CAPÍTULO 1 – GESTÃO INTEGRADA E PARTICIPATI VA DOS RECURSOS NATURAIS DE USO COMUM
1.2 OS IMPASSES DA TEORIA E DAS PRÁTICAS DE DESENVOLVIMENTO ATÉ A DÉCADA DE
1.2.3 Teorias do desenvolvimento e do subdesen volvimento
27 Também conhecida por lei das proporções variáveis ou lei da produtividade marginal
decrescente, a lei dos rendimentos decrescentes pode ser entendida da seguinte maneira: à medida que se aumenta o emprego de um insumo, como o trabalho, deixando os demais fixos (capital, terra e capacidade empresarial), o produto suplementar expande-se sucessivamente em quantidades cada vez menores. O produto total atinge um máximo e depois declina, tornando antieconômico o emprego de trabalho adicional, com os demais fatores fixos. Um exemplo é o aumento do número de trabalhadores em uma certa extensão de terra. Numa primeira fase a produção aumenta, mas logo se chega a um estado de nenhum aumento na produção, devido ao excesso de trabalhadores em relação à extensão de terra que não aumentou.
Após a Segunda Guerra Mundial, surgem três principais correntes interpretativas utilizadas até a década de 1970 para explicar o fenômeno do desenvolvimento nos países do Sul: a teoria da modernização, o pen- samento da CEPAL e o estruturalismo de corte marxista. Na essência, estas teorias não rompem totalmente com os fundamentos dos econo- mistas clássicos, mas contribuem para avançar as reflexões, além de permitirem a legitimação de um campo autônomo de estudos sobre o desenvolvimento. “Mas a preocupação central dessas orientações con- centrou-se ainda na esfera econômica do desenvolvimento, sendo tradu- zida por abordagens macro que visavam diminuir as desigualdades entre países ‘ricos’ e ‘pobres’” (ANDION, 2007, p. 42).
Teorias da modernização
As teorias da modernização estão fortemente vinculadas às con- tribuições de E. Hagen, Talcott Parsons, Neil Smelser, S. Hutington e W. W. Rostow. Ainda na década de 1970 e no início dos anos 1980 sofreu pesadas críticas, até seu declínio e conseqüente abandono.
De acordo com esta vertente, o subdesenvolvimento é visto como um fenômeno que resulta do atraso dos países do Sul em adotar o mode- lo de desenvolvimento prevalecente no Norte. Segundo Rostow (1974), os processos de desenvolvimento obedecem necessariamente a cinco etapas, desencadeadas pela industrialização: a sociedade tradicional; as precondições para a arrancada; a arrancada; a marcha para a maturidade; e a era do consumo de massa28.
28 Na sociedade tradicional, de acordo com Rostow, grande parte da população trabalhava na
agricultura, com baixos níveis de produtividade. A estrutura social era rígida, com limitada mobilidade social. Nas precondições para o arranco, dissemina-se a idéia de que o progresso econômico é possível e é condição indispensável para outras finalidades, como lucro privado e o bem-estar geral, por exemplo. Na terceira etapa, ou arranco, ocorreram modificações qualita- tivas, tanto nas estruturas econômicas como nas formas de comportamento. Promoveu-se a acumulação de capital social fixo e a evolução tecnológica dos setores primários e secundários. Desse modo, “as mudanças revolucionárias na produtividade agrícola são condições indispen- sáveis ao êxito do arranco, pois a modernização da sociedade aumenta radicalmente seus gastos com produtos na agricultura” (ROSTOW, 1974, p. 21). Após o arranco, surge a marcha para a maturidade, ou seja, a economia demonstra que pode produzir o que quiser, mesmo que de- penda de matérias-primas. A renda real, a estrutura, as ambições e as visões de mundo são transformadas. Por sua vez, a era do consumo em massa corresponde à “busca nacional de poderio e influência exterior, isto é, a atribuição de recursos cada vez maiores à política militar
Por sua vez, para Smelser (1968, p. 181) a compreensão do fe- nômeno do desenvolvimento pressupõe a mobilização de variáveis eco- nômicas e também determinantes culturais, sociais e psicológicas, pos- sibilitando os avanços tecnológicos necessários à transição para a indus- trialização. Estes diferentes processos ocorrem simultaneamente e influ- enciam a estruturação social, por meio da diferenciação estrutural (ou do estabelecimento de unidades estruturais mais especializadas e mais autônomas), da integração (ou do estabelecimento de novas estruturas coordenadoras), e de perturbações sociais que refletem as tensões soci- ais geradas pelos processos de diferenciação e integração.
