CAPÍTULO 2: A EMPRESA E SUA FUNCIONALIZAÇÃO
2.1 Sustentabilidade e Direitos Humanos
2.1.2 Sustentabilidade social
Cabe aqui retomar à ideia de que o aspecto finalístico do desenvolvimento sustentável é propiciar o bem-estar aqui e agora, bem como estender esse benefício às gerações vindouras. Resta evidente que essa concepção embute o comprometimento de toda sociedade com o bem-estar humano.
167 A partir dessas proposições, Ignacy Sachs destaca quatro tipos de desenvolvimento econômico. O primeiro
seria selvagem, socialmente iníquo e degradante do ponto de vista ambiental. O segundo socialmente benigno, mas degradante do ponto de vista ambiental. O terceiro benigno do ponto de vista ambiental, mas socialmente iníquo. Em quarto e último, o que ele considera o verdadeiro desenvolvimento, aquele que contempla crescimento socialmente justo e benigno do ponto de vista ambiental. (Cf. SACHS, 2007, p. 294).
É sobre esse enfoque – o do bem-estar humano, quer das gerações de aqui e agora, quer das vindouras – que o aspecto social se eleva sobre as demais abordagens da sustentabilidade, como explica Ignacy Sachs:
O desenvolvimento é um conceito multidimensional: os seus objetivos são sempre sociais e éticos (solidariedade sincrônica). Ele contém uma condicionalidade ambiental explícita (solidariedade diacrônica com as gerações futuras); o crescimento econômico, embora necessário tem um valor apenas instrumental. 168
E, assim, o é porque, a sustentabilidade, repise-se, embora fenômeno único, se expressa em diversas dimensões, que se relacionam e influenciam umas às outras, mas sempre tendo em vista alcançar o bem-estar humano, tanto no presente, como em relação às futuras gerações. Ou seja, o atendimento das demandas relativas à sobrevivência dos seres humanos em sociedade afeta o aspecto econômico, que, por sua vez, gera efeitos sobre o aspecto ambiental, e ambos acabam por interferir no aspecto social, gerando demandas que reclamam atendimento para que se efetive o bem-estar humano e social.
Sob outro prisma de análise, conforme já mencionado, constata-se que a sustentabilidade econômica instrumentaliza o desenvolvimento, enquanto a sustentabilidade ecológica diz respeito a uma externalidade que incide sobre o processo. Porém, é a abordagem do ponto de vista social que qualifica o desenvolvimento, ou seja, se ele é mau ou é bom. Mais do que isso, é a partir do parâmetro social que é possível dizer se está-se em um processo de desenvolvimento, ou até mesmo de “desdesenvolvimento”, neologismo cunhado por Ignacy Sachs para designar o retrocesso social que se faz presente mesmo em cenários de crescimento econômico.169
Claro está que a abordagem social coloca em preeminência os valores de igualdade característicos da segunda dimensão, embora não se possa ignorar que sofra influência da abordagem de liberdade e traga efeitos sobre os direitos difusos contidos na esfera de solidariedade.
O ser humano não vive apenas no mundo material, mas transita também numa esfera imaterial, simbólica e cultural, que identifica os “limites internos”, intrínsecos às sociedades
168 SACHS, 2008, p. 71.
169 Conforme explica Ignacy Sachs, o “desdesenvolvimento” ocorre “quando o crescimento econômico provoca
humanas, como observa Sachs.170 Isso explica o fato de que logo após as discussões sobre as limitações físicas da produção material iniciaram-se discussões sobre os aspectos “não materiais” da sustentabilidade.
Nesse ponto vale lembrar que os movimentos sociais nos anos de 1960 deram início ao processo que culminou na institucionalização da sustentabilidade ambiental. Os países mais ricos eram o que obtiveram maior desenvolvimento devido ao crescimento industrial nos anos anteriores. Todavia, os efeitos maléficos ao meio ambiente, principalmente a poluição que se dissipava, eram suportados pelos países vizinhos, sem lhes propiciar qualquer benefício, seja econômico, seja social.
Fica, pois, evidente a vinculação da empresa com a sustentabilidade, desde a origem do conceito, porquanto foi a industrialização acirrada e concentrada nos países à época chamados desenvolvidos que gerou aumento da poluição e deflagrou movimentos sociais questionadores dessa conjuntura. E, vale destacar mais uma vez, não se pode falar em industrialização sem falar da empresa, como instituição que organiza os fatores de produção com fins econômicos.
Nesse contexto de repartição dos bônus do progresso econômico e responsabilização pelo seu ônus é que se insere a concepção de sustentabilidade que veio a se fixar no Relatório Brundtland (1987). E, nessa conjuntura de responsabilidade, se insere a empresa a quem não mais se admite agir sem dar conta dos efeitos causados por sua atividade, sejam esses efeitos ambientais ou sociais. Em evolução ao Relatório Brundtland, o conceito de sustentabilidade tem se alargado e pressupõe que capacite a cada um expressar plenamente suas capacidades, ou seja, que não sejam elas limitadas por ausência de bens, tanto materiais como imateriais.171
Além disso, essas concepções de autorrealização se fazem presentes, inclusive, nos relatórios do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD),172 os quais enfatizam que desenvolvimento tem a ver com a possibilidade de as pessoas viverem o tipo de vida que escolheram, estabelecendo-se então as oportunidades e meios para que essas
170 Ibidem, p. 287.
171 Nesse sentido, Ignacy Sachs propõe que o desenvolvimento deve permitir que cada indivíduo revele sua
capacidade e suas aptidões e criatividade em busca da “autorrealização e da felicidade mediante esforços coletivos e individuais, numa combinação de trabalho autônomo e heterônomo e de tempo gasto em atividades não produtivas” que propicie e aumente oportunidades, isso é o que caracteriza uma sociedade saudável. (SACHS, 2008, p. 35.)
