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Sociabilidade, trabalho e indivíduo em Mar

II. TRABALHO, SOCIABILIDADE, FORÇA PRODUTIVA E CONHECIMENTO: OS TEXTOS DE MARX FRENTE A UMA TESE DE J.A GIANNOTT

2. Sociabilidade, trabalho e indivíduo em Mar

Os textos de Marx apresentam outros aspectos da sociabilidade como constitutiva da atividade especificamente humana que são importantes para delinear as categorias de trabalho, força produtiva e conhecimento em suas relações recíprocas. Expomos em seguida aspectos ontológicos da sociabilidade, buscando indicar a complexidade que a definição de relação social alcança em Marx, e que não aparece no texto de Giannotti. Como Giannotti define a relação social como “referência a outro”, ao passo que se recusa a partir dos indivíduos como sujeitos – o que o leva a conceber o trabalho na forma lógica de um esquema operatório constituído do qual deriva a relação – examinamos como Marx define a alteridade e o indivíduo.

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Em Marx, a multiplicidade é uma determinação imanente à natureza. Todo ser natural é sensível e tem objetos fora de si: “É idêntico: ser (sein) objetivo, natural, sensível e ao mesmo tempo ter fora de si objeto, natureza, sentido, ou ser objeto mesmo, natureza, sentido para um terceiro” (MEF, 127). Esta definição do ser é geral, isto é, vale igualmente para todas as categorias de seres naturais, sejam os apenas objetivos – que não possuem órgãos de sensibilidade – sejam os seres vivos; e no interior destes, os vegetais, que não são ativos, os animais, dotados pulsão e de atividade, e o homem, que dentre os animais desenvolve uma forma nova de pulsão e de atividade que caracteriza sua diferença específica. Assim, o ser natural é objetivo e ser objetivo significa ter fora de si objetos, ou seja, ser um frente a outros, ou ser outro para os demais: “Um ser que não tenha nenhum objeto fora de si não é nenhum ser objetivo. Um ser que não seja ele mesmo objeto para um terceiro ser não tem nenhum ser para seu objeto, isto é, não se comporta objetivamente, seu ser não é nenhum [ser] objetivo” (MEF, 127).

Assim, a objetividade implica a multiplicidade porque o ser objetivo se define como tendo objetos fora de si. Estes são seus objetos e, por conseguinte, cada ser objetivo é também objeto para outros.

Assenta um ser, que nem é ele próprio objeto nem tem um objeto. Um tal ser seria, em primeiro lugar, o único ser, não existiria nenhum ser fora dele, ele existiria isolado e solitariamente. Pois, tão logo existam objetos fora de mim, tão logo eu não esteja só, sou um outro, uma outra efetividade que não o objeto fora de mim. Para este terceiro objeto eu sou, portanto, uma outra efetividade que não ele, isto é, [sou] seu objeto. Um ser que não é objeto de outro ser, supõe, pois, que não existe nenhum ser objetivo (MEF, 127).

Ser objetivo é, portanto, ser objeto, existir para outros seres objetivos. Aqui é preciso destacar que, em Marx, não é necessário ser sujeito para ter objetos. Como se verá, a subjetividade é uma forma específica do ser objetivo. Ao abordar a natureza em geral e defini-la como uma objetividade múltipla e sensível – que pode ser apreendida pelos sentidos – o modo de ter objetos para si e ser objeto para outros varia conforme as determinações específicas de cada ser, e não significa a posição de uma finalidade sobre o objeto, o para si consciente, que é específico do ser social. Não significa também necessariamente uma forma de atividade, que é comum apenas aos seres animados.

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Marx acrescenta uma determinação fundamental aos seres vivos, que é o ser carente, padecente, limitado pela necessidade de seres fora de si, seus objetos, e dependente deles:

A fome é uma carência natural; ela necessita, por conseguinte, de uma natureza fora de si, de um objeto fora de si, para se satisfazer, para se saciar. A fome é a carência confessada de meu corpo por um objeto existente (seienden) fora dele, indispensável à sua integração e externação essencial (MEF, 127).

