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Subjetividade e poder: discussões teóricas e considerações acerca

No documento Demissões (in)voluntarias e subjetividade (páginas 177-200)

trabalhadores bancários

Diversos autores analisam as relações entre subjetividade e instituição face ao exercício do poder. Tal perspectiva de análise situa-se nos campos da Psicanálise das Organizações, da Psicologia Social, da Psicopatologia do Trabalho e da Sociologia do Trabalho. Permeando tais perspectivas coloca-se a questão da determinação social ou estrutural da subjetividade versus a sua determinação psíquica. Esta discussão merece ser aqui abordada, tendo em vista a problematização dos aspectos mais ou menos (des)favoráveis da saúde mental

dos ex-bancários e sua maior ou menor relação com a modalidade de gestão ao qual foram submetidos.

Segundo Castro e Guimarães (1991) as atuais vertentes da Sociologia do Trabalho já não prescindem da análise da subjetividade nos processos de trabalho, mas a colocam em um patamar diferenciado do que a colocava a tradição marxista de outrora. Segundo a autora, a subjetividade, na antiga concepção marxista, enxergara o sujeito como um epifenômeno do econômico ou como seu oposto, ou seja, elemento voluntarioso, espécie de sujeito idealmente autônomo. Nesse sentido, além de muitas vezes empalidecer a resistência e retratar a subjetividade de forma generalista, esse campo do conhecimento ignorava a percepção do trabalho como elemento de identidade e de

asseguramento subjetivo.220

Para Schwartz (1997), que questiona a possibilidade de constituição de uma ciência do sujeito singular, o legado economicista do marxismo ainda “inunda” as concepções marxistas renovadas. Segundo o autor este legado é detectável até mesmo nas abordagens que visam superá-lo e que seriam mais promissoras em relação a tal intuito. Schrwartz (1997) refere-se às postulações de Sève (1989) que, conforme sua argumentação, tentam elaborar uma teorização sobre a singularidade, tentativa essa que é por ele compreendida como

praticamente impossível.221

A discussão ou polêmica acerca das dimensões constitutivas dos sujeitos e das relações destes com o exercício do poder é realizada com propriedade por

Garcia (1996).222 A oposicão entre sujeitos auto-engendrados versus sujeitos

engendrados pelo social vem à baila em suas considerações. Garcia (1996) critica a visão que ressalta a determinação estruturalista do sujeito, ou seja, a visão que

220 C A S T R O , N a d y a A r a ú j o , G U I M A R Ã E S , A n t ô n i o S é r g i o A l f r e d o . A l é m d e B r a v e r m a n , d e p o i s d e B u r a w o y : v e r t e n t e s a n a l í t i c a s d a s o c i o l o g i a d o t r a b a l h o . R e v i s t a B r a s i l e i r a d e C i ê n c i a s S o c i a i s , S ã o P a u l o , a n o 6 , n . 1 7 , p . 4 8 - 4 9 , o u t . 1 9 9 1 . 221 S C H W A R T Z , Y v e s . U n n e s c i e n c e d u s u j e c t s i n g u l i e r : e s t - e l l e p o s s i b l e ? C a m p i n a s , S P : F a c u l d a d e d e E d u c a ç ã o d a U N I C A M P , m i m e o , 1 9 9 7 . S È V E , L u c i e n . A p e r s o n a l i d a d e e m g e s t a ç ã o . I n : S I L V E I R A , P a u l a , D O R A Y , B e r n a r d ( o r g . ) . E l e m e n t o s p a r a u m a t e o r i a m a r x i s t a d a s u b j e t i v i d a d e . S ã o P a u l o : V é r t i c e , 1 9 8 9 . c a p . 5 , p . 1 5 5 - 1 6 4 . 222 G A R C I A , S y l v i a G e m i g n a n i . C u l t u r a , d o m i n a ç ã o e s u j e i t o s s o c i a i s . T e m p o s o c i a l , S ã o P a u l o , U S P , n . 8 ( 2 ) , p . 1 5 9 - 1 7 6 , o u t . 1 9 9 6 .

postula que a subjetividade, frente ao poder e às condições de existência, possui uma atuação que transcende aos homens ou às suas individualidades. Para a autora, quando pensamos sobre os sujeitos que são expostos às práticas de dominação, não devemos considerá-los “iludidos, conformados e dominados”. Por outro lado, a autora igualmente critica a visão que cai em outro extremo, a saber, a que supervaloriza a capacidade de auto-engendramento da subjetividade face ao poder. Segundo Garcia (1996) tal concepção tende a uma compreensão equivocada na qual os sujeitos seriam vistos como “sábios, conscientes e

resistentes”.

