3 PERCURSOS DE INVESTIGAÇÃO TEÓRICA SOBRE CONTEXTO SOCIAL, FAMÍLIA E DELITO JUVENIL
3.4 TEORIAS DA CRIMINALIDADE E ENFOQUES DO DELITO JUVENIL
Ainda segundo Terreros (2000), antes de essa visão crítica se formar, a criminologia positivista, ao adotar o pensamento do criador da Sociologia, Augusto Comte (1798-1857), postulou a aplicação da metodologia científica no estudo dos fenômenos sociais, visando a descobrir as leis que governam o mundo social, do mesmo modo como são descobertas as leis que regem os fenômenos do mundo natural. Contudo, a primeira noção da criminalidade de base positivista se associa ao enfoque explicativo organicista. Os autores mais reconhecidos em estudos de criminologia associados a este enfoque, foram Cesare Lombroso (1835-1909); Enrico Ferri (1856-1929) e Raffaelle Garófalo (1851-1929). Lombroso concebe a delinqüência como a expressão de um padrão inato específico na espécie humana, passível de ser identificado a partir de características corporais e anímicas. Embora a teoria lombrosiana advogue a preponderância da dimensão biológica na explicação da delinqüência, não foi possível afastar-se completamente do reconhecimento da influência das causas externas e sociais para o surgimento do ato delituoso, gerando, assim, a afirmação de que a natureza cria
o delinqüente, mas é a sociedade que favorece as manifestações dos comportamentos delituosos. Do ponto de vista político-criminal, a teoria lombrosiana não valoriza a pena para o delinqüente nato, mas postula sua segregação da sociedade como medida de controle social.
Enrico Ferri, em posição mais intermediária, considera que o delito deriva de anomalias de caráter biológico, físico e social e, ao contrário da teoria lombrosiana, prioriza os fatores sociais na etiologia da delinqüência. Garófalo também integra vários fatores na etiologia criminal e assinala a importância da definição do delito e não somente do delinqüente. Propõe uma tipologia criminal composta de quatro grupos de delinqüentes: assassinos, violentos, ladrões e lascivos.
As análises críticas da criminologia positivista de base organicista ressaltam que neste modelo de pensamento a criminalidade é encarada como uma realidade natural, anterior às definições legais de criminalidade, o que, além de configurar uma posição determinista, conseqüentemente isenta o aparato legal de questionamentos. A investigação é reduzida à identificação da parcela da população criminosa e à etiologia delimitada ao âmbito individual. Todavia, na medida em que os dados de pesquisa e estudos desconstruíram a explicação organicista, o enfoque positivista recompôs-se apoiado nos “fatos” sociais e em suas regularidades para explicar as determinações dos atos criminosos. No entanto, foram as teorias da criminalidade, embasadas na teoria funcionalista de sociedade, que ganharam terreno nas décadas de cinqüenta, nos Estados Unidos, período no qual, como afirma Terreros, (2000, p.31) “a criminologia positivista enfrenta um desconcerto, pois o delito que era explicado com base nas causas biológicas passou a ser analisado em função das causas psicológicas e sociais”. O ponto de vista funcionalista está embasado nas análises das funções e disfunções que tanto o delito quanto o sistema penal cumprem na sociedade. As teorias da anomia e das subculturas criminais, que compartilham desta perspectiva, se tornaram fortemente influentes sobre inúmeros estudos que buscaram explicar a etiologia do crime.
O conceito de anomia, oriundo da teoria de sociedade de Durkheim (1858-1917), assume o sentido de ausência de normas em um determinado estágio de crise social que gera inúmeras disfunções, incluindo o delito. Na concepção funcionalista, o desvio não resulta nem de fatores biológicos e naturais nem de patologias na estrutura social. Ao contrário, o desvio faz parte de toda estrutura social e, dentro de limites, o desvio é um fator de equilíbrio social, pois indica ausência de controle excessivo prejudicial à dinâmica da sociedade. Só quando o desvio caracteriza-se como um processo de desorganização social elevado, é que se torna um fenômeno negativo.
O sociólogo funcionalista Robert Merton, em 1938, desenvolveu o conceito de anomia em um estudo sobre os processos que produzem as condições de desvio e conformidade às normas. Elabora a hipótese de que a conduta desviante, do ponto de vista sociológico, representa um sintoma de dissociação de expectativas sociais e efetivas possibilidades de êxito para sua realização. Esta tendência à descontinuidade, porém, não perpassa igualmente toda a sociedade, visto que alguns estratos estão mais vulneráveis a esta disfunção e isto atua como pressão para a produção da conduta divergente. Segundo Pavarini (1983, p.114):
[...] esta teoria trata as variáveis de estrutura social e cultural como se fossem entidades autônomas quando, na realidade, são interdependentes, porque a cultura é a expressão das necessidades dos homens que vivem em uma determinada estrutura social.
Apesar destas limitações, alguns autores valorizam o legado da teoria da anomia para a constituição das teorias das subculturas. Estas abordagens têm como objetivo explicar a conduta de desvio por parte de uma minoria como jovens e adolescentes de classe social desfavorecida, organizados em bandos. O pressuposto básico é que a delinqüência consiste em uma resposta socialmente compartilhada aos problemas gerados pela estrutura social.
Todavia, a contribuição de Sutherland à teoria das subculturas, que destaca as formas de aprendizagem do comportamento criminal como advindas de diferentes contatos de grupos na sociedade, desfaz radicalmente a associação entre criminalidade e pobreza. Para Sutherland, estas teorias são equivocadas por três razões: a) baseiam-se em um falso padrão criminal, a criminalidade oficial e tradicional que descuida do registro do crime do colarinho branco; b) não explica o crime do colarinho branco que, salvo raras exceções, não resulta da pobreza; e c) não explica a criminalidade dos estratos sociais inferiores (TERREROS, 2000).
Enquanto a criminologia positivista parte da noção de ordem social baseada em um consenso, atribuindo assim à criminalidade um caráter patológico e disfuncional, as teorias do conflito associam conflito social ao surgimento dos delitos na sociedade. O modelo teórico de conflito concebe a sociedade como coercitiva, isto é, o sistema legal não é visto como instituído com base em neutralidade, mas como um recurso de controle social a serviço das classes dominantes.
A teoria marxista, uma referência básica para as teorias do conflito, concebe o fenômeno da criminalidade na sociedade industrializada como decorrente do modo de produção capitalista, ou seja, o processo produtivo comprime o mercado, fomenta a pobreza e a desigualdade social e, conseqüentemente, a marginalidade social. Assim, o delito se
constitui como ameaça a uma ordem sócio-econômica, fato que leva a burguesia a armar-se contra esta investida com os instrumentos do direito penal.
Este panorama de percursos das teorias da criminalidade passa por considerações críticas derivadas de transições na modernidade que, então, estabelecem novas leituras do pensamento da criminalidade. Neste sentido, ampliaram-se as possibilidades de análise por meio de novas interpretações das teorias modernas e recursos de pesquisa de variadas metodologias quantitativas e qualitativas, que permitem instituir a discussão acerca do papel que a família desempenha nas expressões de criminalidade juvenil.