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Sentido geral e modalidades de Constituição

No documento Direito Constitucional de Timor-Leste (páginas 163-170)

CAPÍTULO IV CONSTITUIÇÃO

35. Sentido geral e modalidades de Constituição

CAPÍTULO IV

utilizações antecedentes, ainda que numa perspetiva meramente ins-titucional227.

II. Foi esse o caso pioneiro de ARISTÓTELES, que no seu livro Políticadefiniu o conceito de Constituição como “Politeia”, ou seja, como ordenação das magistraturas e, em especial, da magistratura suprema do Estado, nela ainda incluindo o fim da comunidade polí-tica228: “Um regime pode ser definido como a organização da cidade no que se refere a diversas magistraturas e, sobretudo, às magistraturas supremas. O governo é o elemento supremo em toda a cidade e o regime é, de facto, esse governo”229.

Este conceito de Constituição, tal como sucedeu com o rem publicam constituere do Estado Romano, em nada tinha que ver com aquele que viria a ser o conceito atual de Constituição, integrando--se na lógica da aceção institucional de Constituição, que qualquer Estado tem230, ao mesmo se juntando os conceitos de nomos– como lei – e de psefisma – como decreto231.

Com a Idade Média é que verdadeiramente se geraria o embrião de uma ideia mais aproximada do conceito atual de Constituição no sentido de ordenamento unificador e superior ao Estado. Tal foi claro com as leis fundamentais medievais232, ainda que estas não pudessem

227 Sobre a evolução histórica do conceito de Constituição, v., por todos, MAURIZIO FIORAVANTI, Constitución – de la Antigüedad a nuestros días, Madrid, 2007, pp. 15 e ss.

228ARISTÓTELES, Política, Lisboa, 1998, pp. 207 e ss., e Constituição dos Ate-nienses, Lisboa, 2003, pp. 21 e ss. Cfr. também REINHOLD ZIPPELIUS, Teoria…, p. 65; DELFIMFERREIRA LEÃO, Introdução, in ARISTÓTELES, Constituição dos Ate-nienses, Lisboa, 2003, pp. 12 e 13.

229ARISTÓTELES, Política, p. 207.

230Contudo, no pensamento político de ARISTÓTELES, o vocábulo Consti-tuição surge, assim, ambivalente: ora como a aceção institucional de ConstiConsti-tuição, usado mais na Constituição dos Atenienses, ora como a preferência por um regime, o da politeia ou “regime constitucional”, usado na Política.

231Cfr. ENRIQUEÁLVAREZCONDE, Curso…, I, pp. 145 e 146.

232Cfr. GEORGJELLINEK, Teoría…, pp. 497 e ss.; ENRIQUEÁLVAREZCONDE, Curso…, I, pp. 146 e 147.

configurar uma aceção formal e material de Constituição que só a Idade Contemporânea pôde trazer.

III. A Constituição– a partir desta ou de outra terminologia233– é o ato de poder público dotado de supremacia máxima na Ordem Jurídica Esta-dual, regulando a organização dos respetivos sistemas social, económico e político.

Daí que seja legítimo dissociar, no conceito de Constituição, alguns elementos que lhe são necessariamente congénitos, os quais facilitam a sua distinção de outras realidades234:

o elemento subjetivo – é um ato intencional do Estado, não tendo a natureza costumeira e integrando a categoria das fon-tes voluntárias;

o elemento formal– que se localiza num lugar cimeiro do Orde-namento Jurídico Estadual;

o elemento material– regulando as opções principais do Estado ao nível dos sistemas social, económico e político.

IV. Mesmo se vista nestes seus elementos definitórios, a Consti-tuição pode também ser observada facetadamente, em razão de qua-tro perspetivas que nela podem estar presentes, que cumpre referir como suas dimensões ou aceções235:

uma dimensão material: a Constituição Material expressa um determinado conteúdo nas opções que transporta e que de -termina, ideologicamente nascida no Liberalismo236, mas que

233 Por vezes adota-se terminologia diversa, como de “Lei Constitucional”, em Angola até 2010, ou de “Lei Fundamental” (Grundgesetz), na Alemanha.

234Assim, JORGEBACELARGOUVEIA, Manual…, I, p. 593.