Os seres naturais vivos são padecentes, e sua carência de objetos fora de si se sacia apenas por meio da sensibilidade. O caráter padecente dos seres vivos se vincula essencialmente ao seu caráter sensível: mesmo no caso dos seres humanos historicamente desenvolvidos, em que a sensibilidade já se desdobrou em consciência e sentimentos – sentidos práticos para além dos cinco sentidos imediatos – a sensibilidade é mediação necessária e inescapável da satisfação das necessidades de todos os tipos. Além disso, o ser natural que padece é dotado de pulsões, forças que caracterizam a vida. Estas resumem as capacidades naturais que o ser vivo tem de satisfazer suas necessidades, e que, no caso dos animais, se põe como atividade. Todo ser natural vivo animado é ativo. Marx escreve:

O homem é imediatamente ser natural. Como ser natural, e como ser natural vivo, está, por um lado, munido de forças naturais, de forças vitais, é um ser natural ativo; estas forças existem nele como possibilidades e capacidades (Anlagen und Fähigkeiten), como pulsões; por outro, enquanto ser natural, corpóreo, sensível, objetivo, ele é um ser que sofre, dependente e limitado, assim como o animal e a planta, isto é, os objetos de suas pulsões existem fora dele, como objetos independentes dele. Mas esses objetos são objetos de seu carecimento (Bedürfnis), objetos essenciais, indispensáveis para a atuação e confirmação de suas forças essenciais (MEF, 127).

Nos seres naturais não vivos, a dependência dos outros seres não aparece como carência ou padecimento, visto que, sendo sensíveis, ou apreensíveis pelos sentidos, não são dotados de órgãos da sensibilidade. O fato de terem objetos aparece na forma da interação em que necessariamente existem: a diferenciação da matéria, suas determinações químicas e físicas específicas se constituem apenas em conjunto, de modo que alterações em um de seus elementos significam uma transformação em todo o conjunto. Um exemplo emblemático desta integração em que todos os seres naturais se encontram é a influência da Lua nas marés. Podemos distinguir duas formas de

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alteridade: uma em que o outro aparece como uma exterioridade indiferente, nos casos em que não há qualquer integração entre os seres; e a segunda, em que um existe para o outro, de modo a constituírem-se como objetos recíprocos. De acordo com o texto de Marx, não há na natureza esta alteridade em que tudo que é outro se põe como mera exterioridade indiferente, visto que o conjunto dos seres naturais existe de maneira interdependente. Se retirássemos um dos seres de seu contexto natural, de sua natureza exterior, um dado conjunto seria modificado. Nos seres vivos, isso se torna manifesto se tomarmos em consideração os ecossistemas: qualquer mudança em um de seus elementos destrói o equilíbrio em que o conjunto existe e força transformações que repõem o equilíbrio em uma nova forma, alterando o modo como os seres se colocam como objetos recíprocos. Isso não significa que cada ser tem todos os outros como objeto, mas que todos têm objetos. Se a diferença específica dos seres objetivos vivos é ser carente – e no animais sentir sua carência – esta ausência de padecimento nos seres não vivos não exclui sua determinação de ser objeto para outros, e tampouco de ter objetos para si: “O sol é o objeto da planta, um objeto para ela imprescindível, confirmador de sua vida, assim como a planta é objeto do sol, enquanto externação da força evocadora de vida do sol, da força essencial objetiva do sol” (MEF, 127). Em primeiro lugar, o sol é objeto da planta: ela integra a si a energia solar como faz com a água, por exemplo. Mas também a planta é objeto do sol porque seu ser é a confirmação da “força evocadora de vida do sol”. A planta não é necessária para a existência do sol, visto que o sol não padece; contudo, essa força do sol de evocar a vida não existe sem os seres vivos. Os seres naturais externam suas determinações apenas no outro: “Tão logo eu tenha um objeto, esse objeto tem a mim como objeto” (MEF, 127- 8).

