Polícia de Segurança Pública
DIRECÇÃO NACIONAL
3.3. Modelos Gerais do Stress
3.3.1. Stress como Estímulo Resposta
No Modelo de “Luta e Fuga”, (Cannon, 1935, In Bishop, 1994), o stress é visto como estímulo, em termos de um acontecimento no meio, que a nível fisiológico desenvolve no organismo alterações da sua homeostasia interna, com alteração das taxas de activação e excitação, mudanças que desencadeiam no indivíduo respostas para escapar ou lutar com a fonte de stress.
O fisiologista, Walter Cannon, estudou no inicio do século XX o processo fisiológico que envolvia a manutenção da homeostasia nos corpos em situações de vivência de perigo, chegando á resposta de “fight-or-flight” (ataque ou fuga). Estas respostas preparam o organismo para fazer face à ameaça ou para desencadear a fuga.
Perante a percepção de perigo, a nível fisiológico são estimulados o Sistema Nervoso Simpático e o Sistema Endócrino, nomeadamente as glândulas supra-renais com a secreção de epinfrine (adrenalina) e da norapinefrine (nora adrenalina), que uma vez na corrente sanguínea, aumentam a pressão arterial, os níveis de açúcar no sangue, a respiração, e a injecção de sangue a nível da pele e músculos (Bishop, 1994). Esta estimulação do organismo, pode ter efeitos positivos e/ou negativos, pois permite perante uma situação de perigo uma resposta de luta ou fuga, que podem permitir uma resposta adaptativa e de sobrevivência, mas também, uma elevada estimulação orgânica e prolongada no tempo pode ter efeitos negativos em termos de saúde.
Influenciado por Cannon, Seyle, desenvolve e populariza a ideia de resposta ao
stress onde uma agressão ou stressor, de diferente natureza (físico ou psicológico),
induz no organismo stress, provocando uma reacção de alarme, que permite a mobilização de energia para a sobrevivência (Síndrome Geral de Adaptação).
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Seyle definiu a Síndrome Geral de Adaptação (S.G.A.), como uma resposta não específica do organismo a qualquer agente. Esta Síndrome foi desenvolvida com o objectivo de avaliar as consequências que se produzem no organismo quando este é submetido a grandes quantidades de stress. Verificou que o Modelo de Cannon, era apenas a primeira fase, numa sequência de outras reacções que o organismo humano produz quando o stress é constante e duradouro. O S.G.A. consiste em três estádios ou fases:
1-Alarme – Ocorre imediatamente após o indivíduo se expor a uma situação stressante, mobilizando uma resposta de luta. O sistema nervoso central e o sistema nervoso simpático são activados, desencadeando-se uma resposta, que mobiliza o organismo para a acção; a nível fisiológico existe um aumento de tensão arterial e de adrenalina. Esta fase é idêntica ao modelo de Cannon de “Luta e Fuga”.
Esta fase é composta por duas sub-fases:
*Fase de Choque; reacção inicial e imediata ao agente nocivo caracterizada pelo declínio da resistência.
*Fase de Contra-Choque; reacção de ricochete marcada pela mobilização dos mecanismos de defesa.
O organismo está totalmente mobilizado para fazer face ao agente stressor. Contudo não pode manter a intensa estimulação orgânica da reacção de alarme por muito tempo.
2-Resistência – Aqui o indivíduo continua a lutar, usando os seus mecanismos de coping disponíveis e focalizando-os para o estímulo. O organismo faz a adaptação total ao agente indutor de stress e consequente aumento ou desaparecimento dos sintomas. Simultaneamente existe uma concorrente descida da resistência á maioria dos estímulos. Esta fase, expressa o conceito inicialmente referido por Claude Bérnard – a homeostase – segundo o qual um organismo em desequilíbrio procurará naturalmente restabelecer o seu equilíbrio interno. Com efeito este estádio corresponde á recuperação desse mesmo equilíbrio e ao esforço contínuo de o manter, habituando-se ao agente indutor de stress (Ramos, 2001), quando isto não acontece, o corpo pode esgotar-se na luta contra o stress, ou seja continua a empregar todas as suas energias na luta contra o stressor, colocando a sua sobrevivência em risco, utilizando a capacidade de resistência até ao limite.
3-Exaustão – É alcançada na altura em que o indivíduo é exposto repetidamente a uma situação de stress e se tornou incapaz de mostrar mais resistência, esgotando as suas fontes de luta contra o indutor de stress. Dá-se o
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colapso dos mecanismos de adaptação ao agente indutor de stress e surge a exaustão, que se for grave e prolongada pode ocorrer a morte.
No caso de resistir, perde-se também a capacidade de resistência a outros factores indutores de stress, não relacionados com o primeiro, verificando-se que o indivíduo debilitado fica mais vulnerável a outros stressores. A nível fisiológico existe uma quebra dos mecanismos de protecção a nível imunológico e biológico, originando o que Seyle definiu por “doenças de adaptação”. Seyle acreditava em “respostas não específicas”, ou seja, quando na fase de alarme eram desencadeadas reacções muito intensas ou durante um longo período de tempo existia maior probabilidade de falhanço na adaptação, não existindo respostas sempre iguais.
Mas o stress não tem de ser necessariamente negativo e Seyle diferenciou dois tipos de stress - Eustress – stress positivo, que causa prazer e é de realização agradável e Distress – stress negativo que ultrapassa a capacidade de adaptação do indivíduo. O stress pode ainda ser agudo, aquele que é limitado no tempo, ou crónico, aquele que surge repetidas vezes, próximas no tempo e que origina no organismo uma reacção de adaptação diferente. Na fase final da Síndroma Geral de Adaptação (Seyle, 1966), depois de exposições prolongadas ao stress, os recursos fisiológicos são esgotados, causando danos irreversíveis.
Mason (1975, In, Bishop, 1994), entrou em controvérsia com esta ideia de Selye e o conceito de “resposta não específica”, sugerindo a analogia entre stress e agentes patogénicos como as bactérias e os vírus. Uma vez exposto a agentes patogénicos, o organismo fica em risco de desenvolver a doença, mas nem todos os que estiveram expostos desenvolveram a doença. A pessoa ficar doente, depende de certas condições relacionadas com a natureza do agente patogénico e das capacidades do organismo de resistir à infecção, podendo a exposição ao stressor não desencadear automaticamente alterações fisiológicas no organismo.
Este modelo, considera o stress num enquadramento de estímulo-resposta, onde o indivíduo é passivo, respondendo automaticamente ao mundo externo, sem considerar o papel deste na determinação da sua própria resposta ao stress. Ignora não só o impacto psicológico do stress no indivíduo, como, as aptidões deste último para alterar as situações indutoras de stress (Lazarus e Folkman, 1984). Além disso, admite apenas os indutores de stress externos, ignorando os que podem ter origem no próprio indivíduo (indutores internos).
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Em qualquer destes modelos, o stress é apenas conceptualização como respostas fisiológicas, não explorando as restantes respostas psicológicas e sociais e a activação emocional que os indutores de stress podem desencadear.
No entanto apesar das críticas é unânime e indiscutível o reconhecimento de Seyle por ter conferido ao stress uma identidade científica própria com uma nova área de estudo.