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Tentando achar seu lugar próprio (1900-1911)

5 O OFÍCIO DOCENTE

5.1 Tentando achar seu lugar próprio (1900-1911)

Uma jornada imprevisível para qualquer indivíduo quando começa sua vida profissional até alcançar a tão sonhada estabilidade, o lugar próprio. Pois, nessa trilha incerta vai tentando encontrar seu espaço no mundo, transpondo às intempéries da ordem imposta, às estratégias estabelecidas, que se traduz na escolha da profissão, ao inserir-se em redes de sociabilidade, nos sonhos de projeção social e de conquistas materiais.

Segundo Certeau (2014, p. 44), “as táticas do consumo, engenhosidades do fraco para tirar partido do forte, vão desembocar então em uma politização das práticas cotidianas”. O itinerário de Nascimento Moraes, nesse sentido, foi por ele construído, a partir do momento em que passou a consumir da cultura letrada, desenvolvendo suas práticas cotidianas: ler sobre os mais variados assuntos, escrever suas crônicas diárias no jornal, falar e discursar em público, ensinar seus alunos, as quais soube sobreviver e atuar em vários espaços sociais.

De uma infância pobre com poucos recursos, Nascimento Moraes estudou com professores renomados que viram nele um estudante com um futuro promissor. Um aluno receptor da cultura tradicional, posteriormente, mediador e transformador desse conhecimento, um intelectual engajado. Os professores Domingos Afonso Machado e Manuel de Bèthencourt foram suas principais referências no Liceu Maranhense, sendo este uma inspiração no jornalismo e aquele lado a lado no exercício da docência e no fomento à formação de grupos literários junto aos estudantes liceístas.

Após a conclusão do ensino secundário, entre os anos de 1900 e 1911, teve experiências exitosas e outras não. Pode-se dizer que foi praticamente uma década instável na

carreira docente de Nascimento Moraes, na medida em que foi obtendo experiência para concorrer a uma vaga nas escolas da capital.

Como já foi dito, trabalhou temporariamente como colaborador da Intendência Municipal e supostamente como empregado na fábrica de tecidos do Rio Anil, ao mesmo tempo em que participava do grupo literário Oficina dos Novos, envolvido na perpetuação da Atenas Brasileira, no sentido de continuar exaltando figuras ilustres maranhenses como Gonçalves Dias. Nesse tempo, ele já dava aulas particulares.

Paralelo a isso, com a demissão do cargo público municipal por dissensão política e por uma publicação pelo que escreveu no jornal oposicionista A Campanha, Nascimento Moraes resolveu recomeçar, exercendo as mesmas atividades de docente e jornalista, em Manaus onde residia seu irmão Raimundo do Nascimento Moraes. Sair do Maranhão, mais do que um recuo, foi uma tática não somente pela busca de novos ares em outro lugar, mas talvez visando preservar sua imagem. A tática, de acordo com Certeau (2014, p. 46), “tem constantemente que jogar com os acontecimentos para os transformar em “ocasiões””. Retornou ao Maranhão em 1905 para prosseguir na carreira docente, sempre envolvido na confraria, nas festas locais, como a que participou como mordomo na festividade de Nossa Senhora da Saúde.

Em 1907, Nascimento Moraes já tinha seu próprio Instituto51, voltado para o ensino primário e secundário, dirigindo uma equipe de professores, alguns bem próximos a ele como Inácio Xavier de Carvalho, seu companheiro do movimento literário e de Antônio Jansen de Matos Pereira, um de seus professores do Liceu Maranhense. Nesta instituição particular foi diretor e também ensinava as disciplinas de português, matemática elementar, geografia e história, conforme dados do jornal Pacotilha, edição nº. 17, de 19 de janeiro de 1907, sob o título “Instituto Nascimento Moraes” que assim descrevia:

51A mesma nota “Instituto Nascimento Moraes” se repetiu nas quatro edições seguintes do jornal Pacotilha

(1907): n°. 18, n°. 19, n°. 20 e n°. 21, nessa ordem, dias 21, 22, 23 e 24 de janeiro do corrente ano. A respeito do ensino particular, o decreto n°. 94 de 1° de setembro de 1891, que reorganiza o ensino público do Estado, capítulo IX – Do ensino particular, discorre sobre os deveres de diretores e professores do ensino privado para com a Inspetoria Geral de Instrução Pública. “Art. 36°. Os directores de qualquer estabelecimento de instrucção e professores que lecionarem quaesquer disciplinas do ensino primario e secundario, são obrigados: §1°. A communicar ao Inspector Geral, antes da abertura do estabelecimento, o seu regimen de internato ou externato, as condições de matricula, e os programmas de ensino. §2°. A franquear o estabelecimento à visita das autoridades da Instrucção Publica. §3°. A ministrar as informações que lhes forem exigidas pelo Inspector Geral” (MARANHÃO, 1896, p. 11). Possivelmente, Nascimento Moraes deve ter informado sobre seu próprio estabelecimento de ensino para apreciação e fiscalização do inspetor geral, podendo sofrer sanções, caso não cumprisse com o regulamento que autoriza o funcionamento.