Os seres naturais caracterizam-se por terem objetos e serem objetos uns para os outros. A objetividade é o que caracteriza a natureza. Mas todos os seres são objetivos, e portanto naturais: “Um ser não-objetivo é um não-ser” (MEF, 127). Aquilo que podemos delimitar enquanto um ser é, pois, necessariamente objetivo e natural, condição que, em Marx, coincide com a multiplicidade e com a alteridade: apenas sou um ser porque sou objeto para os demais, ou “(...) tão logo eu não esteja só, sou um outro, uma outra efetividade que não o objeto fora de mim” (MEF, 127, citado acima). Veremos que todos os seres objetivos que emergem da vida social – seres humanos e seus produtos – são formas especificamente sociais da natureza. Marx escreve: “Mas

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um ser não objetivo é um ser não efetivo, não sensível, apenas pensado, isto é, apenas imaginado, um ser da abstração” (MEF, 128). A abstração é um atributo específico do ser consciente, isto é, humano. O pensamento ganha existência prática quando se manifesta sensivelmente em linguagem, mas ainda assim o ser pensado não ganha existência sensível, nem o pensamento ou a linguagem em si mesmos tornam-se seres objetivos, mas são predicados do ser que pensa e fala. Do mesmo modo: o trabalho, a guerra, o capital, o Estado não são seres em si mesmos, mas existem como formas da relação ou da atividade de seres sensíveis humanos. Enquanto tais formas de exteriorização de seres objetivos, são objetivos, mas não são entes, e sim, formas objetivas do ser humano48.

A delimitação do ser que encerra em si mesmo a alteridade, como sua determinação central, não especifica a relação social; esta especificação, contudo, deve partir dela. Como ser natural sensível vivo, o homem é padecedor: “Ser (sein) sensível, isto é, ser efetivo, é ser objeto do sentido, ser objeto sensível, e, portanto, ter objetos sensíveis fora de si, ter objetos de sua sensibilidade. Ser sensível é ser padecente(MEF, 128). Além disso, como animal, o ser humano é dotado de forças vitais que o impulsionam a seu objeto:

Que o homem é um ser corpóreo, dotado de forças naturais, vivo, efetivo, objetivo, sensível significa que ele tem objetos efetivos, sensíveis como objetos de seu ser, de sua manifestação de vida (Lebensäusserung), ou que ele pode somente manifestar (äussern) sua vida em objetos sensíveis efetivos (wirkliche sinnliche Gegenstände) (MEF, 127).

Até aqui, as determinações do ser humano não se distinguem das do animal: um ser sensível singular que padece – portanto limitado e dependente da natureza exterior – e que encontra em si pulsões, forças vitais que o impulsionam ativamente aos objetos de seu padecimento. Como os demais seres naturais, existe em imbricação com a multiplicidade natural que é para ele objeto necessário:

A natureza é o corpo inorgânico do homem, a saber, a natureza enquanto ela mesma não é corpo humano. O homem vive da natureza significa: a natureza é o seu corpo, com o qual ele tem de ficar num processo contínuo para não morrer. Que a vida física e mental do homem está interconectada com a natureza não tem outro sentido senão que a natureza está interconectada consigo mesma, pois o homem é uma parte da natureza (MEF, 84).

48 Esta distinção é de importância fundamental para a compreensão do valor, discutida no capítulo IV

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O homem é pois um ser natural e sua vida especificamente humana tem origem na atividade vital natural que o põe em metabolismo com “a natureza enquanto ela mesma não é corpo humano”. O corpo humano é natureza, e a natureza de que ele carece é sua natureza inorgânica. A diferença específica do gênero humano se define pela forma particular desta atividade vital, que é o trabalho:

Pois primeiramente o trabalho, a atividade vital, a vida produtiva mesma aparece ao homem apenas como um meio para a satisfação de uma carência, a necessidade de manutenção da existência física. A vida produtiva é, porém, a vida genérica. É a vida engendradora de vida. No modo (Art) da atividade vital encontra-se o caráter inteiro de uma species, seu caráter genérico, e a atividade consciente livre é o caráter genérico do homem (MEF, 84).

