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às 10 horas da manhã, encerrava-se o júri do ano talvez o da década, por falta de grandes júris Mais

7 AS DELEGACIAS DA MULHER DEPOIS DA LEI MARIA DA PENHA: A OBRIGAÇÃO DE PUNIR COMO OBSTÁCULO PREVALENTE.

7.2 IMPACTOS DA LEI MARIA DA PENHA NA DINÂMICA DE FUNCIONAMENTO DA DELEGACIAS DA MULHER DE ARACAJU

7.2.7 Sobre a autonomia e o desejo das mulheres

O que as mulheres, as vítimas da violência queriam, acima de tudo, era discutir a relação que elas tinham com o companheiro, é aí quando a gente vê em perspectiva, a gente estabelece na DEAM, a prática de mediação de conflitos. (E2)

O que a mulher quer, muitas das vezes, não é levar o caso ao Poder Judiciário, é ter oportunidade de falar e falar em um ambiente neutro, né? E fazer com que esse ambiente neutro esclareça à outra parte que aquilo ali é uma violação de direitos, que constitui uma prática contra a lei, que aqueles atos de violência doméstica podem ser reprimidos, e reprimidos de forma séria. Então foi uma forma que a mulher teve de se pronunciar, mas sem chegar ao âmbito judicial. Porque assim, quando a mulher pensa, né, reflete: - “Não, eu quero processar criminalmente o agressor”. (...) quando ela prefere

a mediação de conflitos é porque ela não quer romper esse relacionamento. Porque ele ainda acha que ele pode valer a pena, que a agressão não chegou em um estágio que ela não possa suportar. Na verdade, ela vem naquele primeiro estágio aqui para dar um basta. (E5)

As DEAMs se especializaram e desenvolveram mecanismos para atender à essa necessidade manifesta pelas mulheres de “dar uma basta” e, ao mesmo tempo, repactuar a relação a partir do empoderamento que lhe era conferido, primeiro pelo deslocamento da questão para a esfera pública e depois em razão do procedimento, no qual o agressor era intimado para que viesse à unidade policial para ouvir e ter conhecimento do ponto de vista da mulher, ficando ciente de que, caso o pacto selado não fosse cumprido, a partir daí, então, seriam desencadeadas consequências penais.

Eu lembro de um caso, não me esqueço, como nunca. A Polícia Militar chega trazendo um moço preso porque, enfim, estavam brigando, o marido e a esposa, e a Polícia Militar, não sei se foi chamada, se a própria esposa chamou…a Polícia Militar trouxe o caso, porque a orientação é que trouxesse, óbvio, situação de flagrante, tem que trazer. Traz, e aí, vamos fazer o flagrante... De fato, a moça estava lesionada, uma lesão grave, pra fazer o flagrante. Começa o procedimento, está a gente lá fazendo o procedimento e, enfim, nossa preocupação era com a custódia do preso e não com a custódia da vítima. Lá pelas tantas, não se consegue mais fazer procedimento, porque quando a moça entendeu o que estava acontecendo, porque, acho que fui eu que ... não lembro se fui eu quem estava atendendo no momento, ou a outra delegada, mas a vítima precisava saber o que estava acontecendo, tudo muito novo, fomos conversar com ela: - “Olha, vai ser feito assim, assim, e assado” tudo bem?” E ela diz: - “Tudo bem”. A gente não entendeu se aquele “tudo bem” foi meio receoso, porque ela estava nervosa com a presença da delegacia ou porque não havia entendido, mas enfim... daqui a pouco a moça saiu correndo da delegacia, correndo, desapareceu, e ninguém nunca mais achou essa moça, mudou de endereço, porque ela não queria que o esposo fosse preso.(E1)

Às vezes a mulher não quer. Eu fiz um flagrante mesmo, semana passada, a mulher não queria fazer o flagrante, mas ela estava machucada, ela vinha, na viatura, sendo ameaçada pelo companheiro. Os policiais relatando isso pra mim, mas ela não queria fazer o flagrante. E daí eu tive que convencê-la a fazer o flagrante porque, no caso dela, eu estava realmente preocupada de não fazer. Porque se eu não fizesse o flagrante, corria o risco... Eu ia ter que liberá-lo, não ia poder mantê-lo na delegacia. Isso inclusive já era de tarde porque, se fosse pela manhã, eu falaria “Não, vamos aguardá-la, vamos ver como é que vai ficar durante o dia e tal...”. Mas assim, eu me vi numa situação sem opção porque era tarde já, seis horas fecha aqui... E se eu não fizesse o flagrante, eu não tinha como mantê-lo preso, que era uma ilegalidade. E nenhum dos dois trabalha, ele faz um “bico”. Com esse “bico”, ele ajuda a manter a casa. E ela estava preocupada com isso, como é que ia ficar e também como ia ficar depois, no dia que ele fosse solto, o que é que ia acontecer... Eu disse a ela: - “Veja só, eu não posso dizer pra senhora o que é que vai acontecer, infelizmente. Só que eu não tenho condições de não fazer o flagrante agora e correr o risco desse senhor sair daqui, ir atrás da

senhora e matar a senhora. Porque inclusive ele estava embriagado e vinha ameaçando ela na viatura, quer dizer, ele vinha anunciando...”. Então é uma coisa tão delicada, é tão complicado se ela não queria. Se ela era a vítima e ela não queria. E eu praticamente... Não, eu impus a minha vontade! Eu impus a minha vontade, mas em cumprimento à lei! (E4)

São constantes e inúmeros os depoimentos no sentido da que a mulher não quer fazer punir seu agressor. Este comportamento, usual em conflitos dessa natureza, tem sido usualmente interpretado como decorrente da fragilidade da mulher que enroscada em uma teia emocional, acaba se subtendo, sem conseguir se livrar do ciclo da violência e do abuso216. Neste estado e diante destas circunstâncias sua

autonomia estaria comprometida, já que, à primeira vista, nada mais parece justificar tal gesto.

