Surgindo, em1843, a hipótesede um entendimentocom a Inglaterra,
quanto à celebração de um novo tratadode comércio, aproveitou o go¬ vêrno brasileiro a oportunidade para em Londres reabrir também as
negociações relativas aos limites com a Guiana Britânica, por inter¬ médio do ministro
José
de Araújo Ribeiro, depois Visconde do Rio Grande.Inicialmente, apresentou ao ministro inglês Lorde Aberdeen, um me¬
morando, acompanhado de projeto de convenção, segundo a qual a
fronteira proposta pelo Brasil seguiria a linha do divisor de águas for-
t
(2) Barão do Rio Branco
—
Op. cit., passim.macia pela Serra de Pacaraima até a sua extremidade sueste no Monte Anaí,subiria o Rio Rupununi até 2o de latitude norte, acompanhando
êste paralelo até encontrar a fronteira com a Guiana Holandesa.
Comocontraproposta, aceitouo ministro inglêsa Serrade Pacaraima como ponto inicial, mas, depois dela, a fronteira deveria seguir pelos
Rios Maú e Tacutu até o referido paralelo, pelo qual buscaria a divi¬ sóriacom a Guiana Holandesa. Ficariam assim,para a Inglaterra, todas
as terras situadas a leste desses rios, como afinal veio a prevalecer. A
hipótese do nossoabandono da fronteira pelo Rupununi,em troca da
desistência, pelos inglêses, dos limites pelos Rios Maú e Tacutu, che¬
gou também a ser estudada. Mas, como dependia de uma consulta ao
governador da Guiana, e como também não tivesse chegado a bom
têrmo o novo tratado de comércio, foram suspensas as negociações.
Assim permaneceu a questão, até que em 1888 propôs o Brasil, por
intermédio do ministro na Inglaterra, Barão do Penedo, a criação de
uma Comissão Mista, destinada a reconhecer os cursos dos Rios Rupu¬
nuni, Tacutu e Maú e respectivas cabeceiras.
Sòmente, porém, em 1891, em nome de Lorde Salisbury, foi comu¬
nicado ao nosso novo ministro em Londres,
João
Artur de Sousa Cor¬reia, que o governo inglês estava disposto a entrar em entendimentos
com o brasileiro, relativamente à fronteira com a Guiana. Em conse¬ quência, apresentou para exame um projeto deconvenção, baseado na
contraproposta de Lorde Aberdeen, de 1843.
Suspensas as negociações por motivo do aparecimento de questões
internas e externas mais prementes, para o Brasil, sòmente em 1895,
ainda sem resultado, voltaram à matéria, no Rio de Janeiro, o titular das Relações Exteriores da presidência de Prudente de Morais, Carlos deCarvalho, e oministro inglêsSir EdmundConstantine HenryPhipps.
Tratando-se, pouco depois, da questão do Amapá com a República
Francesa, lembrou o Barão do Rio Branco a conveniência de serem
desde logo estabelecidos também com a Inglaterra e a Holanda os li¬
mites do Brasil com as respectivas Guianas, a fim de serem obtidos novos títulos favoráveis aos nossos pontos de vista, naquela pendência.
Resultou daí a volta ao assunto, por intermédio doreferido ministro
Sousa Correia,
que
em 1897 propôsa Lorde Salisburyque
entre a nas¬cente do Courantine e a fronteira com a Venezuela fôssem os limites do Brasil com a Guiana Britânica traçados pelos divisores de águas, inutilizando-se assim a pretensão inglêsa de penetrar na bacia amazô-
nica, como já haviam aconselhado, em 1841, Duarte da Ponte Ribeiro,
em 1854 o Conselho de Estado, e como insistia agora o Barão do Rio Branco. Sob a alegação de que a divisória traçada sôbre o divortium
aquarum
seria difícil e dispendiosa, recusou a Inglaterra essa proposta,voltando àquefizera em 1891, istoé, a Serra de Pacaraima,osRios Maú
eTacutu eo divisor daságuasdas bacias do Amazonas,do Essequiboe
do Courantine, ou seja, as Serras de Essari, Acarai e Tumucumaque.
O Barão do Rio Branco, que havia eficazmente auxiliado as nego¬ ciações de Sousa Correia, delas participando ativamente, redigiu e
pu-
blicou então, em Bruxelas, 1897, em francês, erudita Memória sobre
a
Questão
deLimitesentreosEstados Unidosdo Brasil e a Guiana Bri¬tânica(3).
Nova contraproposta brasileira não encontrou boa acolhida no Fo¬ reign Office,
apesar
da boa vontade de Lorde Salisbury, devido à in¬ transigente política de expansão ultramarina então defendida pelo se¬cretário das Colónias,
J.
