A discussão sobre a investigação de paternidade e a tese da coisa julgada relativa já obteve uma maioria de adeptos na doutrina e na jurisprudência, pelo fato de a questão relacionar valores individuais e personalíssimos, sobretudo em razão da nova técnica de prova (DNA).
No que tange, entretanto, à discussão da relativização de decisões em outras questões, como as decisões inconstitucionais (a coisa julgada inconstitucional), os doutrinadores vêm divergindo em suas opiniões. Elpídio Donizetti se filia à corrente oposta àqueles que defendem a relativização. Seus argumentos dizem respeito ao aspecto de justiça ou injustiça da decisão. Veja-se:
Ao se garantir a intangibilidade da coisa julgada, o fim almejado pelo constituinte originário é a estabilidade das relações sociais, evitando a perpetuação dos litígios. Por conseguinte, é necessário e imprescindível que existam regras que limitem e coloquem termo definitivo ao processo. [...] É inadmissível, por conseguinte, condicionar a existência da coisa julgada à justiça da decisão. Fosse assim, teria que se admitir que, após a desconsideração da coisa julgada, pudesse o sucumbente propor nova demanda para discutir a justiça desta segunda decisão, e assim por diante. [...] Destarte, num Estado Democrático de Direito, provável “injustiça” no caso concreto é menos grave do que a insegurança geral que se instauraria com a desconsideração pura e simples da coisa julgada. (DONIZETTI, 2012, p.631).
O doutrinador Ovídio A. Baptista da Silva (2004, p.11, grifo do autor), analisando a coisa julgada nos casos de investigação de paternidade, sob a ótica de um acordão do Superior
Tribunal de Justiça, não defende a relativização da coisa julgada, tendo por argumento, também, a questão da justiça da decisão. Veja-se:
A objeção que levanto contra essa proposição começa por questionar a perigosa indeterminação do pressuposto indicado pelo magistrado, qual seja, o conceito de grave injustiça. Por duas razões, parece-me improprio condicionar a força da coisa julgada, primeiro, a que ela não produza injustiça; segundo, estabelecer como pressuposto para sua desconsideração que essa injustiça seja “grave” ou “séria”. A gravidade da injustiça como condição para “confrontar”, como ele diz, a coisa julgada acabaria, sem a menor dúvida, destruindo o próprio instituto da res iudicata.
Ainda, Fredie Didier Jr, Paula Sarno Braga e Rafael Oliveira (2011, p. 453, grifo do autor) referem que “as concepções de relativização atípica da coisa julgada são perigosas. Defendem a prevalência do „justo‟, mas não definem o que seja „justo‟”. Por esta razão, os autores afirmam que, entre a justiça e a segurança, preferem a segurança.
Com efeito, a questão da justiça da decisão não é o único elemento fundamentador para relativizar a coisa julgada. Em que pese existirem casos extraordinários em que a relativização se faz necessária (como os casos de investigação de paternidade), há de se ter cuidado com as considerações que fundamentam a tese. Examinando a questão da relativização da coisa julgada, Luiz Guilherme Marinoni (2004, p.16), contrário aos ideais da teoria relativista, efetua estas considerações:
Em favor da “relativização” da coisa julgada, argumenta-se a partir de três princípios: o da proporcionalidade, o da legalidade e o da instrumentalidade. No exame deste último, sublinha-se que o processo, quando visto em sua dimensão instrumental, somente tem sentido quando o julgamento estiver pautado pelos ideais de justiça e adequado à realidade. Em relação ao princípio da legalidade afirma-se que, como o poder do Estado deve ser exercido nos limites da lei, não é possível pretender conferir a proteção da coisa julgada a uma sentença totalmente alheia ao direito positivo. Por fim, no que diz respeito ao princípio da proporcionalidade, sustenta-se que a coisa julgada, por ser apenas um dos valores protegidos constitucionalmente, não pode prevalecer sobre outros valores que têm o mesmo valor hierárquico. Admitindo-se que a coisa julgada pode se chocar com outros princípios igualmente dignos de proteção, conclui-se que a coisa julgada pode ceder diante de outro valor merecedor de agasalho.
Ocorre que a grande questão a ser observada, quando existe a possibilidade de relativização, é o conflito encontrado quando da observância da coisa julgada e a segurança das relações. Essas considerações devem partir do caso concreto, não podendo traduzir uma vinculação geral, dada a excepcionalidade de sua aplicação. A coisa julgada é valor essencial ao Estado Democrático de Direito e o objetivo não é deixá-la de lado, mas, sim, considerar a abrangência dos seus efeitos que, dependendo da gravidade do caso concreto, dão
possibilidade de rediscussão de determinada situação jurídica. Brandão (2005, p. 93), analisando teses dos autores que se manifestam favoráveis à relatividade da coisa julgada, cita Humberto Theodoro Jr. e Juliana Cordeiro de Faria na seguinte questão:
Esses autores [...] discutiram o tema com profundidade, onde, como uma das premissas, levantaram a questão do controle das questões do Poder judiciário, uma vez que esses atos também estão subordinados à Constituição. [...] Do judiciário também podem surgir decisões patológicas desrespeitando o que deveria resguardar. O que não cabe a res judicata, instituto basilar da segurança jurídica, tornar imutável e indiscutível essas decisões patológicas. [...] Dessa forma, o princípio da intangibilidade da coisa julgada não é um princípio absoluto, devendo se harmonizar com os demais, e, se preciso for, sofrer restrições.
