A JUSTIÇA ENQUANTO CULTURA E A CIÊNCIA COMO DISCURSO
TEORIA, CONSTRUÇÃO DO SENTIDO, E TEXTUALIDADE
Efetivamente, parece que a teoria66 ou o próprio conhecimento em si, não são
perenes e imutáveis, mas “situados”, uma vez que resultam de uma “construção negociada” entre elementos e dinâmicas contingentes, antagônicas e diferenciadas. O conhecimento deve ser compreendido, portanto, como “o resultado histórico e pontual de condições que não são da ordem do conhecimento”.67 Desse modo,
tanto o conhecimento como o próprio sentido de justiça estão inextricavelmente presos ao seu contexto específico de produção, não podendo ser compreendidos de forma separada dessa negociação. Pode-se dizer, assim, que o conhecimento e o
64 NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas. São Paulo: Abril Cultural, 1983 (Os pensadores) 65 FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: NAU Editora, 2005, p. 17.
66 Conforme esclarece Habermas, “na linguagem filosófica, o conceito de theoría está vinculado à contemplação
do kósmos. Como consciência contemplativa do kósmos, a theoría pressupõe o limite entre o Ser e o Tempo. (...) Na medida em que o filósofo contempla a ordem imutável, realiza um processo de adequação a si próprio do processo cósmico, recriando-o em si. A teoria penetra na práxis da existência através da adequação do espírito ao movimento cósmico: ela imprime sua força à existência, disciplinando-a no seu éthos.”, in, BENJAMIN, HORKHEIMER, ADORNO e HABERMAS. Textos escolhidos (Os Pensadores). São Paulo: Abril Cultural, 1983, p. 301.
sentido de justiça são perspectivísticos, já que resultam das relações estratégicas e dinâmicas em que o homem se encontra situado. Ou, conforme define Michel Foucault,68 “o caráter perspectivo do conhecimento não deriva da natureza humana,
mas sempre do caráter polêmico e estratégico do conhecimento”.
Sob um outro aspecto, essas considerações que apontam para o caráter perspectivístico do conhecimento parecem indicar, por conseqüência, que o conhecimento é fruto de uma construção social, uma vez que são exatamente as condições culturais, políticas e econômicas de existência que formam os sujeitos de conhecimento e as próprias noções de verdade e justiça. Em outros termos, as relações e padrões de verdade previamente estabelecidas que se exteriorizam nas estruturas sociais e culturais “não se impõem do exterior ao sujeito do conhecimento mas que são, elas próprias, constitutivas do sujeito de conhecimento”.69
Na própria ciência há modelos de verdade que resultam de construções coletivas. Conforme argumenta Habermas,70 compactuando o entendimento de
Husserl, “não é o conteúdo informativo da teoria, mas é a formação de uma atitude reflexiva entre os teóricos, a responsável pela produção de uma cultura científica”. Assim, tem-se que o aforismo de Protágoras onde “o homem é a medida de todas as coisas” ressurge vitalizado na “epistéme”71 contemporânea. Isto porque parece haver
na fórmula do “homem-medida” uma relação dialética entre o individual e o universal, considerando que o “sentido”, ou seja, a “medida” do “homem” enquanto indivíduo, só alcançará status de “verdade” se contar com a adesão de outros indivíduos nesse mesmo sentido ou medida. Caso contrário, ou seja, se essa “medida” individual não contar com a adesão de outras opiniões, ela se mostrará extremamente “fraca” e não poderá almejar obter o status de “verdade”.
Desse modo, por mais correta que possa parecer uma interpretação ou juízo formulado sobre determinada questão, se ela se mantiver isolada ela representará um “discurso fraco” (hettón logos) e, em virtude das “resistências” encontradas, tenderá a desaparecer ou, no máximo, contando com alguma adesão, permanecer marginal. Tem-se, portanto, que o sentido, seja da verdade ou mesmo da justiça, é
68 Ibid, p. 25. 69 Ibid, p. 27.
70 BENJAMIN, HORKHEIMER, ADORNO e HABERMAS. Textos escolhidos (Os Pensadores). São Paulo:
Abril Cultural, 1983, p. 302.