Garcia (1996) alerta que, frente às práticas de poder, residem níveis de

indeterminação que podem configurar distintas trajetórias subjetivas e sociais.223

De fato, a diversidade e riqueza dos dados coletados na pesquisa que aqui se apresenta, sobretudo quando se realiza uma análise individual e mais aprofundada de cada caso, não permitem traçar a existência de uma única e inequívoca configuração, quer tomemos a generalidade coletiva, quer tomemos a generalidade individual. Ou seja, qualquer esforço de descrição genérica corre o risco de se constituir como infiel às sutilezas, ambigüidades e contradições, de modo a tomar elementos individuais significativos como meros resíduos. Como aponta Schwartz (1997), é justamente nestes aspectos, que numa visão equivocada são compreendidos como residuais, que residem as possibilidades das descrições mais complexas e integrais das subjetividades, descrições essas que dificilmente convertem-se aos moldes da linguagem genérica e/ou científica.224

Este jogo de indeterminação apontado por Garcia (1996) e os seus contínuos possíveis, ou seja, movimentos que não são pré-determinados em um sentido ou outro, estão implícitos nas considerações de Schwartz (1997) e também são levados em conta pelo psicanalista Birman (1994) em sua abordagem das relações entre subjetividade e poder .

223 I d . I b i d . p . 1 6 1 , p . 1 6 9 , p . 1 7 3 . 224 S C H W A R T Z , Y v e s . o p . c i t . ( m i m e o . )

Segundo Birman (1994) o poder é um elemento constitutivo da subjetividade, ou seja, caracteriza-se como instância que está no fundamento da constituição do sujeito. Nesse sentido, é algo que se impõe ao sujeito e, ao mesmo tempo, permite o seu próprio engendramento. Nas palavras do mesmo:

"face ao poder o sujeito primariamente se ordena e, posteriormente, se desordena, no sentido da produção de sua singularidade".225

Portanto, para Birman (1994) a inscrição do sujeito no campo do poder não vai apenas em um sentido. Ela é marcada tanto por mal-estar e tragicidade como também por construção de singularidade.

Tais visões permitem compreender, por exemplo, as complexidades e ambigüidades das decisões de adesão e das perdas psicossociais delas derivadas. O exercício da gestão do medo e da incitação à demissão (in)voluntária envolveu tanto “tragicidades” - desemprego, perda de referências, vulnerabilidade, traços depressivos, etc - como também mobilizou, ainda que de forma menos evidente, sensações de libertação (da alienação, da falta de significado) e, em alguns casos, até mesmo perspectivas de maior realização e satisfação profissionais e/ou pessoais (ainda que pese, em muitas de tais empreitadas de reprofissionalização, uma certa persistência de traços depressivos).

Pagès (1990) e colaboradores conceitualizam o poder como um sistema sócio-mental cuja função primordial é a de mediação de conflitos econômicos, políticos, ideológicos e psicológicos. Tal mediação, que se dá no interior das instituições, tende a se antecipar aos conflitos psíquicos e sociais. Para Pagés (1990) conflitos são banalizados, configurando empobrecimento psíquico e fortalecimento de estruturas ideológicas. A subjetividade manipulada em tal contexto desenvolve mecanismos auto-punitivos e/ou ilusórios, eficazes no sentido da produção e reprodução imaginária condizentes à ideologia e filosofia institucionais.226

As postulações de Pagés (1990) são pertinentes para a maioria dos casos e complementa-se à visão dejouriana. Não obstante, não explica uma faceta da

225 B I R M A N , J o e l . P s i c a n á l i s e , c i ê n c i a e c u l t u r a . 1 . e d . R i o d e J a n e i r o : J o r g e Z a h a r , 1 9 9 4 . p . 1 1 1 - 1 1 7 . ( P e n s a m e n t o F r e u d i a n o , n . 3 ) .

dimensão subjetiva presente até nos casos relativamente desafortunados, qual seja: a de um rompimento com a alienação, opressão e falta de significado em prol de uma auto-valorização das capacidades pessoais.