Reabriram-se a 10 do corrente as aulas deste estabelecimento de instrucção primaria e secundaria, com séde à rua da Cruz, n. 61. O director, à vista da frequencia do ano passado, resolveu dar maior desenvolvimento ao curso primario que se completou com as disciplinas de música e desenho, ficando aquella a cargo do conhecido professor de música, sr. José Alipio de Moraes, e, para proporcionar à mocidade maranhense, um estudo regular e methodico de materias do curso secundario, fez acquisição de professores especialistas, de reconhecida competencia em nosso meio. Assim, para ensinar História Geral e do Brasil, e particularmente a do Maranhão, conseguio o dr. Antonio Jansen de Mattos Pereira; para ensinar sciencias naturaes, o dr. Oscar Galvão, para o ensino theorico e prático de francez e inglez, o professor Eduardo José de Albuquerque Mello; para o ensino de litteratura patria, e seu estudo comparatico, o dr. Ignacio Xavier de Carvalho. Ficam as aulas de portuguez, geographia geral e mathematica elementar a cargo do Director. Aberta a aula de História, respectivo professor, aos sabbados, em hora que fôr designada preleccionará, com assistencia de todos os alumnos do Instituto e das pessoas que lhe quiserem ouvir a palavra auctorizada, que há muitos annos já, deixou de dirigir-se à mocidade estudiosa. Breve será publicado o programma geral do Instituto (PACOTILHA, 1907, p. 2).

Não se pode afirmar a data exata de criação e de extinção do “Instituto Nascimento Moraes”, tampouco detalhes da estrutura física do prédio, público-alvo, programa de ensino, se havia ou não alvará de funcionamento, por quanto tempo subsistiu esta escola e de que forma Nascimento Moraes angariou fundos financeiros para ter sua instituição particular. Inclusive ele fez referência na sua obra Puxos e Repuxos (1910), para se defender da acusação feita por Antônio Lobo, de que um aluno teria sido maltratado nesta escola particular.

O periódico Pacotilha faz menção a esse empreendimento somente em 1907, apontando que a escola já funcionava no ano anterior, o que nos leva a supor que a mesma tenha sido inaugurada em 1906, mesmo porque em 1905 estava retornando de Manaus. Diante disso, ele resolveu expandir seu negócio no ano seguinte, isto é, em 1907. Os biógrafos ou memorialistas não citam esse fato na vida desse professor, a não ser George Gromwell quando o homenageia pelo seu aniversário no jornal A Pátria (1908).

Assim, Nascimento Moraes conquistou sua própria escola particular, tendo a seu dispor, a imprensa escrita para divulgação dessa empreitada. Segundo Certeau (2014, p. 46), “o “próprio” é uma vitória do lugar sobre o tempo. Ao contrário, pelo fato de seu não lugar, a tática depende do tempo, vigiando para “captar no voo” possibilidades de ganho”. Beneficiando-se do saber científico e domínio em campos do conhecimento distintos, educação e jornalismo, soube adequar-se, de forma estratégica, às circunstâncias do momento em proveito próprio.

De igual modo, recapitulando mais uma vez, o jornal A Pátria (1908), cujo redator- chefe era Nascimento Moraes, George Gromwell fez menção à sua empreitada profissional no ensino privado, justificando a escolha pelo magistério particular por requerer mais tempo e por questões financeiras. Nesse período, tornou-se membro da loja maçônica Rio Branco. Além

disso, havia se envolvido na primeira polêmica com Antônio Lobo, na ocasião da visita de Sebastião Sampaio, ao mesmo tempo que escrevia para o jornal O Maranhão, em parceria com seu amigo Inácio Xavier de Carvalho.

Não demoraria muito para se envolver numa segunda polêmica com Antônio Lobo quando Coelho Neto visitava o Maranhão, o que resultou na publicação de sua obra Puxos e

Repuxos (1910). A esse tempo, já havia formado uma família, já que sua vida no campo profissional estava relativamente definida. Foi atuante nas atividades religiosas, mais uma vez, participando da terceira novena da instrução pública na festa dos Remédios52.

Até então, Nascimento Moraes já havia construído amizades e inimizades, a partir dos “espaços de sociabilidade formais”, utilizando a expressão de Gondra e Schueler (2008): a Intendência Municipal, a imprensa periódica, a confraria, a loja maçônica, o grupo literário, as escolas particulares.