Resta evidente a importância da fundamentação para a defesa da relativização da coisa julgada, na medida em que, dando legitimidade a uma decisão eivada de vício gravíssimo, não haveria qualquer segurança jurídica assegurada ao cidadão, que já não poderia mais rediscutir a questão protegida pela imutabilidade. Daí se conclui que a coisa julgada deve estar harmonizada com os demais preceitos fundamentais.
Apesar de a discussão da relativização da coisa julgada ser recente, os casos em que existe a possibilidade de sua consideração ainda são poucos. Contudo, se crescesse a incidência de sentenças danosas, “patológicas”, os cidadãos poderiam ser levados a não mais confiar na prestação jurisdicional como uma solução para seus conflitos. Veja-se a seguinte advertência de Fabrício dos Reis Brandão (2005, p.101):
Não parece coerente o surgimento de decisões injustas, maculadoras do próprio Estado Democrático de Direito, e estas serem agasalhadas pelo manto da coisa julgada material. Dessa sorte, não cabe ao Poder Judiciário macular o que deveria proteger sobre todas as coisas, qual seja a própria vontade constituinte, inserida na Carta Magna. Nesse contexto, o intérprete da lei não é imune à subordinação à Constituição, devendo ser corrigido toda vez que contrariar a vontade da Carta Política.
A coisa julgada foi por muito tempo (e ainda é, para alguns doutrinadores e juristas) valor absoluto do Estado Democrático de Direito, na medida em que garante a segurança jurídica de todas as relações. Considerar, entretanto, a segurança das relações como valor superior aos valores de justiça, denota, sem dúvida, uma posição extremista. Por conseguinte, para alguns, relativizar a coisa julgada significaria retirar seu valor soberano, colocando em risco todas as relações jurídicas. Entretanto, não é esse o preceito fundamentador da
flexibilização do referido instituto, o qual indiscutivelmente tem valor ímpar no ordenamento jurídico. Veja-se:
Apesar das dificuldades em se delimitar o âmbito de abrangência no qual a coisa julgada pode ser flexibilizada, não resta dúvida de que há hipóteses que demandam essa providência, como fator de equilíbrio e harmonia para o sistema jurídico. Porém, por enquanto, o exame do caso concreto é que dirá se a coisa julgada
deve ser relativizada. (VELOSO, 2005, p.26, grifo nosso).
A tese em questão não tem o intuito de desconsiderar, em todos os casos, a coisa julgada, mas, sim, de forma excepcional, analisar determinado caso concreto que esteja acometido por um vício de ordem grave, seja constitucional, seja ele contrário à realidade dos fatos. Consequentemente, considerar a flexibilização da coisa julgada significa dar atenção a toda sistemática principiológica do Estado Democrático de Direito, e não apenas atender a um ou outro valor, isoladamente. Neste sentido, oportunas as palavras de Cláudio Sinoé Ardenghy dos Santos (2008):
A coisa julgada foi ganhando uma nova roupagem, uma moeda de dois lados, na qual a segurança jurídica não é somente a sua imutabilidade. Segurança jurídica é um termo que vem adaptando-se, sem temor por juristas de renome, como um primado da modernidade que vem surgindo no processo civil brasileiro, onde se busca a justiça num plano prático e a verdade formal, dá espaço ao mais próximo da verdade real. Essas mutabilidades e acomodações dos conceitos aos anseios sociais denotam um acréscimo importante no direito pátrio, vindo de nossos pensadores brasileiros, uma qualidade que antes talvez não fosse reconhecida: a de que nós mesmos podemos e devemos influenciar o direito pátrio.
Evidentemente, a segurança jurídica deve ser protegida. É indiscutível a importância da coisa julgada dentro do Estado Democrático de Direito, para não eternizar os conflitos no sistema judiciário, que hora ou outra, devem emanar um comando definitivo, como ocorre ordinariamente. Contudo, não é possível desconsiderar que a qualquer momento o judiciário deverá se manifestar em casos que fogem à regra geral de aplicação das normas, tendo de emitir uma decisão condizente com os valores postos em conflito e, por extensão, analisar se é necessário zelar pela segurança ou pela prestação jurisdicional justa, de acordo com os fatos ocorridos no caso concreto.
A segurança das relações jurídicas, como mencionado acima, deve adaptar-se aos casos em que o Judiciário deve se manifestar, e zelar por todos os outros princípios norteadores do sistema, como a moralidade, a justiça e a efetividade da prestação jurisdicional. Neste sentido, Fabricio dos Reis Brandao (2005, p.92) afirma que, com base no
entendimento de José Augusto Delgado, a segurança jurídica impera apenas no momento em que o ato que a gerou não afronte o ideal de justiça, bem como considera:
Na atualidade, a função da ciência jurídica é, além de impor regras ao comportamento individual e social do homem e do Estado, de garantir o fortalecimento das instituições responsáveis pelo desenvolvimento da pessoa humana e zelar pela valorização de entidades guardiãs de valores específicos, como são os que defendem a obediência rigorosa aos princípios da legalidade, da moralidade, da eficácia, da publicidade, da impessoalidade e da Justiça.
Muito além da proteção da segurança jurídica, as decisões judiciais devem se prestar ao zelo dos demais princípios norteadores do Estado Democrático de Direito, sendo que o sistema jurídico deveria estar sempre buscando aptidão para a consecução da Justiça. Observar unicamente a proteção da coisa julgada em prol da segurança das relações, por certo não atenderia aos anseios da sociedade, tampouco às expectativas para com a prestação jurisdicional.