5. A NOVA TUNA SOUSELENSE – UM PERCURSO DE DUAS DÉCADAS RUMO AO CENTENÁRIO:
5.1. Um fim de tarde em Souselas
Segunda-feira, 30 de junho de 2014. Chego a Souselas cerca das 20h30 para assistir à audição de final de ano dos alunos da escola de música da tuna. A esta hora as ruas estão quase desertas. O sossego deste fim de tarde de verão, com uma banda sonora feita de latidos de cães ao longe e do omnipresente chilrear dos pássaros, apenas é interrompido de quando em quando pela passagem do comboio e pelas vozes dos locutores de telejornal, que vão escapando por janelas entreabertas.
Aproximo-me da sede da Tuna Souselense. O movimento em torno deste edifício onde, há décadas, funcionava a escola primária, contrasta com a quietude das ruas de Souselas. Parece até que a velha escola voltou a estar ativa. Dezenas de crianças brincam e correm pelo pátio, observadas pelos seus pais e avós, que conversam em pequenos grupos. Nos muros que delimitam o pátio repousam pastas de partituras, estojos com instrumentos musicais e cestos que deixam antever a refeição partilhada que se seguirá à audição.
Ao sinal da sua professora as crianças interrompem a brincadeira e entram na sede da tuna, onde já se encontram os seus colegas mais velhos, que as ajudam a afinar os instrumentos. A audição, que está prestes a começar, será realizada na sala onde, durante todo o ano, decorrem as aulas da escola de música da tuna. Esta sala, normalmente preenchida pelo mobiliário da antiga escola, foi transformada num espaço amplo. As mesas, colocadas no átrio que antecede a sala, começam a ser preenchidas com os petiscos preparados por mães e avós, que ocupam o tempo de espera trocando ideias sobre a escola de música, alternadas com receitas de culinária. Na sala ficaram apenas algumas cadeiras, destinadas ao público e aos alunos que se vão apresentar.
A audição começa pouco depois das 21h00. A maestrina da Tuna Souselense – que é também professora da maioria dos alunos da sua escola de música – dá as boas vindas aos presentes e explica que a audição que se seguirá marca o final de mais um ano letivo e tem como objetivo partilhar os resultados do trabalho desenvolvido pelos alunos com as suas famílias.
O espaço está repleto de pessoas. Nas laterais da sala, cerca de duas dezenas de alunos aguardam a sua vez de tocar perante uma assistência de cerca de 40 pessoas, maioritariamente constituída pelos pais, irmãos e avós dos alunos. À falta de cadeiras disponíveis (as que existiam foram deixadas livres para idosos e para pessoas com crianças de colo), várias pessoas assistem à audição de pé ou sentadas no chão (cf. Anexo 15).
A audição inicia-se com a atuação dos alunos mais novos da escola de música. A aluna mais nova parece ter seis ou sete anos. Em dueto com a sua professora, quatro pequenos bandolinistas apresentam pequenas melodias e exercícios que trabalharam nas suas aulas. São fervorosamente aplaudidos e orgulhosamente fotografados pelos pais.
Numa fila à direita da sala estão já três bandolinistas e uma violinista, que rapidamente ocupam os seus lugares. Patrícia Ferreira esclarece que as peças que vão ser apresentadas por estes alunos fazem parte de uma obra didática infantil do compositor alemão Marlo Strauss, intitulada Drei Trios aus Musikalisches
Bilderbuch (Três Trios do Livro de Imagens Musicais)190. Trata-se de um conjunto de trios para bandolim
que, no entanto, foram adaptados e serão apresentados em quarteto. Às três partes de bandolim previstas na partitura original a professora adicionou uma quarta parte, que será tocada por uma aluna que começou recentemente a frequentar aulas de violino. A escrita desta parte, que utiliza apenas as cordas soltas do violino, permite que esta aluna participe na audição, apesar de se encontrar numa fase de formação muito inicial.
A audição prossegue com as obras Mandolin Boogie, Picking Blues, 1625 Samba e Eine Kleine Saurophonie (Uma pequena Saurofonia)191, também da autoria de Marlo Strauss. Estas obras são interpretadas por
190 As três peças que constituem esta obra musical são Kleines Präludium (Pequeno Prelúdio), Der Drachen (O Dragão) e Der Dicke Kaiser (O Imperador Gordo).
trios e quartetos compostos pelos alunos de bandolim mais adiantados da escola de música, alguns dos quais fazem já parte da Tuna Souselense.
A apresentação termina com a apresentação de uma classe de conjunto constituída por quatro bandolinistas, oito guitarristas e um coro com dez elementos. Este grupo de alunos interpreta três canções, com arranjos de Patrícia Ferreira. A primeira, cantada pelo coro com acompanhamento instrumental, é Um Mundo Ideal, do filme Aladino. Seguem-se as obras Hallelujah, de Leonard Cohen e
Mamma Mia, do grupo ABBA.
Alguns alunos trocam de lugares na transição entre cada uma das obras. Na passagem para a canção
Hallelujah alguns guitarristas passam para o coro e uma guitarrista (que anteriormente tinha tocado
bandolim integrada num quarteto) coloca-se ao lado da maestrina para cantar a solo. Na obra Mamma
Mia, esta aluna regressa ao naipe das guitarras, sendo substituída por outra guitarrista, que assume o
solo vocal. A passagem dos alunos por vários naipes põe em evidência um modelo de ensino que privilegia uma aprendizagem musical abrangente: muitos alunos desta escola de música passam por vários instrumentos e frequentam aulas de canto. A abrangência desta formação resulta numa maior flexibilidade dos alunos, muito valorizada na Tuna Souselense, na qual pelo menos alguns destes alunos tocarão no futuro.
A audição termina com um lanche partilhado por todos os presentes que, num ambiente de grande familiaridade - muitos são, de facto, família - trocam impressões sobre o momento musical a que assistiram. Começa já a delinear-se o próximo ano letivo. Em torno da professora (que ainda não conseguiu aproximar-se da mesa), pais e mães colocam questões: Em que dias vão ser as aulas para o
ano? Então, acha que o miúdo tem jeito para a música? Vamos ver se o mais novo quer vir também em setembro... o que será melhor, guitarra ou bandolim?