Sem ainda firmar-se como funcionário público, sua visibilidade como docente e jornalista era um pouco restrita à imprensa periódica, mesmo esforçando-se em aproveitar as oportunidades quando surgiam, no uso de estratégias e táticas ao tentar conciliar tais profissões. Nos anos seguintes a 1911, mudaria esse período de instabilidade profissional.

Tanto que no governo de Luiz Domingues da Silva, ele foi nomeado para reger interinamente a cadeira de Álgebra, Aritmética e Geometria da Escola Normal no dia 28 de abril de 1911, de acordo com a portaria nº. 344. Com a experiência acumulada no ensino particular, seguia na tarefa de ensinar, dentro do currículo clássico tradicional. “Eram comuns as escolas de cunho humanístico e que se aplicavam ainda ao ensino de múltiplas matérias, do empirismo dos sistemas geométricos nucleadores da lógica e das matemáticas às abstrações metafísicas dos conceitos filosóficos” (MACHADO, 1996, p. 48).

Conforme mensagem apresentada ao Congresso Legislativo em 12 de janeiro de 1911, no mandato de Luiz Dominguez (1910-1914) apontou-se carência de instrução primária no interior do Estado, mais precisamente, da necessidade de escolarização das massas, proporcionando seu acesso à educação, por conseguinte reduzir o analfabetismo, além de uma discrepância do ensino ministrado pelos professores dessa localidade em relação aos docentes da capital.

52 Essa informação consta no jornal Pacotilha, de 23 de agosto de 1911, edição nº. 197, em que apresenta uma

tabela das comissões nomeadas para auxiliarem na organização da festividade de Nossa Senhora dos Remédios, onde cada grupo ficaria responsável por uma cada uma das nove novenas, abrangendo algumas autoridades e representantes da sociedade civil.

O Governador do Estado, advertido pelas reclamações que de contínuo recebe de quase todos os municípios contra a falta de instrucção primária no interior, procurou indagar a causa do mal, que assim pelo testemunho, pode-se dizer unânime, do povo se afirmava incontrolável. E, n'essa tarefa, logo lhe impressionou o espírito, o demasiado preparo dos alunos na Capital, em desolador contraste com a incompetência da grande maioria dos professores no interior, agravada pela condescendência ou pelo desleixo das Comissões Escolares. E, tocado pela anomalia dos professores menos idôneos e de exercer uma inspeção mais vigilante e menos disforme sobre as escolas em geral (MARANHÃO, 1911).

Ao mesmo tempo em que dava aulas na Escola Normal, Nascimento Moraes exerceu outro cargo no funcionalismo público: foi escriturário do Porto de São Luís do Maranhão, permanecendo nessa função por pouco tempo.

Pois, na reportagem “A Delegacia Fiscal” do jornal Pacotilha, datado de 27 de janeiro de 1912, edição nº. 24, discorria-se a decisão da junta da Fazenda Federal, em sessão do dia 25 do corrente mês, sobre a questão de Nascimento Moraes está ocupando simultaneamente os cargos de escriturário da Subcomissão de Melhoramentos do Porto e professor de matemática da Escola Normal.

Na consulta do escriturario Luiz Vianna sobre incompatibilidade do cargo de escriturario da subcomissão de melhoramentos do porto e de professor da Escola Normal, exercido por José do Nascimento Moraes, deu o seguinte despacho: - O decreto n.°7.503, de 12 de agosto de 1912, abrange apenas as acumulações de cargos federais, exercidos por um só indivíduo e pagas pela fazenda nacional, e não as de cargos ou funções federais com estaduais ou municipais, conforme a doutrina firmada pelo sr. ministro da fazenda, na ordem n.º 183, expedida a delegacia de Minas Gerais, publicada no Diario Oficial n.º 275, de 20 de novembro de 1909, confirmada pelo acórdáo n.º 1344 de 2 de novembro do ano findo. Em vista das dispozições citadas julgo que o sr. José do Nascimento Moraes, lente de mathematica da Escola Normal, pode receber os vencimentos de escriturario da subcomissão das obras do porto, desta capital, competindo, entretanto, ao chefe dessa repartição providenciar a respeito do exercício do mesmo naquella repartição estadual, uma vez que não possa funcionar nas horas dos respectivos expedientes (PACOTILHA, 1912, p. 1).

Conforme o trecho acima, quanto aos horários, seria incompatível para Nascimento Moraes exercer simultaneamente os dois cargos, bem como de ter um emprego federal e outro estadual, além do que a doutrina vigente contemplava somente a acumulação de mais de um cargo federal.

Sem prejuízo do vencimento e das atividades, com base na deliberação do escriturário Luiz Vianna, ele continuaria exercendo a função federal, ficando pendente acertar com o chefe da repartição estadual, em rever o expediente do ofício docente na Escola Normal para cumprimento da jornada de trabalho.