Chamberlain. Desta forma, suspenderam-se asrespectivas
negociações em 1898.Outras tentativasde entendimento direto foram ainda realizadas, in¬
clusivede acordocom sugestõesdo Barão do Rio Branco aos ministros
Sousa Correia e Joaquim Nabuco, novo titular da legação brasileira
Londres. Afinal, sendo inúteis todos os esforços nesse sentido, ne¬
gociou
o último,em 1901,comoMarquês
de Lansdowne,o tratadoque
entregou a
questão
aoarbitramentodorei daItália, Vítor Manuel111(ÿ<).em
4. Missão
especial
de
Joaquim
Nabuco
Roma
(1902/1904)«
em
O novo advogadodo Brasil em questão de limites submetida a juízo
arbitrai,
Joaquim
Nabuco, mostrou-se à altura da incumbência e do antecessor em idêntica missão, o Barão do RioBranco.Com
prazo
marcado para a apresentação da primeira Memória em defesa dodireito brasileiroao território contestado,elaborou-a com des¬velada erudição,
produzindo
um trabalhodignodo autor de Um Esta¬dista do Império.O Direito do Brasil
,
única redigida em português, li¬mitou-se a indicar os fundamentos históricos e geográficos de nossas razões e a apresentar as provas respectivas. Conhecidos os argumentos
do contendor, redigiu segunda Memória, dividida em três partes: I
-
A pretensãoinglesa. II—
Notassôbre a parte histórica da Primeira Me¬mória Inglesa. Ill - A Prova Cartográfica. Havendo réplica, escreveu a terceira e últimaMemória,dividida em duas partes: I
—
A Estruturadas
Memórias
Inglesas. II-
História da Zona Contestada segundo aContra-Memória
Inglesa. Tudo formando um impressionante conjunto dedezoitovolumes.Podia, portanto, concluir sua última Memória com as seguintes palavras: “O Brasil sustenta que a Inglaterra não temdireito algum a atravessar o Rupununi e a estabelecer-se na bacia
amazônica”.
Com tudo isto, calculam-se a sua decepção, ea de todo o Brasil, ao serconhecidaa sentença arbitrai de6 de junhode 1904,
que
dividiu oterritório contestado em dois quinhões, reconhecendo ao Brasil o di¬ reito
apenas
ao menor dêles, de 13.570km2, entre os Rios Cotingo eMaú, e concedendo à Inglaterra o maior, de 19.630km2, entre o Rio
I
(3) ReeditadapeloMinistério dasRelações Exteriores,em1945, comosegundo tomo das Obras do Barão do Rio Branco, publicadas por ocasiãodo centenário de seu nascimento.
(4) Barão doRioBranco
—
op. cif., passim.—
A.G.deAraújo Jorge—
Introduçãoàs Obras do Barão do Rio Branco. Publicação do Ministério das Relações Exteriores (Rio deMaú e a Serra de Pacaraima eentre os Rios Tacutu e Rupununi, in-
c usive, portanto, a
pequena
região do Rio Pirara. Prevaleceria, assim,como lionteira, o divisor das águas, desde o Monte Iacontipu até às
nascentesdo Rio Mau ou Ireng, e depois
até o divisor das águas, rumo à Guiana Holandesa.
Iara o Brasil esse empate aparente representava mais
que
meia der¬rota.Em primeiro lugar,
porque
já havia feito todos ossacrifícios
com¬ patíveis com o seu direito, por ocasião do tratado demarcando a zonae arbitramento.Em segundo lugar,a Inglaterra levava vantagem,
por¬
quea linha
que pareceu
aoárbitro melhordefinida para umafronteiranatural a favorecia,
quer
em extensão, dando-lhe três quintos do ter¬ ritório, quer abrindo a sua influência a bacia doAmazonas"
(5).dêste e do Tacutu
os cursos
5.
Limites
com aGuiana Holandesa
Com a Guiana Holandesa, mais conhecida como colónia de Suri¬ name, jamais teve o Brasil qualquer questão fronteiriça, desde o seu
fracionamento em favor da Guiana Britânica ficando tàcitamente esta¬
belecido quearespectiva linhadivisória deveria ser traçada pelodivisor
das águas entre os rios que banham o seu território e os da bacia amazônica, o qual é constituído principalmente pela Serra de Tu-
mucumaque.
Faltando apenas a sua inclusão num diploma, tentou o Barão do
RioBranco a sua obtençãoainda antesde resolvidas as nossas questões
com as Guianas Francesa e Britânica. Mas o govêrno neerlandês, como natural, preferiu aguardar as sentenças dos árbitros escolhidos para
resolver as questões doAmapá e do Pirara, para depois negociar com o
Brasil a definitiva fixação daqueles limites.
Foi o que se fêz no Rio de Janeiro,em 1906, sendo ministro das Re¬
laçõesExteriores o Barão do Rio
Branco
e Frederico Palm orepresen¬
tante diplomático da Holanda na capital brasileira. O Tratado de Li¬
mites então assinado, ratificadoem 1908, traçou a divisória pela linha departilha das águasdabacia do Amazonas aosul e das baciasdosrios
que correm em direção ao norte, para o Oceano Atlântico, isto é, a
mesma fronteira que recomendara o Barão do Rio Branco em seu pro¬
jeto de convenção de 1896 (6).
(5) Carolina Nabuco
—
A Vida de Joaquim Nabuco (São Paulo, 1928), págs. 416/417.(6) A.G. de Araújo Jorge
—
op. cit., págs. 113/119.XXII
LIMITESCOM A COLOMBIA E VENEZUELA
I.
Antecedentes
coloniais
a) Tratado de Madrid, de 1750
O
Tratado
de Madrid, de 1750,que
estabeleceu, pela primeira vez"Íou
n™”„iLÿlr.x'Panh6ÍS
«*AS
oB«Sí.
o«
da
Colômbia
e dos Estados Unidos da Venezuela•'S republlcas
..
“ebaixando
peloálveo doJavari
até onde desemboca n0 Rio dasAmazonas ou Maranon,prosseguirá
por
êste rio abaixo até abôcâ
mS
ocidental
do Japurá,que
deságua nêle pela margem setentrional“Continuara a fronteira pelo meio do Rio Tanurá e n#»l
'
•
que
aêle se juntam,eque
mais sechegarem aoLi
donoÿaie“
contrar o alto dacordilheira de montes
que
mediam (sic)entré
oOrT
das Amazonas ou Maranon; e prosseguirá ,el„ cume dèMes oriente, atéondeseestender odomínio de uma o tra