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Tentativas de entendimento direto (1843/1901)

No documento Historia Diplomatica Do Brasil - Helio Vianna (páginas 165-169)

Surgindo, em1843, a hipótesede um entendimentocom a Inglaterra,

quanto à celebração de um novo tratadode comércio, aproveitou o go¬ vêrno brasileiro a oportunidade para em Londres reabrir também as

negociações relativas aos limites com a Guiana Britânica, por inter¬ médio do ministro

José

de Araújo Ribeiro, depois Visconde do Rio Grande.

Inicialmente, apresentou ao ministro inglês Lorde Aberdeen, um me¬

morando, acompanhado de projeto de convenção, segundo a qual a

fronteira proposta pelo Brasil seguiria a linha do divisor de águas for-

t

(2) Barão do Rio Branco

Op. cit., passim.

macia pela Serra de Pacaraima até a sua extremidade sueste no Monte Anaí,subiria o Rio Rupununi até 2o de latitude norte, acompanhando

êste paralelo até encontrar a fronteira com a Guiana Holandesa.

Comocontraproposta, aceitouo ministro inglêsa Serrade Pacaraima como ponto inicial, mas, depois dela, a fronteira deveria seguir pelos

Rios Maú e Tacutu até o referido paralelo, pelo qual buscaria a divi¬ sóriacom a Guiana Holandesa. Ficariam assim,para a Inglaterra, todas

as terras situadas a leste desses rios, como afinal veio a prevalecer. A

hipótese do nossoabandono da fronteira pelo Rupununi,em troca da

desistência, pelos inglêses, dos limites pelos Rios Maú e Tacutu, che¬

gou também a ser estudada. Mas, como dependia de uma consulta ao

governador da Guiana, e como também não tivesse chegado a bom

têrmo o novo tratado de comércio, foram suspensas as negociações.

Assim permaneceu a questão, até que em 1888 propôs o Brasil, por

intermédio do ministro na Inglaterra, Barão do Penedo, a criação de

uma Comissão Mista, destinada a reconhecer os cursos dos Rios Rupu¬

nuni, Tacutu e Maú e respectivas cabeceiras.

Sòmente, porém, em 1891, em nome de Lorde Salisbury, foi comu¬

nicado ao nosso novo ministro em Londres,

João

Artur de Sousa Cor¬

reia, que o governo inglês estava disposto a entrar em entendimentos

com o brasileiro, relativamente à fronteira com a Guiana. Em conse¬ quência, apresentou para exame um projeto deconvenção, baseado na

contraproposta de Lorde Aberdeen, de 1843.

Suspensas as negociações por motivo do aparecimento de questões

internas e externas mais prementes, para o Brasil, sòmente em 1895,

ainda sem resultado, voltaram à matéria, no Rio de Janeiro, o titular das Relações Exteriores da presidência de Prudente de Morais, Carlos deCarvalho, e oministro inglêsSir EdmundConstantine HenryPhipps.

Tratando-se, pouco depois, da questão do Amapá com a República

Francesa, lembrou o Barão do Rio Branco a conveniência de serem

desde logo estabelecidos também com a Inglaterra e a Holanda os li¬

mites do Brasil com as respectivas Guianas, a fim de serem obtidos novos títulos favoráveis aos nossos pontos de vista, naquela pendência.

Resultou daí a volta ao assunto, por intermédio doreferido ministro

Sousa Correia,

que

em 1897 propôsa Lorde Salisbury

que

entre a nas¬

cente do Courantine e a fronteira com a Venezuela fôssem os limites do Brasil com a Guiana Britânica traçados pelos divisores de águas, inutilizando-se assim a pretensão inglêsa de penetrar na bacia amazô-

nica, como já haviam aconselhado, em 1841, Duarte da Ponte Ribeiro,

em 1854 o Conselho de Estado, e como insistia agora o Barão do Rio Branco. Sob a alegação de que a divisória traçada sôbre o divortium

aquarum

seria difícil e dispendiosa, recusou a Inglaterra essa proposta,

voltando àquefizera em 1891, istoé, a Serra de Pacaraima,osRios Maú

eTacutu eo divisor daságuasdas bacias do Amazonas,do Essequiboe

do Courantine, ou seja, as Serras de Essari, Acarai e Tumucumaque.