71 Para Charles Sanders Peirce, “a melhor tradução para epistéme é ‘compreensão’. É a capacidade de definir
algo de tal modo que todas as suas propriedades sejam corolários de sua definição.”, in, PEIRCE, Charles Sanders. Escritos coligidos. São Paulo: Abril Cultural, 1983, p. 139. (Os pensadores)
formado por essa confluência de opiniões individuais onde as medidas são convergentes entre si, formando uma universalidade e constituindo o fundamento daquilo que Protágoras chama de “discurso forte” (kréiton logos).
A teoria retórica de Chaïn Perelman72 parece partilhar desse mesmo sentido
clássico de “discurso forte” proposto por Protágoras:
O orador, de posse de uma linguagem compreendida por seu auditório, só pode desenvolver sua argumentação conectando-a a teses admitidas pelos ouvintes, sem o que se arrisca a cometer uma petição de princípio. Daí resulta que qualquer argumentação depende, no tocante às suas premissas, como aliás a todo o seu desenvolvimento, do que é aceito, do que é reconhecido como verdadeiro, como normal e verossímil, como válido; com isso se arraiga no social, cuja caracterização dependerá da natureza do auditório.
Efetivamente, a teoria representa apenas uma das muitas outras interpretações possíveis. Em outros termos, a teoria representa, segundo Fredric Jameson,73 um “código opcional” ante inúmeros outros “códigos” de discursos possíveis. Este embate entre esses “códigos” é constitutivo do que Stuart Hall, citado por Jameson, chama de “luta discursiva”. E é interessante notar ainda que o reconhecimento da possibilidade e legitimidade do “discurso diferente”, parece representar e traz em seu âmago o ideal democrático grego que, certamente, estava subjacente à filosofia de Protágoras.
Nesse âmbito de análise, considerando o aspecto discursivo do conhecimento, passa a ser relevante a análise empírica de como se opera na prática essa construção de verdades no decorrer histórico. E é exatamente nessa “luta discursiva” que se faz possível tanto a produção de “novos” conhecimentos e “sentidos” como a manutenção de “velhos” dogmas e verdades. E desse modo, na linha sugerida por Michel Foucault, o que deve ser feito é a constituição histórica do sujeito de conhecimento através da análise de um discurso formado por um conjunto de estratégias que fazem parte das práticas sociais. E entre as práticas sociais nas quais é possível localizar numa análise histórica, ou mesmo contextual, a emergência de novas formas de subjetividade, as práticas jurídicas, ou, mais especificamente, as práticas judiciárias, se revelam como uma das mais propícias ao desenvolvimento desse empreendimento, que parece estar compreendido numa
72 PERELMAN, Chaïn. Retóricas – São Paulo: Martins Fontes, 1997, p. 305.
antropologia do conhecimento. Esse é a base teórica dos problemas levantados por Michel Foucault:74
A hipótese que gostaria de propor é que, no fundo, há duas histórias da verdade. A primeira é uma espécie de história interna da verdade, a história de uma verdade que se corrige a partir de seus próprios princípios de regulação: é a história da verdade tal como se faz na ou a partir da história das ciências. Por outro lado, parece-me que existem, na sociedade, ou pelo menos, em nossas sociedades, vários outros lugares onde a verdade se forma, onde um certo número de regras de jogo são definidas – regras de jogo a partir das quais vemos nascer certas formas de subjetividade, certos domínios de objeto, certos tipos de saber – e por conseguinte podemos, a partir daí, fazer uma história externa, exterior, da verdade.
