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Sônia Jacon

No documento PORTCOM (páginas 126-132)

O texto de Pedro Braga dos Santos, publicado no número 04 da revista Comunicação & Sociedade em 1980, trouxe ao leitor uma reflexão sobre o fenômeno do que se diz ser literário.

A proposta do escritor foi analisar dois elementos importantes que, para ele, definem o literário do texto e, para isso, fez indagações que o permitiram alcançar algumas conclusões sobre tal especificidade.

Tais questionamentos serão apresentados e comentados em linhas mais adiante, pois, em primeiro lugar, acredito ser prudente falar um pouco sobre o pai do texto que será elucidado aqui, principalmente, para os leitores mais jovens que, talvez, pouco ou nada ouviram falar sobre Pedro Braga dos Santos. Também, expor o motivo que me levou a escrever sobre este texto publicado há tantos anos.

Dados biográficos divulgados de Pedro Braga dos Santos são raros e, portanto, pouco se tem notícia de sua vida pessoal e profissional. Tornou-se mestre em Letras pela Universidade Sorbonne e candidatou-se ao doutorado em Comunicação na Universidade de Paris. Atuou por vários anos como professor na Universidade Federal do Maranhão nos cursos de comunicação. Interessava-se pela comunicação popular e religiosa, principalmente as praticadas pelo povo maranhense, e publicou vários artigos em revistas nacionais e internacionais como; “O Sebastianismo no Maranhão: um fenômeno de comunicação popular”, publicado na Revista Brasileira de Cultura, do Conselho Federal de Cultura, em 1973, “O Massacre de Alto Alegre”, publicado pelo IPES de São Luís, em 1991, “Gutemberg no Maranhão; a indústria tipográfica no Maranhão no século XIX”, na Revista Fipes. S. Luís, Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais, 1983.

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Agora, é importante expor ao leitor o que me trouxe até o texto de Pedro Braga e a incumbência de comentá-lo.

Escrever sobre o texto de Pedro Braga dos Santos está sendo possível graças à mente incrivelmente ativa do saudoso professor José Marques de Melo que, mesmo após o seu falecimento, deixou aos seus discípulos tarefas bem estruturadas e com as partes devidamente nominadas. A mim coube esta; ir ao texto Especificidade do Literário e fazer minha interpretação. Grata surpresa, pois a leitura do texto foi inédita, agradável e reveladora.

O tema literatura é próximo e deixa-me à vontade para dialogar com as ideias apresentadas em suas linhas. O texto é particularmente curto, ocupa oito páginas da revista, contanto com as referências, mas traz reflexões profundas, apesar do caráter objetivo, revelando a intimidade do autor com o tema que se propôs a falar.

O artigo de Braga começa com indagações que, confesso, fisgaram-me para lê-lo com avidez e atenção. Certamente, são perguntas que muitos envolvidos e interessados nos estudos da nossa Língua materna em suas aditividades profissionais fizeram ou farão em algum momento.

Eis as indagações que abrem o texto: “Existe diferença fundamental entre o texto poético e textos de outra natureza, jornalístico, por exemplo? O que distingue a linguagem da poesia do discurso puramente informativo?” (BRAGA, 1980, p. 52).

Essas perguntas norteiam todo o desenvolvimento das ideias de Pedro Braga, cujas respostas são reveladas ao leitor por meio de suas teorias sobre a especificidade do literário e de ilustrações com textos que trazem basicamente a mesma informação, mas com o modo de expressividade diferente – tornando um literário e o outro texto jornalístico.

Pedro Braga afirma que a definição de literatura implica na noção de literatura que é dada em cada contexto e cultura e que, portanto, a literatura é móvel e variável. Assim como os gêneros dos discursos são multiformes e variáveis e obedecem a características culturais e sociais de seus falantes (BAKHTIN, 2010), a literatura encontra sua especificidade nas individualidades de cada cultura e contexto.

A reflexão de Pedro Braga sobre a especificidade do texto literário retoma a questão dos gêneros textuais presentes em todas as sociedades, sendo que essas, as sociedades, elegem para seus indivíduos quais serão os gêneros que atenderão às necessidades comunicativas dessa ou daquela comunidade.

Diz também Bakhtin (2010) que determinados gêneros do discurso podem adormecer por um período e, assim, deixam de circular naquele grupo social e outros ficam mais latentes e presentes entre os indivíduos. Depois, com o tempo, aqueles podem voltar às práticas comunicativas, atualizados ou não.

Sendo os gêneros textuais orais, escritos e formados por um conjunto de características que o definem, tornando-os, assim, possíveis de reprodução e de reconhecimento nos atos comunicativos, são também responsáveis pelas intenções de discursos dos indivíduos.

As pessoas têm intenções variadas em suas falas, sejam essas manifestas em textos escritos ou orais. Em muitas situações, as finalidades não são artísticas. O escritor não tem o objetivo de encantar ou de revelar ao leitor uma arte esculpida com as palavras, onde há rimas, sons combinado vogais e consoantes, versos ou estrofes que dizem muito além do que se lê e do que se vê.

