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sobre objetivos e finalidades da prática.

Yuasa fala que os métodos de cultivo de si (shugyo) através da meditação em permanência ou em movimento são métodos que fortalecem e elevam a função da mente para um nível mais alto do o estado normal, ordinário (YUASA, 1987, p.13). Não percebo na key zetta e cia um fim de engrandecer o espirito-mente através do corpo, como existe nas práticas corporais mencionadas, segundo as leituras que fiz de Cox, Zarrilli, Ohno e Yuasa. Porém, pode-se notar uma relação com essa sensação através da dança e do movimento do corpo e da mente.

Perceber como o que acontece fora do espaço do trabalho artístico reverbera no fazer artístico e vice-versa, como essa prática faz entrar em contato com pensamentos e estados de vida e como esse contato traz a possibilidade de ampliar as sensações, elevar as percepções, do que se faz, de como se está dentro ou fora desse espaço, podem ser maneiras de se estabelecer uma relação com o trabalho artístico para além da criação de uma obra. As escolhas no processo criativo e a demanda de uma postura autônoma trazem transformações na realidade como um todo.

Essa demanda que existe no trabalho da key zetta e cia de se manter em relação a um fluxo, de dar espaço para sentir isso, e de levar a atenção para o acontecimento, o que pertence ao agora, o que está presente nesse momento, torna possível um contato com questões que transbordam o espaço profissional de trabalho com dança. Isso não é exclusivo do trabalho deles e também não é um objetivo no trabalho da companhia.

Eu, do lugar de observadora participante, percebo que a prática artística dentro da key zetta e cia por vezes resvala nesse lugar de desenvolver a mente/corpo, mas isso é apenas uma possibilidade. Pode acontecer ou não.

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Yuasa fala sobre a meditação enquanto um abandonar a atitude da mente direcionada para as coisas-eventos do mundo exterior. Nesse estado, todas as conexões ou compromissos são desligados, cortados ou esquecidos, e não se faz julgamentos de bem ou mal. Assim torna-se possível focar exclusivamente nos movimentos da mente decorrente do e com o seu interior (YUASA, p.21).

Isso pode soar uma certa passividade, um certo desprezo pela razão, que pode levar a um estado de docilidade e tolerância total, da perda do espírito crítico, da capacidade de questionar e mudar as coisas, ao apenas aceitar. Através da minha curta experiência com algumas práticas corporais chinesas (Taichi, Chi Kung, Lian Gong em 18 terapias, Ba Duanjin, Xian Gong), noto que esse é um paradoxo muito importante e difícil de praticar, mais do que de entender racionalmente: como conseguir através da meditação, parada ou em movimento, aceitar a realidade sem julgá-la, sossegar o pensamento e as questões e, ao mesmo tempo, provocar transformações, olhares e mudanças radicais, críticas, sensíveis e fora da ordem, potencializando o poder de criação e transformação de si e do mundo.

Em seguida, me deparo com outra situação paradoxal: a experiência não cotidiana do cotidiano. O contato com a key zetta e cia também reafirmou para mim a importância de poder ver e vivenciar a arte não só no trabalho com arte. Compreendo isso como uma forma extra-cotidiana de estar presente nos afazeres da vida.

Porém, essa minha percepção não significa que esse seja um dado explicitamente claro no discurso da companhia. Mas posso observar algo nesse sentido com bastante intensidade no modo de fazer do grupo, pela forma como eles incluem fazeres cotidianos no fazer artístico e como existe a presença de um olhar estético, criativo, sensível para aquilo que não pertence só ao processo criativo ou de ensino da prática da dança.

Yuasa fala que num estado de consciência ordinário se está sensível-consciente da condição do próprio corpo (sensação corporal e sinestésica), e junto com isso se conhece também que a mente é um estado ativo diferente do corpo. Quando o corpo está sentado quietamente, a mente experimenta vários movimentos. A sensação do corpo pertence à

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consciência e nesse sentido é um estado de mente, mas as funções naturais da mente, tais como o pensar e as emoções, são experimentadas como atividades diferentes da sensação corporal.

O autor diz que na fase inicial da meditação, mente e corpo são sentidos distintamente (nenhuma mudança ocorre na sensação corporal, mas os pensamentos divagantes e questionadores surgem um depois do outro). Um estado absorto é como Yuasa descreve uma experiência em que essa distinção desaparece.

Eu tenho e observo uma sensação parecida na orientação presente nos enunciados da key zetta e cia sobre o que se pode experimentar quando se dança. Isso pode ser descrito como um “deixar estar”, “ao invés de fazer, sentir o fluxo de acontecimento”, “agir sem intenção – em que o pensamento e o movimento estão juntos e não em conflito”, um certo relaxamento dos pensamentos ou “baixa na razão”.

Yuasa diz ainda que quando o meditador treina continuamente por um longo período de tempo, os pensamentos divagantes e questionadores desaparecem, e a mente, tornando-se vazia, experimenta o estado de samadhi (meditação) no qual não há a consciência de um eu (YUASA, 1987, p.13). Nesse sentido, relaciono esse aspecto da meditação com a experiência de trabalho com a key zetta e cia, que me levou a experimentar a dança num lugar mais despersonalizado. Porém, reconheço que tal estágio de meditação é algo extremamente radical e de outra natureza do que a experiência com a dança me proporciona.

De toda forma, com despersonalização não quero dizer que os exercícios propostos nos estudos e processos da key zetta e cia me fizeram representar outra coisa que não fosse eu. Ao contrário, as propostas me lançavam à experiência de não me representar e de estar no que eu estava fazendo.

Algo como não tentar demonstrar o que eu estou sentindo, mas sentir (tirar o sujeito da frase e ficar só com o verbo), apresentando-me à experimentação de mais um paradoxo: abandonar o eu e ser verdadeiramente o que se é.

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