TEORIA DA TRIBUTAÇÃO ÓTIMA E EVASÃO FISCAL: NOSSO SISTEMA TRIBUTÁRIO ESTÁ SE

No documento VISÕES INTERDISCIPLINARES SOBRE POLÍTICAS PÚBLICAS VOL. 1 (páginas 153-156)

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E O COMPLIANCE TRIBUTÁRIO

1. TEORIA DA TRIBUTAÇÃO ÓTIMA E EVASÃO FISCAL: NOSSO SISTEMA TRIBUTÁRIO ESTÁ SE

COMPORTANDO DE FORMA SAUDÁVEL?

Após a impactante crise da Bolsa de Nova York, no período pós--Primeira Guerra Mundial, os estudos teóricos acerca de políticas fiscais emergiram como resultado de iniciativas adotadas naquele momento (em âmbito social e político). Passando por uma mudança paradigmática onde a política tributária não era mais restrita as teorias econômicas, passando a ser uma questão social para influir em ações intervencionistas para re-distribuição de renda e geração de empregos para contenção dos impactos da depressão econômica. Pioneiro no debate sobre estudos econômicos

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relacionados à tributação eficiente, em 1927, Ramsey publicou a obra

“Uma contribuição para a teoria da tributação” (LAGEMAN, 2004, p.

409) direcionando seu foco à eficiência e à redução de distorções pela tributação sobre consumo, com base na elasticidade da oferta e demanda – basicamente, a regra reconhece que um sistema tributário é avaliado pela alteração das quantidades relativas pelo “efeito-substituição”.

Avançando no tempo, a partir de 1971, uma publicação de Diamond e Mirrles agregaram a teoria de Ramsey que os bens complementares ao lazer deveriam incidir maior carga tributária alterando o paradoxo tradi-cional da Teoria da Tributação Ótima, ao analisar o trade-off entre equi-dade e eficiência. Demonstraram que o sistema tributário é incerto e não se podem mensurar os efeitos da tributação sem a necessidade de conhe-cimentos interdisciplinares para enriquecimento da discussão (SILVEI-RA; PASSOS; GUEDES, 2018, p. 218). Com essa evolução sistemática, é possível perceber que o modelo ideal, portanto, é aquele onde todos contribuem financeiramente para que o ente estatal repasse esses valores à serviços públicos de qualidade, garantindo o mínimo essencial à parcela da população menos favorecida criando e “forçando” aquele com renda mais alta a contribuir em maior escala. Partindo dessa ideia, a noção de seletivi-dade fiscal, onde os bens mais básicos recebem incidência tributárias me-nos que aqueles bens mais supérfluos (especialmente aqueles consumidos pelos mais ricos) (VILLAS-BÔAS, 2015, p. 2).

Entre os conceitos para a busca de um sistema tributário equânime, vê-se a necessidade de fortalecê-lo sem desconsiderar questões inerentes aos contribuintes, aos instrumentos de gestão, dos impactos na perspec-tiva da distribuição de riqueza e das distorções possíveis entre setores da economia e os setores da sociedade. Direciona-se à aplicação de teorias de gestão que levem a uma visão sistêmica, a partir de dados e informações prévias de cenários e diferentes entendimentos, até finalmente uma análise estruturada das reais necessidades atuais e futuras. Isso porque, “os agentes tomam decisões econômicas diferentes das que escolheriam se não hou-vesse tributação, o que reduz o seu bem-estar” (PAES, 2018, p. 50).

No pensamento da tributação ideal, Adam Smith (1983, p. 74) con-sidera os princípios econômicos como essenciais ao desenvolvimento e evolução do marco teórico: (a) o postulado da capacidade contributiva, considerando as especificidades de cada contribuinte, é importante para

ROSÂNGELA TREMEL (ORGS.)

que o cidadão não se sinta imolado ao contribuir; (b) no postulado do princípio da certeza, é importante que fique claro a todos os critérios que balizam a definição do imposto a ser cobrado de cada cidadão, bem como questões como data, forma, cálculo, não pairando dúvidas ao contribuinte ou a quem quer que seja; (c) no postulado da comodidade na tributação, considera-se a conveniência do pagamento do tributo a partir da perspec-tiva daquele que contribui e (d) o postulado do princípio da economia no recolhimento está relacionado à eficiência e cuidado do ente público na cobrança dos impostos junto à população contribuinte.

