Com o passar do tempo adensavam-se dúvidas sobre a qualidade da prestação de serviços de Charles Bonnet enquanto presidente da Comissão Geológica e Mineralógica. Surgem mesmo algumas suspeitas sobre as suas verdadeiras intenções, facto que levou o
41 Decreto de 31 de Dezembro de 1852, Diario do Governo, 244, 3 de Janeiro de 1853, p. 7. 42
Preâmbulo do decreto de 30 de Dezembro de 1852, Boletim do Ministério das Obras Públicas, Comércio e
Indústria, 1, 1854, 7-48 (8).
43
Ibid.
44
Parágrafo 5º, do artigo 1º, capítulo I do decreto de 30 de Dezembro de 1852, op. cit. (42), p. 12. 45 Preâmbulo do decreto de 30 de Dezembro de 1852, op. cit. (42), p. 8.
46
Parágrafo 1º e 2º do artigo 2º, capítulo II, do decreto de 30 de Dezembro de 1852, op. cit. (42), p. 12. 47 Parágrafo 3º, do artigo 2º, capítulo II, do decreto de 30 de Dezembro de 1852, Ibid.
então responsável pela pasta do Reino, Rodrigo da Fonseca de Magalhães, a alertar o seu colega das Obras Públicas.
As dúvidas surgiriam depois de Bonnet enviar, em Março de 1853, mais um ofício ao Ministério do Reino solicitando mais funcionários, que considerava indispensáveis para o levantamento estatístico em curso, requerendo também das autoridades administrativas e eclesiásticas o livre acesso a todos os dados considerados necessários. Além disso, questionava o governo se deveria continuar a estatística da população e da instrução primária do sul do país para o ano de 1852, e se este levantamento deveria estender-se ao restante território.48
As novas exigências de Bonnet levaram a que um funcionário da secretaria do
Ministério do Reino cuja identidade se desconhece,49 enviasse um documento ao Ministro
que tutelava aquela pasta. Nesse documento, não se coibia de levantar suspeitas acerca do trabalho efectuado pela Comissão Geológica e Mineralógica questionando, em particular, a honestidade profissional do seu presidente:50
Parece que existem em poder do Engenheiro Carlos Bonnet, segundo elle diz, alguns mappas statisticos sobre diversos objectos; mas esses trabalhos por mui curiosos e perfeitos que sejam não podem considerar-se senão como o accessorio da Comissão Geologica; falta o trabalho principal para que a despeza foi authorisada pelas cortes. Está claro que o Engenheiro Carlos Bonnet não quer acabar o trabalho geologico para que não acabe a sua comissão: quer dar-se á statistica, seguindo hoje um ramo e amanhã outro, porque julga duradouro esse serviço; (...).
Era ainda sublinhada a quase ausência de informação sobre a actividade da dita Comissão, salientando-se inclusive o incumprimento de Bonnet para com o Estado português. Por exemplo, era referido que em 1850 Bonnet solicitou ao governo autorização para iniciar a exploração da Beira Alta e do Minho, antes de apresentar os trabalhos executados no Alentejo e Algarve. Depois de terminado o levantamento às regiões do sul de Portugal continental, fora-lhe ordenado a entrega desses documentos por diversas vezes mas Bonnet nunca terá acatado esta solicitação. O funcionário do MR acaba por explicar que a recusa ao seu pedido para iniciar novas digressões, tinha sido exactamente devido ao facto do executivo de então não ter tido possibilidade de examinar os respectivos relatórios. O funcionário do MR salientava igualmente que a desautorização de Bonnet não se devia à falta de meios materiais e humanos. Desde a sua nomeação para a presidência da Comissão tudo lhe fora sempre concedido: documentos de secretaria, livros da Academia das Ciências, memórias e trabalhos geodésicos, funcionários de secretaria para escrever e
48
Ofício de Charles Bonnet dirigido ao Ministro do Reino, Rodrigo da Fonseca de Magalhães, 28 de Março de 1853, ANTT, Ministério do Reino, loc. cit. (31).
49
O documento apenas tem a inicial de quem o escreveu (M.), não podendo assegurar-se quem foi de facto o seu autor.
