2 O MODELO NEOLIBERAL
2.5 SOCIEDADE CIVIL, “TERCEIRO SETOR” E ONGS – CONTRAPONTO
Em contraponto às ideias dos defensores da “ideologia onguizadora”, autores de filiação marxista como Elaine Behring (2013), Carlos Montaño (2010) e Virgínia Fontes (2010) ressaltam a importância de compreender os conceitos, sempre com uma interpretação que observe a dimensão da totalidade. Para Behring (2013), é preciso conhecer aspectos sociais, econômicos, políticos e culturais de toda e qualquer formação econômico-social dada a sua complexidade. Existem diversos processos sociais que não podem ser reduzidos a uma
única categoria, como hoje costuma acontecer com o conceito de sociedade civil tomado como um setor distinto ou isolado da sociedade.
Para refletir sobre o Brasil, Behring (2013) se apoia na relação entre teoria e história a partir de Marx. Aponta que hoje a teoria crítica da luta social e da transformação do mundo é imprescindível. O pensamento de Marx e suas observações sobre história, classes e bases materiais das relações políticas são elementos importantes para o estudo e a reflexão das mudanças sociais que operam na contemporaneidade.
Na mesma linha, Marco Aurélio Nogueira (2003) afirma que o conceito de sociedade civil que está sendo disseminado largamente no senso comum perdeu sua precisão em que coisas distintas recebem o mesmo nome. Para ele, hoje convivemos com diferentes conceitos de sociedade civil.
Em Gramsci, sociedade civil é um conceito complexo e sofisticado com o qual se pode entender a realidade contemporânea. Mas, é também um projeto político, abrangente e igualmente sofisticado com o qual se pode tentar transformar a realidade, assinala o mesmo autor. Neste sentido, Virgínia Fontes também concorda com este conceito e assim o descreve:
Em Gramsci, a sociedade civil não pode ser seccionada ou amputada da totalidade na qual emerge: responde a uma extensão da socialização do processo produtivo, mas não atua apenas nos espaços produtivos. Compõe-se de aparelhos privados de hegemonia que, ao mesmo tempo em que procuram diluir as lutas de classes, expressam e evidenciam sua difusão e generalização no conjunto da vida social. A sociedade civil, para Gramsci, é parte integrante do Estado e somente por razões analíticas pode dele ser destacada. (FONTES, 2010, p. 216).
Ainda neste sentido, Fontes, defensora do conceito gramsciano de sociedade civil, tece duras críticas à ideologia das ONGs. Segundo ela, estas organizações se apresentam como uma novidade histórica, mas, em seu cerne, as ONGs podem ser definidas, de acordo com a categorização de Gramsci, “como aparelhos privados de hegemonia e que seu papel, de conservação ou de transformação, deriva de sua atuação orgânica com as classes sociais em luta.” (FONTES, 2010, p. 231).
Virgínia Fontes (2010) destaca que a organização inicial das ONGs no Brasil foi protagonizada por ex-exilados que retornaram ao país e receberam financiamento internacional para organizar-se, sobretudo estas não estavam ligadas a partidos políticos ou a um projeto social e político comum. Assim, desde a sua criação, as demandas dessas organizações eram específicas, pois estavam norteadas pela filantropia internacional, de criação dessas organizações, construção e financiamento de seus projetos. Ainda nesse
contexto, ela ressalta que muitas organizações estavam diretamente vinculadas e se sustentavam com o apoio da Igreja Católica ou dos cristãos.
Virgínia Fontes informa que apenas uma parcela ínfima dessas organizações expressava uma tentativa de luta anticapitalista. Segundo a autora, a princípio as ONGs realizavam trabalhos de assessoria, nas áreas de educação e de organização dos setores populares. Como já foi descrito acima, estas organizações estavam também vinculadas à Igreja Católica, por isso possuíam uma relação institucional privilegiada.
Uma reflexão sobre as ONGs no Brasil permite assinalar que estas organizações têm um importante papel para a funcionalidade do capitalismo, para a reprodução dos seus ideais, pois, utilizando-se da expressão capital-imperialismo, verifica-se que a atuação dessas organizações e a ideologia disseminada do voluntariado e da autoajuda existem para consolidar o projeto econômico e político da dominação burguesa através da responsabilização dos indivíduos e da menor intervenção do Estado nas demandas sociais.
A funcionalidade das ONGs para com o projeto neoliberal pode ser também apresentada através da fragmentação das lutas sociais, pois, com o fenômeno das ONGs e de sua expansão, elas passaram a colaborar para modificar e redirecionar o sentido das lutas sociais. Comumente nos deparamos com incontáveis organizações que são criadas com o pretenso discurso da responsabilidade social.
Contudo, estas organizações tentam ocupar o papel do Estado e responder a problemas sociais, mas, devido a sua atuação focalizada em determinada área, realizam atividades fragmentadas e atendem um público selecionado. Em suma, desenvolvem atividades que são incapazes de mudar a realidade social e, sobretudo, não apresentam propostas contra-hegemônicas.
