Pressuposto Teórico e Constitucional da Reserva de Jurisdição
1 A SEPARAÇÃO DE PODERES COMO IDEIA E SUA QUADRIDIMENSIONALIDADE HISTÓRICA
3 A SEPARAÇÃO DE PODERES COMO PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL
3.2 A SEPARAÇÃO DE PODERES COMO ELEMENTO DO ESTADO CONSTITUCIONAL
Independentemente da formatação que se possa dar à Separação de Poderes e das duas tendências assinaladas e nitidamente divergentes, que se
199 FLEINER-GERSTER, Thomas. Teoria Geral do Estado, p. 479-480. 200
traduzem nos debates em torno da Constituição francesa de 1791 e da Constituição norte-americana de 1787, o certo é que tal já não mais constituía simples ideia nem somente doutrina representativa dos grandes teóricos políticos dos séculos XVII e XVIII, antes adentrando em praticamente todos os textos constitucionais que desses tempos em diante passaram a ser tidos como essenciais e imprescindíveis, alçando- se, portanto, ao status de princípio constitucional.
Como princípio organizatório e estrutural, já se demonstrou, ser ele uma das grandes constantes do Estado, mas não de qualquer forma de Estado e sim de um modelo específico, mais precisamente do Estado Constitucional, que se contrapôs ao chamado Estado Absolutista o qual, à evidência, e por suas próprias características essenciais, não se podia conformar ao referido princípio.
Bem discorre Miranda, em feliz síntese, e contrapondo o Estado Constitucional ao Estado Absoluto:
em vez da tradição, o contrato social; em vez da soberania do príncipe, a soberania nacional e a lei como expressão da vontade geral; em vez do exercício do poder por um só ou seus delegados, o exercício por muitos, eleitos pela colectividade; em vez da razão do Estado, o Estado como executor de normas jurídicas; em vez de súditos, cidadãos, e atribuição a todos os homens, apenas por serem homens, de direitos consagrados nas leis. E instrumentos técnico- jurídicos principais tornam-se, doravante, a Constituição, o princípio da legalidade, as declarações de direitos, a separação de poderes, a representação política201.
A Separação de Poderes passa, pois, a constituir elemento essencial deste novo tipo de Estado, de tal forma a não se conceber um Estado Constitucional sem que tenha por fundamento a Separação de Poderes, o que implica dizer que tal tipo de Estado traz, em sua essência, a abolição do ideário presente no modelo anterior, em que o exercício do Poder se dava de forma concentrada.
Impõem-se aqui duas observações. A primeira refere-se a que, em temas de direito político, muitas vezes os termos não são unívocos, mas plurívocos, razão pela qual se faz necessário acentuar que a concepção que aqui se emprega de Estado Constitucional, em primeiro lugar se vincula ao que Canotilho entende ser
uma tecnologia política de equilíbrio político-social através do qual se combateram dois ‘arbítrios’ ligados a modelos anteriores, a saber: a
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autocracia absolutista do poder e os privilégios orgânico-corporativo medievais202,
e que significa, na singeleza da expressão de Miranda, e em uma noção preambular e genérica, que o “Estado assente numa Constituição reguladora tanto de toda a sua organização como da relação com os cidadãos e tendente à limitação do poder”203
É o Estado Constitucional, antes de tudo, uma evolução e, ao mesmo tempo, uma contraposição aos modelos anteriores de Estado
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A segunda observação é a de que o Estado Constitucional, em seu desenvolvimento histórico, teve várias feições, desde o seu surgimento como Estado Liberal, passando pela sua fase social, até a sua feição contemporânea. Em todas essas fases, assevera-se, a Separação de Poderes sempre esteve presente como elemento essencial do Estado, garantidor dos valores por ele consubstanciados, especialmente em virtude de sua contraposição essencial ao exercício concentrado e potencialmente arbitrário do Poder, que era da substância do modelo anterior de Estado ao qual o Estado Constitucional igualmente se contrapõe.
, fundando-se, necessariamente, em uma Constituição assentada em valores específicos e consagrados pelo constitucionalismo moderno, ainda que com certas variantes.
Não significa isto dizer que o modelo de Separação de Poderes presente em cada um destes formatos do Estado Constitucional fosse necessariamente o mesmo, já que, à evidência, não sendo a fórmula da Separação de Poderes objeto de uma leitura única e invariável, como já ficou bem claro pelo que se expôs em tópicos anteriores, não se poderia pretender que, como elemento de formas diferentes de Estado, que priorizavam valores distintos, permanecesse inalterável. Ao contrário, foram múltiplas as formas em que se manifestou a Separação de Poderes.
A rigor, entretanto, todas as múltiplas manifestações da Separação de Poderes nos diferentes modelos constitucionais, desde os consagradores do Estado Liberal até os que se apresentam mais recentemente no contexto de uma sociedade complexa e mundial, passando pelo Estado Social, são variações que vão de um extremo a outro, os quais representam as duas vertentes de pensamento e
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CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição, p. 90.
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MIRANDA, Jorge. Teoria do Estado e da Constituição, p. 48.
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A respeito dos modelos anteriores de Estado e de sua evolução, em especial segundo uma visão estritamente política e jurídico-positiva que concebe três fases bem distintas – Estado estamental, Estado Absoluto e Estado Constitucional, cf. MIRANDA. Ibidem, p. 39-56.
interpretação que se formou em torno do tema e decorrem dos dois grandes debates, já examinados, em torno das Constituições francesa de 1791 e norte- americana de 1787.
De qualquer forma, a Separação de Poderes se moldou a cada uma das formas de Estado sem que, entretanto, deixasse de sempre estar presente como elemento do Estado Constitucional e sem que perdesse as suas características centrais, em especial sua conotação de fórmula institucional contraposta ao exercício concentrado do Poder Político e ao potencial abuso que disso decorre.
A partir dessas observações se pode traçar, em breves linhas, o que significou a Separação de Poderes no desenvolvimento do Estado Constitucional.
3.3 A SEPARAÇÃO DE PODERES NA EVOLUÇÃO DO ESTADO