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PARTE II – AS DIRETRIZES E COMPONENTES DA SUSTENTABILIDADE

3. SUSTENTABILIDADE E REDUÇÃO DE RISCO DE DESASTRES

A relação do homem com a natureza ao longo da história evoluiu de uma total submissão e aceitação fatalista dos fenômenos da natureza e uma visão equivocada de dominação pela tecnologia. As inundações que ultrapassaram e romperam diques e barragens em New Orleans, por ocasião do furacão Katrina em 2005, nos Estados Unidos e o terremoto de Kobe no Japão em 1995, com milhares de vítimas e pessoas afetadas, são exemplos que demonstram que muitas vezes os fenômenos naturais surpreendem até mesmo nas nações mais bem preparadas para enfrentá-los. Obviamente os avanços tecnológicos permitem hoje que a humanidade enfrente melhor os perigos decorrentes destes fenômenos.

Os desastres naturais podem ser provocados por diversos fenômenos, tais como, inundações, escorregamentos, erosão, terremotos, tornados, furacões, tempestades, estiagem, entre outros. Além da intensidade dos fenômenos naturais, o acelerado processo de urbanização verificado nas últimas décadas, em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, levou ao crescimento das cidades, muitas vezes em áreas impróprias à ocupação, aumentando as situações de perigo e de risco a desastres naturais.

Além disso, diversos estudos indicam que a variabilidade climática atual, com tendência para o aquecimento global, está associada a um aumento de extremos climáticos. Nesta situação, os eventos de temporais, de chuvas intensas, de tornados ou de estiagens severas, entre outros, podem tornar-se mais frequentes, aumentando a possibilidade de incidência de desastres naturais (INSTITUTO GEOLÓGICO, 2009).

Nos centros urbanos, devido a necessidade de atender à demanda da população, ocorre o crescimento demográfico, novos interesses imobiliários e a ausência de políticas públicas de ordenamento do território, faz com que o crescimento desordenado das cidades e o processo de urbanização intensa, transformem o meio ambiente, causando problemas de natureza física, social e econômica (NUNES, 2007). Neste contexto, Segundo Rodrigues e Augusto Filho

(2009, p.2) “a busca pela sustentabilidade nos municípios é cada vez maior, e para isto criam- se instrumentos de planejamento e gestão de políticas públicas”.

Um dos maiores problemas relacionados com as atividades antrópicas são os desastres naturais que estão se tornando cada vez mais intensos, tanto no meio urbano quanto no meio rural. Em escala nacional, os municípios ficam cada vez mais vulneráveis às enchentes, enxurradas e inundações, em função da ocupação desordenada do solo em áreas não edificáveis (CASTRO, 2010).

Para a minimização dos desastres, deve-se desenvolver uma planificação para emergências, ou seja, deve haver um planejamento urbano, a partir de Plano Diretor, com o intuito de controlar o desenvolvimento urbano, melhorando a qualidade de vida da população e garantindo a mitigação dos riscos e o melhor desempenho durante as operações de respostas em caso de desastres. Diante de tal contexto, faz-se necessário, ao se adotar um Plano Diretor, considerar as questões que envolvem o impedimento no uso e ocupação do solo inadequado em áreas de risco, determinando, assim, o melhor uso possível da área estudada e promovendo a sustentabilidade ambiental como forma de minimizar os danos causados por atividades antrópicas (CARDOSO e FELTRIN, 2011).

Como forma de minimizar os efeitos causados pelos desastres urbanos, foi aprovada a Lei Federal n. 12.608, de 10 de abril de 2012, que “Institui a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil - PNPDEC; dispõe sobre o Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil - SINPDEC e o Conselho Nacional de Proteção e Defesa Civil – CONPDEC”.

Dentre outras providências, a lei obriga que os municípios elaborem o mapeamento e a fiscalização das áreas de risco, organizem e administrem abrigos provisórios para assistência à população, em condições adequadas de higiene e segurança. Além dessas providências, também, deve manter a população informada sobre as áreas de risco e ocorrência de eventos, mobilizar e capacitar as equipes de atendimento, promover a coleta, a distribuição e o controle de suprimentos, bem como garantir moradia temporária às famílias que forem atingidas pelo desastre. Assim, os municípios deverão adequar seus Planos Diretores às disposições da referida lei.

Mais da metade da humanidade vive hoje nas cidades – percentual que deverá chegar a 60% em 2030, de acordo com as estimativas. Na América Latina, o Brasil é o país mais

urbanizado, resultado de um intenso processo de estruturação das cidades iniciado na década de 1950, que provocou a concentração de 86,53% de sua população em áreas urbanas.

