• Nenhum resultado encontrado

4 A INTERSECCIONALIDADE

4.2 Interseccionando surdez e sexualidade

4.2.1 Surdez e homoafetividade

Da mesma maneira que sexualidade é uma construção social, os termos

utilizados para explica-la também foram construídos socialmente, a exemplo da

homossexualidade e heterossexualidade. As relações homoeróticas sempre

marcaram presença em todos os milênios da história da humanidade, porém, as

classificações e preconceitos foram desenvolvidos nos séculos mais recentes.

Joan Scott (1995, p.89) trazendo uma reflexão sobre a expressão da

sexualidade na sociedade, cita o antropólogo francês Maurice Godelier (1981, s/p)

que afirma:

(...) não é a sexualidade que assombra a sociedade, mas antes a sociedade que assombra a sexualidade do corpo. As diferenças entre os corpos, relacionadas ao sexo, são constantemente solicitadas a testemunhar as relações sociais e as realidades que não têm nada a ver com a sexualidade. Não somente testemunhar, mas testemunhar para, ou seja, legitimar.

A sociedade, no caso, regula e legitima as sexualidades presentes nela. Não

apenas uma definição, como também um controle. Como afirma Guacira Louro (2019)

quando escreve que “as possibilidades da sexualidade – das formas de expressar os

desejos e prazeres – também são sempre socialmente estabelecidos e codificadas”

(p. 12). A autora supracitada ainda acrescenta que “as identidades de gênero e

sexuais são, portanto, compostas e definidas por relações sociais, elas são moldadas

pelas redes de poder de uma sociedade” (LOURO, 2019, p. 12).

Identidade e sexualidades são, deste modo, desenvolvidas social e

historicamente. E, para a reafirmação dessa construção, personagens são

elaborados. Foucault (1993) afirma que o homossexual foi um personagem, uma

espécie criada pela sociedade, para definir as pessoas que se envolviam em relações

homoeróticas. Em consequência, a figura do homossexual passa a ser regulado pela

sociedade, classificado como uma pessoa ruim, doente.

O homossexual do século XIX torna-se uma personagem: um passado, uma história, uma infância, um caráter, uma forma de vida; também é morfologia, com uma anatomia indiscreta e, talvez, uma fisiologia misteriosa. Nada daquilo que ele é, no fim das contas, escapa à sua sexualidade. Ela está presente nele todo: subjacente a todas as suas condutas, já que ela é o princípio insidioso e infinitamente ativo das mesmas; inscrita sem pudor na sua face e no seu corpo já que é um segredo que se trai sempre (FOUCAULT, 1993, p.50).

Com a “invenção” do homossexual um problema surge na sociedade moderna

e cisheteropatriarcal: como regular as sexualidades que fogem a norma? Como

encaixar as pessoas homoafetivas? Nesse momento, a homofobia se torna cada vez

mais explícita, comumente influenciada nas/pelas famílias, escolas, mídias e na

sociedade em geral, para “barrar” a convivência plena dos "transgressores”. Modelos

médicos começam a buscar um tratamento, uma cura, para aqueles que possuíssem

desejos ou relações homoeróticas. Sobre a homofobia Louro (2019) afirma que

Consentida e ensinada na escola, a homofobia expressa-se pelo desprezo, pelo afastamento, pela imposição do ridículo. Como se a homossexualidade fosse "contagiosa", cria-se uma grande resistência em demonstrar simpatia para com sujeitos homossexuais: a aproximação pode ser interpretada como uma adesão a tal prática ou identidade (LOURO, 2019, p. 35-36).

Como bem afirma Rosana Oliveira (2014, p. 9) “a gozação, o xingamento, o

insulto, a violência física, a ameaça e a hostilidade ambiente são parte do horizonte

existencial dos que se situam fora da norma hétero”. Além de que essa violência

ocorre cotidianamente, apresentadas muitas vezes nos noticiários como algo clichê.

A autora acrescenta ainda que essas situações não são relatadas “como parte de um

quadro de opressão e justiça, mas apenas como um tipo irracional de violência entre

os indivíduos" (OLIVEIRA, 2014, p. 13).

As notícias midiáticas muitas vezes são publicadas a partir de uma perspectiva.

A homofobia não pode ser caracterizada como “um tipo irracional de violência entre

os indivíduos", ela é uma violência sofrida por uma pessoa que não fez nada de mal

a outra. Deve-se ter um cuidado enorme ao noticiar algo, pois como afirma Malu

Fontes (2014, p. 22), “as notícias que delimitam boa parte do horizonte cognitivo dos

leitores e da audiência através dos meios de comunicação, instrumentos que se

apresentam como os transmissores da realidade social”.

As sexualidades são debatidas nas mídias abertamente, mas a partir de um

olhar estigmatizante e preconceituoso e através da matriz heterossexual. A

sexualidade de pessoas com deficiência pouco é debatida nos âmbitos da sociedade,

se tratando da homossexualidade de pessoas com deficiência esse debate ainda é

bastante invisível.

