1 'MISE EN PLACE'
1.3 SOBRE A COZINHA E EXPERIÊNCIAS EDUCATIVAS
Aos poucos, a cozinha e diversos conhecimentos sobre gastronomia estão se inserindo dentro do espaço escolar, propondo atividades educativas para as crianças. Por exemplo, durante a pesquisa de Maria de Fátima Rezende e Sônia Teresinha de Negri (2015), realizada em 2014, foram propostas oficinas culinárias com crianças numa escola da rede pública estadual no município de Pelotas com o intuito de promover mudanças nas atitudes alimentares e estimular uma educação em saúde. Ao longo de cada encontro se estudaram alguns grupos alimentares e foram propostas atividades de reconhecimento de comidas derivadas destes no seu cotidiano, além de ser facilitado o diálogo sobre as propriedades nutricionais e culturais destes alimentos. Todo encontro tinha uma parte prática, em que uma receita relacionada ao grupo alimentar do dia era preparada. Desta forma, as crianças se aproximaram dos processos de transformação dos alimentos discutidos, conhecendo as suas formas de produção, de manipulação, de conserva e também as suas vantagens nutricionais.
Outro exemplo interessante da integração dos conhecimentos culinários e educação é o projeto 'Crescer e Semear', iniciado pela empresária e consultora em gastronomia saudável Lidi Barbosa. Este tem objetivos similares à pesquisa de Rezende e Negri (2014), pois seu propósito é fazer oficinas na cozinha com crianças e merendeiras de escolas e incentivar hábitos alimentares mais saudáveis para combater o cenário de obesidade crescente no país. O projeto acredita que um maior envolvimento das crianças na manipulação dos alimentos, criando receitas saborosas, fáceis e com bastantes nutrientes, propicie um maior interesse em se alimentar com maior qualidade. Além disso, que esta alta qualidade da alimentação seria fortalecida ao manter um elo entre a alimentação escolar e a caseira; para promover este
vínculo, voluntários do projeto oferecem oficinas e palestras para merendeiras de escolas e familiares.
Iniciativas similares emergem em outros espaços não necessariamente escolares, como o projeto 'Petit Gourmet' iniciado pelo cozinheiro e professor uruguaio Diego Ruete, em que o cozinhar se entende como forma de educar sujeitos. Segundo o cozinheiro, em entrevista com Gabriela Malvasio (2016), o mote deste programa é “mais que uma receita”. Nesta frase refletem as intenções de levar os aprendizados na cozinha para além do preparo dos alimentos; instiga a proporcionar uma outra forma de relação entre crianças e natureza, problematizar o consumo, promover a coletividade e lutar por mais espaços de hortas comunitárias e o uso da cozinha na escola como mais uma sala de aula. Ele resume este movimento no termo 'educocina8'; uma outra maneira de aprender sobre conhecimentos científicos e habilidades motoras e sociais através de experiências culinárias.
Estes projetos coincidem em tornar a cozinha um lugar de aproximação entre os sujeitos, o corpo e alimentos in natura tentando criar relações mais saudáveis entre estes. Ainda assim, se apresentam como iniciativas de ações pontuais e mais direcionadas ou '‘guiadas’', geralmente acompanhadas por profissionais de nutrição. No campo do Ensino de Ciências, a cozinha também tem sido buscada como forma de aprender e se apropriar do conhecimento científico. Maximilla, Reis e Schwantes (2018) escreveram sobre a experiência de um curso de extensão oferecido a estudantes do curso de Pedagogia na Universidade Federal de Rio Grande onde eram contextualizados conhecimentos sobre química, física e biologia através do cotidiano da cozinha, além de relacionar os aspectos culturais que se encontram neste espaço.
A intenção do curso foi enriquecer os conhecimentos sobre ciências dos pedagogos em formação, oferecendo possibilidades para trabalhar com estes conhecimentos nas suas práticas pedagógicas futuras. O curso ocorreu durante quatro dias, sendo que cada um tinha uma temática relacionada à alimentação, abrangendo desde aspectos biológicos do consumo de alimentos, até os aspectos sensoriais e afetivos dele. Porém, ainda que estas temáticas já tivessem sido delimitadas pelos facilitadores do curso, a construção do conteúdo do curso foi a partir das experiências e dos hábitos alimentares dos participantes.
8 'Educocina': o termo foi criado pelo uruguaio Diego Ruete para sintetizar a utilização da horta e da cozinha como ferramentas educativas relacionados à educação alimentar e educação em saúde. Além de me identificar com a proposta de utilizar a experiência na cozinha para pensar outra educação em saúde, acredito ser importante olhar, enfatizar e abraçar iniciativas que surgem na América Latina; no hemisfério sul do mundo.
Refletir sobre as próprias experiências alimentares, principalmente as mais cotidianas, pode então ser proliferante para pensar a educação, também. Sem necessariamente pensar em propostas de oficinas, com objetivos mais direcionados, mas perceber-se como sujeito que está inserido em um sistema alimentar e que transita entre culturas, sabores, afetos, memórias, nutrientes... Embora não são todas as pessoas que se envolvem em práticas culinárias — seja na cozinha de casa, em oficinas em escolas, por lazer ou prazer... — a transformação dos alimentos atravessa sempre nosso dia a dia.
A pesquisadora e artista visual Juzelia de Moraes Silveira (2016) investigou as práticas de cozinha como produtoras de sujeitos, e também como estas são produzidas por eles — sob as perspectivas teóricas da Cultura Visual, a Investigação Narrativa e, de grande interesse para esta pesquisa, os Estudos do Cotidiano. Esta pesquisa, intitulada “As práticas de cozinha como produtoras de microrresistências”, parte da observação de que o cozinhar contém aprendizagens que extrapolam a questão do preparo do alimento e envolve diversas relações possíveis dos sujeitos com este fazer e este espaço da cozinha. Nela, participaram quatro sujeitos que tinham um vínculo forte com a cozinha, os quais fizeram uma “troca de receitas” para trazer à tona suas experiências neste espaço e refletir com eles a relação de tais práticas com sua subjetividade.
A proposta da reflexão era pensar estas experiências a partir de imagens imateriais dos sujeitos, ou seja, das suas memórias sobre o espaço da cozinha e sua própria relação com ela. Parte das relações que surgiram a partir da reflexão das práticas na cozinha foram as “noções de afetividade, cuidado e amor comumente associadas ao ato de cozinhar e comer coletivamente” (DE MORAES, 2016, p. 49). Além disso, a pesquisa provoca problematizar quais sujeitos que podem ocupar estes espaços e exercer estas práticas. É interessante, então, pensar que a relação com cozinha, com o cotidiano de comer, fica também nos sujeitos na esfera da memória — lembranças de contextos específicos da vida, de condições econômicas, de cheiros específicos ou de alguma pessoa que associamos à cozinha.
Ou seja, ainda quando não é uma habilidade que seja praticada cotidianamente por alguém, este fazer tem outras possibilidades de presença no sujeito. Talvez podemos pensar que existem outras tantas aprendizagens que chegam aos sujeitos que, passivamente, não se colocam de maneira criativa no momento de aprender a fazer um pão integral ou reproduzir uma receita familiar de bolo de cenoura.