De acordo com o Relatório “Perspectivas de Urbanização Mundial em 2014” das Nações Unidas, esse percentual poderá chegar a mais de 90% até 2050. O crescimento acelerado e sem sustentabilidade nas cidades é um dos maiores desafios para o futuro da humanidade. Os municípios concentram os mais graves problemas globais como pobreza, desigualdade social, poluição, dificuldades de mobilidade, falta de saneamento básico, habitações precárias, violência e impacto das mudanças climáticas. Nesta lógica, se é nas cidades que os problemas globais se se manifestam, é também nelas que se concentram os recursos humanos, tecnológicos e políticos necessários para superá-los.

A temática das ameaça ambientais e dos riscos associados vem adquirindo relevância crescente nos últimos trinta anos, tanto no campo da pesquisa acadêmica quanto no âmbito das políticas públicas (NOGUEIRA et. al., 2014).

Embora tenha predominante o enfoque na resposta aos desastres, na última década do século XX pode- observar a evolução para uma abordagem mais integrada dos eixos que consideram o conhecimento dos riscos e a preparação para manejo dos desastres, denominada por Grande (2011) como uma “governança preventiva”. Tais ações foram tomadas a partir do aumento de perdas humanas e, mais significantemente, devido aos impactos econômicos relacionados a desastres no mundo (GUHA-SAPIR et. al., 2013). Diversas iniciativas institucionais de enfrentamento de tal percepção estão disponíveis no site The United Nations Office for Disaster Risk Reduction.

O tema dos desastres também se encontra muito enfatizado nos relatórios recentes do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, destacando a relação entre mudança climática global e potencial crescimento de desastres associados (BAKER, 2012; IPCC, 2014). Desde o início desta década, a gestão de riscos de desastres e o incremento da resiliência do sociedade frente aos impactos de desastres ambientais têm sido tratados como elementos indispensáveis ao desenvolvimento econômico e social dos países e das cidades (TORO e PEDROSO, 2013; WORLD BANK, 2013).

Há muitas razões para prefeitos e administradores de um município priorizarem a resiliência como parte de sua agenda política e de desenvolvimento sustentável. Para os líderes dos governos locais, a redução de riscos de desastres pode ser um legado e uma oportunidade – prestar atenção em ações de proteção que irão melhorar as condições ambientais, sociais e

econômicas, incluindo o combate às futuras variações climáticas, e contribuindo para a prosperidade das comunidades mais seguras que antes. Algumas vantagens de se trabalhar este tema nas cidades segundo a UNISDR (2012) incluem:

• Oportunidades para descentralização de competências e otimização de recursos; • Conformidade aos padrões e práticas internacionais;

• Vidas e propriedades salvas em situações de desastres ou emergências, com uma drástica redução de fatalidades e de sérios danos;

• Participação cidadã ativa e uma plataforma para o desenvolvimento local; • Segurança para investidores na antecipação de pequenas perdas por desastres,

levando ao aumento do investimento privado em residências, prédios e outras propriedades que passam a cumprir com os padrões de segurança;

• Aumento da base tributária, oportunidades de negócios, crescimento econômico e maior segurança de empregos; cidades mais bem governadas atraem mais investimento;

• Melhores condições de educação em escolas seguras e melhoria da saúde e bem estar;

• Acesso à uma rede em expansão de cidades e parceiros comprometidos com a resiliência aos desastres, por meio da Campanha, para compartilhar boas práticas, ferramentas e conhecimentos técnicos e específicos.

Para a elaboração de um planejamento urbano moderno, é necessária uma abordagem sistêmica pautada na sustentabilidade, que seja capaz de captar as relações entre os diferentes campos que interagem no município: econômico, cultural, social, ecológico, tecnológico, tributário, demográfico etc., (PROGRAMA CIDADES SUSTENTÁVEIS, 2016).

Na Figura 04 é possível perceber a complexidade inerente ao processo de resiliência em que devem ser considerados uma análise integradora de diversos aspectos para uma análise mais completa do território e assim, um planejamento urbano resiliente e sustentável mais eficiente.

Figura 02 – A roda da Resiliência. Fonte: UNISDR (2012).

O risco de não se considerar a Redução de Riscos de Desastres (RRD) nos planejamentos pode levar a sérios problemas econômicos e deterioração dos ecossistemas, assim como à perda da confiança da população e de investidores. Pequenos e médios impactos causados por desastres e eventos intensos isolados podem comprometer seriamente osserviços essenciais de uma comunidade – os sistemas de distribuição de água, saúde, transporte, lixo e comunicações – localmente, e na sua relação com o resto do mundo.

Outro importante aspecto a ser considerado é superar a percepção de que a gestão de riscos de desastres e seu orçamento competem com outras prioridades por recursos escassos, a redução de riscos deve ser parte integral do desenvolvimento local. Uma gestão integrada de riscos de desastres é mais atraente quando é simultaneamente dirigida às necessidades de diversos públicos e às prioridades que com ela competem. Em geral, as iniciativas são mais fortes quando a gestão de riscos de desastres contribui visivelmente para melhorar a economia e o bem estar social (UNISDR, 2012). Na figura 05 é possível perceber a importância de se adotar os “pilares do desenvolvimento sustentável” e o aspecto político institucional para que a resiliência e o desenvolvimento sustentável sejam estudados de forma integrada.