A noção de sistema sócio-mental explica, por exemplo o apego excessivo à “segurança” dos benefícios e à “acomodação”. Conforme explicitou o caso e fala de Ana Paula, a busca cega da segurança pode ter conseqüências penosas que invalidam suas vantagens. Ou seja, o poder sócio-mental muitas vezes impinge empobrecimentos psíquicos e reduz a capacidade crítica ao oferecer suas suspeitas “benesses”:

“A gente corre tanto atrás da segurança que é pego por ela” (Ana Paula, 43 anos,

ex-caixa, 02/03/1999)

Enriquez (1997) conceitualiza o poder institucional como sedutor e persuasivo e considera que a subjetividade, face à gestão, tende a configurar indivíduos presos às malhas das organizações. Segundo esse autor no contexto

institucional ocorrem perdas das liberdades corpóreas e psíquicas.227

Tal postulação também é interessante sob diversas óticas, tanto em relação à longa permanência no banco (a despeito de seus aspectos nocivos), quanto em relação à adesão ao plano de demissão.

Do ponto de vista da permanência podemos destacar a sedução das vantagens econômicas da instituição bancária engendrando um “cemitério de

profissões”, tal como dito por Roberto ao referir-se às formações profissionais

“abortadas” (curso superior interrompido). Tratava-se de perdas de liberdades psíquicas, ou melhor, uma repressão “suave”, via persuasão, dos desejos e ideais de ego, devidamente “capturados”.

A sedução institucional também esteve presente no sentido da limitação da liberdade corpórea, tal como atestaram os relatos acerca dos limites corpóreos suscitados pela LER (Ana Paula e Marly).

227 E N R I Q U E Z , E u g è n e . O i n d i v í d u o p r e s o n a a r m a d i l h a d a e s t r u t u r a e s t r a t é g i c a . R A E , S ã o P a u l o , E A E S P / F G V , v . 3 7 . n . 1 , p . 1 8 - 2 9 , j a n . / m a r . 1 9 9 7 .

Nos casos de LER a noção de poder sócio-mental de Pagés (1990) também se revela, ao lado das visões de Enriquez (1997) e Dejours (1999), como bastante fecunda para a análise. Conforme postula Pagés (1990) realiza-se uma articulação entre ideologia e inconsciente via poder sócio-mental. Na ansiedade de produção acelerada, de causas inconscientes - no caso da LER, sobretudo feminina - atualiza-se a dimensão concreta da ideologia institucional embutida no processo de feminização do trabalho: a da mulher tendo que apresentar-se “superior” ao homem para obter o mesmo reconhecimento profissional.

Do ponto de vista da adesão a postulação do fator sedução feita por Enriquez (1997) é inquestionável: como foi visto, os sujeitos imersos no medo eram conduzidos aos desejos de tornar-se empreendedores, de “ganhar” uma

“bolada”, de livrar-se do trabalho intenso, etc. Na medida em que muitos

empreendimentos encontraram limites, as ditas “boladas” foram perdidas nos mesmos (ou então utilizadas para pagamento de dívidas, sustento de períodos variáveis de desemprego, complementação dos salários inferiores ao do padrão anterior, etc...). Ademais, trabalhos árduos permaneceram nas novas atividades “flexíveis” (e/ou na sobreposição de atividades) evidenciando-se o aspecto ilusório do referido desejo presente no movimento de adesão. Assim, é pertinente e necessária a consideração à questão da persuasão e da instrumentalização perversa e eficaz da subjetividade.

Assim, o que se verifica no plano teórico da Psicanálise das Organizações são hipóteses que, posteriormente e, de forma geral, foram comprovadas na pesquisa de campo, a saber: a da captura de singularidades no sentido da eficácia da produção e da reprodução de valores e significados institucionais condizentes à ideologia e à exploração do trabalho.

a) Trabalho, estruturas psíquicas e entidades clínicas

No campo da Psicopatologia do Trabalho destacam-se as contribuições que enfatizam os aspectos do mundo do trabalho que são nocivos à saúde mental. Nesse sentido, é a partir desta disciplina e à luz das discussões acima mencionadas que se realiza a elaboração mais aprofundada da saúde mental no

trabalho e da concorrência entre estrutura social e estrutura psíquica na determinação de entidades clínicas.