235 Cfr. MARCELOREBELO DE SOUSA, Direito Constitucional…, pp. 41 e 42;

MARCELLOCAETANO, Manual de Ciência Política…, I, pp. 342 e 343; REINHOLD ZIPPELIUS, Teoria…, pp. 65 e 66; JORGE MIRANDA, Manual…, II, pp. 10 e ss.;

JORGEBACELARGOUVEIA, Manual…, I, pp. 593 e 594.

236Bem sintetizado, recorde-se, no art. 16.° da DDHC, ao dizer que “Qual-quer sociedade em que não esteja assegurada a garantia dos direitos, nem estabele-cida a separação dos poderes, não tem Constituição”.

a evolução do Estado Constitucional veio a alargar e, sobre-tudo, relativizar;

uma dimensão formal: a Constituição Formal expressa a ideia de que, sendo um ato legislativo, o mesmo ocupa uma posição suprema no Direito Positivo;

uma dimensão documental (ou instrumental): a Constituição Do -cumental é encarada como um ato legislativo que realiza a codificação de um dado setor do Direito, nela se arrumando, sistemática e cientificamente, a disciplina fundamental do mesmo;

uma dimensão institucional: a Constituição Institucionalreflete um desejo mínimo de organização da entidade estadual, inde -pendentemente da caracterização que possa obter ao nível de certas opções de conteúdo, de forma ou de localização hie-rárquica237.

V. A realidade da Constituição, conforme foi dado a entrever, mostra-se ainda passível de várias classificações, em aplicação de outros tantos critérios de arrumação lógica238, de que se evidenciam os seguintes:

a) Constituições estatutárias e Constituições programáticas, se -gundo uma contraposição crucial na passagem do Estado Liberal ao Estado Social: através desta classificação se pode diferenciar uma perspetiva meramente estática, de garantia de um certo status quo, no contexto do Liberalismo político e económico do século XIX, (i) que são as Constituições estatu-tárias, e uma perspetiva dinâmica, com um desejo de inter-venção económica e de transformação social, em que se

237V. a importante exemplificação das leis fundamentais do Reino de Por -tugal, no período pré-constitucional, de JOÃO MARIA TELLO DE MAGALHÃES

COLLAÇO, Ensaio sobre a inconstitucionalidade das leis no Direito Português, Coimbra, 1915, pp. 3 e ss., e de F. P. DEALMEIDALANGHANS, Estudos de Direito, Coimbra, 1957, pp. 242 e ss.

238Cfr. JORGEBACELARGOUVEIA, Manual…, I, pp. 594 e ss.

regista a aquisição de novos conteúdos, essencialmente nos direitos fundamentais económico-sociais e nas normas sobre aspetos da organização económica da sociedade, (ii) que são as Constituições programáticas;

b) Constituições normativas, nominaise semânticas, usando a céle-bre classificação do alemão KARL LOEWENSTEIN, que mede a efetividade do texto constitucional na sua capacidade para limitar a realidade constitucional, assumindo uma natureza ontológica: (i) as Constituições normativas são textos que ver -dadeiramente conseguem domar a realidade constitucional, desenvolvendo o objetivo que lhes foi assinalado com o Constitucionalismo na sua perene luta pela limitação do poder público; (ii) as Constituições nominais têm o desiderato de limitar o poder público, mas não o conseguem levar a cabo, por via de mecanismos, jurídicos ou fácticos, que o impedem;

(iii) as Constituições semânticas, sucumbindo à realidade cons -titucional, perdem a finalidade de limitar o poder público e, inversamente, encontram-se ao serviço de um poder político ditatorial, ao mesmo se subordinando239;

c) Constituições liberais, sociais, fascistas e socialistas: são espécies de Constituição que, atendendo à forma política de governo e ao tipo constitucional de Estado, refletem cada uma dessas possí-veis combinações, sob uma dada perspetiva de organização do poder político240;

d) Constituições sociais, económicas, políticas e garantísticas, termos de uma classificação que atende ao setor da Constituição que é objeto de consideração, na medida em que, nas múltiplas matérias que versa, ela pode ser dividida: (i) na Constituição dos Direitos Fundamentais – a parte atinente à positivação dos

239 Cfr. KARL LOEWENSTEIN, Teoría de la Constitución, 4.ª ed., Barcelona, 1986, pp. 216 e ss.. Cfr. também MARCELO REBELO DESOUSA, Direito Constitu-cional…, pp. 53 e ss.

