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Ser Pedagogo: eis a questão

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Os alunos de Pedagogia, como se pôde constatar, em sua maioria fazem parte da classe trabalhadora e cerca de 83,80% são primeiramente trabalhadores, para depois serem estudantes.

Tabela 4: Estudantes de Pedagogia que Trabalham/Estudam ou Somente Estudam E S T U D A N T E S D E P E D A G O G I A

Trabalham/estudam Somente estudam

83,80% 13,50%

Fonte: Dados da pesquisa sobre os Cursos de Pedagogia coletados pela autora, 2008/2009.

Estes estudantes relataram suas condições precárias de vida, afirmando pertencerem às populações de baixa renda. Entretanto, não creditaram tais condições unicamente a suas características pessoais, mas sobretudo, e em larga escala, a situações econômicas e sociais determinadas, construídas sócio-economicamente.

O que se percebe no discurso dos entrevistados é que estes sujeitos buscaram o curso de Pedagogia em condições determinadas, pois sem estudo, há ameaça de desemprego, fome

necessidade. Mas buscavam, também, por questões pessoais, muitas vezes acreditando ter vocação ou até mesmo por influência de outros, como se pode observar nos depoimentos dos entrevistados que responderam as seguintes questões:

- Por que você escolheu o curso de Pedagogia? - O que você espera para seu futuro profissional?

Melissa/Pedagogia - Não vou falar que é vocação, porque [...], sei lá, acho assim eu tenho uma visão... Desde pequena, eu sempre fui “a professora”, nunca fui aluna, se eu não fosse a professora eu não brincava. Então acho que já começou assim, aí foi crescendo [...] minha mãe deu sugestão, e eu vi que era pedagogia mesmo [...]. A gente estuda para trabalhar. Porque até para a sociedade de hoje em dia está incluso isso, se você não tiver um curso superior, se você, às vezes, nem terminar o ensino médio, eles já não te pegam [os empregadores]. Muitas vezes você trabalha na parte de administração, seu patrão quase que força você a fazer administração [...]. Primeiro, eu quero começar a atuar, eu quero mexer mais é com crianças carentes, porque eu fui fazer [ficou pensativa] fiquei um dia num PET – Programa de Educação Tutorial42 – e aquilo mexeu demais comigo.

As condições concretas de Melissa foram conformando-a para exercer a profissão de professora, apesar de negar a questão da vocação, acaba por explicar exatamente o que se entende por ela quando afirma que, na brincadeira, só aceitava ser professora, o que significa dizer nasceu com vocação de ser professora. Em sua visão idealista, Melissa planeja ser professora e ajudar os outros. Ela salienta a necessidade do curso superior e a meritocracia que a escola confere. Isto significa dizer que ela acredita que a escola seleciona os mais capazes para o desempenho das funções mais relevantes (ENGUITA, 1989). Melissa se imagina fazendo um bom trabalho com as crianças carentes, uma vez que desde criança foi preparada para isso. Outra entrevistada, Patrícia, respondeu o seguinte:

Patrícia/Pedagogia - Porque minha mãe... é professora também, então sempre a vi sendo professora e pela minha irmã, porque eu a ajudo muito, então, eu sempre a ajudo nas coisas: fazer tarefinha, corrigir, estou envolvida com aquilo, sempre estive (...). Então eu falei: vou escolher este [curso]. É porque nos outros cursos eu não me via (...). Na verdade, eu e minhas amigas conversamos muito, para a gente montar uma escola nova. Porque é muito difícil para a gente trabalhar para os outros, ser empregado, e a gente têm essa vontade. Se Deus quiser vai dar certo.

42 Até o ano de 1999, o PET foi coordenado pela CAPES. A partir de 31 de dezembro de 1999, o PET teve sua

gestão transferida para a Secretaria de Educação Superior – SESU/MEC, ficando sob a responsabilidade do Departamento de Projetos Especiais de Modernização e Qualificação do Ensino Superior – DEPEM. Desde então, vem sendo executado levando em conta as diretrizes e os interesses acadêmicos das universidades às quais se vincula e que passaram a ser responsáveis por sua estruturação e coordenação. (http://www.iq.unesp.br/pet/oquee.htm. Acesso em: 05 de dez. de 2009.

Patrícia demonstrou ter sido muito influenciada em sua escolha profissional pela mãe e pela irmã, que já são professoras. Em seu depoimento, Patrícia evidencia a desvalorização do profissional de educação, ao mesmo tempo, que expressa a vontade de ser professora e dona de uma escola, ou seja, deseja deixar de ser trabalhadora assalariada para ser patroa.