O Barão do Rio Branco, que havia eficazmente auxiliado as nego¬ ciações de Sousa Correia, delas participando ativamente, redigiu e

pu-

blicou então, em Bruxelas, 1897, em francês, erudita Memória sobre

a

Questão

deLimitesentreosEstados Unidosdo Brasil e a Guiana Bri¬

tânica(3).

Nova contraproposta brasileira não encontrou boa acolhida no Fo¬ reign Office,

apesar

da boa vontade de Lorde Salisbury, devido à in¬ transigente política de expansão ultramarina então defendida pelo se¬

cretário das Colónias,

J.

Chamberlain. Desta forma, suspenderam-se as

respectivas

negociações em 1898.

Outras tentativasde entendimento direto foram ainda realizadas, in¬

clusivede acordocom sugestõesdo Barão do Rio Branco aos ministros

Sousa Correia e Joaquim Nabuco, novo titular da legação brasileira

Londres. Afinal, sendo inúteis todos os esforços nesse sentido, ne¬

gociou

o último,em 1901,como

Marquês

de Lansdowne,o tratado

que

entregou a

questão

aoarbitramentodorei daItália, Vítor Manuel111(ÿ<).

em

4. Missão

especial

de

Joaquim

Nabuco

Roma

(1902/1904)

«

em

O novo advogadodo Brasil em questão de limites submetida a juízo

arbitrai,

Joaquim

Nabuco, mostrou-se à altura da incumbência e do antecessor em idêntica missão, o Barão do RioBranco.

Com

prazo

marcado para a apresentação da primeira Memória em defesa dodireito brasileiroao território contestado,elaborou-a com des¬

velada erudição,

produzindo

um trabalhodignodo autor de Um Esta¬

dista do Império.O Direito do Brasil

,

única redigida em português, li¬

mitou-se a indicar os fundamentos históricos e geográficos de nossas razões e a apresentar as provas respectivas. Conhecidos os argumentos

do contendor, redigiu segunda Memória, dividida em três partes: I

-

A pretensãoinglesa. II

Notassôbre a parte histórica da Primeira Me¬

mória Inglesa. Ill - A Prova Cartográfica. Havendo réplica, escreveu a terceira e últimaMemória,dividida em duas partes: I

A Estrutura

das

Memórias

Inglesas. II

-

História da Zona Contestada segundo a

Contra-Memória

Inglesa. Tudo formando um impressionante conjunto dedezoitovolumes.Podia, portanto, concluir sua última Memória com as seguintes palavras: “O Brasil sustenta que a Inglaterra não tem

direito algum a atravessar o Rupununi e a estabelecer-se na bacia

amazônica”.

Com tudo isto, calculam-se a sua decepção, ea de todo o Brasil, ao serconhecidaa sentença arbitrai de6 de junhode 1904,

que

dividiu o

território contestado em dois quinhões, reconhecendo ao Brasil o di¬ reito

apenas

ao menor dêles, de 13.570km2, entre os Rios Cotingo e

Maú, e concedendo à Inglaterra o maior, de 19.630km2, entre o Rio

I

(3) ReeditadapeloMinistério dasRelações Exteriores,em1945, comosegundo tomo das Obras do Barão do Rio Branco, publicadas por ocasiãodo centenário de seu nascimento.

(4) Barão doRioBranco

op. cif., passim.

