CAPÍTULO I – DISLEXIA ENQUANTO DIFICULDADE DE APRENDIZAGEM
1.4. Teorias explicativas das causas da dislexia
Se, à semelhança do que verificámos no ponto anterior, muitas têm sido as designações atribuídas à dislexia, mais teorias ainda encontramos para a justificação da problemática, desde anomalias na mobilidade dos olhos até aos fatores hereditários, passando pelas mutações genéticas. Não obstante, atualmente, a grande maioria dos estudos converge para a atribuição de causas genéticas e neurobiológicas para a dislexia.
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1.4.1.Teoria magnocelular
Pernet (2011) defende que a dislexia tem como origem desordens visuais de baixo nível relacionadas com anomalias nas células magnocelulares do tálamo, células estas que estão diretamente implicadas com o processamento de informação e de estímulos de movimentos rápidos que poderiam ser relevantes para a atividade leitora. Acrescenta que, de acordo com esta teoria, os défices fonológicos são secundários.
Também Teles (2004) aborda esta teoria, afirmando que esta “atribui a dislexia a um défice específico na transferência das informações sensoriais dos olhos para as áreas primárias do córtex” (p.7). Acrescenta que, de acordo com a teoria magnocelular, as pessoas com dislexia apresentam pouca sensibilidade relativamente a estímulos com pouco contraste, baixas frequências espaciais ou altas frequências temporais. Como tal, a descodificação poderia ser facilitada através do contraste entre as letras e a folha. A autora conclui que, uma vez que os resultados não são passíveis de reprodução, a teoria tem sido bastante contestada.
1.4.2. Teoria do défice de automatização
De acordo com Teles (2004), a teoria do défice de automatização relaciona-se com o facto de “os disléxicos manifesta[rem] evidentes dificuldades em automatizar a descodificação das palavras, em realizar uma leitura fluente, correta e compreensiva” (p. 6). Defende, ainda, que há uma série de tarefas que permitem automatizar a descodificação das palavras, nomeadamente “treino da correspondência grafo-fonémica, da fusão fonémica, da fusão silábica, leitura repetida de colunas de palavras, de frases, de textos, exercícios de leitura de palavras apresentadas durante breves instantes” (op. cit.).
Pernet (2011) acrescenta que a dislexia é um transtorno geral da aprendizagem que incluiu dificuldades em automatizar as habilidades de leitura e escrita, havendo a possibilidade de esta falha refletir um funcionamento anormal no cérebro lateral.
Consideramos que, efetivamente, os indivíduos disléxicos evidenciam dificuldades na automatização da descodificação das palavras. Contudo, esta teoria, de uma certa forma, explica uma característica e não a origem da problemática.
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1.4.3. Teoria do défice fonológico
Matute e Guajardo (2012) defendem que “ (…) la dislexia se caracteriza como un deficit en la automatización, sinó también como un déficit fonológico”3 (p.42). Esta ideia vai ao encontro de Teles (2004) ao afirmar que a justificação para as causas das dificuldades leitoras aceite pela maior parte dos investigadores é a hipótese do défice fonológico. Acrescenta que “de acordo com esta hipótese, a dislexia é causada por um défice no sistema de processamento fonológico motivado por uma «disrupção» no sistema neurológico cerebral, ao nível do processamento fonológico” (p. 4).
Assim, compreendemos que este défice fonológico causa transtornos aos indivíduos disléxicos, que sentem grandes dificuldades em compreender e discriminar a forma como se processam os sons da língua. Efetivamente, Shaywitz et al. (1998) defendem que a capacidade de os disléxicos estabelecerem analogias entre as letras e respetivas unidades fonológicas se encontra gravemente comprometida, o que leva, nomeadamente, à incapacidade de ler pseudopalavras. Este será o suporte para a teoria de que a capacidade de discriminação fonológica é o alicerce para a aquisição da linguagem.
De facto, notamos que os alunos disléxicos, mesmo os que já se encontram num nível de ensino avançado, demonstram grandes dificuldades em interrelacionar palavras, em lê-las de forma automática, uma vez que têm de descodificá-las sílaba a sílaba e, muitas vezes, letra a letra, som a som. Perante tamanha tarefa, a compreensão do enunciado no seu todo fica, visivelmente, comprometida. Isto porque, de acordo com a mesma autora “a leitura integra dois processos cognitivos distintos e indissociáveis: a descodificação (a correspondência grafofonémica) e a compreensão da mensagem escrita. Para que um texto escrito seja compreendido, tem que ser lido primeiro, isto é, descodificado” (Teles, 2004, p. 5). Assim, compreendemos que o défice fonológico apenas põe em causa a descodificação. Todas as restantes competências associadas à descodificação, tais como o conhecimento de vocabulário, a sintaxe, entre outras, não estão comprometidas.
Desta forma, como referem Capovilla e Capovilla (2004), os indivíduos disléxicos indiciam maiores dificuldades na memória verbal, na repetição de
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pseudopalavras e na consciência fonémica, nomeadamente na segmentação da fala em fonemas.
É certo que há, ainda, autores, como Blasi (2006), que discordam desta teoria, pois, apesar de reconhecerem a interligação entre dislexia e consciência fonológica, defendem que esta dificuldade se deve ao facto de os indivíduos não dominarem o sistema alfabético, algo essencial para o domínio e manipulação dos fonemas. Contudo, parece-nos ser esta a teoria explicativa mais coerente, mesmo porque verificam-se nos alunos disléxicos grandes dificuldades em descodificar palavras isoladas, em detrimento de textos que, por serem constituídos por palavras interligadas por um sentido, permitem uma compreensão mais eficiente, devido a fatores tão relevantes como a automatização da leitura. O mesmo pensa Lopez-Escribano (2007) pois afirma que os estudos de neuroimagem mostram ativação cerebral atípica em disléxicos durante tarefas que requerem processamentos fonológicos.
1.4.4. Outas causas
Como foi possível verificar, várias são as explicações para a origem da dislexia: neurológicas, genéticas, metabólicas, fonológicas, oftalmológicas, entre outras. Uma vez que, no século XIX, procurou-se uma origem genética para explicar esta dificuldade da leitura e da escrita, é natural que se procure na medicina, mais concretamente na neurologia, uma causa concreta para esta problemática. Com a neuropsicologia, a questão ganhou novas dimensões, tendo surgido diversos estudos nos finais do século XX apontando para o défice de processamento fonológico da linguagem.
De acordo com Pernet (2011), atualmente, aponta-se para uma visão multifatorial e poligenética da dislexia. Refere, também, que não há dúvidas quanto à existência de anomalias genéticas nos indivíduos disléxicos. Uma vez que são vários os genes implicados, há grande variabilidade de comportamentos e características da dislexia.
Em contrapartida, Massi (2011) defende que o diagnóstico de dislexia elaborado por profissionais de saúde desvaloriza questões sociais, acrescentando que a “atipia cerebral” (p. 409) pode explicar-se devido à falta de práticas sociais de alfabetização.
Consideramos que a dislexia continua a ser um tema complexo e com informações que ainda carecem de esclarecimentos adicionais. É de salientar que a existência de estudos que originam diversas teorias explicativas das causas da dislexia
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propiciam um debate de grande relevo em torno da problemática, na medida em que permitem a criação de diretivas específicas sobre a inserção dos alunos nas medidas educativas especiais adequadas à sua condição e especificidades.