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1 ESTUDOS DE AVÓS E NETOS

1.3.1 Concepção de cuidar

1.3.1.1 Significado do cuidar

O vocábulo cuidado admite sentido mais amplo. Os avós passam a

assumir significação de pais substitutos e sentimentos positivos e negativos do

cuidar.

A literatura aponta que, para compreender o significado do cuidar, é

preciso distinguir os avós que cuidam dos netos por um pequeno período do dia,

considerados auxiliares, também chamados de integrais, daqueles que o fazem

aosfinais de semana ou eventualmente.Muitos desses tipos sentem satisfação de

poder cuidar dos netos pois encontram um significado nessa tarefa e apresentam

menos sentimentos conflitivos (NERI; PARK, 2005; LOPES; TRIADÓ et al., 2008;

WEISBROT; GIRAUDO, 2012;CARDOSO; BRITTO, 2014).

Machado (2010), ao investigar sobre o lugar das avós de bairro popular

em Belém, na Região Norte do país, constatou que as transformações sociais

ocorridas nas últimas décadas trouxeram a composição de novos arranjos familiares,

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especialmenteno contexto urbano brasileiro, e que várias gerações coabitam no

espaço domiciliar constituindo grupos domésticos extensos.A autora realçou o lugar

das avós na transmissão de bens materiais e de legados, através das práticas de

cuidado com netos e netas, estabelecendo trocas de ordem material, afetiva e

simbólica, pautadas em obrigações morais entre a parentela e a rede social.

Porém, há resultados contraditórios diante dessa situação, pois, enquanto

alguns avós referem o cuidado como algo prazeroso, outros o veem como um fardo

de responsabilidade (DIAS; COSTA;RANGEL, 2005; DIAS, 2008).

Como aponta o estudo de Melca (2013), que investigou 13 avós de classe

média, moradoras no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro (Região Sudeste)

cuidadoras de netos com idades de zero a seis anos, sendo que três deles viviam

com os avós, elas contavam com a colaboração das próprias mães (bisavós das

crianças), dos maridos e de empregadas ou babás.As entrevistadas revelaram que

isto já era esperado e que sempre foi assim na família, pois elas também tiveram a

ajuda das próprias mães para poderem trabalhar. Agora, elas para estavam fazendo

a mesma coisa para os pais das crianças poderem trabalhar. Também

acrescentaram que é difícil para uma pessoa idosa cuidar de uma criança em tempo

integral, mesmo com o apoio familiar. A maioria das avós considerou que cuidar de

um neto é um costume de família, é como uma tradição que deve ser mantida, a

despeito das interferências que incidem na sua vida social, familiar e pessoal.

A mesma constatação ocorreu na investigação realizada por Weisbrot e

Giraudo (2012), queanalisou os conceitos e percepções das avós pertencentes ao

Plan de Salud del Hospital Italiano de Buenos Aires,na Argentina,sobre o cuidado

dos netos. Foram realizados grupos focais com avós entre 50 e 75 anos de idade,

cuidadoras de netos pelo menos 9 horas na semana. Os resultados apontaram que

as avós maternas são as mais convocadas. A maioria concordou que cuidar de

netos constitui um ato gratificante, de satisfação, sensação de utilidade e dinamismo.

As avós que cuidam dos netos ou que moram com eles sentem maior estresse,

reclamam de falta de reconhecimento, da sensação de sobrecarga, esgotamento, de

problemas de saúde e conflito com os pais.

Um dos papéis que as avós assumem é de responsabilidade financeira,

como aborda Alves (2013), que realizou uma pesquisa com 20 famílias em

Maracanaú (Região Nordeste), a fim de explorar o significado de cuidador presente

no pensamento das avós que tomam para si a responsabilidade para com seus

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netos. Os resultados evidenciaram que as relações compreendidas pela avosidade,

no âmbito familiar moderno, ultrapassam a imagem que outrora ocupava o

imaginário coletivo, ou seja, a das avós como meras transmissoras de legados

geracionais. Atualmente,elas assumem papel de protagonistas na vida dos netos,

inclusive no tocante ao seu sustento, independentemente da presença ou ausência

dos genitores destas crianças e/ou adolescentes, tomando para si obrigações com

filhos adultos e netos.

Por outro lado, tornar-se avós pode significar, para alguns, fazer melhor

do que fizeram quando pais. Mas esta seria a grande justificativa dos avós fazerem

com os netos aquilo que não puderam fazer com seus respectivos filhos? A resposta

é relativa, pois não se deve generalizar essa relação como permissiva ou

repreensiva. A relação amigável entre avós e netos ocorrerá onde a autoridade

estiver dissociada da mesma: quanto mais os avós estabelecerem um

relacionamento de proximidade, camaradagem, confiabilidade e confidencialidade

com os netos, maior será o sentimento de responsabilidade para com eles e a

reciprocidade no respeito às suas opiniões (DIAS, 2008).

É, portanto, através dos netos que os avós passam a elaborar os

questionamentos a respeito dos papéis desempenhados no núcleo familiar, a fim de

não repetirem os erros e poderem compensar as faltas (GERONDO, 2006). Os avós

contam com a ajuda das suas experiências para que esse relacionamento com os

seus netos possa ser agradável. Através da discrepância entre o passado, como

pais, e seu presente, como avós, traçam o caminho dessa relação, resgatando com

esses netos aquilo que não lhes foi possível no papel de pais, havendo, a partir

disto, uma reflexão acerca de suas atitudes passadas (DIAS; COSTA; RANGEL,

2005).

Esses estudos evidenciam que o ato de cuidar toma proporções mais

extensas haja vista que se vincula também à preocupação de ensinar moralmente o

que é correto aos seus netos e à responsabilidade que as avós têm na formação de

sua personalidade. Há também que reconhecer que algumas avós não aceitam

exercer apenas o papel de avó e fazem questão de manter um ou mais netos junto a

si como uma forma de ainda se sentirem exercendo a função de mães (SILVA;

SALOMÃO, 2003; KIPPER; LOPES, 2006).

É possível inferir que, além desses significados, o cuidado com os netos

pode acarretar o sentimento de renovação e propiciar uma reeducação entre avós e

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netos (OLIVEIRA, 1999), fortalece a solidariedade e a reciprocidade geracional

(MACHADO, 2008), propicia o sentimento de missão cumprida e de utilidade

(ATALLA, 1996), mas, também, cansaço, sobrecarga e preocupação com o futuro

dos netos, especialmente quando estes apresentam alguma deficiência

(MAINETTI;WANDERBROOKE, 2013).