Toda atividade produtiva, animal ou humana, é um meio para satisfação de necessidades que são dadas na condição de ser sensível padecente: a manutenção da existência física requer objetos que devem ser ativamente apropriados, ou mesmo formados pela atividade. A atividade resulta, nos animais e também no homem, de forças vitais dadas no organismo que os impelem ao objeto. O modo da atividade vital do indivíduo caracteriza o gênero animal a que pertence. No homem, o modo de atividade que caracteriza o gênero é a atividade consciente livre. O caráter livre da atividade produtiva humana consiste em ultrapassar a medida natural de sua espécie. A atividade humana deixa por isso de ser específica – medida pela espécie – e se torna universal. Marx escreve:

É verdade que também o animal produz. Constrói para si um ninho, habitações, como a abelha, castor, formigas etc. No entanto, produz apenas aquilo de que necessita imediatamente para si ou sua cria; produz unilateral[mente], enquanto o homem produz universal[mente]; o animal produz apenas sob o domínio da carência física imediata, enquanto o homem produz mesmo livre da carência física, e só produz, primeira e verdadeiramente, na [sua] liberdade [com relação] a ela; o animal só produz a si mesmo, enquanto o homem produz a natureza inteira; [no animal,] o seu produto pertence imediatamente ao seu corpo físico, enquanto o homem se defronta livre[mente] com o seu produto. O animal forma apenas segundo a medida e a carência da species a qual pertence, enquanto o homem sabe produzir segundo a medida de qualquer species, e sabe considerar, por toda parte, a medida inerente ao objeto (MEF, 85).

A liberdade que caracteriza a atividade humana aparece aqui determinada como liberdade relativa à carência física. Esta carência imediatamente natural é a medida da espécie. O ser humano, na atividade que o caracteriza, ultrapassa esta medida, e,

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portanto, a carência imediata. Isso significa, em primeiro lugar, que a atividade produtiva do homem responde a necessidades que não estão dadas na natureza original do homem. Só por essa razão pode o homem se defrontar livremente com seu produto, ou seja, libertar o produto do pertencimento imediato ao corpo físico, que caracteriza a produção animal. A afirmação de Giannotti segundo a qual um outro, que não o produtor, comparece no consumo do produto, é explicada por Marx pelo caráter livre da atividade, e não pela mera existência objetiva do produto como ente distinto do produtor. Também o produto das abelhas, o mel, é uma coisa-aí, e o prova o fato dos homens e outros animais se apropriarem dele. É objeto de carecimento alheio. Mas o defrontar-se livremente com seu produto – que significa libertar-se da carência física atual, imediata – demanda uma forma específica de atividade que extrapola a “medida da espécie” ao pôr necessidades que não existem em sua imediaticidade natural, mais amplas. Estas necessidades, por conseguinte, devem ser novas com relação à naturalidade imediata, devem ser criadas. Ser consciente e ser livre49 são determinações idênticas ao se referirem à forma geral da atividade humana. Trata-se da liberdade de atividade do gênero, com relação aos limites impostos pela natureza imediata, ou dada. Necessidade nova não significa apenas a carência de um produto inexistente na

49 Em termos gerais, liberdade significa autodeterminação. Quando trata das determinações gerais do

trabalho como atividade especificamente humana, a liberdade se refere à determinação natural imediata, à forma como a natureza põe o homem. Ao criar necessidades e formas de atividade novas, caracterizando- se como um ser cuja atividade vital é consciente, o homem é livre. Essa liberdade diz respeito aos limites postos pela natureza, tanto a exterior como a sua própria, à sua atividade, e se refere ao gênero humano em sua distinção dos demais gêneros animais. A liberdade aqui é definitiva da atividade vital do gênero, e portanto, do próprio gênero. Contudo, o desenvolvimento histórico das forças produtivas, ou seja, do domínio que o homem tem sobre a natureza, caracteriza também um aumento da liberdade do gênero com relação aos limites da natureza. Assim, se a atividade é por princípio livre, o grau de liberdade efetiva do gênero está determinado pelo aumento de sua capacidade de inscrever suas próprias finalidades no curso da natureza, dominando-a. Além disso, a liberdade individual não diz respeito apenas à natureza, mas é relativa aos outros homens e à comunidade humana. Ao tratar das transformações no homem introduzidas pela consolidação do capitalismo, Marx afirma que o indivíduo se tornou livre dos vínculos pessoais que definem as relações sociais nas sociedades pré-capitalistas. Trata-se de uma efetiva liberdade com relação à dominação política a que estava sujeito o indivíduo e das restrições ao seu campo de atividades, dentro da totalidade das atividades sociais; especificamente, trata-se da liberdade política. Ainda no que diz respeito à liberdade individual, Marx aponta que, no capitalismo pleno ou industrial, o gênero humano alcançou grande liberdade relativa aos limites naturais devido à desvinculação da terra, quando os pressupostos do trabalho passam a ser criados pelo próprio trabalho, mas o indivíduo não se apropriou desta liberdade. Mostra a contradição entre liberdade do gênero e liberdade individual. O indivíduo não é livre porque se encontra restrito, no campo de suas atividades e da fruição da produção genérica, pela propriedade privada ou divisão do trabalho, que põe o indivíduo como unilateral. Assim, se esta forma de propriedade é historicamente a base para ampliação da individuação e da liberdade, põe um limite à liberdade que apenas seria superado com a própria superação da propriedade privada e da divisão do trabalho. Aqui, liberdade significa ampliação das possibilidades de atividade e de fruição, bem como da capacidade de determinar sua vida, pelo indivíduo, não mais constrangido pela dominação de classe. De modo que a autodeterminação tem múltiplos aspectos e graus. Neste capítulo, abordo a liberdade apenas em seu primeiro aspecto, que é base para todos os seus desdobramentos. Alguns destes serão abordados, com maior ou menor desenvolvimento, ao longo do trabalho.

