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Figura 58 - Senhor das Almas, Eduardo Kemmerich, 56 cm x 30 cm x 30 cm, escultura em Clay, bola de gude e estilhaços de espelhos, 2017.

88 EPÍLOGO

A presente pesquisa me permitiu a realização do meu próprio Toy Art. O objeto foi construído através das práticas comuns de modelagem da figura humana a qual acontece a partir de um esqueleto base feito em arame que é recoberto por papel alumínio. Nesta base, camadas de massa foram sendo acrescentadas partes por partes obedecendo a uma regra apontada pelo próprio trabalho a partir de desenhos, anotações e emoções.

Através do desenvolvimento do Senhor das Almas percebi que é possível lançar mão de procedimentos e formas provenientes de estudos nas praticas da escultura tradicional, que leva em conta a modelagem da figura humana a partir de estudos anatômicos, como na obra de Michelangelo e Rodin, para criar um objeto escultórico com traços lúdicos, mas que traz consigo os conceitos de Toy Art.

Ficou claro que os estudos de anatomia humana dentro do campo da arte são essenciais para que seja produzido um objeto de figura humana toy.

Através desta pesquisa, a criação deste personagem autoral está colocada no contexto das poéticas visuais não apenas como objeto tridimensional, mas também como símbolo de um longo processo de criação repleto de experimentações, dúvidas e recomeços. O projeto que apontava para um personagem universal, o Uninverso, aos poucos foi alterado na busca de satisfazer um desejo interno que somente foi saciado quando o Senhor das Almas se materializou.

Ao meu ver a pesquisa atingiu o seu objetivo, as reflexões sobre as relações entre brinquedo, adulto e a obra de arte contemporânea proporcionou ver a legitimidade do Toy Art no campo das artes como um novo suporte de expressão. O estudo também deu subsídio para compreender r o conceito do Toy Art.e o seu espaço na da arte contemporânea.

Através das etapas de geração do personagem foi possível fazer as relações entre técnicas de construção da escultura de figura humana, baseada nos estudos da escultura clássica, ditas tradicionais da tecnologia. Essa

89 relação se define no momento em que se convergem, ou seja , quando o artista utiliza materiais atuais, neste caso, a argila sintética que substitui a argila molhada , mas ao mesmo tempo se alimenta das referências da história da arte e técnicas da escultura tradicional com base clássica usando principalmente a modelagem básica com as mãos para obter seu Toy Art, objeto contemporâneo.

Com a apresentação dos estudos teóricos e práticos ao longo do processo de criação do Senhor das Almas espera-se que seja possível refletir sobre o espaço das artes tradicionais ou acadêmicas como instrumento de expressão atualizado, dentro da cultura popular nerd,

Dessa maneira concluo neste trabalho que o movimento Toy Art dentro do contexto da arte contemporânea pode ser um indutor de pensamentos críticos sobre o processo criativo em suas etapas de realização, permitindo discutir a arte pelo ponto de vista do fazer.

Assim, durante a criação do meu Toy Art entendi como cada etapa é importante para com o objeto artístico final, e, fica claro que o Senhor das Almas é mais que apenas o seu resultado final, ele agrega seus vestígios, onde cada passo de sua criação permanece na finalização do trabalho. Dessa maneira “Não só o resultado, mas todo caminho para se chegar a ele é parte da verdade que a obra carrega.” (Salles 2001, p.25 apud Marx citado por Einstein, 1942). Interessante apontar que no decorrer do meu processo de criação, o meu objeto artístico assumiu o controle, Foi então que percebi, que cada vez mais ele tomava forma, assumia também mais controle sobre as próximas etapas de sua criação, me dizia o que fazer. Conforme ele tomava forma, indicava o caminho a percorrer em sua criação, me tornei refém do meu objeto. Sobre isso, Sandra Rey fala a respeito da instauração e processo de criação da obra de arte:

Parece que existe no processo de criação, um ponto de cegueira para o artista, e é aí que a obra se processa e consequentemente me processa. Quase poderíamos dizer: quando eu fico cego, é aí que a obra se faz. O processo de criação é este enfrentamento desencontrado entre caos e ordem, entre desequilíbrio e equilíbrio. É

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preciso aprender a suportar as tiranias que as incertezas provocam.

O caos da obra se fazendo, não é confusão indiferenciada mas a obra "em luta" com seu criador (REY, 2002, p 8).

Este embate entre o ser que ansiava por surgir e as minhas expectativas em criar, resultou em objetos, desenhos, e momentos de reflexão. O Senhor das Almas estará livre para exercer sua função e instigar novos desafios para o seu criador.

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No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE INSTITUTO DE LETRAS E ARTES CURSO DE ARTES VISUAIS BACHARELADO (páginas 86-94)