Dejours (1987), um dos autores mais conhecidos da Psicopatologia do Trabalho, considera que o poder no campo do trabalho efetiva uma instrumentalização ou exploração do sofrimento psíquico, da ansiedade, da angustia, do medo e do narcisismo. A subjetividade é por ele abordada a partir da categoria de "estratégias defensivas coletivas". Tais estratégias assumem diversas configurações sintomatológicas conforme a categoria profissional em questão. As sintomatologias mais apontadas são amplas e envolvem problemáticas corporais, psíquicas e psicossomáticas. De modo geral Dejours (1987) aponta para alta freqüência de fadiga, excessivas (sobre)cargas psíquicas

e mecanismos de negação e stress.228

Dejours (1987) tende a considerar que as problemáticas psíquicas e de saúde relacionadas ao trabalho são, sobretudo, psicossomáticas e, nesse sentido, não as encaixa em entidades nosográficas mais habituais ou individualizantes, tais como histeria, neurose obsessiva ou psicose. O autor também não se preocupa em traçar nítidas fronteiras entre o que poderíamos denominar doenças ocupacionais e problemas e/ou enfermidades mais relacionadas à estrutura de personalidade.

Ao se analisar os casos de problemáticas de saúde envolvendo os ex- bancários constatou-se que problemáticas passíveis de serem classificadas como psicossomáticas são freqüentes, independentemente de sua eventual e concomitante classificação em entidades clínicas individualizantes. Ou seja, o

stress, composto pelo componente corporal (fadiga), psíquico (ansiedade,

irritabilidade) e organizacional (medo de demissão, pressão por metas, pressão para adesão à demissão e deteriorização das condições contratuais de trabalho), pareceu acompanhar problemáticas psíquicas mais ou menos estruturadas como, respectivamente, a depressão e culpa (em alguns casos durante o trabalho e, em outros, após a demissão).

228 D E J O U R S , C h r i s t o p h e . A l o u c u r a d o t r a b a l h o : e s t u d o d e p s i c o p a t o l o g i a d o t r a b a l h o . 5 . e d . S ã o P a u l o : C o r t e z , 1 9 8 7 . 1 6 8 p .

Nos casos de Ana Paula e Marly, portadoras de LER, o componente psicossomático apresentou uma nítida relação com o trabalho, ainda que o stress e condições psicológicas não possam ser descolados das especificidades da estrutura psíquica ou de personalidade.

Wanda referiu-se ao stress e depressão dando a entender que eles se mantiveram enquanto manteve-se o vínculo institucional:

“Eu sempre gostei demais de trabalhar no Banespa. Gostava demais mesmo. Mas depois o ambiente ficou muito ruim. Eu achei que se eu saísse, eu me daria melhor, até pra saúde. Eu tava ficando muito nervosa lá dentro, nervosa demais” (...) “Vai chegando uma hora que você vai perdendo a alegria” (...) “Já passou. Não foi assim de imediato. Hoje eu percebo que aquele stress, aquela ansiedade, aquele nervoso, isso daí passou. Mas eu fiquei um bom tempo com aquela ansiedade que eu tinha”

(Wanda, 41 anos, ex-caixa, jan./1999)

Já no caso de Maria a questão psicológica, embora também relacionada ao stress e traços depressivos relacionados ao trabalho, perdurou mesmo após o desligamento, tendo sido amenizada apenas pela conduta médica mais adequada em relação ao seu problema endócrino. No seu caso, a fobia se fez presente de forma patológica. A situação de desemprego, por sua vez, pôde ser compreendida como fator exógeno mantenedor de sua problemática psicológica. De qualquer modo, sua rigidez e o seu vínculo conjugal doentio foram compreendidos como expressões vivas da relação entre sua problemática psicológica e sua estrutura psíquica, independentemente dos fatores nocivos da realidade social (organização do trabalho; desemprego):

“Eu tava com fobia. Eu não podia ficar dentro do apartamento, não podia ficar em lugar fechado. Eu tava tomando banho e queria sair correndo, sabe ? (...) “Eu tava fazendo terapia no psiquiatra. Eu já não tinha condições, eu já tava com depressão profunda. Não tinha ânimo pra nada” (...) “Eu tava com depressão. De 92 até 96 teve afastamento uma só vez, de quinze dias. Eu não agüentava qualquer barulhinho e não podia ficar dentro de ambiente fechado” (...) “Eu não podia ouvir barulho. Não podia ver gente mais. Eu entrava na agência e o barulho me irritava” (...)“Eu sempre tive problema, né... Meu marido... Meu pai sempre foi seco” (...) “Eu pensei que ia

