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Simson Wolfgang – “casas que transformam o mundo”

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CAPÍTULO II “Igreja Orgânica”: teoria e técnica

2.2 Análise dos produtores culturais

2.2.3 Simson Wolfgang – “casas que transformam o mundo”

Simson Wolfgang cresceu em Stuttgart, Alemanha, trabalhou com motorista de taxi e assistente social. Estudou teologia no Free Evangelical Theological Academy (Basel, Switzerland). O autor é conhecido no Brasil através do livro “Casas que transformam o mundo - Igreja nos lares” (WOFGANG,2008). Alinhado com os expoentes citados acima, o pensamento de Wolfgang assenta-se sobre o aumento do “grau de insatisfação com a ´igreja como a conhecemos´” (WOLFGANG, 2008, p. 27). De onde partiria este grau de insatisfação? Wolfgang refere-se à decepção de pessoas que “entraram com lágrimas de alegria pela porta da frente das igrejas e que desaparecem novamente pela porta dos fundos com lágrimas de decepção”. Conforme o autor, esta decepção se reflete na pesquisa entre jovens em Amsterdã realizadas nos anos 1990, onde 100% dos respondentes afirmaram crer em Deus, porém 99% deles mostraram-se desinteressados em frequentar uma igreja cristã. Walfgang ainda refere-se a outra pesquisa, desta vez realizada em Madras pelo Theological College (Madras- Índia), que revelou que na cidade de 8 milhões de habitantes havia 200 mil crentes não institucionais. A argumentação de grande parte deles para a não frequência recaia sobre

a própria igreja: “argumentam que [se] sentem atraídos por Jesus, mas sentem repulsa da Igreja”. (p. 28). Wolgang (2008, p. 36) também elenca uma pesquisa elaborada por John Campbell na Escócia, cuja conclusão foi a de que “uma das maiores barreiras para crer em Deus é a própria Igreja”.

Para Wolfgang existe uma necessidade nos tempos atuais de uma “terceira reforma”. Na primeira reforma, empreendida por Martinho Lutero no século XVI, a “graça” foi novamente posta como pilar central na doutrina protestante. A segunda reforma deu-se em meados dos séculos VXII e XVIII, quando movimentos pietistas redescobriram a espiritualidade fervorosa em Deus, o que deu impulso aos movimentos avivalistas e missionários da época. Finalmente a Terceira Reforma, como formula o autor, seria uma reforma na estrutura, na eclesiologia. A necessidade para esta reorganização da maneira de ser igreja cristã dar-se-ia por alguns motivos enumerados pelo autor, que nos auxiliaram a compreender a centralidade de seu protesto.

Ao contrário da tendência das mega-igrejas, tais grupos, segundo Wolfgang (2008, p. 142), precisam manter-se pequenos para assegurar sua fluidez e convívio autêntico. Seguindo sua argumentação, existe uma “linha invisível entre o cristianismo organizado e o orgânico”. 41). A partir de estudos sociológicos, o autor afirma que um grupo pode contar no máximo 20 pessoas para manter um relacionamento informal e harmonioso. Quando esta quantidade é ultrapassada o grupo passa a se auto regulamentar e os relacionamentos tornam-se “artificiais”. Desta forma, é importante manter o grupo abaixo deste número de integrantes para que se possa garantir um estilo informal e um espírito familiar. Para Wolfgang (2008, p. 42), quando se ultrapassa a “barreira dos 20”:

“O grupo deixa de funcionar organicamente e começa a requerer que se torne formal e organizado. [...] em decorrência um grupo no lar que passa de cerca de 20 pessoas perde sua atração original, muda seu sistema de valores e subitamente funciona de acordo com leis completamente diferentes. Perde sua própria vida, que era espontânea e informal. [...] subitamente ele requer liderança, uma mão forte”.

Similar ao pensamento de Viola e Cole, Wolfgang também aponta para a petrificação do modelo atual: “vivemos hoje quase 1.700 anos depois que este

desenvolvimento teve início. [..] Muitos de nós carregam consigo um monumental lastro histórico de ´carga eclesiástica´”. O lastro histórico ao qual Wolfgang se refere são os acúmulos culturais que soterraram o “Movimento de Jesus”. Estes acúmulos tornaram o cristianismo uma religião híbrida, sobretudo após a suposta conversão do imperador Constantino que deflagrou o processo de tornar o movimento de discípulos de Jesus uma religião política estatal. Assim, seu protesto, em consonância com os demais autores, revela a insatisfação de parte dos evangélicos norte-americanos, que, como vimos, também refle em determinados “protestos” no campo religioso brasileiro, quanto ao pertencimento às igrejas institucionais. Também revela a busca espiritual de nossos interlocutores por experiências mais familiares, íntimas e profundas com Deus, longe dos “cultos shows”, representados pelas megaigrejas americanas.

