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A palavra complexidade é utilizada de maneira recorrente nos trabalhos de Herbert

Simon, portanto, seu significado tem uma relação com essa concepção. A perspectiva

complexa é utilizada por Simon para justificar a racionalidade limitada84. Dessa forma, seu

primeiro significado se refere à dificuldade de articular as informações que caracterizam o

ambiente adaptativo.

Simon foi contemporâneo do surgimento da teoria geral dos sistemas, portanto,

convém analisar qual a influência deste novo paradigma na sua obra. Numa primeira

abordagem, há uma aproximação entre a concepção evolucionária deste autor com a

inexistência de um equilíbrio pontual previamente estabelecido.

Simon (1962) aprofunda o entendimento acerca da complexidade, no entanto, sem

oferecer uma definição especifica. Esse aprofundamento é realizado através da análise de

quais os métodos e ferramentas aplicados a sistemas cuja análise é complicada, ou seja,

sistemas complexos. Simon (1962:468) oferece uma definição para tais sistemas:

Aproximadamente, por sistema complexo eu designo uma construção com um grande número de componentes que interagem de uma maneira não trivial. Nestes sistemas, o todo é maior do que a soma das partes, não sendo uma máxima, no sentido metafísico, mas de importância no sentido pragmático, dado que as propriedades das partes e suas leis de interação não são uma matéria trivial para inferir as propriedades do todo.

Ou seja, o principio de sistema aqui exposto é similar à concepção da teoria geral dos

sistemas. Além disso, a opção de Simon é por analisar exclusivamente os sistemas auto-

84 De maneira conjunta e complementar as limitações cognitivas dos agentes. O satisficing expressa um processo

organizáveis. No entanto, cabe ressaltar uma distinção, pois os aspectos metafísicos desta

abordagem são desconsiderados, enquanto Boulding (1956) postula que o nível transcendental

ocupa um espaço de destaque nesta abordagem. Este ponto evidência a influência positivista

sobre Herbert Simon, pois essa perspectiva especificará a maneira como este pesquisador se

valerá da teoria sistêmica. Neste sentido, a lógica dos sistemas será utilizada para gerar

representações e operações significantes, isto é, sua utilização deverá resultar em

procedimentos bem definidos.

No entanto, há mais semelhanças do que diferenças entre Simon (1962) e Boulding

(1956). As evidências que corroboram tal afirmação estão nas análises propostas, pois Simon

(1962) estuda os sistemas complexos a partir de quatro pontos: da hierarquia da

complexidade, de sua estrutura e processo evolucionário, de suas propriedades dinâmicas, e

da descrição de sua complexidade. Dentre essas perspectivas, apenas a última não é aventada

por Boulding (1956).A partir destas considerações faz necessário observar quais as análises

produzidas por Simon (1962).

A concepção de hierarquia de sistemas, em especial, de suas complexidades, requer

uma análise criteriosa, pois a ordem hierárquica, neste caso, não expressa subordinação

(Simon, 1962:468). Essa perspectiva visa estabelecer uma ordenação no nível de

complexidade, pois esta escala permitiria trabalhar com sistemas e subsistemas. Tal

procedimento parece retomar a necessidade de delimitação, dessa forma, seria contrária à

proposta da teoria geral dos sistemas. No entanto, tal afirmação parece não se sustentar, pois a

conexão de sistemas pode caracterizar um novo sistema. Uma das vantagens de tal

consideração é permitir a solução de problemas que envolvem a lógica simbólica, em especial

daqueles que envolvam um extenso processamento de informações. No capítulo anterior o

no HPS a lógica simbólica foi uma das ferramentas utilizadas para tratar a solução de um

problema através da articulação de informações.

A estrutura de um sistema complexo envolve um grande número de componentes e,

nesse sentido, Simon (1962) argumenta que a relação entre estes componentes gera um

sistema não analítico, pois o tempo necessário para analisar essas variáveis pode tornar

inviável a ação, fato que impossibilita que uma análise estude todos os elementos individuais.

Portanto, esse tipo de situação demanda uma estrutura sistêmica, na qual a totalidade

configura um grande sistema, que é composto por um número de subsistemas. Esses

subsistemas são classificados de acordo com a complexidade que se manifesta no seu interior.

Portanto, esta análise atribui uma hierarquia para a complexidade destes subsistemas.

