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Suscetibilidade do Mercado a Práticas Ilícitas

No documento “Sem Título”: Alessandra Franca, 2019 (páginas 34-38)

Os objetos de arte são comumente associados a virtudes, seja em alusão ao senso estético de belo do artista ou ao seu senso político de reflexão sobre as mazelas sociais. A partir de qualquer ângulo que se utilize para definir “arte”, ele normalmente produzirá visões associadas a características boas dos seres humanos que a produzem. Entretanto, raramente o senso comum compreende como o mercado de arte é propício à prática de condutas ilícitas.

O seu crescimento nas últimas décadas do século XX, principalmente a partir da década de 1960, transformou-se em um meio lucrativo para os membros do crime organizado (TARDÁGUILA, 2015, p. 72). Nesse sentido, o incremento da expressividade econômica de um mercado, cujas engrenagens são pouco difundidas, tornou-se um dos fatores de atração primordiais para práticas ilícitas.

Frise-se também que, aliada a essa complexidade, a dinâmica pouco conhecida do funcionamento do mercado facilita a adoção de práticas à margem da legalidade e da ética presentes na sociedade. Nessa linha, aponta Mara Wantuch-Thole (2015, p.4), que uma das razões para a consolidação do comércio ilegal de objetos culturais está enraizada nas próprias tradições do mercado da arte. As transações são, tradicionalmente, realizadas secretamente e com base em

gentleman informality, proporcionando, assim, meios ideais para introduzir antiguidades adquiridas de forma ilegal nessa seara econômica.

Diversas condutas ilícitas permanecem, assim, por anos, sem serem descobertas ou sancionadas. No Brasil, mencione-se que a polícia federal, no escandaloso processo da Lava-Jato, apreendeu diversas obras de arte utilizadas como parte de um intrincado processo de lavagem de dinheiro. Atualmente, 38 delas integram a exibição “Obras sob a guarda do MON”, no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba (MUSEU OSCAR NIEMEYER, 2017).

Na Europa, o bilionário Yves Bouvier, marchand e proprietário da empresa

tradicional de armazenamento de obras de arte, a Natural Le Coutre, foi preso

preventivamente em Mônaco. O empresário foi acusado de integrar um antigo esquema de lavagem de dinheiro com o russo Dmitry Rybolovlev, dono de clube de futebol no mesmo país, além de fraudar os valores nas transações de obras, a fim

de aumentar as suas comissões. Entretanto, foi liberado, após o pagamento da fiança de dez milhões de euros (THE ECONOMIST, 2015).

Os exemplos mencionados aludem à ausência de uma regulação estatal eficiente para coibir as práticas ilícitas de entes presentes no mercado da arte. Diante disso, o entendimento de que essa seara não possui qualquer tipo de regulação, e que nem poderá vir a ser regulada, apresenta-se de maneira unânime na sociedade.

Ao descrever o evento pioneiro do Responsible Art Market (RAM), em

Genebra, Rosanne Mc Donnell (2017, p.22) comentou a palestra proferida pelo promotor suíço Jean-Bernard Schmid, da seguinte forma: “He stated that criminal do not target the art market as such, but the art market has a number of characteristics which make it easier compared to other businesses to launder money”.

Sendo assim, a presente dissertação, após pesquisas sobre as causas dessa suscetibilidade do mercado à entrada de criminosos, gerou três categorias principais: razões estruturais, razões vinculadas ao próprio objeto de arte, além das razões de escolha econômica por parte dos criminosos.

1.3.1 Razões estruturais

No tocante às razões estruturais, incluem-se aquelas relacionadas à organização do mercado e às suas características principais, bem como às questões políticas que influem de maneira externa na sua estruturação.

Nas últimas décadas do século XX, houve intenso crescimento do mercado de arte, tornando-se um meio lucrativo para o crime organizado. Estima-se que o comércio de objetos de arte saqueados, roubados ou contrabandeados, apresenta-se, atualmente, entre 4,5 e 6 bilhões de dólares ao ano (SANDAGE, 2009, p. 08). Tendo em vista que o comércio mundial de arte alcança, em média, 45 bilhões de dólares ao ano (POWNALL, 2017, p. 26), as transações ilegais corresponderiam a 10% do volume total de vendas nesse mercado econômico.

Além disso, questões como a abertura de fronteiras, melhoria dos meios de transporte e instabilidade política, tornam os países vulneráveis à perda de seu

patrimônio histórico. Na mesma linha, de acordo com o site da International Criminal

demand from the arts market, the opening of borders, the improvement in transport systems and the political instability of certain countries” (INTERPOL, 2017).

Instabilidade política, corrupção, além da falta de recursos para controlar as fronteiras e fornecer segurança a sítios arqueológicos e a museus, pertencentes a países em desenvolvimento, tornam-nos vulneráveis à perda do seu patrimônio cultural. Estima-se que 4.000 objetos foram saqueados de museus do Iraque, durante a Guerra do Golfo, além de que os lucros obtidos com o comércio das obras foram utilizados para armar grupos insurgentes. Todavia, países desenvolvidos também não estão imunes aos crimes. Países como França, Polônia, Rússia, Alemanha e Itália apresentam-se como grandes alvos de roubos de arte e antiguidades em coleções privadas, locais de adoração e museus (SANDAGE, 2009, p. 8).