Contudo, o processo de desenvolvimento pode variar, dependen- do: i) das condições pré-industriais do país; ii) do impulso para o desen- volvimento (pressões econômicas, políticas, sociais); iii) do caminho iniciado ou adotado para a modernização; iv) das últimas fases da mo- dernização; e v) do conteúdo e ritmo de acontecimentos dramáticos durante o desenvolvimento. Assim, para Smelser (1968), não são possí- veis generalizações referentes ao processo de desenvolvimento; pode- mos no máximo identificar transformações estruturais, como a diferen- ciação estrutural, a integração e as perturbações sociais.
Em síntese, as duas visões acima representam as visões de dois grandes expoentes da teoria da modernização. Mas, em linhas gerais, esta teoria assevera: i) que o desenvolvimento deve ser visto como sinô- nimo de crescimento econômico e de industrialização – com o declínio dos setores tradicionais da economia, especialmente a agricultura, cuja mão-de-obra excedente passa a ser absolvida pela dinâmica de moderni- zação; ii) que o desenvolvimento pressupõe a transição das sociedades tradicionais, caracterizadas pela lógica da subsistência, para uma eco- nomia capitalista típica dos países do Norte; e iii) que o papel do Estado é essencial, ocorrendo sua intervenção por meio do planejamento, visto como “instrumento” indispensável ao desenvolvimento (ANDION, 2007). Além do mais, como todas as teorias vistas até agora, adota-se uma visão macro, em detrimento da consideração das especificidades de cada país.
e externa” (ROSTOW, 1974, p. 96). Trata-se da construção do Welfare State, no qual os recur- sos passam a ser dirigidos para a produção de artigos de consumo durável e à difusão dos serviços em massa, ou como base para uma política de poder e influência externa.
A contribuição da CEPAL
O pensamento da CEPAL constitui um marco teórico que favore- ceu a gestação das principais teses sobre o subdesenvolvimento periféri- co desde o período do pós-guerra. O documento chave foi concebido por Raul Prebisch, “El desarrollo económico de América Latina e algunos
de sus principales problemas”, publicado em 1950, e “Estudio econó-
mico de America Latina”, de 1951. Os principais expoentes deste pen- samento no Brasil são Celso Furtado, Maria da Conceição Tavares e Carlos Lessa, entre outros. A preocupação básica da CEPAL, de acordo com Mantega (1995) era de explicar o atraso da América Latina com relação aos centros desenvolvidos e encontrar as formas de superá-lo. A análise focava as peculiaridades da estrutura socioeconômica dos países ditos “periféricos”. Foram enfatizados os entraves ao desenvolvimento econômico em contraste com o dinamismo das estruturas criadas nos centros avançados, além das transações comerciais desiguais. Neste sentido, a idéia dominante deste pensamento, encontrada em Prebisch (1968), era a de que a América Latina deveria acelerar seu ritmo de desenvolvimento econômico e redistribuir a renda em favor de massas populares. Assim, ao mesmo tempo se promoveria o desenvolvimento econômico e social, não sendo este o resultado do jogo espontâneo das forças do desenvolvimento, como aconteceu na evolução capitalista dos países afluentes.
Um dos mais ilustres expoentes desta teoria foi Celso Furtado. Em sua opinião, o desenvolvimento consistiria em um processo de mu- dança social por meio do qual as necessidades humanas são satisfeitas por uma diferenciação do sistema produtivo alimentadas pelas inovações tecnológicas (RAMBO; FILIPPI, 2009). No caso da América Latina, a industrialização, segundo Furtado (1991), não surgiu de uma delibera- ção política, e sim como conseqüência indireta da crise do mercado internacional que eclodiu em 1929. Assim, em sua primeira fase, assu- miu a forma de substituição dinâmica das importações – esta era fruto da capacidade do sistema produtivo de reagir às contrações da demanda externa, era comandada pela dinâmica do setor externo, “e não pela diversificação autônoma da oferta interna” (FURTADO, 1991, p. 152).
Referindo-se à questão agrícola, Furtado (1979, p. 224) acredita que a agricultura “pode preservar suas estruturas tradicionais e manter- 80
se impermeável à penetração de novas técnicas mesmo em face de um processo de industrialização e urbanização relativamente rápido”.