Quando o propósito daquele que faz o texto não é a composição literária, pode-se dizer que a intenção desse pode ser a de informar. Para isso, ou seja, para que o desejo de comunicação do indivíduo seja alcançado de acordo com suas intenções, esse faz uso das funções da linguagem (aquelas elaboradas por Roman Jakobson).

Para o linguista russo Jakobson, sempre que nos comunicamos fazemos uso dessas funções, seis no total (emotiva, referencial, conativa, fática, metalinguística, poética). Cada função tem uma especificidade que revela nossa intenção nos atos comunicativos.

Assim, quando a finalidade for a de informar um fato e, dessa forma, alcançar a objetividade, deve-se valorizar a função referencial que é aquela que privilegia o objeto retratado e este, o objeto, é o foco da comunicação, devendo ser retratado de maneira objetiva. Esta função predomina em textos científicos e jornalísticos (ao menos deveria).

Quando há uma utilização indevida da função, principalmente pela ignorância ao seu conceito ou ao seu uso correto, pode-se comprometer a

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mensagem e, consequentemente, a resposta entre emissor e receptor pode não ser a esperada.

Se por outro lado, a intenção da comunicação é a de enaltecer o estético na composição da mensagem e, portanto, a de surpreender e encantar o leitor por meio de sua função estética e de sua organização interna, a função da linguagem a ser privilegiada será a poética.

A função poética da linguagem faz uma lapidação artística no enunciado do texto que eleva a mensagem além da função de informar e, portanto, finita. A função poética deixa a mensagem atemporal e amplia sua significação.

Pedro Braga dos Santos desenrola a função estética do texto dizendo ser essa a responsável por expandir o sentido do enunciado, por ampliar as possibilidades de interpretação e por não ter o compromisso de anunciar fatos na linha da objetividade e do tempo presente, como acontece no texto jornalístico.

Braga diz, ainda, que o texto literário não se revela completamente, isto é, sua organização permite sempre uma descoberta e uma surpresa. A leitura do texto literário é sempre nova, mesmo que seja feita pelo mesmo leitor várias vezes. Não é à toa que muitas obras literárias foram lidas tantas vezes e por tantas pessoas de lugares e culturas diferentes e estão sempre encantando e revelando novas experiencias, facetas e narrativas.

Outra especificidade do texto literário para Pedro Braga está na organização interna do texto. Para ele, o autor tem a liberdade de se distanciar das regras gramaticais para suas criações literárias, pois neste caso, pode fazer uso da conhecida licença poética ou mesmo o escritor pode alcançar o que Braga diz de “grau zero da escrita”, que seria a escrita ingênua e despreocupada com a semântica e com o sentido.

Muitas vezes o autor, segundo o texto de Pedro Braga, atinge o grau zero da escrita de maneira consciente, mas também pode ser inconsciente, o que valida o leitor e o crítico perceberem aspectos na obra que não foram percebidas pelo próprio autor.

Para deixar suas reflexões mais claras, Braga traz dois textos que ilustram a diferença entre um texto literário e um texto jornalístico. Os textos escolhidos

apresentam basicamente a mesma informação: retratam a morte de um de homem comum por afogamento.

Um dos textos escolhidos é o poema de Manuel Bandeira “Poema tirado de uma notícia de jornal” e o outro é um texto jornalístico elaborado a partir do poema citado.

A partir dos textos eleitos, Pedro Braga revela ao leitor como um (no caso o poema) ganha características literárias, enquanto o outro simplesmente tem a função de informar o fato.

As afirmações de Braga sobre a especificidade do literário vai se revelando à medida que a análise dos textos se desenrola e esclarece as diferenças entre um e outro. Apesar da informação ser mesma, o poema constitui-se de função estética e organização interna semântica que possibilita transcender a simples função de informar o fato à população.

O primeiro texto destaca-se pela utilização da função poética que o encobre de significações e sentidos. Enquanto que o segundo, o jornalístico, traz a informação do fato que se esgota no fim da leitura do enunciado.

Tanto na análise do poema quanto na do texto jornalístico, Pedro Braga detalha como o jogo das palavras e suas formações (frases, períodos, parágrafos, etc.) somadas às intenções do autor desenham o perfil de um texto, tornando-o literário ou não.

Compreender essas possibilidades da Língua e fazer o uso de maneira intencional e competente, permite a liberdade do escritor para criar suas narrativas de acordo com suas intenções e interesses.

Ler a análise desses dois textos de Pedro Braga é um excelente exercício para alunos, professores e todos os interessados em compreender melhor, não apenas o texto jornalístico, mas a especificidade do literário e, principalmente, mostra a riqueza que o domínio da Língua Materna escrita oferece aos seus usuários.

130 Referências

SANTOS, Pedro Braga dos. Da especificidade do literário. Revista Comunicação & Sociedade. Ed. Cortez, nr. 4, p. 53-60, 1980.

BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. 5ª. Ed. Martins Fontes, São Paulo, 2010.

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