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Nos discursos dos meus entrevistados, vários significados são dados ao treco Padre Cícero. Alguns deles me chamaram mais atenção, como: tradição familiar, respeito, representação, santo poderoso, lembrança de uma pessoa do passado, fé, glória, católica praticante, milagre, benção, proteção, realização de pedidos, coração, idolatria, prazer, história, agradecimento à vitória, padre santo, padre poderoso, promessa, santo na minha casa, representação da bênção de Deus, reza, lembrança de Juazeiro, um santo que lutou pela pobreza e foi perseguido pelos nobres, símbolo religioso, a prova que somos romeiros, intersecção por Deus, santo.

Desse modo, quem dá significado ao treco são as pessoas que se apropriam da matéria como algo para além de si mesmo.Podemos, ainda, dizer que é pelo consumo do treco Padre Cícero que as pessoas vêm a se identificar com um projeto de vida, tendo aspirações voltadas para aquilo que se deseja ao obter o treco.

No que diz respeito a estruturar, projetar e pensar toda uma vida em torno de algum significado além de si mesmo, em função de bases religiosas, para Weber (1994), foi a base religiosa que forneceu subsídios morais e racionais que serviram para o desenvolvimento do capitalismo moderno, pois esse processo de busca de riqueza gerou uma mentalidade voltada para os bens materiais via consumismo. Em função desse capitalismo moderno se deu o “desencantamento do mundo” pelo afastamento da mentalidade comedida dos protestantes, onde as relações sociais ficaram estritamente egoístas ocasionando a extinção dos valores humanos da sobriedade e espiritualidade. A busca de riqueza, diferentemente do ascetismo, ganha “caráter de prazer”, o hedonismo e o consumo de mercadorias serve às paixões puramente mundanas, ou seja, a ostentação.

Para Baudrillard (1995), pode-se, com efeito, conceber o consumo como uma modalidade característica de nossa civilização industrial. O consumo não é esse modo passivo de absorção ou de apropriação, que se opõe ao modo ativo da produção para que sejam confrontados os esquemas ingênuos de comportamento e de alienação, como afirmam os críticos da cultura de massa consumista moderna.

É preciso que fique claramente estabelecido que, desde o início, o consumo é um modo ativo de relação com a coletividade e com o mundo, e um modo de atividade sistemática e de resposta à produção capitalista, no qual se funda todo o sistema cultural ocidental. Baudrillard (1995) destaca que é necessário estabelecer claramente que não são os produtos materiais que são objetos de consumo e resultantes da necessidade e da satisfação. Em todos os tempos comprou-se, possuiu-se, usufruiu-se, gastou-se e, contudo, não se “consumiu”.

Os consumidores ascendem à condição de mercado não como simples lugar de troca de mercadorias, mas como parte de interações socioculturais mais complexas, onde se destacam a distinção e personalização simbólica dos objetos comprados. É nisso que atingimos uma das significações do treco Padre Cícero. O consumo é notoriamente cultural, respeitando todo o arcabouço simbólico, histórico e religioso do lugar.

Passamos a vê a variabilidade dos significados da prática de consumo do treco Padre Cícero. Não. Antes devemos pensar que há uma necessidade de pensar o consumo enquanto estudos de cultura material, através da especificidade de objetos materiais para, em última instância, criar

uma compreensão mais profunda da especificidade de uma humanidade inseparável de sua materialidade.

Para Miller (2013), a emergência de uma série de estudos que olharam para o potencial produtivo do consumo através de um foco na transformação de mercadorias produziu uma literatura extensa que se desviou do consumo como um objeto geral sociológico, e na direção da especificidade de formas particulares de consumo e gêneros particulares de mercadorias. A virtude de teorizar o consumo naquele tempo foi de que isso liberou o tópico de ser meramente um serviçal na caracterização do capitalismo, e permitiu que se voltasse à sua especificidade, a qual, em muitos aspectos também significou uma volta à sua materialidade. Se a teoria deveria ter algum uso substantivo, esse sugeriria que há muitas maneiras diferentes pelas quais o consumo pode se manifestar enquanto produção de grupos sociais e que esses tem de ser examinados um por um.