Por sua vez, o fenômeno do subdesenvolvimento, como manifes- tação de complexas relações de dominação-dependência entre os povos, de acordo com Furtado (1991, p. 153), pode ser entendido como
uma deformação estrutural, e dele não se sai ao impulso das simples forças de mercado. Impõe-se realizar um esforço deliberado, visando a alterar o efeito de demonstração (corrigir o perfil da de- manda moderando certas formas de consumo) e a elevar a taxa de poupança. Para chegar a esses dois objetivos é mister seguir uma política fiscal rigorosa e conduzir uma ação de conjunto sobre a economia, via adequado planejamento. Tudo isso requer um amplo consenso social.
Ao invés de uma fase a ser superada, trata-se antes de uma de- formação estrutural que deve ser corrigida por meio de um processo que exige inelutavelmente a ação do Estado, arbitrando entre acumulação e distribuição (FURTADO, 1979; 1991). Além do Estado, para sair dessa situação de subdesenvolvimento, para Furtado seria de extrema impor- tância uma educação política, esta somente sendo possível em uma sociedade aberta e com maior participação social no processo político. Portanto,
não se trata de transplantar para os países subde- senvolvidos instituições políticas que comprova- ram sua eficácia nos países pioneiros da industria- lização. A prática política terá que indicar os ca- minhos a seguir na construção do quadro institu- cional que dê efetividade aos ideais de liberdade, bem-estar e tolerância, que são a essência da civi- lização moderna (FURTADO, 1991, p. 130). Portanto, de maneira sucinta, podemos afirmar que, na perspecti- va cepalina, o desenvolvimento não é considerado um processo linear e mecânico. Para alcançá-lo devemos colocar em marcha mudanças soci- ais e políticas de corte estrutural. De acordo com o modelo de análise
centro-periferia adotado, “o desenvolvimento e o subdesenvolvimento são faces da mesma moeda, e criados pelos mesmos processos que au- mentam os níveis de produção e qualidade de vida nos países centrais e mantêm os demais atrasados” (DIEGUES, 1992, p. 23).
Entretanto, no rol das críticas que esta concepção tem sofrido ao longo do tempo, destacamos a linha de argumentação que assevera que a doutrina cepalina tem um caráter nacionalista, hostil em relação ao im- perialismo comercial e financeiro, baseado na exploração agroexporta- dora, mas favorável à acumulação capitalista em bases locais. Essa visão não deixa de ser controvertida, pois seus adeptos assumem um projeto de desenvolvimento nacional centrado na industrialização e na valoriza- ção das atividades voltadas para o suprimento do mercado interno, mas admitem também que o capital estrangeiro deve participar desse proces- so, modificando a estrutura econômica da periferia, propiciando a eleva- ção e a retenção da produtividade, e resultando em alterações na estrutu- ra social e política a partir da extensão de benefícios do desenvolvimen- to para a maioria dos grupos sociais (MANTEGA, 1995). O que os teó- ricos da CEPAL não esperavam era o aumento da concentração de renda e as desigualdades sociais das populações latino-americanas na década de 1950, apesar da industrialização já estar em curso. A CEPAL deixou de analisar com maior profundidade a natureza das relações de classe do modo de produção capitalista, preocupando-se quase que exclusivamen- te com os aspectos econômicos, e deixando de lado os aspectos sociais e políticos das transformações. Também não há uma explicação clara, para Mantega (1995), de como se difundiria a riqueza e o bem-estar para toda a população. Falta também uma análise referente às relações sociais que estão na base do processo de industrialização e das mudanças de estrutura que ele traz consigo (RODRIGUEZ, 1981).
Teoria estruturalista-marxista
O estruturalismo-marxista aparece na seqüência da abordagem cepalina, mas se diferencia desta pelo seu radicalismo (teórico e políti- co) e por se abrir à contribuição de outras ciências sociais, como a So- ciologia, a Antropologia e a História (RAUD, 2007). Esta posição está associada aos trabalhos de Charles Bettelheim (1976), Andrew Gunder- Frank (1976) e Samir Amin (1987). Em contraposição às idéias anterio- 82
res, o subdesenvolvimento não é visto como sinônimo de atraso, e sim como um produto histórico, condicionado pelas relações de dominação constitutivas do sistema capitalista. Desse modo, para os estruturalistas- marxistas, uma maior integração ao mercado mundial (com ampliação das trocas comerciais entre os países) não favorece necessariamente o desenvolvimento e, inclusive, pode ampliar as assimetrias entre o Norte e o Sul (ANDION, 2007). Os países pobres, assim, não são apenas ex- plorados, mas sufocados pelo imperialismo. Para Bettelheim (1976), seria necessária uma revolução, a fim de pôr em marcha as forças produ- tivas dos países dominados, liberando-as das mãos do capital estrangeiro e colocando-as a serviço do desenvolvimento endógeno.
