2.3 HISTÓRICO DOS PROCESSOS DE SEGURANÇA
2.3.1 Segurança do paciente e qualidade do cuidado em saúde
Nos últimos anos a preocupação com a segurança do paciente e a redução dos erros, decorrentes da assistência em saúde, têm se intensificado e adquirido
abrangência mundial. Os incidentes advindos do cuidado refletem na melhoria da qualidade e segurança desta assistência (WHO,2009). Na enfermagem as questões relacionadas à segurança do paciente tiveram início com a precursora da profissão, Florence Nightingale, que adotava condutas eficazes para a época, prevenindo infecções e agravos dos pacientes. Florence tinha a preocupação de manter o ambiente de internação limpo e arejado e, por volta de 1859, com olhar muito à frente do seu tempo e com vistas à assistência de qualidade, já promovia ações para o controle de doenças relacionadas com a falta de higiene no ambiente de internação (PEDREIRA, 2009).
Um marco mais recente relacionado à temática foi a publicação do livro “To Err is Human: Building a Safer Health System” (Errar é Humano: construindo um sistema de saúde mais seguro) em 1999 nos Estados Unidos (KOHN et al., 2000), o qual expos o tema no âmbito político e no âmbito do debate público em todo o mundo. O referido livro apresentou dados alarmantes de eventos adversos no sistema de saúde norte-americano: tinham aproximadamente 1 milhão de pacientes sofrendo dano e quase 100.000 morrendo por ano em decorrência de assistência inadequada (ANVISA, 2013).
Um marco significativo para reverter os danos provocados nos pacientes em serviços de saúde, são os três atuais Desafios Globais para a segurança do paciente, lançados pela OMS: o primeiro desafio denominado Programa Cuidado Limpo é Cuidado Seguro, o segundo desafio global com o objetivo de elevar os padrões de qualidade em serviços de assistência à saúde em qualquer lugar do mundo, por meio do estabelecimento de práticas seguras para a realização de cirurgias, as quais estão descritas no PCSSV e o terceiro desafio denominado Enfrentando a Resistência Microbiana, para incentivo do uso racional de antimicrobianos (OMS, 2009).
Com este mesmo propósito, a Joint Commission International Center for Patient Safety (JCAHO) foi designada pela OMS, em 2005, como primeiro centro colaborador dedicado à segurança do paciente e propôs metas internacionais com o objetivo de promover melhorias em áreas problemáticas específicas. Este centro enumera pontos importantes, também priorizados nesta pesquisa, tais como a identificação correta dos pacientes, adequada e efetiva comunicação entre a equipe de saúde, além de ações para assegurar que o paciente, o local de intervenção e
o procedimento estejam verificados e corretos (JCAHO, 2008). Na continuidade, em 2012 a JCAHO apresentou novas metas para segurança do paciente cirúrgico, tais como a utilização de indicadores; rotulagem de todos os medicamentos, embalagens e soluções dentro e fora do campo estéril no intraoperatório;
cumprimento das orientações recomendadas de higienização de mãos; uso de práticas para prevenção de infecções de sítios cirúrgicos para garantir o procedimento correto, para o paciente correto, no local correto (JCAHO, 2012).
Para Vincent (2010) as ações de segurança contribuem para a melhoria da qualidade do cuidado em saúde, conforme argumentos apresentados no Quadro 1:
a) Mostra com clareza como o cuidado de saúde pode ser danoso para os pacientes;
b) Chama atenção para o impacto do erro e as consequências do dano;
c) Aborda diretamente a questão do erro no cuidado de saúde, sua natureza e suas causas;
d) Amplia a atenção sobre o desempenho humano;
e) Amplia a atenção nas questões colocadas pela ergonomia e pela psicologia;
f) Utiliza uma ampla variedade de modelos de segurança e qualidade da indústria, principalmente aquelas de alto risco;
g) Introduz novas ferramentas e técnicas para a melhoria do cuidado em saúde.
QUADRO 1 - CONTRIBUIÇÕES DA SEGURANÇA DO PACIENTE PARA A QUALIDADE DO CUIDADO DE SAÚDE. FONTE: Vincent (2010). Tradução da autora.
Também a OMS prevê uma rede de ações com vista à segurança do paciente (WHO, 2013). Aquelas consideradas nesta pesquisa estão abaixo descritas:
a) Área de ação n° 1: lançamentos dos Desafios Globais para a Segurança do Paciente que pressupões ações em segurança para minimizar riscos aos pacientes em todos os países membros;
b) Área de Ação nº 3: Pesquisa em Segurança do Paciente envolvendo estudos internacionais para conhecimento da natureza do dano causado ao paciente e elaboração de ferramentas de prevenção;
c) Área de Ação n° 6: Soluções para a Segurança do Paciente por meio de intervenções e ações práticas para prevenção de dano;
d) Área de Ação n° 7: Para difusão de boas práticas para a mudança organizacional, da clínica e de equipe envolvendo diversos cuidados como a realização de procedimentos certos nos sítios certos;
e) Área de Ação n° 9: Gerência de conhecimento para reunião e compartilhamento de conhecimentos, sobre a evolução mundial da segurança do paciente;
f) Área de Ação n° 13: Elaboração de checklists para a área da saúde. Há outras listas em desenvolvimento para verificação de segurança em serviços de saúde, tais como checklist para Influenza A (H1N1), parto seguro e segurança do recém-nascido e de cuidado ao Trauma.
A Área de Ação nº 13 está diretamente relacionada à proposta da presente pesquisa, pois estimula a elaboração de lista de verificação para outras áreas, em prol da segurança do paciente. A aplicação de instrumentos em forma de checklist é incentivada por reduzir a dependência da memória e intuição, as quais podem estar associadas às incertezas e excesso de demanda no trabalho (ELY; GRABER;
CROSKERRY, 2011). A criação de checklist para diferentes abordagens de saúde foi estimulada após o sucesso da Lista de Verificação de Segurança Cirúrgica da OMS em 2008, resultando na diminuição da morbimortalidade de pacientes.