5. UMA ANÁLISE COMPARADA DAS POLÍTICAS RURAIS TERRITORIAIS NO
5.1. A fungibilidade da abordagem LEADER e o espraiamento internacional de
5.1.6. Sexta categoria: impacto da interdependência
De acordo com a definição proposta por Rose (1993), a interdependência existe quando um programa em uma jurisdição é influenciado por outros programas que abordam um problema correlacionado em outra jurisdição; apesar de serem paralelos, os programas interagem de alguma forma. Mesmo que os formuladores de políticas públicas ignorem o que se passa em outros lugares, em um sistema interdependente, os efeitos de um programa são o resultado das interações entre suas ações e as dos outros. Assim, quanto maior for a interdependência entre programas adotados em jurisdições diferentes, mais fungível será o impacto de um programa8.
A interdependência pode variar grandemente conforme o contexto em que um programa se insere. Pode ocorrer tanto dentro de uma mesma jurisdição como entre duas ou mais jurisdições. A interdependência internacional fica sempre patente em
8
No original: The greater the interdependence between programs undertaken in different jurisdictions,
87 programas de defesa nacional. Quando nações interdependentes diferem grandemente na escala de seus recursos, as nações menores ficam indiretamente forçadas a prestar atenção às ações das nações maiores. Em política econômica, a interdependência funcional se torna mais transparente. Os fluxos de comércio internacional movimentam dinheiro, bens e serviços entre as fronteiras nacionais; nessa dinâmica, os programas de comércio em uma jurisdição dependem necessariamente do sucesso de programas executados em outras jurisdições que se relacionam no intercâmbio internacional de importação e exportação (ROSE, 1993).
No que tange à AT, em particular, Rose (1993), ao tratar do lesson-drawing, nos apresenta um exemplo que vai ao encontro do tema tratado neste parágrafo. O autor apresenta o caso da OCDE, onde a internacionalização dos mercados, vis-à-vis, globalização, criou uma interdependência entre as políticas econômicas nacionais. Em uma economia aberta internacionalmente, cada economia nacional, além das suas próprias ações, fica sujeita ao resultado das medidas tomadas em outros países. Num panorama mais amplo, surge um problema de governança global. Como consequência das seguidas crises da balança de pagamento das economias emergentes durante a segunda metade da década de 1990, período marcado pelo esgotamento do modelo de gestão macroeconômica defendido pelas economias desenvolvidas, em 1999 estabelece- se o G-20, reunindo países desenvolvidos e os países em desenvolvimento sistematicamente mais importantes, para cooperação em temas econômicos e financeiros (ITAMARATY, 2013). Na mesma década de 1990, no âmbito do desenvolvimento rural da UE e dos países membros da OCDE, surge uma nova estrutura de governança: a governança territorial, como uma resposta aos desafios e oportunidades impostos às áreas rurais pela globalização. Nesse contexto, redes ou associações de grupos LEADER foram criados ou emergiram de um modo mais informal a nível local, regional ou nacional em alguns Estados-membros e a nível europeu (Comunidades Europeias, 2006).
Assim, porquanto a Iniciativa LEADER surgiu como uma espécie de laboratório para promover o desenvolvimento e ajustamento estrutural das regiões com atraso de desenvolvimento, a ligação em rede se torna uma característica importante desta abordagem. A esta característica se relacionam sistemicamente outras como ações integradas e multisetoriais, facilitação à inovação e cooperação. Segundo Comunidades
88 Europeias (2006), a ligação em rede implica o intercâmbio de resultados, experiências e saber-fazer entre os grupos LEADER, zonas rurais, administrações e organizações envolvidas no desenvolvimento rural da UE, sejam ou não beneficiários diretos da Iniciativa LEADER; torna-se um meio de transferência de boas práticas, de divulgar a inovação e de retirar ensinamentos do desenvolvimento rural a nível local; e, ao forjar ligações entre pessoas, projetos e zonas rurais, estimula projetos de cooperação ao colocar os grupos LEADER em contato uns com os outros em outras regiões, Estados- Membros ou mesmo num país terceiro. Os projetos de cooperação não são simples intercâmbios de experiências, mas devem envolver um projeto conjunto concreto, que seja melhormente gerido em uma estrutura comum (Comunidades Europeias, 2006).
No que se refere à transferência da AT para outros contextos, a fungibilidade dos impactos desta abordagem (isto é, a criação de sinergias, uma propriedade material e imaterial comum e da massa crítica necessária ao aumento da competitividade econômica numa área rural) está relacionada não apenas à interdependência de um conjunto coeso de políticas públicas, mas, sobretudo, à superação do viés setorial num sentido mais amplo, abrangendo tanto a esfera do Estado como a da sociedade. Na esfera do Estado, para que os efeitos da AT sejam fungíveis, torna-se necessário uma abordagem holística ou sistêmica em detrimento a uma abordagem setorial ou fragmentada. Conforme a configuração institucional e a abrangência ou foco dado à AT por parte da jurisdição que a adote, uma abordagem sistêmica deve relacionar e coordenar num todo coerente (i) as ações realizadas num único setor, (ii) todas as ações ou grupos específicos de ações ou (iii) as ligações entre os diferentes agentes e setores econômicos, sociais, culturais e ambientais (Comunidades Europeias, 2006). Não basta que programas ou ações sejam reunidos numa matriz e continuem a operar independentemente, mas que estejam coordenados num todo coerente interdependentemente, ou seja, que “conversem” entre si, aproveitando sinergias e evitando a duplicação de esforços. Além disso, a implementação da AT também comporta a formação de redes institucionais através das quais são realizadas atividades práticas, tais como preparação de publicações sobre diferentes aspectos do desenvolvimento rural; organização de seminários; análise de ações de desenvolvimento rural com o intuito de identificar boas práticas; identificação de tendências de evolução nas zonas rurais; gestão de sítios web; apoio à procura de parceiros potenciais para os
89 grupos LEADER; e lançamento de projetos de cooperação (Comunidades Europeias, 2006).
Por outro lado, na esfera mais ampla da sociedade, a promoção do desenvolvimento rural costuma ser associado à pobreza, com a demanda por estratégias específicas de discriminação positiva que muitas vezes se traduz na introdução de um viés marcadamente assistencial às populações e regiões rurais, tendo o efeito não antecipado de excluí-las de todo um outro rol de programas e políticas de dinamização econômica e fomento à inovação (FAVARETO, 2010). Portanto, a superação do viés setorial envolveria também uma mudança na esfera das formas de racionalização predominante (WEBER apud FAVARETO, 2010) nos quadros mentais da burocracia governamental, de pesquisadores e até mesmo das próprias populações rurais, que associam o rural à pobreza e à imagem de um lugar destinado à produção de bens primários, reforçando ainda mais o viés setorial (FAVARETO, 2010). Segundo Comunidades Europeias (2006), a abordagem ascendente pressupõe um maior protagonismo das autoridades e comunidades locais na definição e execução de programas destinados a satisfazer as necessidades locais das áreas rurais consideradas como territórios, em vez de atenderem apenas ao setor agrícola. Assim, para que a AT seja fungível em seus efeitos na promoção de um desenvolvimento sustentável, um território precisa associar todos os setores econômicos e sociais presentes em uma região em torno de projetos coletivos e ações multisetoriais, com vistas a criar sinergias na produção de um bem comum ao território como um todo, envolvendo, portanto, o reforço do diálogo e da cooperação entre diferentes agentes rurais.