CAPÍTULO IV. O MODELO DA IDENTIDADE ENDOGRUPAL COMUM __________57
4. Síntese de resultados
De uma forma geral, os resultados obtidos neste estudo sustentaram as decisões que
deles dependiam.
Em primeiro lugar, a adaptação das manipulações experimentais originais do Modelo
da Descategorização (Brewer & Miller, 1984), da Identidade Endogrupal Comum (Gaertner et
al., 1989) e da Dupla Identidade (Gaertner et al., 1993; Gaertner & Dovidio, 2000), a crianças
de 9/11 anos foi conseguida com sucesso, a avaliar pela percentagem de identificações
correctas das representações cognitivas do agregado durante a interacção que superaram as
apresentadas pelos autores no estudo de 1989. Face a este resultado, elas serão aplicadas
também nos estudos que a seguir apresentaremos.
O procedimento experimental deste estudo demonstrou também a adequação da
sequência de instruções, das manipulações e da credibilidade da tarefa, suportando a sua
replicação, e demonstrando a possibilidade de adaptação deste procedimento experimental a
crianças daquela faixa etária.
As medidas dependentes foram administradas sem dificuldade e compreendidas pelos
participantes. Como vimos também, a condição experimental provocou uma variação
significativa na avaliação do endogrupo em todas as medidas dependentes, inclusivamente
no atributo negativo. De facto, as crianças na condição de controlo (categorização), que
identificaram o funcionamento do agregado em “Dois Grupos”, avaliaram e comportaram-se
de modo a favorecer claramente os membros do seu próprio grupo, percepcionando-os como
mais competentes, menos egoístas e atribuindo-lhes mais recursos, do que os participantes
em qualquer uma das condições experimentais (descategorização, recategorização e dupla
identidade). Assim, um dos resultados mais interessantes do presente estudo foi a
confirmação da produção de um favoritismo endogrupal significativo produzido nos
participantes na condição de controlo. No entanto, ao contrário do esperado, a avaliação do
exogrupo não mostrou variações significativas em função das condições experimentais. Na
medida em que se tratava de um preteste aos modelos de redução do enviesamento
intergrupal, esperamos que a mudança nas avaliações do exogrupo se venha a registar nos
estudos subsequentes.
O hipotético impacto do sexo dos participantes não encontrou neste estudo a
demonstração necessária para a sua inclusão no desenho experimental dos estudos
subsequentes, uma vez que aquela característica dos participantes não obteve um efeito
significativo sobre as avaliações do grupo-alvo em todas as condições e em todas as medidas
dependentes. Assim, o sexo dos participantes não será contemplado como factor no desenho
dos estudos seguintes.
ESTUDO C
Percepção de assimetria de estatuto social e económico em
crianças portuguesas de diferentes origens étnicas9
1. Objectivos
Apesar de na literatura a relação entre grupos de estatuto diferente ser habitualmente
considerada como uma relação assimétrica, tornou-se importante explorar se crianças na
faixa etária dos 9 aos 11 anos de idade reproduziriam esta percepção de assimetria
encontrada em diversos estudos empíricos efectuados com adultos e com crianças em
contexto nacional (Cabecinhas, 2002; Vala, Brito & Lopes, 1999; Marinho, 2005). Como a
literatura tem demonstrado, a assimetria de estatuto favorece os grupos dominantes, no caso
presente os portugueses brancos, remetendo, consequentemente, os alvos negros para uma
posição menos privilegiada.
Como veremos adiante, os estudos 2 e 3 foram desenhados tendo em conta esta
assimetria de estatuto entre os dois grupos étnicos, pelo que a averiguação destas percepções,
em crianças desta faixa etária, nos parece fundamental. A não percepção da relação entre os
dois grupos como assimétrica conduziria, em nosso entender, a uma interpretação diferente
do contacto entre estes. Por outro lado, a percepção de assimetria vem à priori introduzir
uma dificuldade acrescida à eficácia das estratégias de redução do enviesamento intergrupal,
na medida em que ela pode ser transportada para a situação de contacto.
Assim, o principal objectivo deste estudo é verificar as percepções de assimetria de
estatuto socio-económico que crianças portuguesas de origem portuguesa e de origem
africana desenvolvem sobre alvos brancos e negros.
Para tal, colocamos como hipótese que a percepção de estatuto socio-económico é
vista como assimétrica por ambos os grupos étnicos, ou seja, tanto as crianças de origem
portuguesa como as crianças de origem africana percepcionam os alvos brancos como mais
favorecidos social e economicamente do que os alvos negros e esperamos que este resultado
venha a ser mostrado em ambas as medidas (implícita e explícita).
2. Método
2.1 Participantes
Os participantes neste estudo foram cento e quarenta e nove crianças portuguesas de
ambos os sexos (66 rapazes e 83 raparigas), com idades compreendidas entre os 9 e os 11
anos de idade e que frequentavam oito escolas públicas do 1º ciclo do ensino básico da Área
Metropolitana de Lisboa (AML). Do total destas crianças, setenta e sete eram de origem
portuguesa e setenta e duas de origem africana.
2.2 Desenho
O desenho factorial inerente a este estudo é de 2 (Alvo: Branco, Negro) X 2 (Estatuto
étnico dos grupos: Alto estatuto (crianças de origem portuguesa), Baixo estatuto (crianças de
origem africana), sendo o primeiro factor intra-sujeitos (within subjects) e o segundo
inter-sujeitos (between subjects).
2.3 Procedimento
Após a selecção, os participantes foram encaminhados até uma sala de aula vazia e aí
foram sentados em mesas separadas (uma criança por mesa). Posteriormente, era-lhes dito
que tinham sido escolhidas para darem a sua opinião sobre as crianças que conheciam. De
seguida, distribuíram-se os protocolos de medida e pediu-se às crianças que lessem
atentamente as perguntas colocadas e que respondessem, colocando uma cruz no quadrado
cujo texto fosse mais semelhante à opinião que tinham sobre o que lhes era perguntado.
2.4 Medidas dependentes
O instrumento utilizado neste estudo, adaptado de Guerra, Rebelo, Monteiro e
Gaertner (2005), era composto por duas medidas (implícita e explícita) referentes à
percepção do grau de favorecimento económico de alvos portugueses brancos e negros (cf.
Anexo 1E).
A questão sobre a percepção de favorecimento económico implícito era precedida do
seguinte estímulo: “No nosso país as crianças não vivem todas da mesma maneira… algumas
vivem em casas grandes e bonitas [apresentação de desenho ilustrativo], andam em carros
grandes e bons [apresentação de desenho ilustrativo] e têm brinquedos caros [apresentação
de desenho ilustrativo]”. Posteriormente, as crianças tinham de responder à questão
“Quantas meninas(os) como estas(es) vivem assim?” para alvos brancos e para alvos negros,
sobre uma escala de Likert de 4 pontos [1 = nenhum(a); 2 = poucos(as); 3 = muitos(as); 4 =
todos(as)] (cf. Anexo 1E).
A medida explícita sobre a percepção do grau de favorecimento económico foi
operacionalizada a partir da questão: “Quantas meninas(os) como estas(es) achas que são
ricas(os)?”, apresentada também para alvos brancos e para alvos negros, sobre a mesma
escala de Likert de 4 pontos [1 = nenhum(a); 2 = poucos(as); 3 = muitos(as); 4 = todos(as)]
(cf. Anexo 1E).
No documento
ESTUDOS EM BRANCO E NEGRO: Modelos de redução do preconceito inter-étnico na infância
(páginas 137-141)