Simon (1962:471) argumenta que tal análise é compatível com o processo de

evolução, pois a emergência do estado estacionário é um processo cujo prazo de maturação é

longo. Dessa forma, o processo racional de adaptação torna-se incompatível com o

processamento de toda informação. Por isso, o agente pode utilizar os subsistemas como guia

para suas decisões85. Ademais, são atribuídas algumas características importantes ao processo

evolucionário. Refutando-se a possibilidade teleológica, considera-se que nem todo sistema

na natureza se enquadra na hierarquia da complexidade, pois há sistemas simples, mas há

também os sistemas abertos.

A partir destas características se estabelece um paralelo entre a resolução de problemas

e a seleção natural. Esta análise se dedica a estabelecer pontos consensuais entre o

comportamento adaptativo e o voltado para a resolução de problemas. O ponto de partida em

tal análise reside num processo de tentativa e erro, pois o mecanismo de seleção natural não é

conhecido. Entretanto, em ambos os casos a racionalidade implica a busca por diminuir a

aleatoriedade.

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Neste sentido, Simon (1962:473) afirma que o feedback pode contribuir para tornar os

resultado das ações menos aleatórios. Logo, as decisões racionais devem avaliar os resultados

gerados por ações anteriores. A retroalimentação também é compatível com a resolução de

novos problemas. Nestes casos, este processo deve ser conjugado com um procedimento de

tentativa e erro, a partir do qual o agente avalia os resultados gerados em cada ação. Ambos os

casos auxiliam na definição do subsistema mais compatível, ou seja, o feedback auxilia na

determinação da hierarquia da complexidade.

A análise da relação entre sistemas e subsistemas foi denominada por Simon

(1962:473) de near decomposability. Esse procedimento consiste da possibilidade de estudar

a configuração de um sistema complexo através da articulação de seus subsistemas. Para que

tal fato ocorra é necessário que as relações entre subsistemas sejam estáveis. Simon

argumenta que a vantagem desse procedimento é permitir uma descrição para os sistemas

complexos, além de explicar como surge sua configuração. No entanto, essa abordagem

implica a volta ao reducionismo, pois a hipótese de estabilidade na região de fronteira é um

pressuposto que não encontra respaldo analítico. Prigogine (1996) demonstra que a região de

fronteira entre dois sistemas é bastante instável, sendo, inclusive, uma das responsáveis por

trajetórias explosivas, podendo numa situação limite conduzir todo o sistema à instabilidade,

ou seja, ao caos.

As questões abordadas anteriormente ilustram a influência da teoria geral dos sistemas

sobre Herbert Simon. Dessa forma, a concepção de complexidade para este autor conjuga uma

perspectiva evolucionária do ambiente com a necessidade de abordá-lo de maneira sistêmica.

Neste sentido, a complexidade é uma característica decorrente do ambiente que engloba

inúmeros elementos que interagem e podem gerar resultados imprevisíveis. A partir desse

pois dada a impossibilidade de analisar todas as alternativas, o racional é analisar apenas

algumas, tendo como referência um nível de satisfação.

Um exame cronológico das obras de Simon sugere que a racionalidade limitada não é

uma decorrência de aspectos ligados à teoria geral dos sistemas. No entanto, a influência da

perspectiva sistêmica sobre a análise do comportamento guiado pelo satisficing parece ser

mais robusta, pois a investigação acerca desta expressão do comportamento racional se insere

no campo das pesquisas acerca da cognição e do processamento de informação. Segundo von

Bertalanffy ([1968]2006) este campo de pesquisa é um desdobramento da teoria geral dos

sistemas. Essa relação não possui um efeito deletério, pelo contrário, ela enriquece os

trabalhos de Simon, pois agregaram mais elementos para a descrição e explicação do

comportamento efetivo dos agentes. Neste sentido, um exemplo ilustrativo está em Newell e

Simon (1972), em que a formulação do comportamento racional incorpora o mecanismo de

feedback.

Quanto à análise do ambiente adaptativo, essa relação possui implicações dualistas,

pois a teoria geral dos sistemas reforça as concepções acerca de um ambiente tipicamente

evolucionário, isto é, um ambiente em que a adaptação está sujeita a um mecanismo de

seleção natural não conhecidos a priori. Entretanto, apesar de Simon considerar essas

características, sua atenção é destinada às possibilidades operacionais, por exemplo, ao

postular a near decomposability.

A hipótese de racionalidade limitada estabeleceu uma relação mais estreita com a

complexidade, pois algumas análises posteriores foram desenvolvidas considerando-a como

postulado para o comportamento dos agentes. Para aprofundar essa análise é necessário

considerar a penetração da complexidade na ciência econômica. Este assunto será abordado