Eu achava que o Estado, que tinha que tratar aquela mulher como se ela fosse uma inimputável, como se ela fosse incapaz de decidir, uma coitada, e a gente tinha que tirá-la daquela situação de coitada e assumir aquilo como se fosse algo do Estado. O Estado deveria cair com sua mão de força para a gente tirar ela (a vítima) daquela situação. E é aí que a gente percebe que essa mulher, ela não é uma inimputável, ela é uma pessoa, que tem consciência, muitas vezes é uma pessoa que tem mais vivência, mais experiência de vida do que a própria pessoa que está tratando do conflito dela e, por esse acúmulo, ela tem sim condição de decidir o que ela quer para sua vida. Então a gente não tem que tutelar, a gente tem que colaborar com essa mulher para que ela exerça os seus direitos. (E2)

As pessoas acham que a motivação é só o econômico. Não é! A questão da violência da mulher, a mulher não denuncia por outras motivações. Por exemplo, pra algumas pessoas pode parecer o fim dizer que é por causa da sogra. Como se sogra, todo mundo diz que sogra é ruim? Pois muitas mulheres não denunciam o marido por conta da sogra, porque a sogra que é a segunda mãe do filho dela; porque é a sogra que fica com o filho pra ela trabalhar; porque a sogra é uma segunda mãe para ela e ela denunciar o filho dessa mãe é complicado. E não é uma nem duas mulheres, são muitas mulheres que não denunciam pela afetividade, pelo laço de afetividade que construiu com a família desse homem, e em especial com a sogra, né. Então é por isso que algumas não denunciam. Ela não denuncia porque ela não sabe como dizer aos filhos que o marido tá preso por uma denúncia dela, porque ela a vida inteira negou aos filhos; em nenhum momento os filhos tomaram conhecimento que ela era vítima de violência. Como é que, de uma hora para outra, ela vendeu aos filhos uma imagem de um pai bom, um pai de família que cumpria os seus deveres, um pai de família presente ali; como é , de uma hora para outra, ela chega diz: - “Ói, esse homem maravilhoso que eu disse a vocês a vida inteira não é. É um homem que entre quatro paredes ele me bate e agora eu mandei prender.”? Não é bem assim. Complicado para essa mulher dizer isso, romper com isso tudo. Era preciso um processo pra ela contar. Aí as pessoas acham que é só porque ela não tem como

comer. Ainda que fosse só por isso, ninguém tinha o direito de questioná-la. (E3)

Nestes dois trechos, as delegadas entrevistadas indicam, a partir da sua experiência cotidiana atendendo mulheres vítimas de violência doméstica, que o desejo de “não punir”,diferentemente do que se imagina, pode estar relacionado a um exercício de consciência da mulher, lastreado na sua experiência e vivência. O desejo de preservar os laços afetivo fornece uma pista bastante clara do porquê as mulheres nem sempre estão interessadas na tutela penal do Estado. Evitar o processo penal não é uma forma de tentar preservar apenas a relação com o homem que a agrediu e de quem, inclusive, pode vir a se separar. É uma forma de tentar proteger a relação com os parentes do agressor, que podem ser muito queridos e, principalmente, é uma forma de tentar preservar a relação dos filhos com o pai, já que não necessariamente a relação entre o pai e os filhos está comprometida. Em algumas situações, preservar o pai é uma forma de proteger os filhos.

É comum que a defesa da família seja enquadrada como não passando de um argumento conservador, tendente a minimizar a gravidade da violência doméstica, naturalizando-a. Aqui não se trata disso. A violência doméstica contra a mulher é reprovável, indesejável e precisa ser combatida. A questão é: de que modo vamos fazer isso? Se a manutenção dos laços familiares adquire importância central na vida da mulher, em função da sua experiência e compreensão do mundo, a partir da qual se estabelece uma ética que tem por premissa que ninguém seja magoado (Gilligan, 1997), essa outra voz não pode ser ignorada e precisa ser levada em conta, especialmente nas políticas públicas de atenção às mulheres.

É uma questão muito mais ampla. Às vezes eu acho que era importante a gente ouvir o que a mulher quer. Ouvir e poder fazer um pouco o que ela quer, e não só o que manda a lei. Eu tenho essa visão, entendeu? E eu acho que, da forma que é hoje em dia, a coisa deixa a desejar por conta disso, entendeu? Para a vítima. Porque pra gente é muito fácil chegar, manda fazer medida protetiva, faz inquérito, indicia, manda pra lá... É trabalhoso, mas é simples. A gente se acostuma. Agora, e pra ela? Como é que fica a vida dela? Resolveu? Ela está feliz? Resolveu o problema dela? Por isso que às vezes a gente já teve colegas aqui... Uma colega mesmo. Ela saiu daqui porque não aguentou. Ela não aguentou, sabe? Conviver com isso. (E4) ( meu o grifo)

7.2.8 Da limitação do direito penal diante da complexidade das situações-