Assim, Patrícia sonha em ser pedagoga, mas pensa na possibilidade de deixar de ser explorada e passar ser exploradora, montando um negócio próprio; deseja ser uma profissional liberal. Mas abrir um negócio próprio e sustentá-lo não é tão simples, apesar de ser um sonho para a classe trabalhadora ou da pequena burguesia, que costuma ser a “heroína da ideologia capitalista”. São aqueles sujeitos que “vão à luta”, montam seus pequenos negócios, aquele grupo de pessoas conhecido como “gente que faz”. Estes “heróis do capitalismo” batalham para conseguir crédito e depois para pagar os pesados juros. Lutam para conseguir bons funcionários e depois para lhes pagar os direitos trabalhistas – direitos que eles próprios não têm, pois vivem diretamente na dependência do sucesso de sua empreitada.

Percebe-se que, para Melissa e Patrícia, fica bem explícito que os relacionamentos estabelecidos ao longo de suas vidas, o que aprenderam de bom e de ruim, foram introjetados e projetados para suas vivências posteriores, no caso a escolha da profissão. Geralmente o que se é quando adulto tem relação com o que se foi construindo ao longo da infância e com as condições concretas que foram sendo criadas.

Segundo Lima (2007), a formação de uma auto-imagem positiva é de extrema importância para a constituição da identidade pessoal e profissional/ocupacional. Além de tudo, como afirma Heller (2000), não há vida cotidiana sem imitações, na vida cotidiana os indivíduos utilizam a imitação como um modo de aprender a agir, segundo formas socialmente adequadas e aceitas. Tanto Melissa, quanto Patrícia vivem em ambientes familiares e culturais de valorização da profissão de professor(a). Nesta valorização não está contida a realidade da desvalorização de se exercer a profissão, ou seja, baixo salário, precárias condições de trabalho, falta de condições de formação continuada e de acesso a novas tecnologias, inexistência de carreira e de piso salarial nacional etc. Não se leva em conta a corporeidade/subjetividade do professor.

No caso de Luciana, fica claro um desejo que envolve uma representação de determinado papel social, ela acredita ter tido liberdade de escolha, acredita que escolheu o que quer ser perante si mesma e a sociedade, o que implica uma seleção que pressupõe ganhos e perdas e elaboração do luto pelo não escolhido (perdas), pelo que foi perdido. Tem-se de levar em consideração que a renda familiar desta estudante e seu trabalho de meio período lhe

permitem, no último semestre de Pedagogia, ser aluna ouvinte do curso de pós-graduação em educação na Universidade Federal de Goiás.

Luciana/Pedagogia - Eu já tenho magistério, eu sou mineira e eu sempre gostei dessa área de educação, comecei a ver sociologia na faculdade e me encantei muito com algumas propostas ideológicas, sociais. E a educação ela tem uma abertura grande para você poder trabalhar e ter alguma chance de transformação. Não é só a educação que vai transformar muita coisa importante e necessária, antes da educação precisa ser transformada, modificada para que outras coisas possam ocorrer. Mas a educação junto com outras áreas tem um poder muito forte de transformação da sociedade. (...) Eu estou na área que gosto. Olha, tenho muitas propostas, muitos sonhos. Eu espero conseguir atuar de forma, assim bem eficiente. Eu me considero uma estudante... Acredito que já sou uma profissional e não quero me contentar somente com essa vida cotidiana de professor, eu quero algo mais. Então eu tenho proposta de transformação, idéias sobre propostas escolares diferenciadas. Eu quero continuar estudando, não vou parar na graduação, eu pretendo fazer curso de Pós-Graduação, Mestrado, Doutorado.

Quando o indivíduo escolhe uma profissão, está também, de alguma maneira, escolhendo o tipo de vida que levará e que tipo de relação estabelecerá com a sociedade por meio de seu trabalho. Luciana copia ou imita professores, ao mesmo tempo em que cria e deseja imprimir sua marca pessoal e individual, a marca de seu corpo, às atividades que pretende desenvolver e que, de acordo com Lima (2007), não deixa de ser uma escolha coletiva.

O pensamento cotidiano orienta-se para a realização das atividades cotidianas, o que significa afirmar que existe uma unidade imediata do pensamento e da ação na cotidianidade. Essa unidade imediata faz com que o “útil” seja tomado como sinônimo de “verdadeiro”, o que torna a atividade cotidiana essencialmente pragmática (PATTO, 1993, p. 126).