Há uma necessidade cada vez mais latente de produzir novos olhares e leituras sobre as especificidades do consumo, pensando nos lugares que acontecem tais ações. Tendo por base as entrevistas que foram feitas mediante o significado do treco Padre Cícero para os entrevistados, nota-se que o treco Padre Cícero assume o papel dominante, ou seja, é o produtor das relações sociais, entre ele mesmo e as várias pessoas que adquirem o bem. O treco aqui é o agente-chave, é um dos elementos que estruturam a ligação entre o indivíduo e o mundo. Sendo importante pensar que há uma variabilidade nas relações sociais, no que diz respeito de como elas são construídas em relação ao treco Padre Cícero.

Tais relações sociais são construídas a partir de sentidos e funções diferentes, que algumas são: tradição familiar, respeito, representação, santo poderoso, lembrança de uma pessoa do passado, fé, glória, católica praticante, milagre, benção, proteção, realização de pedidos, coração, idolatria, prazer, história, agradecimento à vitória, Padre Santo, Padre poderoso, promessa, santo na minha casa, representação da bênção de Deus, reza, lembrança de Juazeiro, um Santo que lutou pela pobreza e foi perseguido pelos nobres, símbolo religioso, a prova que somos romeiros, intersecção por Deus, santo.

O treco assume um papel transformador, definidor, redefinindo, construtor e estruturador das relações sociais que são estabelecidas através do consumo do mesmo. Nele (treco) é depositado o ponto referencial ideal das relações sociais que são construídas, pois há um conhecimento e reconhecimento do treco Padre Cícero como símbolo que se constrói baseado em sentidos humanos, dos quais fenômenos naturais ou sociais dão sentido a sua existência individual e coletiva.

Portanto, o poder simbólico, em especial do treco, se constitui através da enunciação de seus atores, participantes das práticas que são estabelecidas com o contato e ação sobre o mundo em

que existe o poder constituinte. Fazer ver e fazer crer, confirmar ou transformar a visão de mundo, permitindo o reconhecimento e conhecimento da força simbólica do treco.

Ainda sobre o treco investigado é importante salientar, segundo Berger (1983), que o ser humano, comparado aos outros mamíferos, tem uma dupla relação com o mundo. Por um lado, o ser humano está em um mundo que precede o seu aparecimento, por outro, esse mundo não é simplesmente dado, é pré-fabricado para ele. Isto nos ajuda a pensar o modo como foi definida a cultura na sociedade juazeirense, onde o pensamento simbólico em torno do treco “Padim Ciço” acaba fornecendo as bases, os hábitus23 e costumes da cultura e sociedade local, ao mesmo tempo

em que os indivíduos o constituem continuamente. Há, portanto, uma adesão inerente ao indivíduo. Ao treco Padre Cícero é dado aspectos místicos, sociais, são as experiências dos sujeitos que visitam e estão inseridos nesse espaço que seus feitos, efeitos e atributos destacam-se, em um cosmos cujas fronteiras entre sagrado e profano configuram-se borradas. O desejo de proteção se faz no cotidiano de devotos, no dia-a-dia do romeiro (a) e do citadino, onde os mesmos se orientam e constroem laços de proteção, afetividade e fé no “Padim Ciço”.

As entrevistas acerca da variabilidade de significados do treco Padre Cícero reforçam a perspectiva da importância do estudo da cultura material. Segundo McCracken (2007), a localização original do significado cultural que afinal reside o mundo dos bens de consumo é o mundo culturalmente constituído. Trata-se do mundo da experiência rotineira, em que o mundo dos fenômenos se apresenta, aos sentidos individuais, plenamente formados e constituídos pelas crenças e premissas de sua cultura. A cultura constitui o mundo dos fenômenos.

Ainda McCracken (2007), cada cultura estabelece sua própria visão particular do mundo, assim, com que entendimentos e regras sejam apropriados num contexto cultural e absurdamente impróprios em outros. Uma cultural estabelece um conjunto privilegiado de termos dentro do qual nada parece estranho ou ininteligível para o membro da cultura e fora do qual não há ordem, sistema, premissa segura de compreensão imediata. Ao investir o mundo de seu próprio significado particular, a cultura “constitui” o mundo. É de um mundo assim constituído que decorre o significado destinado aos bens de consumo.