50
Documento da secretaria do Ministério do Reino, enviado a Rodrigo da Fonseca de Magalhães, 21 de Abril de 1853, ANTT, Ministério do Reino, loc. cit. (31).
computar, e desenhadores.51 Entre as facilidades dadas pelo governo, cita-se ainda o livre
porte para a correspondência em seu nome52 e a isenção de direitos alfandegários53 para os
instrumentos que mandasse vir do exterior.
No mesmo documento, o funcionário do MR alertava também para o tempo e dinheiro dispendido pela Comissão. Passados quase 4 anos desde o início dos seus trabalhos (até Outubro de 1852), tinham já sido desembolsados acima de 10 contos de réis e Bonnet não apresentara outros resultados da sua investigação para além do mapa topográfico de pequena escala do Alentejo, apesar de ter prometido apresentar uma carta geológica da região com cortes, perfis, etc.:54
Se o corpo legislativo pedir conta da applicação das sommas votadas pela lei de 30 de Abril de 1849 para o serviço geológico, o governo não tem trabalho algum do Engenheiro Carlos Bonnet, que possa apresentar porque elle em nada tem satisfeito ás instruções que se lhe deram. A secretaria [do Ministério do Reino] julga do seu rigoroso dever dar conhecimento a V. Exa. [Rodrigo da Fonseca de Magalhães] destes factos.
Apesar de Bonnet referir que existiam em seu poder alguns mapas estatísticos, esses trabalhos não poderiam ser considerados o objecto principal do cargo para que fora nomeado — a elaboração do mapa geológico de Portugal continental — não se podendo assim justificar o montante gasto pelo Estado. Além disso, o funcionário do Ministério do Reino acrescentava ainda que aquele ministério possuía já documentos estatísticos suficientes para fazer face às exigências administrativas, não sendo por isso necessário realizar levantamentos adicionais.
Finalmente, foi ainda referido que desde a publicação do decreto de 30 de Dezembro de 1852 era o MOPCI quem regia os trabalhos geológicos, os geodésicos e os de estatística agrícola, industrial e comercial. Por conseguinte, Bonnet deveria sujeitar-se exclusivamente às ordens e pagamentos daquele ministério. Por ter sido retirada a jurisdição sobre os trabalhos indicados ao Ministério do Reino este não deveria nem poderia dar quaisquer ordens ou meios pecuniários sem revogação ou alteração do decreto acima citado, cabendo unicamente ao MOPCI a responsabilidade pela coordenação do trabalho da Comissão
51 Ibid.
52 Ofício do Ministério dos Negócios Estrangeiros, 28 de Setembro de 1849, ANTT, Relação dos papéis
pertencentes á Commissão Geologica e Mineralogica entrada com officio de 30 de Novembro de 1852 ao Ministério das Obras Publicas Commercio e Industria — Secretaria de Estado dos Negocios do Reino, Ministério
do Reino, loc. cit. (31).
53 Bonnet pediu a isenção dos direitos alfandegários dos instrumentos que mandava vir de França, no ofício de 3 de Dezembro de 1849. A resposta positiva do governo a este pedido foi dada através do Ministério da Fazenda, num ofício de 10 de Dezembro de 1849. Veja-se os ofícios citados, ANTT, Relação dos papéis pertencentes á
Commissão Geologica e Mineralogica entrada com officio de 30 de Novembro de 1852 ao Ministério das Obras Publicas Commercio e Industria — Secretaria de Estado dos Negocios do Reino, Ministério do Reino, loc. cit.
(31). 54
Documento da secretaria do Ministério do Reino enviado a Rodrigo da Fonseca de Magalhães, 21 de Abril de 1853, ANTT, Ministério do Reino, loc. cit. (31).