Além disso, o mercado de arte e antiguidades é verdadeiramente internacional e envolve altos valores, tornando-o vulnerável à lavagem de dinheiro. Objetivando afastar a verdadeira origem de sua riqueza, organizações criminosas utilizam-se do mercado lícito de arte e antiguidades para lavar o dinheiro ilicitamente adquirido. Nesse sentido, o mercado ilícito é permeado por uma mistura de organizações criminosas sofisticadas, ladrões individuais, negociadores de meio-período e colecionadores inescrupulosos. Deve-se destacar ainda que o comércio depende, em grande extensão, da conivência consciente ou alheia de indivíduos legitimados e instituições, como casas de leilão e negociadores de antiguidades (SANDAGE, 2009, p. 9).

Portanto, pode-se resumir essa categoria, como sendo o potencial econômico do setor, bem como a facilidade de adentrá-lo sem a devida regulação estatal. Além disso, deve-se enfatizar o que foi apontado anteriormente a respeito da existência de características próprias, como o sigilo enraizado.

1.3.2 Razões vinculadas ao próprio objeto de arte

Em relação ao próprio objeto de arte, além dos benefícios estéticos que proporciona, ele pode se apresentar como algo bastante rentável. São commodities com altos valores agregados, pouco protegidas, difíceis de identificar e fáceis de transportar. O tráfico de arte e antiguidades proporciona aos criminosos uma

oportunidade para negociarem commodities rentáveis e fáceis de transportar para compradores desconhecidos, bem como para membros do mercado da arte alheios à origem ilícita do material (SANDAGE, 2009, p. 9).

Um único objeto de arte é facilmente convertido em milhões. Nesse sentido, cabe destacar que o investimento em obras de arte possui um aspecto dual. Por um lado, são bens de consumo duráveis, dos quais podem ser extraídos benefícios estéticos e não financeiros. Por outro lado, são simultaneamente ativos que podem gerar retornos financeiros a longo prazo.

Deve-se destacar ainda que as práticas ilícitas referentes a objetos de arte também já foram utilizadas para firmar uma posição política, como menciona o autor

A.J.G.Tijhuis (2009, p.735). O quadro “The Guitar Player”, de Vermeer foi roubado

da Kentwood House, em Londres e usado como moeda de troca para libertação de membros do Ira aprisionados. Da mesma forma, foram levadas 19 pinturas da casa de Sir Alfred Beit na Irlanda e, em troca, os ladrões solicitaram a libertação de dois indivíduos participantes da mesma entidade terrorista.

Todavia, essa não é a única modalidade em que obras de arte são usadas para estimular o terrorismo. Como uma valiosa obra pode ser rapidamente convertida em milhões, muitos roubos a museus são realizados como forma de obter financiamento para redes terroristas.

1.3.3 Razões de escolha econômica dos criminosos

Uma terceira categoria da suscetibilidade do mercado a práticas ilícitas diz respeito à escolha econômica dos próprios criminosos. O autor Simon Mackenzie (2008, p. 160-163) utilizou um modelo econômico denominado modelo de Albanese que mede a atratividade do um mercado para o crime organizado, de acordo com as categorias de oferta, regulação, competitividade e demanda, o que ele aplicou ao mercado de arte.

Avaliando a categoria de oferta, o autor identifica que antiguidades são, geralmente, pequenas, fáceis de transportar e escassas. Em relação aos indicadores de regulação, avaliou que, em muitos países, não há necessidade de se obter uma licença de negociação, além de que a legislação é pouco eficiente para conter as práticas nesse âmbito econômico. Dessa maneira, outros crimes,

considerados mais graves pelo governo local, afastam a atenção em relação a essas práticas no mercado de arte. Ressalta ainda que o nível de corrupção em um país também é atraente para o crime organizado nesse mercado (MACKENZIE, 2008, p.161).

No que concerne aos indicadores de competitividade, aponta que os mercados atraentes para organizações criminosas oferecem as antiguidades a baixo custo (MACKENZIE, 2008, p.162).

Por fim, o indicador da demanda atesta o mercado da arte como sendo pouco elástico. Nesse sentido, os preços não acompanham a oferta, pois, na maior parte das vezes, os compradores são movidos pela fascinação em relação aos objetos, e não pela sua quantidade no mercado (MACKENZIE, 2008, p.163).

Portanto, a própria estrutura do mercado de arte e seus componentes fazem surgir um ambiente atraente para os membros do crime organizado. Nele, são encontrados bens valiosos e fáceis de transportar, além de pouco fiscalizados, que podem ser rapidamente vendidos àqueles compelidos pelo seu valor estético.

Conclui-se, assim, que a facilidade de circulação, bem como a utilização da internet simplifica a comunicação e as transações a serem realizadas. Do mesmo modo, a existência do sigilo, convencionado entre os membros da arte, apresenta-se como ideal para aqueles que praticam as condutas ilícitas. Por fim, a inexistência de legislação estatal específica voltada ao setor e que seja capaz de conter essas condutas, mantém ativa a indústria bilionária de roubos de obras de arte e sua utilização indevida para o financiamento do crime organizado e terrorismo.

No documento “Sem Título”: Alessandra Franca, 2019 (páginas 34-38)