Para isso, o treco padre Cícero está categorizado dentro de uma matriz conceitual de um mundo culturalmente constituído. Essa categorização determina como esse mundo será construído em parcelas distintas e inteligíveis, e como essas parcelas serão formadas e organizadas dentro de 23 O conceito de“habitus”foi desenvolvido pelo sociólogo francêsPierre Bourdieu com o objetivo de pôr fim à antinomia indivíduo/sociedade dentro da sociologiaestruturalista. Relaciona-se à capacidade de uma determinada estrutura social ser incorporada pelos “agentes”por meio de disposições para sentir, pensar e agir.

um sistema maior e lógico. A gratidão, tradição e fé são categorias que podem ser elencadas, no que diz respeito ao consumo do treco Padre Cícero.

A gratidão que é vista a partir das falas de alguns romeiros devotos, como reconhecimento pelos dias, ou, pelos próximos dias de saúde, paz e revigoramento da fé individual e familiar. O reconhecimento dos laços sociais com a entidade divina, representante de Deus aqui na terra. Essas situações aparecem nos discursos dos entrevistados de forma sucinta e delicada, mas, que reforçam os sentimentos afetivos nutridos a cada viagem, a cada consumo do treco Padre Cícero.

Através dos discursos dos nossos entrevistados, entendemos por "tradição" a relação pretendida e construída entre a família, a lembrança de um ente querido que já se foi, que não pode mais fazer a viagem para o Juazeiro do Padre Cícero. O reforço dos ritos que aparecem nas visitas a lugares sacros, no consumo do treco Padre Cícero e na relação com os espaços percorridos em dias de visitas.

Por fim, a fé que alimenta, dá força, prova a todo instante a vontade de estar aqui, agradecendo, pedindo e construindo laços permanentes com a entidade de devoção. Portanto, as categorias gratidão, tradição e fé aparecem aqui no texto como dádivas, ou seja, relação de trocas simbólicas. Dito isto, a melhor maneira de entendermos, transmitimos e apreciarmos a humanidade, é dando atenção a nossa materialidade fundamental. (MILLER, 2013. p, 10).

Para McCracken (2007), os objetos contribuem para a construção do mundo culturalmente constituído justamente porque registram de maneira vital e tangível um significado cultural que sem eles seria intangível. Com efeito, não é exagero dizer que os objetos têm uma função “performativa”, na medida em que dão ao significado cultural uma concretude que ele do contrário não teria para o indivíduo. O significado cultural que organize esse mundo torna-se parte visível e demonstrável de tal mundo por meio dos bens, ou, dos trecos.

Podemos ver o treco Padre Cícero a partir da oportunidade de fazer uma leitura do mundo culturalmente constituído, de dá matéria a uma cultura. O treco permite que os indivíduos discriminem, especifiquem de forma materializada alguns significados da sua cultura constituída por princípios culturais. Esses princípios culturais são as premissas iniciais que possibilitam os fenômenos culturais, para que sejam distinguidos, classificados e inter-relacionados.

Por vezes os princípios culturais dos lugares (e aqui, tratamos das bases constituintes da cidade de Juazeiro do Norte, já mencionadas no texto) são conceitos norteadores do pensamento e ação dos indivíduos perante os trecos que são construídos, reforçados, reinventados, e que são expressões de todos os aspectos da vida social das pessoas que acolhem, respeitam, veneram, oram, rezam e honram o personagem Padre Cícero Romão Batista e sua história conhecida e reconhecida.

Com isso,trago mais um relato acerca do significado do treco Padre Cícero, para a senhora Marilene de Santana Nunes da cidade de São Brás, estado de Alagoas.