Do ponto de vista econômico, os encargos fiscais funcionam como custos, que afetam diretamente as escolhas dos indivíduos (CÉSAR, 2014, p. 162). Justamente por isso, a forma com que o Estado obtém os recursos necessários para alcançar seus fins deve ser aquela que interfira, definiti-vamente em menor medida, na eficiência econômica. Contudo, o Estado Social também precisa assegurar a distribuição justa da riqueza e o bem--estar social de seus cidadãos (SILVEIRA, 2009, p. 17-18), embora as imposições da eficiência econômica determinem que a tributação produza efeitos mínimos no mercado. Desta forma, é preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre esses dois aspectos.

O Estado poderia optar por uma tributação não distorcida, chamada de lump-sum. Tal tributação tem por característica ser independente do comportamento do indivíduo, ou seja, a incidência ocorre em determi-nado montante fixo, sendo irrelevantes as escolhas tomadas pelo sujeito passivo. Todavia, o ponto crucial e problemático reside na determinação do referido montante fixo para cada agente econômico. Os tributos não distorcidos hipoteticamente factíveis precisariam tomar por base um va-lor per capita, ou certa característica imutável do indivíduo. Todavia, se assim instituídos, seriam regressivos, produzindo efeitos distributivos não almejados (SIQUEIRA, 2004, p. 173-174). Para uma tributação não dis-torcida equitativa, o Estado poderia considerar a dotação de recursos, as habilidades naturais e as preferências de cada agente econômico. Entre-tanto, tais informações permanecem em âmbito privado e são de difícil ou, até impossível aferição pelo poder público, o que torna esta tributação infactível. O Estado vê-se obrigado a considerar outras variáveis para ser-virem de bases imponíveis, tais como renda e circulação de riqueza, cuja visibilidade é facilitada. O dever de tributar de forma equitativa somada à

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impossibilidade de se aferir características como preferências e dotação de recursos de cada indivíduo faz com que a adoção de tributos distorcidos seja inevitável.

O trade-off entre eles não seria mandatório e poderia haver, inclusi-ve, uma relação positiva entre referidos preceitos, considerando certas estruturas de tributação (COUTINHO, 2005, p. 143). A partir de tais considerações, há um remodelamento do objeto de estudos da teoria da tributação ótima: deve-se buscar o sistema fiscal que melhor atenta a am-bos os valores, isto é, que seja capaz de suprir o governo com os recursos necessários, realizando fins distributivo e interferindo, na menor propor-ção possível, na eficiência econômica. O Direito tem papel essencial para modulação da eficiência e da equidade nas sociedades, haja vista ser por meio das leis e de sua aplicação que referidos valores são ponderados e concretizados (SILVEIRA, 2009, p. 77). É para uma estrutura de tributa-ção ótima que o Direito Tributário deve voltar sua atentributa-ção.

Mais recentemente, vários autores têm chamado atenção para a neces-sidade de concretizar a equidade de uma forma mais efetiva e de limitar a concentração de renda para se ter uma tributação ótima. No livro “O capital no século XXI”, Piketty relata e analisa a dinâmica do capital do precedente século e defende a possibilidade de utilização do imposto progressivo como forma maios ou menos liberal de se diminuir as discrepâncias econômicas, na medida em que preserva a livre concorrência e a propriedade privada: “o imposto progressivo exprime de certa forma um compromisso ideal entre justiça social e liberdade individual” (PIKETTY, 2014, n.p.). Outros au-tores enxergam a progressividade como um princípio da tributação ótima que não se refere apenas aos impostos sobre renda, herança e capital, mas ao sistema tributário como um todo. Para estes, seria necessário que a soma da totalidade de tributos incidentes sobre a população resultasse em uma estrutura progressiva (VILLAS-BÔAS, 2015).

2. COMPLIANCE TRIBUTÁRIO: ELEMENTAR PRIMÁRIA

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