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Soberania Alimentar e o questionamento das relações de poder

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CAPÍTULO I. O debate sobre Soberania Alimentar:

2.3 Soberania Alimentar e o questionamento das relações de poder

Quando apresentamos essa discussão, estamos certos das dificuldades de entender o que realmente significa no campo das transformações sociais empiricamente observáveis, já que tanto a noção de Soberania Alimentar está em construção, quanto não está totalmente clara a identificação dos impactos que sua promoção enquanto projeto político implica na modificação das principais relações de poder presentes na sociedade.

31 Esta questão é aprofundada no Capítulo II desta dissertação, em que apresentamos a discussão sobre Mulheres e Soberania alimentar.

Vale salientar que este projeto já está em andamento e que como tal, não podemos ignorar alguns reflexos desse processo, como os conflitos e enfrentamentos entre os sujeitos políticos, a denúncia e questionamento ao modelo econômico e de desenvolvimento, bem como do conhecimento técnico e do uso da tecnologia e a desnaturalização da pobreza, da opressão e da invisibilização social, o que causa o empoderamento de diversos sujeitos políticos que historicamente estavam silenciados.

Quando se questiona o sistema em suas diversas dimensões (social, política, cultural e econômica) as questões do poder, do conflito, da mudança das relações sociais são centrais. Juntando-se a este processo, incluímos a discussão do questionamento da divisão sexual do trabalho e das formas com que esta se materializa.

O projeto de soberania alimentar originado nos movimentos sociais como a Via Campesina, como apresentamos, agiria como um fator de empoderamento de novos sujeitos, na medida em que denuncia as relações de poder e de opressão, coloca estes sujeitos como agentes da transformação, valoriza suas ações, as formas de organização social e os saberes tradicionais.

O empoderamento é um processo no qual os próprios grupos criam condições e ambiente favoráveis para propiciar mudanças e deve ser visto como um complexo processo social e que inclui diversos aspectos, tanto pessoal, quanto coletivamente.32

Para ROMANO (2002) ―o empoderamento deve ser percebido como abordagem‖ para se pensar o combate à pobreza em suas múltiplas dimensões e ―como um processo‖, pois:

a) é uma abordagem que coloca as pessoas e o poder no centro dos processos de desenvolvimento;

b) é um processo pelo qual as pessoas, as organizações, as comunidades assumem o controle de seus próprios assuntos, de sua própria vida e tomam consciência da sua habilidade e competência para produzir, criar e gerir;

c) no combate à pobreza, a abordagem de empoderamento implica no desenvolvimento das capacidades (capabilites) das pessoas pobres, excluídas e

32 O empoderamento é um meio e um fim para a transformação das relações de poder existentes e para superar o estado de pobreza. É um meio de construção de um futuro possível, palpável, capaz de recuperar as esperanças da população e de mobilizar suas energias para a luta por direitos no plano local, nacional e internacional. Mas o empoderamento também é um fim, porque o poder está na essência da definição e da superação da pobreza. O empoderamento necessita constantemente ser renovado para garantir que a correlação de forças não volte a reproduzir as relações de dominação que caracterizam a pobreza. ROMANO, J. Empoderamento: recuperando a questão do poder no combate à pobreza. 2002, p. 19.

de suas organizações para transformar as relações de poder que limitam o acesso e as relações em geral com o Estado, o mercado e a sociedade civil.

Para DELGADO (2002, p. 2) o empoderamento é um processo social em que as pessoas, grupos, comunidades e organizações conseguem questionar suas relações com o mercado, o Estado e a sociedade civil, e que a questão do poder se torna central para discutir pobreza e desenvolvimento rural. ―Empoderar-se é conquistar o poder, ou seja, adquirir a capacidade [o poder] de mudar a posição que ocupa em um determinado campo social de disputa‖.

Da forma que está sendo proposta, a Soberania Alimentar relaciona-se ao questionamento das relações de poder e das práticas sociais que se materializam em diversas dimensões, como a cultural, a política, a econômica e a social, percebendo-as como campos de força que estão interligadas entre si, o que a torna mais complexa.

Outra questão importante ao se pensar a Soberania Alimentar como projeto político é que através dela se possibilitam diferentes questionamentos nas três esferas fundamentais da vida social: na comunidade (recuperando tanto o espaço identitário como o nível local, nos quais a soberania ganha sentido de prática e ação política), no Estado – arena onde a soberania alimentar como projeto político e um novo vetor na disputa pelas políticas públicas e também por projetos estruturais – e no mercado – arena na qual a soberania alimentar como projeto político questiona o modelo neoliberal predominante, segundo OFFE (1999).

A luta pela soberania alimentar se contrapõe à lógica do neoliberalismo, repolitizando as esferas pública e estatal. Relaciona-se a um conjunto de políticas públicas que devem ser articuladas e implementadas, trazendo a dimensão do local como espaço privilegiado e fundamental para a concretização destas políticas em conjunto com o protagonismo e a participação das pessoas, que são efetivamente os sujeitos políticos dos processos de transformação, como uma ação construída ―de baixo para cima‖. A seguir, alguns dos argumentos que vêm sendo colocados em defesa da Soberania Alimentar, em contraposição ao modelo neoliberal (Quadro 1).