AH! É mesmo que tá meu pai... minha mãe...meu pai tá junto de mim ali sabe...então quando eu me acordo ô meu padrinho me abençoe me ajude que eu volte lá novamente...vai e volte com saúde e deixe também meus familiares com saúde...GRAÇAS A DEUS. Ói... eu vim pagar sabe quantas promessas? Ontem eu paguei três que eu fiz, de outra vez que eu vim paguei uma dessa mão que quebrei... eu tenho sessenta e seis anos...quando eu quebrei eu já tinha sessenta e cinco anos...aí quando eu fiz...aí todo mundo né...por que você já é uma pessoa de idade vai demorar a sarar...aí quando eu fiz a cirurgia aí o médico foi e disse: olhe dona Marilene parece uma criança num instante sara...mas a senhora vai...mas a senhora não tem diabete com fé em Deus vai sarar logo...quando eu fui fazer a revisão...eu fiz uma promessa pro meu padrinho Cícero...SE EU FICASSE BOA DA MINHA MÃO24...não tivesse aquelas dor nem leseira que dá...nem dói graças a Deus sabe...aí eu trazia...comprava aqui uma mão pra dá a ele...pra deixar na casa do milagre e uma contribuiçãozinha que a gente também tem que dá né...aí quando foi com um mês eu voltei lá pra fazer a revisão e foi tirou o gesso né e quando botou na máquina para fazer o raio x...que eu cheguei lá ele olhou pra mim e riu...aí disse: dona Marilene eu estou admirado da idade da senhora parece uma criança...o braço já tá recuperado sem tortura nenhuma. Eu digo: a fé que eu tenho em Deus e meu padrinho Cícero e ele deu risada e disse: é mesmo dona Marilene a fé cura mesmo. E quando eu fui... na minha cidade não tem médico...fui pra outra cidade...fui até com ela (aponta para a parceira ao lado)...fui pedindo a Deus que não precisasse eu ir pra Aracaju...Aracaju é muito longe...e pra onde a gente ia...é que nem você vai muita gente...o hospital é muito bom...mas a demanda é grande né...não tem como. Tenho fé em Deus e meu padrinho Cícero que eu vou encontrar um médico em Propiá que ele vai fazer minha cirurgia... foi Deus mesmo que botou aquele médico né. Então a gente só tem o que agradecer a Deus né... eu não venho porque não é para fazer compra não...só venho porque eu tenho fé em Deus e meu padrinho Cícero. O treco Padre Cícero torna-se o intercessor, aquele agente responsável pela união, com as forças divinas. É nele que é depositado crença, fé, arraigado a algum desejo individual ou coletivo. O treco é a superação da não presença de entes queridos que já se foram, é a transformação da gratidão pela fé, por pedidos e graças alcançadas, relacionadas a vários aspectos da vida. O treco está além da compreensão individual, o mesmo é marcado por várias facetas e depoimentos que reforçam sua importância para além da materialidade.

Vejamos a entrevista da Citália de São Bento do Uma, do estado do Pernambuco, ainda acerca do significado do treco Padre Cícero.

24 No momento da fala, a senhora Marilene mostra suas mãos com movimentos para cima e para baixo, aperta-as demonstrando está curada da enfermidade.

A mãe é devota né... aí já...inclusive esse ano a gente já veio pagar uma promessa da minha mãe...porque a gente pede para ele interceder pela gente...pela família da gente...e graças a Deus a gente sempre foi ouvido...todos os milagres...pode dizer que são milagres...foram concedidos. Lembro que a Citália era uma jovem de pouco mais de 20 anos, e que toda a nossa conversa fora pautada a partir do momento que pergunto para ela: quantas viagens já desses ao Juazeiro? A mesma responde rapidamente, com um olhar de satisfação e diz: “bom... eu não sei, tenho vinte e três anos... a gente vem uma vez por ano, tem ano que a gente vem mais de uma vez por ano... aí eu não sei. Venho aqui desde vinte e oito dias de nascida”. No caso da Citália, a viagem sempre se faz em família, como a mesma diz: “é tradição”.

Novamente aparece nas falas dos entrevistados, a ideia de intersecção, tradição familiar, e ainda o crédito de fazedor de milagres. A crença, a fé, ligada ao anseio de mudança, o pedido de bênçãos, promessas feitas em função de graças a alcançar, o vir descarregar o peso de todo o ano de sacrifícios e muito trabalho, de algumas perdas e ganhos, dentre outros efeitos, dão alicerce para construção de princípios culturais, construídos a partir de um mundo cultural construído diariamente, seja em períodos de grandes aglomerações de romeiros na cidade, ou, para os citadinos.

