CAPÍTULO 3 – O MUNDO DA LUA
3.3. Com os pés sobre Gaia
Os afetos circulam no corpo político, como defende Safatle (2015). Tratamos de mostrar que o mundo (visto) da Lua fez nascer Gaia como corpo animado
biogeofisicamente, e junto a ele narrativas que apontam para um sentimento primário próprio à época do nascimento: um sentimento oceânico de indiferenciação eu-mundo. Também mencionamos que as décadas de 1960 a 1990 são o período em que Boltanski e Chiappelo (2009) descrevem como o nascimento de um novo espírito do capitalismo. Esses autores não precisaram ir à Lua para perceber esse novo espírito, mas ficaram em seu próprio território, a França, para descreverem as transformações pelas quais a perspectiva de mundo estava passando. E a mudança que descrevem pode ser resumida como uma lógica de funcionamento empresarial, da qual podemos destacar aspectos como funcionamento em rede, autonomia, liberdade, flexibilidade, transferência de tecnologia, inovações tecnológicas, cooperação, administração por objetivos, preocupações com garantias que envolvem cálculo de risco e administração do futuro.
Esses valores empresariais que passam a circular nessa época e compõem o espírito do capitalismo irão surgir nos relatórios das conferências da ONU compartilhando espaço com o sobrevivencialismo em uma narrativa que nos remete à dos astronautas do overview effect. Desse modo, nos parece coerente defender que esses relatórios, analisados na segunda parte desta tese, constituem também um corpus apropriado para mostrar como o novo espírito do capitalismo se encarna (ou se enterra) no corpo-Terra desde a primeira conferência de 1972. A metáfora da navegação está sempre presente, seja ao imprimir a ideia de que somos todos passageiros da “Espaçonave Terra”, seja na forma como os riscos são apresentados e enfrentados, inerentes ao navegar, neste caso ao governar, em um oceano de indeterminação do futuro em que se busca garantias para a automanutenção de seu sistema para a eternidade. No entanto, este movimento que vai se delineando nessas décadas do pós-guerra parece ganhar uma definição mais nítida ao final de 1980 e início de 1990, quando também se estabelece o conceito de Desenvolvimento Sustentável para a amarração enquanto resposta institucional global à crise ambiental planetária.
Quando nos referimos a estar com os pés em Gaia estamos nos remetendo a um movimento que Siqueira (2016) denomina de “descendente”, ou de “derivas” (SIQUEIRA, 2016, p. 3). O movimento ascendente é a própria corrida espacial em seu sentido de exploração e conquista. Já o descendente, suas derivas, é compreendido pelo autor por meio do conceito de spin-off, cujo sentido original vincula-se à transferência de tecnologia, mas que Siqueira busca pontuar como
modalidades políticas desse processo. Quando ligado à transferência de tecnologia,
spin-off pode ser traduzido como “derivagem”, e é reconhecido como uma das
formas de empreendedorismo que mais favorecem o crescimento econômico (ELPIDA et al., 2010). Trata-se daquilo que produzido pela indústria espacial, sobremaneira instalada nos países desenvolvidos, passa a ser transformado em geração de valor econômico em solo terrestre por meio de jogos de cooperação.
Dentre as heranças da corrida espacial, podemos destacar o próprio desenvolvimento da climatologia como um spin-off no sentido que o atribui Siqueira (2016). Conforme aponta Leite (2015), esta ciência surge do encontro entre a previsão meteorológica do tempo por computadores com estudos sobre o ciclo do carbono, na década de 1950. Os desenvolvimentos da informática como recurso de previsibilidade de cenários futuros também foram largamente utilizados na ecologia a partir desse período (ACOT, 1990). O primeiro computador digital foi desenvolvido por von Neumann em projeto à marinha estadunidense como “projeto meteorológico” de modo que não apenas se pudesse prever, mas também controlar o clima para ser utilizado como arma de guerra (LEITE, 2015, p. 646)
Do projeto Manhattan que produziu as bombas atômicas, foi criado um grupo, chamado de Jason40, que realizava estudos e projetos sobre aquecimento global, oceanografia, e o escudo antimíssil que ficou conhecido como guerra nas estrelas (FINKBEINER, 2006). Esse período foi responsável também pelo desenvolvimento da teoria dos jogos, esquema matemático sobre decisões que pretende a racionalização de comportamentos diante de dilemas envolvendo perdas e ganhos (LEITE, 2015). Para Hamblin (2013), vários trabalhos atuaram como uma frente de “guerra ambiental”, isto é, com a finalidade de controlar ameaças radioativas, biológicas, climáticas dentre outros projetos estratégicos para matar grande número de pessoas. A guerra do Vietnã é considerada como um exemplo do uso do conhecimento sobre o controle de agentes ambientais com objetivos militares (LEITE, 2015, ACOT, 1990).