Quadro 1. Argumentos do modelo da

Soberania Alimentar em relação ao modelo neoliberal.

TEMA MODELO DOMINANTE

(NEOLIBERAL)

MODELO DA SOBERANIA ALIMENTAR

Comércio Livre comércio Alimentos e agricultura fora dos Acordos Comerciais.

Prioridade produtiva Exportação Mercados locais

Preço dos produtos agrícolas

―Lei do Mercado‖ (Não mexer nos mecanismos que impõem preços baixos.)

Preços justos que cubram os preços de produção e permitam aos agricultores uma vida digna. Acesso a mercados Acesso a mercados externos Acesso a mercados locais; fim do deslocamento

dos agricultores dos seus próprios mercados devido à indústria agropecuária.

Subsídios Enquanto se proíbe no Terceiro Mundo, são permitidos nos EUA e UE (Apenas aos grandes agricultores).

Os subsídios que não prejudiquem outros países (através do dumping) são aceitáveis; p. ex., garantir que sejam apenas para agricultores familiares, para comercialização direta, apoio de preços, conservação do solo, agricultura sustentável, investigação etc.

Alimentos Uma mercadoria Um direito humano Produzir Uma opção para os mais

eficientes

Um direito dos povos rurais

Fome Fruto da baixa produtividade Um problema de acesso e distribuição; fruto da pobreza e desigualdade.

Segurança alimentar Consegue-se importando alimentos de onde sejam mais baratos.

Aumenta quando a produção de alimentos está nas mãos dos pobres e quando os alimentos se produzem localmente.

Controle sobre os recursos produtivos (terra, água etc.)

Privado Local; controlado pela comunidade.

Acesso a terra Através dos mercados. Através da Reforma Agrária. Sementes Uma mercadoria, alvo de

patentes.

Uma herança comum dos povos ao serviço da humanidade.

Crédito e investimentos rurais

Do setor privado Do setor público, dirigidos à Agricultura Familiar

Dumping Não é um problema. Deve proibir-se.

Monopólio Não é um problema. A raiz da maior parte dos problemas, os monopólios devem ser proibidos. Sobreprodução Não existe, por definição. Conduz à queda dos preços e leva os

agricultores à pobreza. São necessárias políticas de maneio da oferta nos EUA e UE.

Organismos Geneticamente Modificados (OGMs)

São o futuro. Perigosos para a saúde e meio ambiente, uma tecnologia desnecessária, devem ser proibidos. Tecnologia agropecuária Industrial; monocultura;

agrotóxicos; OGMs.

Métodos agroecológicos e sustentáveis, não usa OGMs.

Agricultores Anacronismos; o ineficiente irá desaparecer.

Guardiães da biodiversidade; administradores de recursos naturais; depositários de

conhecimento.

Fonte: Adaptado de Rosset (2003) in Pinto (2007).

A Soberania Alimentar se constrói também a partir do respeito às culturas, às tradições, às formas solidárias valorizando a dimensão identitária característica das

comunidades. Ela reforça os laços sociais, questionando a lógica individualista do capitalismo, em que a ideia de cada um por si e de que a qualidade de vida está restrita à capacidade de consumir e não à valorização da diversidade de formas de vida e sociabilidade.

O respeito à biodiversidade e à diferença, ao resgate e à valorização de saberes tradicionais propicia outra relação com a natureza, que a perceba em sua totalidade, assegurando a sustentabilidade humana e do planeta.

Assim, é possível refletir sobre a seguinte pergunta: como a luta pela soberania alimentar é apropriada como instrumento não só como questionamento do modelo de desenvolvimento capitalista, se contrapondo à mercantilização da vida e da natureza, mas também, como questionamento da divisão sexual do trabalho e a forma com que esta se materializa?33

No que se refere ao meio rural brasileiro, uma questão importante que orientará o próximo capítulo é compreender como a noção de Soberania Alimentar é apropriada pelas mulheres camponesas que participam do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) e como esta noção contribui para politizar as relações sociais, questionando uma idéia essencialista que as percebe como ―naturalmente‖ sendo as guardiãs da natureza e da vida.

33

Segundo SHIVA (1998), ―O mundo patriarcal considera o homem como a medida de todo o valor e não admite a diversidade, só a hierarquia. Trata a mulher como desigual e inferior porque é diferente. Não considera intrinsecamente valiosa a diversidade e a natureza em si mesma, só sua exploração comercial em busca de um benefício econômico e assim lhe confere valor […] a destruição da diversidade e a criação de monocultivos se convertem em um imperativo para o patriarcado capitalista.‖ SHIVA, Vandana. La práxis del ecofeminismo. Barcelona: Ed. Içaria,1998, em tradução livre.

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