Guimarães e Silva (2020) realizaram uma pesquisa bibliográfica acerca da

sexualidade e surdez. Nas plataformas escolhidas para a pesquisa selecionaram 15

artigos e apenas um deles estava na língua portuguesa, outro em espanhol e os treze

restantes estavam na língua inglesa. Encontraram que o principal problema para a

sexualidade dos surdos seria a omissão de informação o que gera grande

vulnerabilidade dos surdos a doenças, gravidez não planejada, violência e abuso

sexual. Além de que reafirmam a escassez de produções cientificas ligadas a

sexualidade de surdos. Acrescentam que

Segundo Job (2004), alguns aspectos podem influenciar na falta de conhecimento dos surdos sobre a sexualidade: a) as poucas oportunidades para obterem informações; b) a resistência dos familiares e promover a educação sexual; e c) o desconhecimento de colegas sobre a temática e o repasse de informações errôneas sobre a questão (GUIMARÃES; SILVA, 2020, p.3).

Outrossim, Abreu et. al. (2015, p. 615) reiteram que a “vulnerabilidade social e

emocional contribui para o abuso sexual de pessoas com deficiência”. Em

conformidade, Sitbon et. al. (2015, p. 170) sustentam que “para além das informações

sobre a vida emocional e sexual incluindo noções de anatomia, a questão da violência

sexual parece ser um foco principal de trabalho a ser investigado, prevenido e

cuidado

12

”.

Se a sexualidade não é discutida, as demais informações sobre identidade de

gênero e orientação afetiva-sexual sequer serão debatidas. E como declaram Sitbon

et. al. (2015, p. 169) a “ausência de um modelo positivo de sexualidade por meio da

educação e da mídia, às vezes substituído pelo único modelo visível de sexualidade,

a pornografia, poderia explicar em parte a maior violência e maior risco nas relações

sexuais

13

”.

Sendo assim é essencial que as informações sejam repassadas para um bom

entendimento de todos e todas, independente de classe e orientação sexual. Como

afirma Abreu et. al. (2015) ao reiterar que as identidades sexuais e de gênero se

inter-relacionam, podendo se transformar e reconfigurar. Porém não basta focar em apenas

uma forma de expressão. Abreu et. al. (2015, 609) informam ainda que

A própria negação de que as pessoas com deficiência possam ter desejos de ordem homossexual reflete a invisibilidade da sua sexualidade [...]. Porém, é muito incomum nos estudos da área de educação especial e inclusiva (ou até mesmo nos de diversidade sexual) a referência a pessoas deficientes como sendo gays, lésbicas, transexuais, etc.

12 No original: “au-delà d`une des informations sur la vie affective et sexuelle incluant des notions d'anatomie, la question des violences sexuelles semble être un axe primordial de travail à investiguer, prévenir et prendre en charge” (SITBON et. al., 2015, p. 170).

13 No original: “L'absence d'un modèle de sexualité positif à travers l'éducation et les médias, auquel se substitue parfois le seul modèle sexualité visible, la pornographie, pourrait expliquer en partie une plus grande violence et prise de risque dans les relations sexuelles” (SITBON et. al., 2015, p. 169).

Na pesquisa elaborada para sua dissertação, Abreu (2015) investigou as

primeiras experiências sexuais e as trajetórias afetivo-sexuais de 3 surdos, bilíngues

e homossexuais. Encontrou na investigação que as relações dos surdos sofreram

devido as barreiras linguísticas e o preconceito, quando não por ser surdo, por ser

homossexual. Além de que as primeiras experiências eróticas dos entrevistados foram

desenvolvidas através da curiosidade, não possuindo ao longo dos anos iniciais e

antes do namoro conhecimento acerca da educação sexual e da sexualidade.

Jouber Silvestre (2014) foi a outra pessoa que encontramos que possui como

foco de pesquisa surdos homoafetivos. Sua dissertação tinha os objetivos de

“compreender de que maneira sujeitos surdos-homossexuais se percebem

socialmente desvalorizados e como ocorre o processo de construção de suas

identidades'' (p. 123). A respeito da construção das indentidades, o autor comenta que

A construção da identidade de qualquer sujeito – homossexual, surdo ou surdo-homossexual, heterossexual, bissexual ou qualquer outra maneira que esse sujeito se identifique – dar-se-á a partir dos mais distintos marcadores. Há pontos que poderão se aproximar ou distanciar, intercruzar ou sobrepor-se; detendo como importante não o chegar a ser, mas a própria trajetória tomada, os caminhos usados, perpassados que contribuem para a formação e construção dos sujeitos (SILVESTRE, 2014, p. 24).

Há pontos que se interseccionam na construção dos sujeitos, não existe

apenas uma forma de se expressar. A vida é composta de diversidade. O surdo

homoafetivo deve possuir a mesma abertura para debater a sua sexualidade da

mesma forma dos surdos heterossexuais. Como já enfatizamos anteriormente, falar

de sexualidade é proteger e empoderar os indivíduos.

Documentos relacionados