melhorar depois que eu saísse do banco” (...) “O que me mais causou foi a vida conjugal” (...) “Fiz tratamento de estafa, stress... eu pensei que fosse stress... Eu não sabia o que era minha doença. Eu tava ficando louca” (...) “Eu já sabia do problema que eu tinha com o meu marido, mas não sabia que tava com tireóide. Só depois que eu pedi demissão é que a médica falou assim: “Deve ser problema de tireóide” (...)“Eu estava louca. Minha cabeça não ajudava. Depois eu fiquei sabendo que a maioria do pessoal que tá internado no Juqueri é problema de tireóide” (...) “A médica descobriu que eu tinha tireóide, aí ela falou assim: “procura um médico da CABESP e vê se ele cobra o mesmo que a CABESP paga pra ele”. Eu liguei pra vários médicos, mas nenhum me atendeu com esse valor né ? Aí ela falou que ia cobrar não sei quanto e... eu não tinha condições, porque o meu marido sempre tinha dívida, dívida (...) “Eu fui no SUS e ele me deu o remédio errado. Começou a queimar a minha língua. Depois de um tempo, como o médico tinha dado remédio errado, eu falei: “Eu vou entrar num convênio”. Eu não podia nem andar na rua. Eu tava louca, pirada.(...) “Comecei outra medicação. Tomo até hoje. É o Puran T4. Um mês depois eu senti a reação. Eu falei: “Agora eu vou melhorar !” (...) “Eu já tô outra pessoa. Eu tava louca, louca, louca mesmo”. (...) “Sabe quando o mundo roda e você não agüenta ? Hoje não. Hoje eu posso sair, ir na escola da minha filha. Mas ainda sinto aquele barulho que me incomoda” (Maria, 44 anos, ex-caixa, 19/03/1999)

Ademais, a própria extensão do desemprego pôde ser relacionada à sua condição psíquica. Nesse sentido, além das limitações de idade e do mercado de trabalho para sua reinserção, sua condição psíquica também foi fator relevante para seu insucesso:

“Eu procurei no jornal, tudo... Às vezes eu falava pras pessoas que eu queria

trabalhar. Mas sabe quando você não tem condições ? Como que eu vou pode aceitar um serviço se eu não tenho condições de trabalhar ?” (Maria, 44 anos, ex-caixa,

19/03/1999)

Paulo referiu-se também a uma problemática de stress - com sintomas como irritabilidade, cansaço, tensão, medo de demissão e pânico mobilizado pelos assaltos - que aliou-se a traços depressivos e apatia (sustentados após a demissão pela situação de desemprego e por conflitos conjugais a ela relacionados). Também se referiu a problemáticas de infância (pobreza e ausência paterna) e ao suicídio de um irmão. Não apresentou melhoras significativas após

desligar-se do banco, tal com Wanda, nem tampouco sintomas mais exuberantes, tal como os relatados por Maria. Segundo seu relato, era uma pessoa mais feliz antes de enfrentar tais situações, o que sugere que não se pode falar de uma depressão estrutural, mas sim reativa e exógena, ainda que se considere que hajam fragilidades de sua estrutura de personalidade -aparentemente associadas às questões familiares. No seu caso, de qualquer forma, a fronteira entre estrutura social e estrutura psíquica é difícil de ser traçada:

“Eu não tava dormindo direito, eu chegava em casa estressado” (...)“A gente ficava cada vez mais tenso”(...) “E o pânico dos assaltos ? Eu já tava com esse pânico de assalto já há algum tempo” (...) “Meu pai morreu eu tinha seis anos. Ele não tinha registro. O meu pai não deixou nada pra gente. A gente era muito pobre. Pobre, pobre mesmo” (...) “Um irmão meu morreu, ele trabalhava no Banespa também. Ele se suicidou... (...) “Ela não tá querendo sair daqui. É que a família dela é daqui, né ? Então, ela não tá querendo muito ir não” (sobre desacordo da esposa em relação à

eventual mudança para montar negócio no Espírito Santo) (...) “Eu acho que eu era

mais alegre. Eu era bem mais alegre. Mas eu tô... eu, eu... eu prefiro não partir pra esse lado não, porque é bem pior pra mim. Eu tenho que me manter. Porque se eu for olhar pra trás mesmo, eu não vou... aí vem a depressão. E eu não quero ter depressão. Não posso me deixar levar por isso aí, porque senão entro em parafuso e aí piora” (Paulo, 42 anos, ex-supervisor, 26/02/1999)