Fica a pergunta, segundo Wolfgang: o que são? O que fazem e como funcionam as Igrejas Orgânicas? A partir de sua experiência o autor elege quatro pontos fundamentais que servem de arcabouço para suas comunidades: 1) Refeições conjuntas; 2) Ensinamento Dinâmico; 3) Partilha de Benção materiais e espirituais e; 4) Oração comunitária;

Para Wolfgang (2008, p. 95-96), uma Igreja no Lar é:

“Vida comunitária e cristãos conduzidas por força sobrenatural em casas bem normais. É um estilo de vida redimido, vivido em situações concretas. É o caminho orgânico pelo qual os cristãos seguem Jesus conjuntamente no cotidiano. Pelo fato de mais pertencerem a si próprios, os redimidos adotam consistentemente um estio de vida comunitário. [...]Neste sentido as igrejas nos lares são o leito e a morte do egoísmo - e por consequência, o lugar de nascimento da comunidade eclesial. A verdadeira comunhão começa quando termina o individualismo. [...] Igreja no lar significa que o corpo de Cristo se reúne em casas e que se compreende como pessoas convertidas umas às outras. [...] Em muitos sentidos uma igreja no lar constituí uma família extensa espiritual, na qual se partilha a vida de modo espontâneo e orgânico e onde de fato se está em casa numa rede de relacionamentos saudáveis. A vida cotidiana das igrejas nos lares não requer mais organização, burocracia e cerimônias do que as famílias extensas comuns”.

Para elucidar a polaridade existente entre Igrejas Institucionais (aos quais Wolfgang denomina de “Igrejas Tradicional de Pastores”) e a “Igreja Orgânica” (chamadas em sua obra de “Igrejas no lar do Novo Testamento”), vale a pena conferir uma tabela formulada por Wolfgang, que para nossos fins tipológicos é bastante esclarecedora:

Igreja Institucional Igreja Orgânica

Local Reúnem-se em recintos

eclesiásticos

Qualquer lugar

Financiamento Dízimo, oferta Partilha-se o que possui

Estilo de vida Individual Comunitário

Evangelização Campanhas, ações,

programas de especialistas eclesiásticos

“fazer discípulos” naturalmente entre vizinhos;

multiplica-se por si

Lema “Tragam mais pessoas para a

igreja!”

“Levem a igreja até as pessoas!”

Tamanho Grupo grande e apessoal Grupos pequenos com

relacionamentos estreitos

Estilo de ensino Estático, centrado na

pregação

Dinâmico, estilo de pergunta e respostas

Centro O culto na igreja A vida cotidiana

Tarefa mais importante Fazer boas pregações, visitas

às casas, oferecer um programa completo

orientar cristãos a assumirem pessoalmente o serviço

pastoral

Palavra-Chave “Torna-se membros” “ide e fazer discípulos”

Serviço Caráter de apresentação,

impressionar os outros

Centrado na formação, confere poder a todos.

Missão Enviar missionários especiais

Igreja envia a si própria como unidade multiplicável

Concluindo, podemos eleger algumas definições. As igrejas orgânicas podem também receber outros nomes como “Igreja nos Lares”, Igreja Simples”, “Igreja doméstica”, “Igreja não denominacional”, “Simplesmente Igreja”, “Igrejas da cidade”. Porém, independentemente do nome, o que nos interessa é atentar à experiência cristã comunitária, feita fora dos espaços considerados sagrados pela maioria das religiões, com tendências anti clericais e que valorizam a rede de solidariedade formada pela comunidade religiosa. O termo corresponde à um grupo de cerca de 8 aos 20 cristãos que reúnem-se regularmente ou espontaneamente em residências ou locais poucos usuais para reuniões eclesiais, tais como bares, cafés, locais públicos. Estes agrupamentos possuem traços distintivos: 1º) Não há um clero estabelecido, todos os fiéis são emponderados, isto é, capazes de participar ativamente no grupo e nas esferas de liderança. 2º) Durante seus encontros, não há condução litúrgica refinada ou profissionalizada, as igrejas orgânicas encorajam a que todos os fiéis participem ativamente sem considerar ninguém como pertencente a uma “classe privilegiada”. 3º) Também são conduzidos por um sistema de liderança descentralizada e livre, criando um sistema de autonomia dos indivíduos para auto gerirem os próprios grupos emancipados. O trânsito religioso que há - de “igrejas Institucionais” para uma “Igreja Orgânica” é outra forte marca. Também, em alguns casos, redes de igrejas são estabelecidas nas cidades, “redes apostólicas ou de supervisão”. (VIOLA, 2009; COLE, 2005, SIMSON, 2001; WRIGHT, 1997; CHAMBERS, 1997; LOONEY, 2010; DALE, 2002).

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