As práticas judiciárias – a maneira pela qual, entre os homens, se arbitram os danos e as responsabilidades, o modo pelo qual, na história do Ocidente, se concebeu e se definiu a maneira como os homens podiam ser julgados em função dos erros que haviam cometido, a maneira como se impôs a determinados indivíduos a reparação de algumas de suas ações e a punição de outras, todas essas regras ou, se quiserem, todas essas práticas regulares, é claro, mas também modificadas sem cessar através da história – me parecem uma das formas pelas quais nossa sociedade definiu tipos de subjetividade, formas de saber e, por conseguinte, relações entre o homem e a verdade que merecem ser estudadas.
E é importante consignar que o desenvolvimento prático de uma antropologia do conhecimento voltada à análise dos discursos produzidos pelos vários lugares ou campos sociais onde a verdade se forma é feito, principalmente, através do estudo de textos onde essa luta discursiva está representada. Essa singularidade histórica constatada na contemporaneidade, consistente nessa apontada condição de que todas as culturas do mundo são praticantes da textualidade, já havia sido notada por Mikhail Bakhtin, cuja teoria eleva o texto à posição de objeto específico das ciências humanas. Isto porque apesar das ciências humanas estarem voltadas para o estudo do homem, estas estudam o homem enquanto produtor de textos. Para Bakhtin,75 o que realmente importa nas ciências humanas é exatamente a história do pensamento voltada para o próprio pensamento, ou seja, “o sentido, o significado do outro, que se manifestam e se apresentam ao pesquisador somente em forma de texto. Quaisquer que sejam os objetivos de um estudo, o ponto de partida só pode ser o texto.”
O conhecimento do homem, portanto, não só é revelado por meio dos textos, como também estes são responsáveis pela própria construção do homem enquanto
74 FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: NAU Editora, 2005, p. 11. 75 BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1992, p. 333.
objeto de estudos. Fato que, segundo Bakhtin,76 distinguiria as ciências humanas
das ciências exatas e biológicas que estudam o homem “fora do texto”. Cada ciência humana teria assim um objeto textual específico, uma vez que interpretações diferentes sobre um texto constróem novos textos, criando, assim, objetos diferentes.
Ainda nesse âmbito epistêmico das ciências humanas, alguns autores vêm apontando a ocorrência de um processo de “estetização da teoria social”, cuja expressão se faz presente no reconhecimento de aspectos estéticos, literários e narrativos nos processos de teorização e produção de textos, cujos indícios foram identificados por Walter Benjamim.77 Traços que estariam a evidenciar, segundo Boaventura de Souza Santos,78 uma sucessão da “sociedade material” por uma “sociedade da cultura” ou, numa terminologia mais expressiva cientificamente, por uma “sociedade semiótica”, que resgata a importância do sensorial e da percepção na produção do conhecimento e na organização da experiência.
E considerando que as ciências humanas, como a antropologia e o direito, operam por meio de textos, muitos autores como Wolf Lepenies, em relação à sociologia e antropologia, e Ronald Dworkin, quanto ao direito, procuram estreitar a interpretação de suas respectivas áreas com outros campos do conhecimento, principalmente a literatura. Com efeito, através da aproximação com a literatura é possível o desenvolvimento de uma noção mais abrangente do que entendemos por interpretação. A literatura parece representar, assim, um “espaço comum” às ciências humanas, pois permite um estudo da interpretação considerando outros contextos dessa atividade. E é atentado para essa fecundidade que a crítica literária pode fornecer à interpretação jurídica que Ronald Dworkin advoga que:
Seria bom que os juristas estudassem a interpretação literária e outras formas de interpretação artística. Isso pode parecer um mau conselho (escolher entre o fogo e a frigideira), pois os próprios críticos estão completamente divididos sobre o que é a interpretação literária, e a situação não é melhor nas outras artes. Mas é exatamente por isso que os juristas deveriam estudar esses debates. Nem todas as discussões na crítica literária são edificantes ou mesmo compreensíveis, mas na literatura foram defendidas muito mais teorias da interpretação que no Direito, inclusive teorias que contestam a
76 Ibid, p. 31.
77 BENJAMIN, HORKHEIMER, ADORNO e HABERMAS. Textos escolhidos (Os Pensadores). São Paulo:
Abril Cultural, 1983, p. 302.