Geológica e Mineralógica. Face ao exposto, a resposta do Ministério do Reino sobre as
novas exigências de Bonnet deveria ser formulada com alguma ponderação.55
Perante a exposição do seu funcionário e a nova insistência de Bonnet sobre a realização de mais levantamentos estatísticos56 o Ministro do Reino, Rodrigo da Fonseca de
Magalhães, decide prevenir o seu colega das Obras Públicas sobre a situação da Comissão Geológica e Mineralógica.57 Expõe a situação para a qual fora alertado, ou seja, que ao fim
de quatro anos de actividade da Comissão Geológica tudo estava praticamente na mesma, não se tendo iniciado novas explorações por não estar ultimado o trabalho relativo ao Alentejo e Algarve tal como fora ordenado a Bonnet, pela portaria de 1 de Agosto de 1850. Rodrigo da Fonseca acrescentava ainda que nem mesmo sobre os trabalhos estatísticos, que tinha sido autorizado a efectuar pela portaria de 21 de Abril de 1852, Bonnet apresentara oficialmente quaisquer resultados passados mais de doze meses sobre a emissão daquela ordem. Revelando alguma consciência sobre a importância do levantamento geológico do país, o Ministro do Reino salientava também, em moldes semelhantes ao que fizera o funcionário do mesmo ministério, que independentemente da importância dos trabalhos estatísticos efectuados por Bonnet os mesmos não podiam suprir a falta da carta geológica e dos demais serviços para os quais a Comissão fora oficialmente instituída.58 Sobre o resultado da recomendação do Ministro do Reino para o seu colega das
Obras Públicas nada se conseguiu apurar. Não foi igualmente encontrada qualquer referência sobre a actividade da Comissão Geológica e Mineralógica nos dois anos que se seguiram.
Em Junho de 1855 são publicados diversos decretos nomeando Comissões para analisar os trabalhos da Comissão Geológica e Mineralógica, e para ser proposto um plano
a fim de melhorar a execução futura dos mesmos.59 Uma das Comissões destinava-se à
análise do levantamento geológico efectuado nas regiões do Alentejo e Algarve, e era composta por Isidoro Emílio Baptista60 (1815-1863), Carlos Ribeiro e Pereira da Costa.61 A
55 Ibid. 56
Ofício de Charles Bonnet dirigido ao Ministro do Reino, Rodrigo da Fonseca de Magalhães, 23 de Maio de 1853, ANTT, Ministério do Reino, loc. cit. (31).
57
Ofício do Ministro do Reino, Rodrigo da Fonseca de Magalhães, dirigido ao Ministro das Obras Públicas, 4 de Junho de 1853, ANTT, Ministério do Reino, loc. cit. (31).
58 Ibid.
59 Decretos de 9 de Junho, Diario do Governo, 143, 20 de Junho de 1855, p. 170. 60
Isidoro Emílio Baptista nasceu em Lulotim na Índia portuguesa, a 24 de Setembro de 1815. Com 23 anos, Isidoro ingressa na Universidade de Coimbra. Entre 1839 e 1843, seguiu os cursos das Faculdades de Filosofia, de Medicina, e os três primeiros anos da Faculdade de Matemática, obtendo prémios pecuniários em todos os cursos que frequentou. Em Julho de 1847, vai para Paris, e frequenta os cursos de mineralogia, paleontologia e geologia da Ecole de Mines, sendo em simultâneo aluno estagiário no hospital de La Pitié. A 15 de Novembro de 1851 regressa a Lisboa, sendo nomeado vogal do Conselho de Obras Públicas e Minas em Dezembro de 1852, e lente da cadeira de montanística e docimasia na Escola Politécnica de Lisboa em 1854. Paul Choffat, op. cit. (33), pp. 98-104; Miguel de Abreu, Noção de alguns filhos distinctos da India Portugueza, que se illustraram fora
da Patria, Nova Goa, Imprensa Nacional, 1874, p. 7; artigo 1º do decreto de 31 de Dezembro de 1852, AHMOP,
folha 62 do “Livro de decretos (1852-1854)”.