Luciana acredita que pode melhorar a qualidade de vida da sociedade, que fará um “trabalho útil” e que por essa razão sua opção é verdadeira e correta do ponto de vista da escolha e assim planeja fazer uma carreira no magistério, e não é qualquer carreira: ela almeja o topo da carreira, ou seja, o doutorado.

Na fala de Melissa, Patrícia e Luciana existe a crença de certa liberdade de escolha, a precedência da formação profissional sobre o exercício de uma profissão; nelas, se supõe uma preparação e investimentos sociais, culturais e econômicos que nem sempre poderão ser executados em decorrência de dificuldades concretas.

Já Marinete cursou Pedagogia em razão do trabalho que já realizava, ou seja, investiu em sua carreira profissional acreditando que este investimento trará frutos positivos.

Marinete/Pedagogia - Quando eu fiz [o curso de] Pedagogia, fiz por uma necessidade também, né?! Eu senti que eu tinha que estar fazendo algo, porque hoje a gente não pode ficar atuando mais na área [pedagógica] por necessidade mesmo de trabalho. E também por vir ao encontro da questão de busca de conhecimento mesmo.

Respondendo à segunda questão: “o que você espera para o seu futuro profissional”, ela respondeu:

Marinete/Pedagogia - Vixi! Eu tenho planos. Nossa! Muitos planos assim... Ah! São muitas coisas. A questão do próprio estudo, não é?! E... Eu acho que é uma coisa assim, investindo, já pensando no futuro também.

Marinete vê possibilidades de crescimento profissional que garantirão sua sobrevivência e, quem sabe, de conseguir ultrapassar as condições determinadas pela classe social da qual faz parte. Ela não tem clareza do que quer, ou não consegue, ou não pode, não dá conta, ou nem se digna a fazer planos explícitos. Marinete é também a primeira de uma grande família, em que a maioria não teve sequer a oportunidade de terminar o ensino fundamental, e cursar o ensino superior.

Para Waldir, Clara e Ana, o curso de Pedagogia foi a segunda opção. Eles mostraram ter consciência de que realizaram uma opção dentro de condições socialmente determinadas. Entretanto, foi a opção que tiveram para cursar o ensino superior e descobriram vantagens em tê-lo feito, como se verá nos depoimentos a seguir.

Waldir/Pedagogia - Na verdade, sempre tive vontade de fazer engenharia elétrica, mas, pelo valor e pelo tempo também, nunca foi possível. Aí optei por um curso de licenciatura, pois trabalho muito com educação, principalmente pedagogia. Estava olhando a grade do curso de Pedagogia e me identifiquei muito pela questão de planos, projetos e também por trabalhar muito a criança. Na minha área – eu trabalho com segurança do trabalho – trabalho muito com conscientização, palestras [...]. O curso de Pedagogia me ajudou muito nestas questões e, não abri mão da possibilidade de atuar como professor, eu gosto muito de lecionar. Hoje, se eu fosse focar só a Pedagogia, eu teria que deixar toda minha estrutura, o que não é possível.

Quando perguntado sobre o que espera para o futuro, Waldir explicou sobre os ganhos que obteve ao fazer o curso de Pedagogia e a necessidade de colar grau para apresentar o diploma e requerer aumento de salário:

Waldir/Pedagogia - O curso de Pedagogia me ajudou, mas não melhorou minha remuneração, eu espero fazer uma especialização, pois tenho auxílio de uma bolsa, [...] então, eu não posso colar grau, estou aguardando sair um

curso para fazer e concluir a especialização43, mas a graduação eu pretendo

atuar também, não sei quando.

Waldir vai construindo significações positivas para o curso que terminou. A adequação da escolha profissional de Waldir foi considerada levando em conta seu desempenho profissional futuro em benefício próprio, da família e da sociedade.

Clara e Ana gostariam de fazer o curso de Psicologia, mas por dificuldades financeiras optaram pela Pedagogia (curso mais barato e que demanda menos tempo de formação).

Clara/Pedagogia - Primeiramente por que está na minha área e por que é mais em conta, mas o curso do meu sonho mesmo é ser psicóloga. Não sei, mas desde dezessete anos que tenho [este sonho], não sei se é uma ideologia da minha cabeça, só vou saber mesmo no dia que estiver dentro da sala de aula pra eu ter [certeza] realmente, como é que fala? A palavra certa assim, fundamento, não é? De eu querer ser psicóloga. (...) se é uma fantasia da minha cabeça de adolescente, por que desde adolescente que eu penso em ser psicóloga.