Figura 03 – A inter-relação entre resiliência e desenvolvimento sustentável sob os aspectos

político institucional, social, ambiental e econômico. Fonte: UNISDR (2012).

Aproveitando os benefícios dos investimentos em redução de riscos de desastres, prefeitos e vereadores dos municípios podem utilizar a priorização da RRD para apoiar outras ações de prevenção e segurança (como segurança de estradas, segurança dos cidadãos, gestão de recursos hídricos, ou adaptação às mudanças climáticas). A prevenção e redução de riscos ainda são vistas, na perspectiva política, como um investimento invisível ou de longo prazo, mesmo que as escolhas não sejam entre resposta e redução de risco, mas sim uma combinação entre elas.

A RRD é uma tarefa atribuída à todos. E como todo esforço em equipe, consiste em uma oportunidade única para fortalecer a participação. Em uma cidade, o governo local deve liderar tais esforços, atendendo ao seu papel de conhecer cada vez mais e melhor as necessidades locais. A avaliação de um determinado público de interesse ajudará na identificação do papel e das responsabilidades dos serviços públicos (dentro dos seus mecanismos de controle e desenvolvimento de atividades), identificando fatores que contribuem para o risco e adotando medidas apropriadas para a sua solução.

Em uma cidade, o governo local deve liderar esforços, atendendo ao seu papel de conhecer cada vez mais e melhor as necessidades locais. A avaliação de um determinado

público de interesse ajudará na identificação do papel e das responsabilidades dos serviços públicos (dentro dos seus mecanismos de controle e desenvolvimento de atividades), identificando fatores que contribuem para o risco e adotando medidas apropriadas para a sua solução.

Como o Programa Cidades Sustentáveis (2016) reafirma também a importância do planejamento estratégico baseado em uma abordagem sistêmica e participativa deve considerar, assim, a execução dos projetos sob uma visão de curto, médio e longo prazos, a fim de assegurar a continuidade dos programas, especialmente das obras de infraestrutura, normalmente mais demoradas. E que também devem estabelecer metas que possam ser monitoradas publicamente ao longo do tempo. Tais diretrizes devem estar contempladas no Plano Diretor e no Plano Plurianual.

Grupo de cidadãos de área de risco, incluindo ocupações irregulares, negócios locais e outros grupos devem participar das avaliações de risco e os resultados devem ser compartilhados com todos. As cidades devem trabalhar com institutos de pesquisa nacionais e locais e com centros de monitoramento das ameaças, incentivando-os a contribuir com documentação e avaliações de cenários com base em ameaças potenciais e séries históricas. Tais instituições devem fazer parte dos mecanismos de coordenação criados para lidar com o RRD.

Os governos locais também devem coordenar-se com as autoridades nacionais, e vice- versa, para aplicar e adaptar as políticas públicas e legislações nacionais às condições locais. Para habilitá-los a tomar uma posição de liderança, a responsabilidade pelas ações e a alocação e utilização dos recursos devem ser descentralizadas. A administração do município deve estar na linha de frente das ações de resposta e das responsabilidades. A Tabela 02 apresenta uma relação de alguns dos principais atores sociais que devem ser considerados e envolvidos no processo de resiliência urbana dos municípios.

Tabela 02 – Os setores envolvidos na Redução de Riscos de Desastres (RRD). Fonte: Adaptado

de Unisdr (2012).

Setores Nível de participação

Governos locais Assumem a liderança, convocam outros atores, regulamentam e monitoram.

Setores (educação, saúde, transporte,

ambiente, etc.)

Integram a redução de riscos como parte dos planos e

responsabilidades, contribuem com informação, e implantam atividades.

pesquisa Cidadãos, grupos

comunitários

Incluindo comunidades indígenas e outras populações vulneráveis: participam, estão ativamente informados, e assumem responsabilidades individuais.

Setor privado/negócios comunitários

Cumprem com os regulamentos de segurança; contribuem com a comunidade com seu conhecimento, prática e manutenção do negócio.

Grupos profissionais

Incluindo avaliadores, engenheiros, arquitetos e planejadores: fornecem conhecimentos técnicos e especializados na construção do ambiente; trabalhadores sociais, professores e outros: organizam, ampliam conhecimento, coletam dados; divulgam informações na mídia, etc.

Sociedade civil

Organizações não-governamentais (de base comunitária, de base religiosa, voluntários, etc.): participam, organizam comunidades, coordenam, ajudam a supervisionar, e

monitoram.

Autoridades e parlamentares dos governos nacionais

Apoiam a descentralização de capacidades com recursos, políticas públicas e legislação permitida.

Organizações internacionais

Fornecem cooperação técnica, capacidade de desenvolvimento, recursos, espaços para reuniões e encontros.