desanimado” século XVII, quando o

194

SOJA. Geografias pós-modernas, p. 9. 195

BORGES apud BERNUCCI. Borges no Brasil, p. 86. ‘“El Aleph” creo que es un lindo cuento. “El Aleph” es el de un punto en el espacio, en el cual está contenido todo el espacio. Y eso está tomado de la idea de la eternidad, que es un instante en el cual está contenido todo el tiempo. Yo apliqué al espacio lo que los teólogos han aplicado al tiempo. Viene a ser como una eternidad del espacio. Y luego entreveré otras cosas: había estado muy enamorado de Beatriz Viterbo; ella había muerto… En fin, puse elementos autobiograficos en ese cuento. E como hay que poner siempre para que suenen convincentes las cosas.” (Tradução minha)

196

Leopoldo M. Bernucci entende que a noção de autobiografia na obra de Borges está ligada à busca do autoconhecimento, em que a figuração do “eu” vale-se de estratégias de ocultamento e revelação. Cf. BERNUCCI. Borges no Brasil, p. 77-100.

espaço absoluto inspirou os hexâmetros de Lucrécio e fora para Giordano Bruno uma libertação, e também um labirinto e um abismo para Pascal. É com o constructo da imagem deste, visitado muitas vezes por Borges, como no texto “A esfera de Pascal”, que a história da esfera é finalizada: “uma esfera terrível, cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma”.197

O registro literário dessa imagem de Pascal, ou melhor, a tentativa do registro literário dessa imagem, apareceu sob a forma de uma “esfera furta-cor” no porão de uma casa Argentina, em “O Aleph”. A idéia de eternidade – aquilo que prescinde de qualquer determinação cronológica –, atrelada à noção de espaço sugerida pela visão do esférico Aleph, poderia situar a literatura nas discussões atuais acerca da relação entre espaço e tempo, o que alude ao “cronotopo” de Bakhtin 198 e aos “outros espaços”199 de Foucault.

Mikhail Bakhtin tratou o processo de assimilação do tempo e do espaço na literatura nomeando a interligação dessas categorias como cronotopo, que significa “tempo-espaço”. O termo, expressamente migrado das ciências físicas com base na teoria da relatividade de Einstein, é entendido como uma categoria conteudístico-formal da literatura. Bakhtin empreende uma demonstração da relativa estabilidade tipológica dos cronotopos em diferentes variedades do gênero do romance europeu. Segundo o crítico, o cronotopo tem um significado fundamental para os gêneros literários:

197

BORGES. Outras inquisições, p. 15. “[...] una esfera inteligible, cujo centro está en todas partes y la circunferencia en ninguna.” BORGES. Obras Completas v. 2 [1989], p. 14.

198

BAKHTIN. Questões de literatura e estética, p. 211-362. 199

Pode-se dizer francamente que o gênero e as variedades de gênero são determinadas justamente pelo cronotopo, sendo que em literatura o princípio condutor do cronotopo é o tempo. O cronotopo como categoria conteudístico-formal determina (em medida significativa) também a imagem do indivíduo na literatura; essa imagem sempre é fundamentalmente cronotópica.200

Na literatura, a fusão entre cronotopo real201 e histórico flui complexamente. Elementos da narrativa revelam motivos cronotópicos, e, dentre eles, os cronotopos do encontro, da estrada, da aventura são relevantes para o estudo de textos cujos temas são o deslocamento e a espacialidade.

Michel Foucault, em seu ensaio “Outros espaços”, observa a não novidade da ocorrência do espaço nos horizontes das preocupações teóricas e projeta a heterogeneidade como ordem de uma espacialidade móvel. Para a reflexão sobre essa espacialidade, ciente da importância do “espaço de dentro”,202 Foucault se interessa pelo espaço “de fora”, espaço heterogêneo que é visto pelo pensador sob duas instâncias: utopias, tratadas como espaços reais, e heterotopias, como utopias realizadas, “lugares que estão fora de todos os outros lugares”. Dessa forma, pode-se dizer que lugares heterotópicos dialogam com a circunferência, com o Aleph.

200

BAKHTIN. Questões de literatura e estética, p. 212. 201

Mikhail Bakhtin em “Biografia e autobiografia antigas”, terceiro ensaio de “Formas de tempo e de cronotopo do romance”, aborda o desenvolvimento de uma série de formas biográficas e autobiográficas notáveis, baseadas “em um novo tipo de tempo biográfico e em uma nova imagem especificamente construída do homem que percorreu o seu caminho de vida”. Essas formas, na Antigüidade, não eram obras de caráter livresco, mas cívico-políticos, relacionadas ao cronotopo real. Nas épocas posteriores, o homem, privado e isolado, perdeu a unidade: “A consciência que ele tem de si mesmo, tendo perdido o cronotopo popular da praça pública, não pôde encontrar outro cronotopo tão real, único e íntegro; assim ele desintegrou-se e desuniu-se, tornou-se abstrato e ideal.” BAKHTIN. Questões de literatura e estética, p. 254.

202

A referência de Foucault ao “espaço de dentro”, carregado de qualidades intrínsecas, é uma alusão ao espaço do imaginário. Cf. BACHELARD. A poética do espaço.

Jorge Luis Borges traçou um universo não em sua forma circular, no formato do globo, mas em sua dimensão horizontal e lisa,203 a da escrita. Contrariando a máxima de Daneri, o moderno Borges foi atrás da montanha e, a partir de seus deslocamentos espaciais, de suas viagens, construiu seu Atlas, um universo desenhado por suas leituras, memória e palavras ditadas.

No documento Cartografias da memória: as escritas de viagem de Murilo Mendes e Jorge Luis Borges (páginas 81-87)