Quanto à questão, o que espera para seu futuro profissional, Clara respondeu:

Clara/Pedagogia – [...] Ah! Eu pretendo formar, não é? Se eu alcançar esse objetivo e isso depende também de Deus, o que vai me proporcionar até lá, como eu demorei muito não é? Se conseguir a meta, como eu vou fazer trinta e sete anos é algo fundamental que eu vejo. Em princípio é fundamental [...] não tem como, assim, viver e não passar por essa experiência. Eu acho muito importante e ao mesmo tempo difícil, por que hoje eu acho, assim [como estou] não dá muita oportunidade de trabalhar, pois tenho que ser mãe, esposa. Este é meu ponto de vista.

Para esses (as) depoentes, “compreender o mundo e as relações sociais de que fazem parte” e, além disso, “superar sua condição de classe” (FERRETTI, 1988, p. 175) exigiria deles (as) uma clareza dos determinantes dessa condição, o que não se pôde perceber nos demais depoimentos analisados.

A partir de uma realidade concreta, todos optaram por um curso que, no seu entender, se encaixa em suas condições materiais, acreditando que se aproxima do seu desejo de escolha. As condições de vida dos indivíduos que pertencem a uma determinada classe social geram expectativas que os orientam na sua escolha, que tendem a confirmar suas probabilidades objetivas. Dessa forma, os indivíduos oriundos da classe trabalhadora

43 Waldir acredita que se não colar grau poderá usar a bolsa de estudo no curso de especialização e assim

desenvolvem expectativas que condizem com as restrições de sua classe social, como explicitam Bourdieu e Passeron (1975).

Esse processo, ao mesmo tempo, pode levar ao desenvolvimento da consciência e à apropriação da realidade. Portanto, é um processo de apropriação e interpretação da realidade construído em uma determinada sociedade, constituída por um conjunto de ideias dominantes que explicam e mantêm as ideias compartilhadas pelos indivíduos, (FRIEDMAN, 2006).

Ana também manifesta seu interesse em fazer o curso de Psicologia, mas entende que não terá condições de mantê-lo devido a suas condições econômicas. Assim, utiliza um mecanismo de defesa conhecido como racionalização, demonstrando a vantagem da sua escolha, pelo fato de o curso de Pedagogia trabalhar com o sujeito no seu contexto geral, um sujeito social. Aqui está o depoimento de Ana:

Ana/Pedagogia - Então, eu gostaria de ter feito o curso de Psicologia, entender um pouco essa questão do comportamento do ser humano, mas, devido à falta de condição para me manter no curso, eu optei pela Pedagogia. Na Pedagogia preciso entender o sujeito no contexto geral, não é? Então eu penso que, [a Pedagogia] é mais complexa do que a Psicologia, eu me identifiquei muito com a área da Educação (...). Eu, como agora, ingressei no Mestrado em Educação como aluna especial, pretendo passar na seleção. Se eu conseguir passar, vou dar continuidade ao meu mestrado e quero atuar na área de docência universitária, um concurso, ou na Federal ou na Católica, e dar continuidade ao meu doutorado e trabalhar.

Neste sentido, a explicitação das razões que a levaram a cursar o curso de Pedagogia, suas condições reais e concretas presentes, pode favorecer o reconhecimento das determinações com as quais teve de lidar. “Nesse movimento, vemos a possibilidade da re- significação (que é sempre um processo cognitivo e afetivo) e da produção de novos sentidos subjetivos” (AGUIAR; BOCK; OZELLA, 2001, p. 172).

A escolha do curso/profissão feita pelos sujeitos aqui considerados sofreu, como se pôde constar, uma série de injunções que escapam a seu controle, ou sobre as quais os indivíduos tinham controle precário, resultando daí desdobramentos que ocorreram em situações diversas, o que não constituiu surpresa se se levar em conta as condições de classe dos entrevistados (as), a ideologia dominante, a mercadoria educação que puderam comprar e as limitadas possibilidades de escolha profissional.

Na verdade, ao se determinar as classes das quais eles são expressão, de acordo com Ferretti (1988), observa-se o baixo poder aquisitivo, a limitada escolaridade de seus pais e as dificuldades de acesso a mais educação. Ademais, a precária ou inexistente qualificação para

o exercício da maior parte dos empregos urbanos vem dificultando a ascensão à outra classe social.

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