distinção categórica entre descrição e valoração que debilitou a teoria jurídica.79
Ainda nessa aproximação com a literatura, é interessante notar ainda que, a partir de uma perspectiva semiótica, alguns autores também têm sustentado até mesmo uma supremacia da literatura em relação à ciência. Para Roland Barthes,80 por exemplo, se todas as disciplinas devessem ser expulsas do ensino, com a exceção de uma, seria exatamente a literatura que deveria ser salva, pois “todas as ciências estão presentes no monumento literário”. Segundo esse autor, a literatura revela o real sem dissipar a intensidade da experiência humana; “faz girar os saberes, não fixa, não fetichiza nenhum deles. (...) A ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos importa”.81
Um dos aspectos que parecem favorecer essa fecunda aproximação das interpretações antropológica e jurídica com a literária é fato de que, enquanto a linguagem da ciência permite a denotação, a linguagem literária possibilita a conotação do significado.82 Tanto que, para Wolf Lepenies,83 na própria origem e desenvolvimento das ciências sociais há um dilema consistente na “hesitação entre uma orientação cientificista, pronta a imitar as ciências naturais, e uma atitude hermenêutica, que aproxima a disciplina da literatura”. A perspectiva histórica adotada por Lepenies retrata como a sociologia, em sua tentativa de “imitar” as ciências naturais para se firmar enquanto disciplina autônoma, está compreendida num processo complexo de proximidade e concorrência com a literatura.84
79 DWORKIN, Ronald. Uma questão de princípio. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 217.
80 BARTHES, Roland. Novos ensaios críticos/O grau zero da escritura. São Paulo: Editora Cultrix, 1972, p. 18. 81 Ibid, p. 18.
82 Em entrevista concedida à Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke, para o Jornal Folha de São Paulo, veiculado em
19 de outubro de 2003, Zygmunt Bauman ilustra bem essa questão: “Eu aprendi a considerar a sociologia como uma daquelas numerosas narrativas, de muitos estilos e gêneros, que recontam, após terem primeiramente processado e reinterpretado, a experiência humana de estar no mundo. A tarefa conjunta de tais narrativas era oferecer um insight mais profundo no modo como essa experiência foi construída, pensada e, desse modo, ajudar os seres humanos na sua luta pelo controle de seus destinos individuais e coletivos. Nessa tarefa, a narrativa sociológica não era ‘por direito’ superior a outras narrativas, pois tinha de demonstrar e provar seu valor e utilidade pela qualidade de seu produto. Eu, por exemplo, me lembro de ganhar de Tolstói, Balzac, Dickens, Dostoiévski, Kafka ou Thomas Morus muito mais insights sobre a substância das experiências humanas do que centenas de relatórios de pesquisa sociológica. Acima de tudo aprendi a não perguntar de onde uma determinada idéia vem, mas somente como ela ajuda a iluminar as respostas humanas à sua condição, assunto tanto da sociologia quanto das ‘belle lettres’.”
83 LEPENIES, Wolf. As três culturas. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1996, p. 11.
84 Segundo Wolf Lepenies, “desde cedo se estabelece um processo de purificação no interior das disciplinas:
áreas de especialização como a sociologia, que ainda devem conquistar seu reconhecimento dentro do sistema das ciências, buscam obter esse reconhecimento distanciando-se das formas literárias primitivas da própria disciplina, que procedem de modo mais classificatório-narrativo que analítico-sistematizador. Esse processo resulta numa competição de interpretações entre uma intelectualidade literária constituída por escritores e
Já Ronald Dworkin,85 levando em consideração que os juristas e os juízes não
podem “evitar a política no sentido amplo da teoria política”, mas que, por outro lado, uma crítica ao direito que não considere que o direito também não é uma questão de política pessoal ou partidária propiciará uma compreensão e orientação extremamente pobres, propõe que “podemos melhorar nossa compreensão do Direito comparando a interpretação jurídica com a interpretação em outros campos do conhecimento, especialmente a literatura”.