172 Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Relatório sobre o desenvolvimento humano.
escolhas efetivamente se realizem173 e, nas três últimas edições, pelo menos, os relatórios anuais enfocaram exatamente a sustentabilidade, em seu sentido pluridimensional.
Nessa conjuntura, volta-se à distinção entre sustentabilidade quantitativa e sustentabilidade qualitativa e coloca-se em discussão os critérios de medição do desenvolvimento. De fato, constata-se que tanto o Produto Interno Bruto (PIB) quanto a renda per capita são insuficientes para medir o alcance social que deve ser levado em conta quando se trata de desenvolvimento sustentável. Os índices quantitativos, tais como os acima mencionados, são úteis apenas para mensurar o progresso econômico. Todavia, o progresso econômico será desprezível para o desenvolvimento sustentável se não conduzir a mudanças qualitativas para a sociedade, inclusive com mudanças sociais, como enfatiza Nusdeo:
O desenvolvimento econômico tem sido definido como um processo autossustentado, que leva a renda per capita a se elevar continuamente ao longo de um dado período [...] o desenvolvimento é sem dúvida, um processo como o acima enunciado, mas não é apenas isso. Ele é mais envolvente e mais exigente, não podendo se limitar a um dado quantitativo [...]. Mas não é só isso. O desenvolvimento envolve uma série infindável de modificações de ordem qualitativa e quantitativa, de tal maneira a conduzir a uma radical mudança de estrutura da economia e da própria sociedade do país em questão. 174
Em resumo, os critérios meramente quantitativos, embora tenham sua importância, não abarcam todo o conteúdo multifacetado da sustentabilidade. Para que se possa dar conta da sustentabilidade social, é preciso agregar às medições quantitativas, parâmetros que levem em conta indicadores de bem-estar social e de qualidade de vida.175 Nesse sentido, o destaque inicial foi para o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), criado em 1990, no âmbito do PNUD.176 O IDH inclui variáveis não econômicas, tais como esperança de vida e educação, diante dessa vem sendo utilizado para tentar aferir o grau de desenvolvimento de uma nação, em substituição à simples medição de renda como, ocorre com o PIB ou a renda per capita.
173 Esse enfoque caracteriza o raciocínio de Amartya Sen, criador do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)
juntamente com Mahbub ul Haq, em 1993. O IDH observa que o desenvolvimento consiste em eliminar as carências de liberdades que impedem as pessoas de viverem a vida que pretendem e do modo como queiram viver. (SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. Trad. Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 33.)
174 NUSDEO, 2005, p. 354. 175 FREITAS, op. cit., p. 27.
176 O IDH foi lançado em 1990 pelo PNUD como contraposição à ideia de vincular o desenvolvimento
Ainda quanto à mensuração de critérios qualitativos e de bem-estar, cabe destacar a criação do Índice de Desenvolvimento Social (IDS), de âmbito nacional. O índice criado pela Secretaria de Assuntos Econômicos do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES/SAE) visa fazer acompanhamento anual das condições de vida da população do país. O novo índice reúne, em um único indicador, com escala entre 0 e 1, três diferentes dimensões do desenvolvimento social: renda, saúde e educação.177
Em evolução, estudiosos, tais como Gilberto Montibeller, propõem a criação do Índice de Desenvolvimento Social e Ambiental (IDSA), que acrescenta ao já mencionado IDS uma medida para a variável ambiental, no caso o Índice de Desenvolvimento Ambiental (IDA).178
Essas medições são necessárias para corrigir rumos que estejam levando a um desenvolvimento socialmente excludente, configurando-se, pois, em desrespeito aos direitos de segunda dimensão. Assim, a sustentabilidade deve ser considerada de forma abrangente e incluir o aspecto social, pois melhorar as condições de bem-estar humano e da sociedade como um todo é a finalidade precípua do desenvolvimento, e efetiva a proteção aos direitos humanos em toda sua abrangência.
Devido a sua proeminência na esfera econômica, a empresa interfere nas avaliações quantitativas (PIB, renda per capita etc.). Entretanto, deve igualmente ser compelida a comprometer-se com os critérios qualitativos, de bem-estar social e ambiental para que sua atuação se expresse em observância aos direitos humanos.
No que toca aos direitos sociais, de segunda dimensão, o comprometimento da empresa em garanti-los encontra-se respaldado constitucionalmente, pois não se pode negar que muitos dos direitos sociais elencados no artigo 6º da Constituição Federal, tais como direito ao trabalho, ao lazer, à segurança, à previdência social, à proteção à maternidade e à infância, vinculam-se diretamente à empresa e interligam-se com direitos trabalhistas descritos no artigo 7º
177 BNDES. BNDES cria Índice de Desenvolvimento Social próprio, Página inicial, Sala de Imprensa, Notícias,
2007. Disponível em:
<http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/Sala_de_Imprensa/Noticias/2007/20070524 _not116_07.html>. Acesso em 24 nov. 2014.
178 MONTIBELLER FILHO, Gilberto. Empresas, desenvolvimento e ambiente: diagnóstico e diretrizes de