A.G.deAraújo Jorge

Introduçãoàs Obras do Barão do Rio Branco. Publicação do Ministério das Relações Exteriores (Rio de

Maú e a Serra de Pacaraima eentre os Rios Tacutu e Rupununi, in-

c usive, portanto, a

pequena

região do Rio Pirara. Prevaleceria, assim,

como lionteira, o divisor das águas, desde o Monte Iacontipu até às

nascentesdo Rio Mau ou Ireng, e depois

até o divisor das águas, rumo à Guiana Holandesa.

Iara o Brasil esse empate aparente representava mais

que

meia der¬

rota.Em primeiro lugar,

porque

já havia feito todos os

sacrifícios

com¬ patíveis com o seu direito, por ocasião do tratado demarcando a zona

e arbitramento.Em segundo lugar,a Inglaterra levava vantagem,

por¬

quea linha

que pareceu

aoárbitro melhordefinida para umafronteira

natural a favorecia,

quer

em extensão, dando-lhe três quintos do ter¬ ritório, quer abrindo a sua influência a bacia do

Amazonas"

(5).

dêste e do Tacutu

os cursos

5.

Limites

com a

Guiana Holandesa

Com a Guiana Holandesa, mais conhecida como colónia de Suri¬ name, jamais teve o Brasil qualquer questão fronteiriça, desde o seu

fracionamento em favor da Guiana Britânica ficando tàcitamente esta¬

belecido quearespectiva linhadivisória deveria ser traçada pelodivisor

das águas entre os rios que banham o seu território e os da bacia amazônica, o qual é constituído principalmente pela Serra de Tu-

mucumaque.

Faltando apenas a sua inclusão num diploma, tentou o Barão do

RioBranco a sua obtençãoainda antesde resolvidas as nossas questões

com as Guianas Francesa e Britânica. Mas o govêrno neerlandês, como natural, preferiu aguardar as sentenças dos árbitros escolhidos para

resolver as questões doAmapá e do Pirara, para depois negociar com o

Brasil a definitiva fixação daqueles limites.

Foi o que se fêz no Rio de Janeiro,em 1906, sendo ministro das Re¬

laçõesExteriores o Barão do Rio

Branco

e Frederico Palm o

represen¬

tante diplomático da Holanda na capital brasileira. O Tratado de Li¬

mites então assinado, ratificadoem 1908, traçou a divisória pela linha departilha das águasdabacia do Amazonas aosul e das baciasdosrios

que correm em direção ao norte, para o Oceano Atlântico, isto é, a

mesma fronteira que recomendara o Barão do Rio Branco em seu pro¬

jeto de convenção de 1896 (6).

(5) Carolina Nabuco

A Vida de Joaquim Nabuco (São Paulo, 1928), págs. 416/417.

(6) A.G. de Araújo Jorge

op. cit., págs. 113/119.

XXII

LIMITESCOM A COLOMBIA E VENEZUELA

I.

Antecedentes

coloniais

a) Tratado de Madrid, de 1750

O

Tratado

de Madrid, de 1750,

que

estabeleceu, pela primeira vez

"Íou

n™”„iLÿlr.x'Panh6ÍS

«

*AS

oB«Sí.

o

«

da

Colômbia

e dos Estados Unidos da Venezuela•

'S republlcas

..

“e

baixando

peloálveo do

Javari

até onde desemboca n0 Rio das

Amazonas ou Maranon,prosseguirá

por

êste rio abaixo até a

bôcâ

mS

ocidental

do Japurá,

que

deságua nêle pela margem setentrional

“Continuara a fronteira pelo meio do Rio Tanurá e n#»l

'

que

aêle se juntam,e

que

mais sechegarem ao

Li

do

noÿaie“

contrar o alto dacordilheira de montes

que

mediam (sic)

entré

oOrT

das Amazonas ou Maranon; e prosseguirá ,el„ cume dèMes oriente, atéondeseestender odomínio de uma o tra

noco

e o

No documento Historia Diplomatica Do Brasil - Helio Vianna (páginas 165-169)

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