Nesse contexto, a justificativa econômica toma o lugar para continuar a corrida espacial; ganha força a perspectiva de que as inovações tecnológicas produzidas pela conquista sideral sejam transferidas para tecnologias que proporcionem o crescimento econômico e, com ele, a melhora do modo de vida das
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Em referência à história de Jasão e os argonautas, que deveriam atravessar os perigos em seu navio (Argos) para alcançar o velocino de ouro. Outra metáfora náutica.
populações, basicamente a mesma fórmula do Desenvolvimento Sustentável, prestes a nascer. Busca-se mudar a perspectiva sobre uma prática que, no entanto, permanece em seu processo de expansão ilimitada. Este processo se dá a partir da década de 1970, período em que a postura belicosa é questionada socialmente pelos movimentos de contestação – ambientalistas e pacifistas – e os investimentos nesta área são consequentemente reduzidos. A problematização desta questão se reflete na primeira conferência da ONU como a necessidade de investir na paz e não nas armas (ONU, 1972), bem como em Nosso Futuro Comum que, inclusive, traz números sobre os orçamentos militares que poderiam ser utilizados para a proteção do ambiente (ONU, 1987).
Siqueira pensa sobre spin-offs políticos que reconfiguram os “mecanismos de governo da vida e do planeta”; pensa as bombas nucleares de Hiroshima e Nagasaki como “chave para se observar o aceno da sociedade de controle e sua ecopolítica, em meio a um horizonte ainda predominantemente biopolítico” (SIQUEIRA, 2016, p. 5). Sua concepção de ecopolítica pode ser compreendida como uma governamentalidade41 planetária, cujo início se daria após a Segunda Guerra, em que as formas de controle não são exercidas mais por estruturas rígidas, mas flexíveis, modulares. Nesse sentido, ganha expressão o monitoramento do território, possibilitado pelos artefatos espaciais; as imagens de satélite são a visão da Terra do espaço. Como Siqueira reporta, ainda em 1957 é assinado um tratado internacional mencionando satélites artificiais (UNESCO, 1957) no âmbito do Ano Geofísico Internacional42, relatando a necessidade de conhecer nosso planeta por meio desses instrumentos de monitoramento.
Ainda em 1970 aconteceria nos EUA o Earth Day, encontro científico que estabeleceu o dia da Terra, 22 de Abril. O encontro reuniu cientistas de diversas áreas para debater os problemas ambientais e celebrar a paz mundial. Hannigan (2006) argumenta que este evento marca o ingresso das ciências sociais no debate ambiental, referindo que, a partir dele, esta disciplina intensificou trabalhos na interface natureza-sociedade. E a imagem que estampa esse evento é justamente a
41 Conceito estabelecido por Foucault (1926-1984), que o descreve como “o encontro entre as técnicas de dominação exercidas sobre os outros e as técnicas de si” (apud DARDOT e LAVAL, 2016).
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Ano Geofísico internacional (1957-1958), foi um evento definido pela Assembleia Geral da ONU, com o objetivo de reunir esforços dos países para uma maior e melhor compreensão dos fenômenos relacionados à Terra, promoveu um sistema mundial de observação da atmosfera (CARDOSO, 2005).
Terra vista do espaço. Os debates passam a ser travados na perspectiva lunática; começa a haver um chamado global para a comunhão em torno do desamparo de Gaia.
A exemplo do primeiro capítulo, no qual discutimos a dupla incidência de “Eras” – desde a associação da “Era das catástrofes” de Hobsbawn (2004) e a “Era da Instalação” de Heidegger, a partir do ponto de vista de Silva Júnior (2017) – parece que nos encontramos novamente com outra associação de “Eras” conforme avançamos no século XX. A “Era Espacial” (SIQUEIRA, 2016) e sua vinculação com a “Era de Crescimento”43
representaria, nos termos de Siqueira, os momentos ascendente, ainda ligados à guerra, e os descendentes, mais ligados à necessidade de crescimento econômico, que posteriormente irá aparecer como princípio organizador de Nosso Futuro Comum sob a construção “Nova Era de Crescimento” (ONU, 1987): a Era do Desenvolvimento Sustentável.
Nesta nova era, o “mais urgente problema que a civilização tem de enfrentar” (ONU, 1987) desloca-se para o ambiente e para o clima. Perdemos um inimigo circunstancial, mas ganhamos um crônico, não mais um inimigo de um tempo determinado, mas um inimigo de um tempo indeterminado, que se converte em um terreno para o emprego das tecnologias de guerra. O avanço tecnológico com ferramentas capazes de prever e controlar o futuro para enfrentar o inimigo crônico aparece como a forma mais refinada para a relação de poder sobre a vida por meio do controle técnico do ambiente, como a análise dos relatórios das conferências sobre meio ambiente, objeto da segunda parte desta tese, parece evidenciar.
43 Hobsbawn chama a esse período de “Era de Ouro”, e o subdivide em dois momentos: antes e depois de 1970.