Já para Silmara, da cidade de Belém do São Francisco, no estado de Sergipe, o treco Padre Cícero significa:

Então... proteção. Nós somos de uma família muito religiosa e acredita muito... assim...em santos que eles protegem entendeu...qualquer coisa que a gente tá passando por aperto...por algum aperto ou coisa parecida...vamos lá...a gente vai lá ajoelha pede...ter fé...com fé...tendo fé acho que é tudo. Aqui o treco Padre Cícero, estabelece uma conexão com o indivíduo, sendo o agente protetor, escutador e solucionador de problemas, apertos, que porventura alguém possa passar. Segundo a Silmara, todas as vezes que vem ao Juazeiro, ela leva o treco Padre Cícero e muitos parentes e amigos levam também como recordação do Juazeiro, ou levam para vizinhos e conhecidos que não puderam vir.

Há uma infinidade de motivações para que as pessoas consumam o treco Padre Cícero. Diante de uma variabilidade muito grande de motivações para o consumo do treco, entendo que não se pode ou não há necessidade de se tentar construir uma definição de por que se consome o treco.

Percebo que qualquer tentativa de construção, de sistematização do consumo do treco Padre Cícero, corre-se o risco de cair em armadilhas metodológicas.

Entendendo que o mundo culturalmente estabelecido nessa cidade, Juazeiro do Norte, abraça inúmeras causas, desde religiosas, míticas, místicas, econômicas, políticas, de interesses diversos e por vezes momentâneos, passamos a discutir, no capítulo seguinte, o porquê da vinda ao Juazeiro e o que o treco Padre Cícero provoca nas pessoas a partir da perspectiva da dádiva.

4CAPÍTULO III - BENS TROCADOS: DÁDIVAS E TROCAS NO JUAZEIRO.

A proposta desse capítulo é demonstrar a possibilidade do consumo do treco como dádivas trocadas, a partir da teoria da dádiva construída por Mauss (2011). Aqui, pensamos como as três obrigações, o dar, receber e retribuir pode agir sobre o consumo do treco Padre Cícero pelos romeiros devotos. Portanto, a compreensão se dá pelo sistema de trocas na vida social.

Na vida material e moral, a troca funciona aí sob uma forma desinteressada e obrigatória ao mesmo tempo. Além disso, esta obrigação exprime-se de maneira mítica, imaginária, ou, se se quiser, simbólica e coletiva: assume o aspecto do interesse ligado às coisas trocadas: estas não estão nunca completamente desligadas dos seus agentes de troca; a comunhão e a aliança que elas estabelecem são relativamente indissolúveis. Na realidade, esse símbolo da vida social – a permanência de influência das coisas trocadas – não faz senão traduzir bastante diretamente a maneira como os subgrupos dessas sociedades segmentadas, de tipo arcaico, estão constantemente imbricados uns nos outros, e sentem que se devem tudo (MAUSS, p. 106).

É claro que nas ciências sociais ao longo das décadas muito se tem discutido sobre as correntes teóricas e campos do saber, sobre a existência social vinculada as soluções materiais, ao dinheiro e a economia utilitarista. Poderíamos resgatar, contudo, a discussão sobre fenômenos presentes na esfera simbólica das relações sociais. Portanto, tal questionamento me leva a uma das principais teorias já desenvolvidas nas ciências sociais acerca da complexidade da ação social, a teoria da dádiva, que por sua vez, me conduz a herança deixada por Mauss (2011).“um presente dado espera sempre um presente de volta”. A dádiva tem foco no caráter voluntário, aparentemente livre e gratuito, e, no entanto obrigatório e interessado. Uma arqueologia das transações humanas, composta por três obrigações: dar, receber e retribuir.

Diante da tentativa de elucidação do mundo da cultura material ligado ao treco Padre Cícero, e a materialidade intrínseca as relações humanas, venho trazer o pensamento de Marcel Mauss sobre a “dádiva” (2011), no qual o papel do objeto, ou, como estamos a tratar, do treco, é, também, dominante na perspectiva das relações sociais.

É importante dizer que a leitura sobre a dádiva de Mauss para a nossa pesquisa parte do

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