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natureza, mas também uma forma nova de se apropriar do existente ou mesmo a ampliação quantitativa da necessidade. A transformação no modo como as necessidades naturais são satisfeitas implica o advento de uma nova necessidade. Marx escreve:

Fome é fome, mas a fome que se sacia com carne cozida, comida com garfo e faca, é uma fome diversa da fome que devora carne crua com mão, unha e dente. Por essa razão, não é somente o objeto do consumo que é produzido pela produção, mas também o modo do consumo, não apenas objetiva, mas também subjetivamente (Introdução, 47).

Se a fome muda de forma é porque se tornou uma necessidade nova: esta fome específica não se sacia com carne crua, portanto, é necessidade de outro objeto. A qualquer forma mínima de estoque de objetos e à posse de qualquer objeto da natureza utilizado como instrumento que amplia a capacidade de se apropriar de objetos de consumo correspondem necessidades não dadas ao homem, mas criadas. Por isso, livres da determinação da espécie. Mas é condição da existência de uma necessidade nova a previsão das necessidades dadas, ou seja, a consciência da própria necessidade. Uma necessidade nova, para cuja satisfação cria-se uma forma nova de produzir, deve ser consciente precisamente porque, ao extrapolar o dado orgânico, é criada. A carência põe a finalidade da atividade produtiva quando é conhecida, consciente. Assim, criação de necessidades, posição de finalidades, liberdade e consciência são expressões que designam o mesmo salto que a atividade humana significa em relação à atividade animal, e caracterizam esta atividade.

Como atividade criada para a realização de fins criados, a atividade livre é necessariamente particular, no sentido de que é uma possibilidade dentre outras. É definitivo da criação o caráter múltiplo: se houvesse apenas uma forma de se criar, esta não seria efetivamente criativa, mas dada. Assim, grupos humanos primitivos em condições naturais similares desenvolvem-se muito diferentemente, criando a multiplicidade cultural, ainda que no interior dos mesmos modos de produção e com mesmo nível de força produtiva50. A atividade consciente livre é criativa e, por sua

50 O modo de produção de uma sociedade se caracteriza pela forma das relações de produção ou da

divisão do trabalho, que é determinada pelo nível das forças produtivas ou domínio da natureza. O mesmo modo de produção está presente em povos entre os quais não há intercâmbio. Por exemplo, o comunismo primitivo está no limiar de todos os povos e a consciência mitológica é a forma de consciência primeira de todos os povos, por mais que se distingam os conteúdos das mitologias; encontramos o modo de produção feudal na França e no Japão, em momentos distintos, como explica o historiador Perry Anderson (ANDERSON, P., Linhagens do Estado Absolutista. Tradução de João Roberto Martins Filho. São Paulo: Brasiliense, 1998, pp. 433-459). Assim, as formas gerais da divisão do trabalho, porque condicionadas pelo desenvolvimento das forças produtivas, se repetem. Entretanto, mesmo quando isso