Andrew Gunder-Frank é outro expoente da teoria estruturalista- marxista que merece ser mencionado numa reflexão sobre estratégias alternativas de desenvolvimento. Para ele, a ignorância em não se co- nhecer a história dos países subdesenvolvidos leva a crer que estes estão apenas repetindo as fases anteriores da trajetória de evolução dos países afluentes. “Os países atualmente desenvolvidos nunca foram subdesen-
volvidos, embora possam ter sido não-desenvolvidos” (GUNDER- FRANK, 1976, p. 26). Trata-se de desgastar a premissa segundo a qual estaríamos diante de um processo histórico único, ou seja, do processo de desenvolvimento do capitalismo.
Quanto a Samir Amin, em seu livro “Imperialismo e Desenvolvi-
mento Desigual”, de 1987, ele defende a hipótese segundo a qual o nosso mundo contemporâneo constitui um sistema único de formações capitalistas, definido i) pelo caráter mundial da circulação de mercadori- as e de capital; e ao contrário ii) pelo caráter nacional persistente dos mercados de trabalho, ou seja, pela restrita mobilidade internacional da força de trabalho (AMIN, 1987). Estas formações capitalistas se divi- dem em formações centrais, completas, dominantes, e em formações periféricas, incompletas, dependentes.
Para elucidar a gênese dessas formações, Amin (1987) distingue três etapas: 1ª) a etapa do mercantilismo, do século XV ao século XIX; 2ª) a do século XIX; e 3ª) a do século XX. Estas etapas correspondem:
as relações de produção capitalista surgem no iní- cio da vida rural, mas de maneira limitada devido à resistência do modo de produção feudal; a se- guir, essas relações se transferem para as ativida- des novas (a indústria urbana), onde elas tomam a
sua forma completa, deixando de lado a agricultu- ra; tomam conta, enfim, de toda a vida social e in- tegram a agricultura de uma maneira muito mais profunda. Este movimento de balancim caracteri- za a história das relações do capitalismo com a a- gricultura nas formações capitalistas centrais (A- MIN, 1987, p. 53).
Nesta terceira etapa, a agricultura fica submissa ao capital, o que significa a liquidação da renda fundiária. A primeira condição para essa submissão é a intervenção do capital dominante nas práticas agrícolas, ou seja, por meio da padronização dos produtos, da extensão da trans- formação industrial, da concentração de redes de coletas e de comercia- lização, o capital impõe ao produtor agrícola um programa de trabalho preciso, ele não pode mais produzir o que quiser como quiser (AMIN, 1987). A segunda condição é de natureza política: “o capital não pode renunciar à sua aliança de classes com a propriedade fundiária senão quando consegue substituí-la seja pela integração social-democrata da classe operária, seja por outras alianças de classe” (AMIN, 1987, p. 65). E essas duas condições processam-se em escala mundial. Assim, seria um erro analisar um fenômeno do Terceiro Mundo, por exemplo, bus- cando sua causa no próprio Terceiro Mundo, em vez de situá-la na dialé- tica do sistema mundial.
Além da agricultura, Amin analisa também os problemas do “meio ambiente” gerados pelos mecanismos essenciais do funcionamen- to do capitalismo. Tais problemas, em sua opinião, não se restringem às sociedades industriais desenvolvidas – pois nosso mundo é um só, são as mesmas leis que operam no centro e na periferia. Desenvolvimento e subdesenvolvimento são duas faces da mesma moeda (AMIN, 1976). Desse modo, aos problemas ligados ao desperdício de recursos naturais e humanos e dos custos sociais e econômicos do crescimento no longo prazo, que o cálculo econômico não toma em consideração, somam-se os custos sociais e ecológicos das indústrias poluentes. Como saída para estes impasses, a fim de impedir uma divisão desigual do trabalho e como solução para o Terceiro Mundo, Amin (1976, p. 139) sugere ne- cessário reconsiderar “todas as políticas de formação, as estratégias de educação, e atribuir à autonomia da pesquisa científica e tecnológica uma importância que até o momento não lhe foi dada”.