As sintomatologias psicossomáticas também foram verificadas em Ana Paula. Tal como no caso de Wanda, envolveu depressão e stress, sendo que as problemáticas psicológicas apresentaram-se como problemáticas mais relacionadas à organização do trabalho do que à estrutura psíquica. Elas se minimizaram de forma evidente após o desligamento institucional (ainda que após um período relativamente longo de reestruturação). No caso de Ana Paula a problemática corporal expressou-se não somente na fadiga ou stress, mas também na constituição da LER. O fator da organização do trabalho foi realçado por Ana Paula, que acredita que sua sanidade foi comprometida em função do mesmo. Por outro lado, a entrevistada também considerou suas problemáticas psicológicas:

“A maioria dos caixas tinha o mesmo comportamento. Era tudo gente mais ou menos parecida de temperamento, todo mundo era muito rápido, trabalhava muito e resolvia mal as tensões. Gente muito agressiva. Eu sempre fui excessivamente agressiva. Isso tudo levou à LER. Eu não trabalhava relaxada, mas sempre tensa, com a musculatura sempre tensa, no ar condicionado. Tem problemas. Lógico que dá problemas. Foi o que aconteceu” (Ana Paula, 43 anos, ex-caixa, 02/03/1999)

A LER é uma doença ocupacional que envolve um ciclo complexo de desenvolvimento, no qual a ansiedade e perfeccionismo, inseridos em uma organização de trabalho desfavorável, são fatores causais relevantes. Com o estabelecimento da LER, são agravadas as seguintes condições psíquicas: temor de invalidez, sentimentos de culpa e de incapacidade mais ou menos inconscientes e traços depressivos variáveis. Assim, gradativa e progressivamente, uma doença corporal e reconhecidamente ocupacional revela- se como doença igualmente psíquica. Neste sentido, podemos compreendê-la, sobretudo em sua fase mais adiantada, não como mera doença ocupacional, mas sim como doença psicossomática específica, onde a dimensão psicológica deve ser sempre considerada (ainda que não deva ser superdimensionada).

Uma das facetas também curiosas da etapa mais avançada da LER é a do sofrimento aliado a um relativo “prazer”. Esse pode ser compreendido como uma manifestação secundária do traço masoquista inicialmente presente na causa e desenvolvimento da doença. Esse traço masoquista “original” é detectável tanto na busca ansiosa de produtividade (o que caracteriza um perfeccionismo e uma atitude auto-nociva diante das tarefas do trabalho) como na negação das suas dores iniciais (o que acarreta em freqüentes diagnósticos tardios e maior sofrimento corpóreo-psíquico)229: 229 E s t a d i n â m i c a d o s p a c i e n t e s p o r t a d o r e s d e L E R f o i a p r e e n d i d a n o d i s c u r s o d e A n a P a u l a e n a e n t r e v i s t a c o m a a s s i s t e n t e s o c i a l M a r t a , d o I N S S . E l a t a m b é m s e b a s e i a e m f o r m u l a ç õ e s t e ó r i c a s e l a b o r a d a s a p a r t i r d e r e l a t o s d e f u n c i o n á r i o s d o m e s m o b a n c o e s t a t a l o b j e t o d e s t a p e s q u i s a . V i d e : R I B E I R O , H e r v a l P i n a . o p . c i t . A r e s p e i t o d a L E R e n q u a n t o u m d o s a s p e c t o s d a s p r o b l e m á t i c a s m a i s c o m p l e x a s d e s a ú d e b a n c á r i a , s o b r e t u d o q u a n d o s e c o n s i d e r a o s a p e c t o s p s í q u i c o s , v i d e : B R A N D I M I L L E R , P r i m o A . M o v i m e n t o r e p e t i t i v o : a p o n t a d o i c e b e r g . I n : A S a ú d e n o t r a b a l h o b a n c á r i o . 1 . e d . S ã o P a u l o : C U T / I N S T , 1 9 9 3 . c a p . 3 , p . 6 9 - 7 9 .

“Nós entramos sãos e saímos doentes, muitos doentes” (...) “A LER deixa a gente abalado mentalmente”(...) “O braço doía, doía mesmo. Mas é claro que isso me dava um certo prazer, de não precisar fazer as coisas”(...) “Eu fui me reestruturando devagar” (...) “Pra mim foi muito difícil aceitar que eu tinha LER. Eu já tinha dor há muitos anos, mas eu não me importava com ela. Eu achava que eu não tinha. A gente

No documento Demissões (in)voluntarias e subjetividade (páginas 177-200)