A NÁLISE DE R EDES
4.3. O sistema do Enoturismo
O sistema do enoturismo encontra-se associado a três factores essenciais, (i) aos visitantes/consumidores (ii) aos fornecedores (agentes e empresas locais) e às (iii) organizações do destino. Os visitantes considerados são os que viajam com motivações associadas ao vinho ou que simplesmente inserem nas suas viagens actividades associadas à vitivinicultura, que podem incorporar actividades tão distintas como provar vinho, conhecer ou participar no processo de vinificação, descobrir a cultura das vinhas, conhecer a região de um determinado vinho, passear numa região bucólica e romântica (aspectos tradicionalmente associados a regiões vitivinícolas), etc.
Os fornecedores (actividades do sector vitivinícola, do sector do turismo e demais serviços complementares) assumem um papel determinante ao nível da oferta associada ao território e compreendem um conjunto de actividades diversificadas mas complementares, como o alojamento, a restauração, transportes, animação, actividades de lazer, guias turísticos, agências de viagem (incoming), eventos e festivais que de uma forma genérica se encontram associadas à vitivinicultura ou localizadas numa região vinícola.
Reconhecendo o potencial do enoturismo, torna-se necessário elaborar uma estratégia de desenvolvimento regional/local concertada com o intuito de estimular o seu crescimento e capitalizar o impacte económico associado, esta estratégia deve ser assumida por uma estrutura regional que congregue o maior número de agentes locais (a implementação de uma rota de vinhos na qual é definido um órgão de gestão pode ser uma solução) assumindo funções ao nível do planeamento e ordenamento estratégico mas também ao nível da promoção, comunicação, recepção e acolhimento de visitantes, apoio aos aderentes e comercialização dos seus produtos.
Esta estrutura poderá, no entanto, assumir várias formas, ou seja, desde uma estrutura apenas pública a um estrutura estritamente privada, ou mesmo optando por uma situação intermédia (50% pública – 50% privada),
incluindo diferentes níveis geográficos: local, regional, nacional e internacional (Ritchie e Crouch, 2003). Para Getz (2000) a estrutura de todos os agentes deve assegurar a preservação dos recursos (vinhas, natureza, paisagem, etc.), evitando o aumento de poluição e erosão dos solos e assegurar a manutenção dos serviços necessários à satisfação dos visitantes de um modo sustentável (ver figura 14).
Figura 14 – Sistema do enoturismo segundo Getz (2000)
Fonte: Adaptado de Getz, 2000:5
Com o intuito de promover o enoturismo os produtores da mesma região vitivinícola devem colaborar entre eles, as alianças podem ser estabelecidas em termos horizontais ou verticais, fortalecendo o nível de parcerias regionais de modo a definir uma estratégia, programa e acções de marketing conjunto (Wargenau e Che, 2006). Hall, Sharples, Cambourne, e Macionis (2000) apresentam uma descrição do sistema do enoturismo mais complexa e associada à experiência transmitida pelo enoturismo, valorizando a vivência do visitante quando entra em contacto com elementos que constituem a oferta do enoturismo tais como caves, adegas, provas de vinho, vinhas e quintas, feiras e eventos de vinhos, gastronomia associada ao vinho, etc (ver figura 15).
Compreender a dinâmica do enoturismo, os recursos que envolve e as preferências quer dos consumidores de vinho quer dos visitantes torna-se fundamental para estabelecer estratégias de planeamento, desenvolvimento e marketing, que permitam fomentar o crescimento da região. É nesta função que uma organização regional (DMO) (ver secção 2.5) assume um papel relevante no desenvolvimento regional, pelo que promover a interligação entre a oferta da região e as preferências dos consumidores pode ser o
Provas de Vinhos Jantares Paisagens Compras Conhecimento Recreio e Lazer Transportes Alojamento Alimentação Adegas / Caves Guias turísticos Distribuidores Eventos Agentes Empresas
Educação dos visitantes
Organizações do Destino (DMOs)
Conservação de recursos Investigação e planeamento Interpretação e informação Temáticas (Rotas de vinho)
Marketing Eventos Especiais Consumidores
elemento fulcral no processo de desenvolvimento económico de cada um dos agentes económicos e por conseguinte da economia regional.
Figura 15 – Sistema do enoturismo segundo Hall, Sharples, Cambourne, e Macionis (2000)
Fonte: Adaptado de Hall, Sharples, Cambourne, e Macionis, 2000
Acções como o apoio às adegas na definição e qualificação da sua oferta, a criação de actividades complementares que possibilitem melhorar a experiência final do visitante, a dinamização de eventos e de acções de promoção, a criação de canais de comunicação entre os vitivinicultores, e entre estes e as restantes actividades económicas regionais, a elaboração de estudos que permitam conhecer o mercado
IMAGEM MOTIVAÇÃO Experiência Informação Percepção EXPECTATIVAS ENOTURISTA CULTURA Preferências Produto ENOTURISMO Indústria Vitivinícola Enoturismo Indústria do Turismo Trabalhadores Produtores Recursos Humanos Trabalhadores Proprietários Adegas / Caves Vinhas / Quintas Regiões Vinhos Recursos Turísticos Atracções Paisagem Infra-estruturas Artesanato Licenças Imp. / Export. Protecção Taxas Entidades Públicas e Institucionais Gest. Visitantes Ambiente Taxas Transportes SECTOR VITIVINÍCOLA RECURSOS REGIONAIS
potencial e os potenciais clientes, a defesa da imagem de marca e dos interesses da região, entre outras acções, devem ser assumidas por entidades que visem o desenvolvimento de um destino de enoturismo.
Quadro 7 – Tipo de organizações que podem ser inseridas numa estrutura regional do turismo Organizações Potenciais Produtores Adegas Caves Quintas Vinhas Garrafeiras Actividades características da vitivinicultura
Lojas e espaços de venda (produtos típicos/locais)
Alojamento Restauração
Transportes de Passageiros Agências de Viagens e Operadores
Serviços Culturais Recreio e Lazer
Actividades associadas ao turismo
(CST)
Outras Actividades
Órgãos Nacionais Direcções regionais (agricultura, ambiente, etc.)
Câmaras Municipais Órgãos de Turismo (nacionais, regionais e
locais) Organismos Públicos
Associações de Municípios
Universidades Escolas Profissionais e Técnicas
Unidades de Investigação Centros de Formação
Unidades de Investigação e de
Formação Empresas de I&D Empresas de Formação e Certificação
Confrarias gastronómicas e vínicas Empresas retalhistas e distribuidoras Organizações não governamentais
Associações (culturais, recreativas, etnográficas, etc.) Outras Associações e
actividades empresariais
Empresas fornecedoras (equipamentos, utensílios, material, etc.)
Deste modo, considerando os diversos agentes que interagem no sector económico de um determinado local ou região é possível identificar as actividades que potencialmente podem ser enquadradas numa rede empresarial associada ao produto vinho. No entanto, esta rede não se deve focar apenas no sector vitivinícola deve, também, interpretar a malha empresarial existente dentro e fora do território e identificar os agentes que a compõem, perspectivando assim os agentes que podem vir a beneficiar com o aumento do fluxo de negócios que deve ser potenciado com a implementação e dinamização de uma rede territorial. O quadro 7 pretende apresentar um conjunto de potenciais agentes que podem ser inseridos numa rede empresarial regional sob a forma de rota de vinho.