É inegável que o estruturalismo-marxista representou um avanço no processo de maturação das ciências sociais do desenvolvimento, na medida em que as análises feitas até aquele período tendiam a negligen- ciar o estudo das contradições estruturais do sistema global. Mesmo assim, podemos perceber que ele não rompe totalmente ainda com as visões clássicas do desenvolvimento. No estruturalismo-marxista, de acordo com Andion (2007, p. 47), o desenvolvimento continua a ter como seu principal indicador o crescimento econômico, apesar de outros fatores (desigualdade social, instituições e a mudança cultural) serem levados em conta. “A dinâmica principal deste crescimento ainda se encontra na esfera produtiva, que tem sua dicotomia central na relação capital-trabalho e é complementada pela ação do Estado”.
Os anos seguintes iriam demonstrar a insuficiência dessas leituras reducionistas. Segundo Raud (2007), esta teoria foi abandonada devido sobretudo à fragilidade das proposições apresentadas pelos autores em defesa de alternativas concretas ao capitalismo periférico. Dos debates travados sobre a temática da transição fizeram aparecer profundas di- vergências ideológicas. O último encontro intercontinental dos estrutu- ralistas marxistas em Santiago do Chile em 1972 marcou o fim desse debate. Predominaram as críticas marxistas ao estruturalismo, acentuan- do uma construção abstrata e rígida, que não deixa espaço para as inicia- tivas dos atores e dos movimentos sociais. Mas emergiram também críticas da validade empírica da teoria. De acordo com Raud (2007), certos países do Sul nunca conheceram uma dinâmica de colonização direta e nunca estiveram integrados à economia mundial. Além disso, as maiores potências coloniais experimentaram um desenvolvimento tardio (a exemplo de Espanha e de Portugal); ex-colônias tornaram-se países ricos (como os Estados Unidos, o Canadá e a Austrália); e certos países ricos nunca tiveram colônias importantes (como os países escandinavos e a Suíça).
Com base nestas considerações sumárias sobre os principais en- foques analíticos do fenômeno do desenvolvimento colocados em dis- cussão até a década de 1970, as principais limitações no que diz respeito à temática dessa dissertação são as seguintes: por um lado, a ausência de um tratamento adequado da problemática socioambiental. A natureza era considerada como fonte praticamente inesgotável de matérias- primas. Por outro lado, predominava a representação mimético-
dependente, ou seja, a idéia de que o Sul deve imitar o modelo de de- senvolvimento do Norte numa perspectiva de curto prazo. As maiores preocupações giram em torno do crescimento econômico, relegando-se a segundo plano o desenvolvimento social, político e cultural. O que im- pulsiona decisivamente o crescimento econômico é a “industrialização”. Portanto, o processo de desenvolvimento teria que colocar o setor pri- mário no mesmo patamar do secundário, exigindo a legitimação de um conjunto de valores compatíveis com o objetivo de acumulação indefi- nida de capital (DIEGUES, 1992).
Todavia, no que diz respeito às políticas, as teorias elencadas a- cima passaram a valorizar o potencial dos países do Sul, na linha de um estilo de desenvolvimento endógeno (self reliance), capaz em princípio de impulsionar a autonomia local29. No entanto, estas teorias
não [favoreceram] uma internalização coerente e efetiva da problemática socioambiental nas práti- cas de planejamento e gestão. Estaria sendo des- considerada a especificidade do ambiente visto enquanto fornecedor de recursos naturais e recep- to de dejetos oriundos das atividades humanas; territórios, onde se dão as interações entre proces- sos naturais e socioculturais; e habitat em sentido amplo, correspondendo à qualidade da infra- estrutura física e institucional que influencia as condições gerais de vida das populações (habita- ção, trabalho, recreação, auto-realização existen- cial) e a própria resiliência dos sistemas socioam- bientais no longo prazo (VIEIRA; CAZELLA, 2006, p. 2).
Desse modo, apesar do ritmo acelerado de crescimento que ocor- reu nas últimas décadas nos países industrializados, constata-se, ao mesmo tempo, um aumento sem precedentes das desigualdades sociais (internas e no contexto internacional), além da degradação ecossistêmica em escala planetária. Os pressupostos do desenvolvimento entendido como um processo linear de crescimento material ilimitado, que funda-
29 Esta se refere, segundo Vieira (2006, p. 287), “a um tecido cultural gerador de estratégias