• Nenhum resultado encontrado

Capítulo III Estudo de Caso dos EUA

3.1 História do Modelo Regulatório dos EUA

3.1.4 Telecommunications Act 1996, um Novo Modelo?

Nos anos 1990, após o processo da separação do AT&T e a aceleração das mudanças tecnológicas, começa um processo de reformulação do modelo regulatório estadunidense. Segundo Geradin e Kerf (2005) e UIT (2002), o congresso daquele país estava preocupado em aumentar o nível de competição nos serviços locais. Além disso, a crescente convergência dos serviços de comunicações eletrônicas encontrava inúmeras barreiras legais que impediam o pleno desenvolvimento de novos mercados de comunicação.

Em 1996, com a entrada em vigor do Telecommunications and Deregulation Act of 199626, conhecido apenas como Telecommunications Act 1996, ocorre a primeira grande reforma do modelo regulatório estadunidense em mais de sessenta anos, ver Figura 2. Na época, o governo Clinton queria, como política pública de alta prioridade, a modernização da infra-estrutura de telecomunicações (CAMERON, 2001). Tal política era encabeçada pelo vice-presidente Al Gore, a qual foi popularizada pela expressão

26

O projeto de lei do Telecommunications Act (N° S.652) foi apresentado no Senado norte-americano em março de 1995, pelo senador Larry Pressier, a redação final passou nas duas casas do congresso com grande maioria de aprovação em 1 de fevereiro de 1996. Em 8 de fevereiro de 1996 a lei foi sancionada pelo presidente estadunidense da época, Bill Clinton.

Information Superhighway, e pelo National Information Infrastruction (NII), o qual utilizava financiamento público em conjunto com reformas normativas no sentido de incentivar maior participação do setor privado e maior competição no setor de comunicações eletrônicas.

Figura 2 – Evolução Regulatória dos EUA (Construção Própria)

Concomitantemente, o congresso norte-americano, que era majoritariamente republicano, apoiava uma reforma geral que incluísse todos os segmentos do setor de comunicações: telefonia, TV por assinatura, TV aberta e transmissão de dados. A premissa básica da nova lei era a “desregulação” do setor, ou seja, visava-se a retirada de barreiras regulatórias entre os setores já existentes. Queria-se, assim, atacar as antigas divisões, como por exemplo: entre a telefonia local e longa distância (resultante do processo da AT&T, acordo MPJ de 1982), entre telefonia e TV a cabo.

Assim, os objetivos gerais da nova lei, que na verdade não substituía o Communications Act 1934, mas sim apenas veio emendá-lo, eram: 1) a promoção da competição em todos os mercados, incluindo os mercados de telefonia local; 2) o desenvolvimento de redes avançadas de comunicações (“enhanced networks”); 3) racionalização e incremento dos serviços universais. O Telecommunications Atc 1996, de

acordo com UIT (2001), estabelecia uma política explícita de promoção da competição, principalmente nos setores de telefonia local e longa distância.

A tese do monopólio natural estava enfraquecida, e não havia mais fortes argumentos tecnológicos para se continuar com um modelo baseado na proteção desse monopólio. Sustentava-se, agora, a tese de que era economicamente irracional um regime regulatório que não se abrisse para a competição, a qual naquele momento era possibilitada pelos recentes avanços tecnológicos. A premissa da nova abordagem regulatória do Telecomunications Act 1996, que começou a ser formada nos anos 1970, era baseada na competição, assumindo que esta promoveria a inovação e a queda de preço, portanto beneficiaria o consumidor.

O Telecommunications Act 1996 representa uma reforma adaptativa do modelo regulatório estadunidense. Oficialmente é uma tentativa de estabelecer uma política nacional de comunicação voltada para a promoção da competição. A nova lei incentiva o crescimento da competição entre os setores de TV a Cabo, telecomunicações, e broadcasting, uma aposta na convergência dos serviços de comunicações. Segundo UIT (2002), os três principais objetivos da lei criada em 1996 são: 1) promover a competição em todos os mercados, incluindo os mercados locais; 2) o desenvolvimento de redes avançadas de comunicação; 3) a racionalização e o fortalecimento dos serviços universais.

No geral, o Telecommunications Act 1996 aboliu algumas barreiras regulatórias entre os diferentes mercados de comunicação eletrônica, como telefonia, transmissão de dados e de conteúdo. Ele caminha em direção a uma abordagem regulatória voltada para a competição, portanto, mais consciente das implicações do desenvolvimento tecnológico e da convergência dos serviços. O Telecommunications Act aparenta não acreditar mais na separação de mercados ditada pela tecnologia e nem no argumento que as telecomunicações continuam constituindo um monopólio natural. No entanto, a lei de 1996 deve ser analisada com cuidado, porque ela não representa a criação de um novo modelo regulatório para os EUA, mas se caracteriza por uma reforma do antigo modelo. Deve-se lembrar que a base do modelo que é o Communictions Act 1934, que continua praticamente intacta, como também o Sherman Act 1890, o Clayton Act 1914 e suas tradicionais instituições reguladoras (FCC, Public Utility Autorities, DoJ e o FTC).

Ou seja, para responder as mudanças trazidas pelo fenômeno da convergência não houve a criação de um novo modelo regulatório nos EUA. Escolheu -se continuar com o modelo que foi construído durante quase cem anos, portanto esse modelo deve ser analisado como um conjunto de regras desenhadas temporalmente. Trata-se de um sistema de normas e instituições criadas em diversas etapas para lidar com problemas de épocas diferentes. A criação do Telecommunications Act 1996 vem completar a grande colcha de retalhos que é o modelo estadunidense. Segundo UIT (2002), trata-se de um “rococó system”, ou seja, sistema confuso caracterizado pela existência de diferentes autoridades reguladoras, pela pluralidade de normas intercaladas e níveis jurisdicionais diferentes, além de estar marcado pelo tradicional federalismo daquele país.

A análise das principais características desse modelo permite verificar que houve uma tentativa de adaptação do antigo marco regulatório dos EUA por meio da criação de algumas novas regras setoriais, ou mesmo pelo simples reajuste das antigas normas dentro dessa organização legal. Nessa análise nota-se que o atual modelo estadunidense não é algo novo, mas uma emenda do velho modelo criado em 1934.