2.3 SENSORIAMENTO REMOTO
2.3.4 Sensoriamento Remoto como Recurso Didático
Uma das grandes discussões no cenário educacional atualmente é a necessidade vital de que a escola supere suas limitações com relação à abordagem sobre as novas tecnologias e como usá-las a favor da aprendizagem, contribuindo para a formação de estudantes conscientes de suas potencialidades em prol da sociedade em todos os seus desdobramentos.
Santos (2002, p. 11) expõe de forma bem clara essa necessidade:
Em um mundo caracterizado pelo processo de globalização da economia e pela mundialização da cultura, a demanda por um novo cidadão, um novo profissional capaz de lidar com as tecnologias e linguagens do seu tempo vem-se colocando como uma exigência global necessária à inserção social.
Nesse sentido, uma das principais barreiras da escola para suprir essa demanda está, indubitavelmente, no processo de formação dos professores, que, apesar da constatação de um início de debate sobre essa temática, na prática ainda deixa a desejar dado o distanciamento entre a vivência acadêmica e a realidade da prática docente (CARVALHO; GIL-PÉREZ, 2011).
Como recurso didático, o SR oferece oportunidades para promover a interdisciplinaridade, ou seja, o professor em sua prática media diálogo entre disciplinas diferentes através da integração, fazendo uso das convergências possíveis entre elas. A multidisciplinaridade também se apresenta como possibilidade, por meio do trabalho colaborativo de várias disciplinas e docentes em torno de um tema comum, cada qual com sua abordagem específica.
De acordo com Florenzano (2011, p. 59):
A tecnologia do sensoriamento remoto pode ser explorada no ensino das diferentes disciplinas e do tema transversal meio ambiente. Ao possibilitar a análise dos ambientes e dos impactos provocados pela ocupação do homem o sensoriamento remoto torna-se um instrumento para a compreensão, conscientização e busca de soluções para os problemas da realidade socioambiental, contribuindo na formação da cidadania.
Várias disciplinas do currículo básico podem se beneficiar do uso de produtos de SR, como, por exemplo, Ciências, Biologia, Física, Geografia, Arte, História, Matemática.
Nas disciplinas de Ciências e Física, respeitando suas especificidades e abordagens, é possível contemplar os conceitos relacionados à constituição e comportamento da radiação eletromagnética, absorção e reflexão da energia. Em Biologia, poderia complementar os estudos dos aspectos ecológicos, distribuição de biomas, comportamento e localização de cardumes, distribuição de parasitoses, cobertura vegetal, extensão de acidentes ambientais, impactos socioambientais decorrentes da intensificação da urbanização. Na disciplina de Matemática, o SR poderia ser utilizado para aprimorar cálculos de ângulos, áreas, distâncias, escalas e índices. O estudo de imagens em ordem cronológica de uma área permitem traçar uma linha do tempo do uso de solo e ocupação da mesma, complementando a compreensão de seus aspectos históricos e geográficos. A Geografia pode valer-se
ainda do estudo de aspectos físicos do território como o relevo e a hidrografia. (FLORENZANO, 2011).
Além da interdisciplinaridade e da multidisciplinaridade, a transposição didática é outro fator colaborador para a construção do conhecimento, pois segundo Schimidt (1997 apud SANTOS, 2002, p.50), a transposição didática ou recomposição didática aproxima o saber científico da realidade da comunidade escolar considerada.
A esse respeito, Santos (2002, p.50) evidencia o SR como ponte para a transposição didática:
Trata-se, portanto, de desenvolver uma ponte entre o científico e o cotidiano através da integração de conhecimentos procedentes de diferentes âmbitos, sobretudo da atualidade, capazes de impregnar as disciplinas escolares de vida cotidiana, de significado, contribuindo para a superação do divórcio entre disciplina e ciência, ciência e realidade.
Sabendo da necessidade de inserção de novas tecnologias à realidade escolar, e, reconhecendo o potencial do SR como recurso didático capaz de contribuir para a formação de um cidadão que interpreta dados, interage com interfaces, propõe soluções para questões locais e globais, observa-se várias iniciativas para viabilizar essa tecnologia para a prática docente.
Criado em 2003 pela Agência Espacial Brasileira - AEB, o programa AEB- Escola teve o foco inicial na divulgação do Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE) nas escolas de educação básica com atividades voltadas para os seguintes temas: satélites e plataformas espaciais, astronomia, aplicações espaciais. Sua expansão conta com a oferta de cursos de capacitação e especialização, palestras e oficinas para professores e alunos. Além de disseminar conhecimentos, estimular o interesse dos estudantes para a pesquisa científica e despertar vocações, o programa constitui uma iniciativa para a elaboração de metodologias que aproximem os temas de estudo da realidade escolar.
Outra instituição que investe na formação de professores é o INPE. Além de facilitar o acesso a materiais de divulgação científica através de seu website, aproxima-se da comunidade escolar abrindo suas dependências para a realização de eventos e cursos de observação da Terra, em especial o curso presencial de Uso Escolar do Sensoriamento Remoto no Estudo do Meio Ambiente ofertado na
segunda semana de julho, durante o recesso letivo; os tópicos abordados são: introdução ao sensoriamento remoto, aplicações do sensoriamento remoto, aplicações em Meteorologia, interpretação visual de imagens de satélite e geoprocessamento, conceitos de cartografia, práticas de campo e sensoriamento remoto na Educação. Essa iniciativa propicia aos participantes o acesso a esses conhecimentos e estimula o desenvolvimento de projetos educacionais.
Outra iniciativa do INPE é o EducaSere, que consiste em capacitação para docentes de Ensino Fundamental e Médio e publicação de coleção de cartas- imagem para uso didático. Esse material e as informações podem ser encontradas no site http://www.inpe.br/unidades/cep/atividadescep/educasere/index.htm.