Ainda na década de 1980, esse processo de crescimento das ONGs, dessa dita “onguização”, passou a incomodar grupos e associações que estavam diretamente vinculadas a entidades populares, pois antes os militantes estavam nas ruas, se organizavam em prol de um objetivo comum a sua classe social, vislumbravam um projeto contra hegemônico. No entanto, o processo de crescimento das ONGs trouxe consigo a profissionalização da questão social. Já nesse contexto, os militantes são cooptados pelas ONGs e se transformam em técnicos engajados e especializados em captar recursos, em elaborar projetos sociais. Esse era apenas o início da profissionalização da questão social e da sua mercantilização – “conversão mercantil filantrópica” segundo Fontes (2010).
A expansão das ONGs e de outros aparelhos privados de hegemonia ocorre nas décadas de 70 e 80. Sobre esta expansão Virgínia Fontes relata que:
A sociedade civil apresenta-se como riquíssima arena de luta de classes, ainda que muitos não quisessem mais pensar nesses termos. Boa parte dos setores populares se debatiam com dificuldades de organização, sobretudo quanto a recursos, o que favorecia a expansão das ONGs, atuando através da captação de recursos externos e, em seguida, de fundos públicos. (FONTES, 2010, p. 250).
Após as reflexões precedentes é possível apontar diversas consequências dessa profissionalização que repercutiram nos interesses da militância. Antes se viam como militantes engajados nas lutas sociais contra a ideologia por acreditarem que sem lutas o sistema se consolidaria, tentavam fugir da ideologia burguesa e das classes dominantes. Posteriormente, os mesmos militantes que foram cooptados pelas ONGs se autodenominavam como técnico-assessores de projetos sociais. A militância nas organizações se tornou emprego com boa fonte de renda que influenciava e também exigia desses técnicos uma crescente especialização para a captação de recursos a nível nacional e, sobretudo, a nível internacional. Como assevera Virgínia Fontes, estes são “os agenciadores”:
Pela mesma brecha em que a filantropia se imiscuía na militância, nesse deslizamento da “luta social” para estar “a serviço de”, desaparecia do horizonte a contradição óbvia entre fazer filantropia militante e ser remunerado por essa atividade. Modificava-se a própria forma da política no Brasil, aproximando-se celeremente dos padrões dominantes no cenário internacional, de cunho capital-imperialista. (FONTES, 2010, p. 237)
Com isso, Fontes (2010) enfatiza que no contexto da década de 1980, em meio a este processo de multiplicação das ONGs, o discurso predominante nos movimentos sociais era o da concepção da autonomia por um projeto contra-hegemônico, mas, contrariamente a isso, com o desenvolvimento dessas organizações pertencentes ao Terceiro Setor, a concepção de autonomia perdeu a acepção original do termo e passou a expressar sinônimo da variedade de grupos organizados.
Virgínia Fontes afirma ainda que, no contexto do seu surgimento, observa-se que as ONGs, que pretensamente tentam cuidar do social, defendem a moradia, a escola, a saúde, ao mesmo tempo, não realizam reflexões de cunho classista, ou seja, deixam de lado o debate da contradição que existe entre as classes sociais. O tema da autonomia foi secundário nas ONGs, pois tais organizações, marcadas por contradições, não podiam se opor, uma vez que dependiam e até hoje dependem de financiamento para a sua funcionalidade.
A contradição das ONGs é visível, pois foram criadas e até hoje operam para a funcionalidade dos interesses burgueses, já que não podem contestar os grupos que as mantêm, ou seja, em sua maioria, os financiadores dos projetos sociais são empresas, empresários que se dizem preocupados com as questões sociais, são os mesmos que criticam abertamente o Estado, que assegura direitos sociais, e agora se intitulam responsáveis socialmente, apregoam o discurso da responsabilidade social empresarial. Convém ressaltar que o Estado tem se tornado um importante financiador dessas organizações e de projetos sociais quando investe os recursos públicos em iniciativas privadas.
A história brasileira demonstra que sempre foram direcionados e limitados serviços básicos como saúde, educação, segurança, previdência social, entre outros; ou seja, no Brasil o Estado de bem-estar social não foi efetivado porque não estava no centro de suas preocupações o investimento nos serviços públicos.
A efetivação da universalidade desses serviços públicos ainda é almejada até hoje. Mas, por outro lado, seguindo as metamorfoses do capitalismo no seu modelo econômico atual, o neoliberalismo, continua este processo de contrarreforma do Estado brasileiro disseminando a ideologia do “Terceiro Setor” através das ONGs e da responsabilidade social empresarial. Em tese, eles apregoam que todos são iguais, capazes e suficientemente fortes para vencer no mercado. Disseminam a ideologia do voluntariado, do assistencialismo privado e de que juntos podemos mais. De todo modo, o cerne dessa ideologia continua reproduzindo as contradições entre as classes sociais na medida em que divide a sua estrutura organizativa em dirigentes e executantes, tal como ocorre nas outras esferas da sociedade de classes.
2.6 O ESTADO, A SOCIEDADE BRASILEIRA E O “TERCEIRO SETOR”: AS NOVAS