240Sobre esta classificação, v. MARCELOREBELO DESOUSA, Direito Constitu-cional…, pp. 55 e ss.

direitos fundamentais; (ii) na Constituição Económicae esta, por seu turno, subdividindo-se em Constituição Financeira e Cons-tituição Fiscal – a parte referente às regras sobre o sistema eco-nómico, o sistema financeiro e o sistema fiscal; (iii) na Consti-tuição Política – a parte atinente à distribuição dos poderes pelos diversos órgãos, bem com o respetivo modo de desig-nação; e (iv) na Constituição Garantística – a parte respeitante aos mecanismos de defesa da Ordem Constitucional;

e) Constituições flexíveis, semirrígidas, rígidas e hiper-rígidas, na esteira da classificação idealizada pelo jurista britânico JAMES

BRYCE241: (i) Constituições flexíveis quando a revisão ocorre sem sujeição a qualquer limite, não sendo o seu regime diverso do que se aplica ao procedimento legislativo ordiná-rio; (ii) Constituições semirrígidas quando isso apenas sucede relativamente a uma parte da Constituição, submetendo-se a outra parte ao regime da rigidez constitucional; (iii) Consti-tuições rígidas quando a revisão se submete a regras mais limi-tativas do respetivo poder em comparação com as que são aplicáveis ao procedimento legislativo geral, como a aposição de limites orgânicos, formais, procedimentais e temporais; e (iv) Constituições hiper-rígidas quando, em acréscimo a estes limites, se juntam limites materiais e circunstanciais.

VI. É ainda de observar entendimentos possíveis de Consti -tuição usados noutros ramos jurídicos, mas que não autorizam qual-quer assimilação com o sentido que obtém no Direito Constitu -cional.

O mais comum deles é o sentido de Constituição empregue pelo Direito Internacional Público, que é muito distante do sentido dado

241A noção de rigidez constitucional, por oposição à noção de flexibilidade constitucional, foi doutrinariamente introduzida por JAMESBRYCE, que trabalhou por referência ao modo do exercício do poder legislativo normal (JAMESBRYCE, Constituciones flexibles y Constituciones rígidas, Madrid, 1988, passim).

pelo Direito Constitucional, sendo de referir a propósito de várias ideias242:

Constituição como tratado constitucional ou institutivo de uma orga-nização internacional, sendo até essa a expressão que por vezes se utiliza na respetiva nomenclatura;

Constituição como feixe de princípios fundamentais, que sintetizam o ordenamento jurídico criado no seio de uma organização internacional;

Constituição como patamar superior de escalonamento da Ordem Jurídica Internacional ou de certa organização internacional243, assim se evidenciando uma parcela da Ordem Jurídica aplicável.

Noutros ramos do Direito, é também possível falar de Consti-tuição, se bem que num sentido impróprio e que não se confunde com o seu sentido constitucional244:

no Direito Administrativo: num sentido orgânico como com -posição de um órgão, ou como a sua própria criação;

no Direito Civil: como ato ou efeito de criar uma pessoa cole-tiva;

no Direito Canónico: como ato normativo promulgado pelo Papa, no uso dos seus poderes.

242Cfr. a sugestão de MIGUELGORJÃO-HENRIQUES, Direito Comunitário, 3.ª ed., Coimbra, 2005, pp. 19 e 20.

243 Tem sentido, a este propósito, referir-se o cada vez mais desenvolvido

“Direito Internacional Constitucional”, o qual repousa, como tivemos ocasião de referir (JORGE BACELAR GOUVEIA, Manual…, p. 45), “…na implantação de um escalonamento hierárquico-formal da sociedade internacional, sendo esta a classifi-cação que mais recentemente tem vindo a dar os seus primeiros passos”, e não nos devemos surpreender “…com o facto de certas normas e princípios internacionais poderem formar, à semelhança do que se passa no Direito Estadual com o Direito Constitucional, um Direito Internacional Constitucional, que se considere superior ao restante Direito Internacional” (p. 46).

244Cfr. JORGEBACELARGOUVEIA, Manual…, I, p. 599.

No documento Direito Constitucional de Timor-Leste (páginas 163-170)