5. SUBJETIVIDADES QUE SE CRUZAM
5.1 AS ENTREVISTADAS
5.1.4. SANDRA 26 DE JANEIRO DE 2018
Quando era pequena eu morava com minha vó, em Ponta Grossa, com ela a minha vida era outra, era uma vida maravilhosa... era só estudar, era só ficar na casa, minha vó era crente, uma pessoa muito honesta, muito direita... (...) eu comia bem, eu lembro que eu adorava muito era leite condensado e salgadinho, uma vez a minha vó falou assim a Irene vai com nós fazer compra, Irene era a irmã dela né, ia com nós. Daí eu falei assim: vó, mas daí como é que você vai pegar meu leite condensado e meu salgadinho? Porque já era costume, ela disse: o dinheiro é meu, quem manda sou eu, eu pego lá nas prateleiras e coloco no carrinho. Fomos com a tia Irene fazer compra - do lado dos meus parentes eles são tudo sossegado o mais pior é nós, eu e minha mãe - a vó pegou uma lata de leite condensado, umas duas latinhas e botou no carrinho, pacotão de salgadinho - “às vezes eu gostava daqueles enroladinhos assim um dedinho”. Eu
amava a minha vó, se minha vó fosse viva eu não tinha os filhos que eu tenho, talvez eu podia ter casado muito bem (...) Daí a minha vida se transformou pra pior, foi quando ela morreu lá em Ponta Grossa (...) eu vim morar pra Guarapuava com minha mãe, que era bem diferente dela, já era uma pessoa alcoólatra, era uma pessoa que eu gostava muito dela, amava muito ela né, mas já ela era bem diferente, ela já bebia, ela já não se interessava da gente estudar, minhas transferência lá de Ponta Grossa ela nem pegou, só estudei lá e daí parou por ali mesmo, estudei pouquinho né, eu vim morar com ela e já não aprendi mais nada. Eu fui crescendo, fui trabalhando nas casa alheia e daí fui tendo os filhos e daí nessa loucura eu vim, bem dizer, pra cá, pra cadeia, foi uma coisa sem pensar, uma coisa que eu pensava assim: ah, dá nada (...) daí eu cutuquei e é o dinheiro mais fácil, que faz as pessoas vir pra cadeia (...).
O maior sofrimento dessa cadeia pra mim é a minha menina, que está com a tia dela, passando fome (...) a minha menina veio aqui me visitar, que eu consegui que minha madrinha arrumasse um jeito dela trazer ela de Curitiba, tá bem magrinha, com 10 anos tem menina que vem aqui visitar a mãe, com 11 anos, menina seiudinha já, viçosa, a minha bem magrinha que é uma tábua (...) está certo que eu estou na cadeia, mas, eu estou no meio da fartura, eu tenho tudo de comida, aqui não falta nada, graças a Deus (...) eu estou presa, mas eu estou melhor que minha filha.
A primeira vez, eu fiquei um mês só aqui dentro, daí minha advogada conseguiu pedir um habeas corpus, renegaram o primeiro, no segundo eu saí, mas saí responder na rua, daí eu desconfio que fiquei mais ou menos uns 3 anos na rua. Trabalhei na casa dela 7 anos, nunca fiz nada errado na casa dela, nunca peguei nada, deixava uns cheques assinados pra mim, deixava no quarto dela nunca tive problema nenhum graças a Deus.
(...) Falando bem a verdade, o tráfico é uma coisa que nunca acaba, nunca acaba, sabe por que? Por que em todas as vilas tem, e nunca acaba, enquanto fecha um lugar, o outro está aberto, enquanto as pessoas estão aqui dentro, lá fora eles tão trabalhando (...) É uma coisa que olha, é muito difícil terminar uma coisa que não termina fácil que nunca acaba. O dinheiro que você leva um mês pra limpar a casa dos outros, você ganha numa noite, por isso que todo mundo lida com essas coisas, porque dependendo o lugar, dependendo o movimento, você tira três mil por semana, é o dinheiro que você leva um mês para receber, pedindo pra tua patroa te adiantar um vintão, um trintão (...) Agora o meu virava em nada, porque eu comia tudo que é bom, comprava tudo que era bom para meus filho e pagava a luz e pagava água, pagava van, tudo que minha menina pedia nunca faltou, ela só comia bobagem só tomava Nescau com leite, só comia salgadinho, levava lanche pra comer na escola (...) acho que não deu nem 5 meses minha parte, foi rápido, porque os vizinhos tem muito ciúme, você não pede nada pra eles, você não
depende nada deles e daí eles vendo você saí de táxi voltando, vendo os filhos buscando uma coisa ou outra, eles já ficam tudo... eu fui condenada só por muita denúncia e o dinheiro muito picado no bolso. (...) Só que eu não quero essa vida pra mim, porque Deus me livre e guarde, eu não quero ficar velha na cadeia, eu tenho minha menina, ela não é mocinha ainda, eu quero tá junto com ela pra mim acompanhar essa fase, quero cuidar da minha filha, eu amo minha filha, tenho muito amor com a minha menina e nos piá também né.
Quando saiu meu mandado eu me entreguei por conta (...) Eles já andavam investigando (a polícia) (...) aí mão na cabeça, mão na cabeça, mão na cabeça, eu não coloquei a mão na cabeça, falei: o que eu tá acontecendo? Tá acontecendo que a casinha caiu, tão tudo preso. Daí eu falei assim: tem que esperar até cinco horas, meu neto vai vim da escola - eu criava um neto meu, dez anos - daí eles ficaram parado esperando até cinco horas e ali reviraram a casa, naquela uma das mulher achou minha bolsa, em que estava uma quantia de dinheiro que era de uma casa que eu tinha vendido, mas estava muito no picado né, daí eles acharam que era de droga, mas não acharam nada, não tinha nada na casa, meu piá acho que tinha um pedacinho de maconha no bolso, mas era do uso deles porque jovem fuma né? Eles, sei lá, se puseram junto que era de tráfico, isso e aquilo (...)
Casei, mas não tive sorte pra casamento, os dois casamento bem dizer eu tive não tive sorte, era alcoólatra só não era de lidar com droga mas era essas pessoa trabalhadora alcoólatra. Esse negócio de droga quem aprendeu mesmo na verdade foi meus piás, porque jovem aprende, as pessoa tem muita influência com isso, sabe assim, pessoa jovem e muita influência e que nem esse piá meu dezoito anos aí daí eu mãe dele e sozinha daí eles querem ter roupa boa, eles querem ter celular bom, eles querem ter as coisas, andar com essas calçonas XXL, andar com esses tênisão de marca, o meu piá o Alexandre ele compra só roupa de marca, eu não, sou simplesinha, eu comprava roupa lá no keima, mas eles querem né, ter as coisas boas, e daí esses dinheirinhos que a gente ganha na casa dos outros dá só pra comer, dá nem para pensar em coisa boa. Eu trabalhava por dia, daí comecei, daí perdi serviço bem por burra, perdi serviço com uma fazendeira só por causa do mais fácil né, que daí na fazenda eu ia lá ficava o dia inteiro trabalhando ganhava cenzão aí né, mas agora como é que pode dar tanta cadeia essas coisas? Você não chama ninguém, você não implora ninguém veio porque querem...