segunda Comissão era formada por Tomás Aquino de Carvalho, Filipe Folque e Caetano Maria Batalha62, e estava encarregada de analisar os trabalhos corográficos.63 Finalmente,
para a terceira Comissão eram nomeados Joaquim Larcher (?-?)64, Rodrigo Morais Soares65
(1811-1881) e o amanuense João Maria Nogueira, aos quais competia proceder ao exame
dos trabalhos estatísticos executados até então nas referidas regiões.66 A acompanhar
estes decretos era ainda publicada uma portaria que determinava a suspensão dos trabalhos da Comissão Geológica e Mineralógica a partir do primeiro dia do mês de Julho de 1855, até que fossem examinados os pareceres das Comissões fiscalizadoras. O governo ordenava ainda, na mesma portaria, que Bonnet pusesse à disposição das referidas Comissões todos os trabalhos que executou enquanto presidente da Comissão Geológica e Mineralógica, e a prestar qualquer esclarecimento que lhe fosse solicitado para poder ser ajuizado com exactidão o mérito do seu serviço.67 Os relatórios elaborados pelas diversas
Comissões deviam também sugerir modificações que os seus elementos entendessem serem convenientes introduzir, ou mesmo julgar se deviam ou não continuar os trabalhos de Bonnet ao serviço da Comissão Geológica e Mineralógica.68
Sobre o teor da resposta formulada por estas comissões todas as pesquisas efectuadas nos diversos arquivos existentes revelaram-se infrutíferas. Todavia, alguns ofícios trocados entre Filipe Folque e o MOPCI poderão fornecer algumas indicações sobre o decurso da inspecção aos trabalhos corográficos executados por Bonnet nas regiões do Alentejo e Algarve. Segundo a exposição de Folque num ofício enviado ao Ministro das Obras Públicas mais de um ano depois da nomeação das Comissões, constatou-se que Bonnet ainda não tinha enviado o reconhecimento corográfico das regiões do sul do país. Tal situação devia-se ao facto de o engenheiro francês ter alegado a presença de algumas dúvidas e considerações, as quais tinham já sido expostas a Folque em ofícios anteriores.69
Por este motivo, o MOPCI encarregaria Folque de auxiliar Bonnet a identificar tais dificuldades, de examinar o modo como pretendia removê-las, e a estimar o tempo que iria ainda empregar na conclusão do reconhecimento. Neste sentido, o director dos trabalhos geodésicos viu-se obrigado a solicitar alguma documentação a Bonnet, pedindo ao Ministro das Obras Públicas que lhe fosse remetido um esboço da triangulação onde estivessem as propostas de resolução das dificuldades que apontava e os pontos onde considerava haver necessidade de proceder a novas observações. Sobre o modo de apresentação dos
62
Capitão tenente da Armada.
63 Decreto de 9 de Junho de 1855, AHMOP, loc. cit. (61),.folha 51. 64
Director geral do Comércio e Indústria. 65
Chefe da repartição de agricultura. 66
Decreto de 9 de Junho, Diario do Governo, 143, 20 de Junho de 1855, p. 170. 67 Ibid.
esboços Folque não fez qualquer exigência, referindo apenas que Bonnet podia apresentá- los em papel vegetal e na escala que menos trabalho lhe desse. Bonnet também lhe deveria enviar o mapa sobre a região do Alentejo e Algarve construído na escala de 1:200 000 ou, caso fosse a sua opção, deslocar-se pessoalmente ao depósito dos Trabalhos Geodésicos e Topográficos do Reino com esse exemplar para que Folque o pudesse consultar.70
Na última semana do mês de Setembro de 1856, Folque acusava a recepção de três esboços de triangulações relativas ao mapa corográfico do Alentejo e Algarve.71 Segundo as
indicações do MOPCI, deveriam examinar-se cuidadosamente os referidos esboços tendo em vista as observações efectuadas pelo chefe da Secção de Minas, conjuntamente com as que Bonnet anteriormente lhe apresentara. Além disso, Folque estaria ainda incumbido de informar o mesmo Ministério sobre as suas conclusões, e se o governo devia ou não anuir ao alargamento do prazo da entrega definitiva do referido mapa por mais cinco meses, de acordo com as solicitações de Bonnet. Sobre a postura do governo perante mais este adiamento nada se conseguiu apurar. Todavia, surgiria por esta altura um projecto que impulsionaria o governo para um novo programa de levantamento geológico para o país que aniquilaria definitivamente a já moribunda Comissão presidida por Bonnet.